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Aveiro: Élio Maia também quis Metro, mas desistiu por “reduzido número de potenciais utilizadores”

Luís Souto Miranda, presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA), anunciou na passada semana um “esboço” de um metrobus para ligar Aveiro e Ílhavo, o que colocou a cidade a discutir uma mudança na mobilidade. À boleia, a Ria foi investigar o histórico de um projeto de Metropolitano de Superfície para Aveiro - a ideia nasceu nos anos 90, para dar novo uso à Linha do Vouga, e, até 1997, foi feito um estudo de viabilidade do empreendimento. Depois de anos sem grande evolução, Élio Maia tentou ressuscitar o projeto – no entanto, o estudo realizado na altura denunciava poucos potenciais utilizadores e um custo demasiado elevado.

Aveiro: Élio Maia também quis Metro, mas desistiu por “reduzido número de potenciais utilizadores”
Gonçalo Pina

Gonçalo Pina

24 set 2026, 09:27
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A propósito da Semana Europeia da Mobilidade, Luís Souto Miranda, presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA), revelou que a autarquia, em conjunto com a Câmara de Ílhavo e com a Universidade de Aveiro (UA), está a estudar uma solução de metrobus entre os dois municípios envolvidos. Antes deste anúncio, já o primeiro-ministro Luís Montenegro tinha mencionado a intenção de replicar em Aveiro o modelo que atualmente existe em Coimbra e no Porto – e que, em breve, também deve chegar a Braga.

Mas a discussão de um metro em Aveiro – antes pensado como metro de superfície – não é nova e data dos anos 90, acabando por morrer em 2009. Depois de um primeiro fôlego impulsionado pela governação de Celso Santos, eleito pelo CDS, o projeto ganhou nova vida a partir de 2006, com Élio Maia, eleito pela coligação PSD/CDS, depois de não ter visto avanços substanciais ao longo dos oito anos de presidência de Alberto Souto, eleito pelo PS.

É importante fazer a ressalva de que o Metro de Superfície anteriormente equacionado é muito diferente do projeto de metrobus que Luís Souto quer agora implementar – a principal diferença é que o primeiro é um meio de transporte ferroviário e o segundo é um meio de transporte rodoviário.

Voltando atrás no tempo até 2006, a pensar no TGV, de acordo com notícia do Público, a Câmara de Aveiro “criou uma equipa interdisciplinar para estudar o setor da mobilidade no âmbito da nova realidade”. Na altura, o edil identificava a ferrovia como o “transporte do futuro” e mostrava-se decidido a retomar o projeto que estava “parado há muitos anos”: "É um projeto interessante e desejável no âmbito do IV Quadro Comunitário de Apoio. A intenção inicial aponta para uma ligação entre Aveiro, Águeda e Ílhavo, mas com a eventual nova realidade do TGV isso poderá ser ajustado" – na verdade, tal como vamos explorar, o Metro de Superfície foi inicialmente previsto como uma ligação entre Águeda e Aveiro, sendo que Ílhavo só entrou na equação pela mão de Alberto Souto.

A 9 de maio de 2008, conforme noticiava o Jornal de Notícias, o projeto dá um salto significativo com o seminário “Metro Ligeiro de Aveiro - Que repercussões na economia, no ambiente e na mobilidade o justificam?” - que, nas palavras de Élio Maia, servia como um "congregar de vontades e o começo de um trabalho intermunicipal e governamental que torne possível este desiderato".

Neste seminário, que reunia mais de uma dezena de especialistas em transportes e mobilidade, o presidente da Câmara Municipal sublinhava que "o avultado investimento público da implementação de um sistema de Metro em Aveiro implica que […] que se contabilizem os custos e os proveitos financeiros, não esquecendo, ao fazer as contas, as lógicas sociais e os benefícios ambientais correlacionados com os meios de transporte em apreço", lamentando que o estudo de viabilidade técnica e financeira elaborado em 1997 tenha sido colocado de parte. A partir daí, a autarquia iniciou novo ‘Estudo de Pré-Viabilidade do Metro de Superfície para Aveiro’.

Em 2009, o estudo foi primeiramente apresentado pela engenheira Arminda Soares, coordenadora do Gabinete de Mobilidade, no fórum “Centenário da Linha do Vale do Vouga”, que contou com a presença de representantes da Rede Ferroviária Nacional – REFER EP, da Comboios de Portugal (CP) Regional e dos Município de Águeda e Aveiro.

Mais tarde, quando apresentado em reunião da Câmara Municipal, a engenheira concluía que “a prazo imediato, a ideia de um investimento no metro de superfície não ser viável, dado o custo do investimento e o número reduzido de potenciais utilizadores”. Nesse sentido, defendia que “a REFER procedesse à renovação das infraestruturas da linha [do Vouga] e que a CP se responsabilizasse pela prestação do respetivo serviço”, salientado “que a solução mais adequada passaria pela implementação do sistema do tipo «comboios frequentes»”. Citada pelo Jornal de Notícias, Arminda Soares dizia ainda que só mais tarde, "daqui a 10 anos, pode vir repensar-se o modelo e avançar para um prolongamento em metro de superfície".

Alberto Souto “congelou” o projeto durante os seus mandatos? Não houve avanços significativos entre 1998 e 2005, mas o socialista nunca assumiu uma desistência

Numa altura em que o projeto do metro de superfície já tinha um certo grau de maturidade – o primeiro grande estudo de viabilidade do Metropolitano Ligeiro de Superfície foi apresentado durante o ano de 1997 -, a cor partidária do presidente da Câmara Municipal mudou: Alberto Souto, candidato pelo PS, viria interromper a hegemonia do CDS-PP em Aveiro, que durava desde que existem eleições autárquicas democráticas em Portugal.

A primeira referência que encontrámos relativamente ao metro de superfície durante o mandato do socialista surge durante a reunião de Assembleia Municipal de 30 de junho de 1998, quando Jorge Nascimento, eleito pelo CDS-PP, interrogava o edil se tinha dado “algum andamento à ideia do metro de superfície”: “Se não quer dar – porque pode ser uma opção sua -, fez alguma diligência com a CP no sentido de intensificar as carreiras com ligação a Águeda para substituir a diminuição da utilização da linha? Não me parece que tenha sido feita alguma coisa”.

Na resposta, Alberto Souto citava a sua própria campanha eleitoral, onde tinha dito que “o metro devia ser visto ao milímetro”, e dizia que, depois de análise, entendia que o projeto era para “não deixar na gaveta”. Nesse sentido, dizia que já tinha promovido um encontro com a CP e outro com o presidente da Câmara de Águeda e que estava “apostado” em “ter as coisas bem aprontadas” para que no quadro comunitário de apoio subsequente se pudesse candidatar o metro de superfície. “Isto sem prejuízo desde já de aproveitar as verbas que a CP tem disponíveis para a reparação da linha, o que permitiria desde já aumentar a velocidade de exploração que existe”, acrescentava.

Meses mais tarde, já em 1999, Diogo Soares Machado, hoje vereador eleito pelo Chega e, na altura, deputado municipal eleito pelo CDS-PP, também surgia em defesa do metro. O autarca criticava Alberto Souto por ter “abarcado” todos os projetos bons, mas por ter esquecido alguns, como era o caso do metropolitano – um projeto que, dizia, “custaria cinco milhões de contos à autarquia” [o equivalente a cerca de 43 milhões de euros nos valores atuais, de acordo com o conversor disponível no Portal Pordata] e que “muita falta” fazia.

Sem novidades, novas referências ao metropolitano surgem em intervenções de eleitos do CDS-PP de maio e julho de 1999: em maio, Miguel Capão Filipe, deputado municipal, questiona Alberto Souto sobre o ponto de situação do projeto; em julho, o vereador Belmiro Couto, acusava o presidente de “congelar” o trabalho já feito. Na mesma altura, Alberto Souto reiterava que o projeto não era para “deixar na gaveta” e que estava na altura de o candidatar ao Quadro Comunitário seguinte.

Nos anos que se seguiram, o presidente da Câmara de Aveiro persistiu no discurso de que o metro era um investimento estruturante, mas que continuava à espera do “financiamento indispensável para o efeito”.

O avanço mais significativo na discussão terá acontecido em 2005, último ano do segundo e derradeiro mandato do socialista, quando, em resposta a Miguel Capão Filipe, na altura (e também atualmente) vereador, Alberto Souto disse que o projeto estava a ser repensado para ir além do original traçado que só incluía Aveiro e Águeda, incluindo agora também Ílhavo: “O Metro de Superfície não foi esquecido, encontrando-se, neste momento, na CCDRC […] O projeto não é para abdicar, como prova o caso do túnel da Avenida […], cujos projetos tiveram em consideração esta infraestrutura”.

Como nasceu a ideia de um metro em Aveiro? Projeto surgiu como investimento na Linha do Vouga em 1995; A empresa ‘Metro do Porto’ tinha sido criada em 1992 e a ‘Metro Mondego’ viria a nascer em 1996

Segundo a ata da reunião ordinária da Câmara Municipal de Aveiro de 17 de julho de 1995, quatro dias antes, a 13 de julho, tinha sido assinado um protocolo de colaboração entre Direção Geral de Transportes Terrestres e as Câmaras Municipais de Aveiro e Águeda “com vista à execução do estudo de viabilidade de exploração do metropolitano ligeiro de superfície na Linha do Vouga”.

É preciso ter atenção ao contexto nacional em que o Metro de Superfície começou a ser discutido em Aveiro. A norte, no Porto, a empresa ‘Metro do Porto’ tinha sido fundada em 1992, sendo que, em 1994, sofreu uma reestruturação para os moldes atuais. Embora o metro só tenha entrado no carril a partir de 2002, a intenção de fugir ao tradicional modelo subterrâneo (como existe em Lisboa) já existia - a ideia do Metro do Porto, como o conhecemos hoje, era a de ter um modelo híbrido, que conjugasse o metro de superfície com túneis que atravessassem a malha urbana. A sul, em Coimbra, a ‘Metro Mondego’ é oficialmente constituída em 1996, aí com a intenção de fazer um metro 100%  à superfície – a ideia acabou por nunca ser concretizada.

Meses depois de ter sido assinado o primeiro protocolo em Aveiro, a 11 de outubro de 1995, a Câmara Municipal – à época liderada por Celso Santos, eleito pelo CDS – deliberou a aprovação de um protocolo de colaboração entre a autarquia e o CESUR - Centro de Estudos Urbanos e Regionais do Instituto Superior Técnico “com vista à elaboração de estudos de viabilidade de uma rede de Metropolitano Ligeiro de Superfície / Eléctrico Moderno para a Região de Aveíro”.

A 11 de dezembro, o presidente sugeriu – tendo a proposta sido aprovada por unanimidade – que os estudos se subdividissem em duas fases: primeiro, sobre a viabilidade de reabilitar a linha férrea entre Aveiro e Águeda para que fosse explorada como metropolitano; mais tarde, que se fizesse um estudo concreto sobre a viabilidade de uma rede de metropolitano ligeiro de superfície. O protocolo para a primeira fase tinha a duração de seis meses e tinha o custo 18 milhões de escudos (segundo o Portal Pordata, o equivalente a cerca de 170.000 euros aos dias de hoje).

É durante 1996 que começam a chegar as primeiras impressões sobre o estudo. A 13 de maio, o professor Nunes Silva, do CESUR, deu nota de que estava previsto um custo de 8,5 milhões de contos (segundo o Portal Pordata, equivalente a cerca de 80 milhões de euros atualmente), sendo que havia a “hipótese de financiamento na ordem dos 75% dos custos do investimento, à exceção dos veículos”. Na altura, o docente da instituição lisboeta notava que “a ampliação da rede até ao centro da cidade pode melhorar a atratividade do sistema e a sua rentabilização”. Mais à frente, a 9 de setembro, a Câmara chegou a um consenso de que a linha deveria ser elétrica e que devia ir até ao Centro de Congressos e seguir o trajeto da Avenida Central.

Já com o relatório da segunda fase do estudo a provado, o presidente da Câmara Municipal, a 14 de julho de 1997, dizia que havia interesse de ambas as autarquias envolvidas (Aveiro e Águeda) em emitir um parecer sobre o relatório para “fazer a sua apresentação oficial ao Ministério do Planeamento, do qual se pretende, numa primeira fase, tal como está protocolado, que assuma a globalidade das despesas referentes à recuperação da linha férrea entre a Estação da CP e a Ponte de Pau”.   

A discussão sobre este ponto da ordem de trabalhos motivou várias sugestões por parte dos vereadores, sendo que as propostas de Nogueira Lemos, do Partido Socialista, acabaram por ser acolhidas pelo presidente. O socialista considerava que, sendo que o objetivo era enviar o documento ao ministério, “a Câmara deveria complementar o estudo em alguns aspetos”. “A acompanhar este estudo deveria haver algum compromisso por parte da Câmara de Aveiro, concretamente, quanto a questão dos parques de estacionamento; quanto aos transportes urbanos e ao redesenho das próprias carreiras de acordo com o metropolitano; e [deveria] saber também da possibilidade de fusão de transportes coletivos com a Câmara de Águeda”, argumentava.

Já na altura, o vereador Albuquerque Pinto, do PS, mencionava uma possível ligação a Ílhavo e às Gafanhas, de forma a tornar o projeto “mais rentável”. O socialista alertava para a necessidade de o metro vir acompanhado de “medidas desencorajadoras da utilização do transporte individual para o centro urbano”, tais como uma “grande implementação de parcómetros, de construções de infraestruturas na periferia, de parques de estacionamento, e, paralelamente com estes, "park and ride".

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