RÁDIO UNIVERSITÁRIA DE AVEIRO

Opinião

"O Orçamento é mau, o caos seria pior", opinião de Bruno Vilhena

Bruno Vilhena é estudante de doutoramento do DEGEIT e bolseiro de doutoramento no CIPES, na área da Economia e Ensino Superior. É presidente da Juventude Socialista de Estarreja, deputado municipal e comissário nacional da JS. Foi dirigente associativo da AAUAv e Coordenador do NEEC-AAUAv (2018-19), um dos trabalhos de que mais se orgulha.

"O Orçamento é mau, o caos seria pior", opinião de Bruno Vilhena
Bruno Vilhena

Bruno Vilhena

Opinião
23 out 2024, 13:26

1.

Sempre fui dos que disse que, na sequência das eleições de março deste ano, se só existisse maioria de direita na Assembleia da República com a extrema-direita, e se a AD conseguisse formar um governo minoritário, que o PS devia tentar viabilizar o primeiro Orçamento do Estado. Existem realidades macro que importam e esta é uma delas: manter a extrema-direita longe da governação do país. Disse-o e defendi-o porque acredito que isso, por um lado, libertaria o Governo para governar e para provar ao país os seus méritos e deméritos e, por outro lado, libertaria o PS para, efetivamente, ter tempo para se reorganizar, posicionar como a alternativa ao Governo da AD e fazer oposição. Fazer isso poupava-nos a um Orçamento com cedências ao Chega, ou a uma realidade política ainda mais instável. Para tal, bastava existir boa-fé de ambas as partes e o primeiro Orçamento do Estado passaria.

Aconteceu que o Governo decidiu ignorar a parte da boa-fé e, achando desde o primeiro dia que tem o divino direito a governar porque teve mais 0,8 pontos percentuais do que o PS nas eleições, decidiu que se devia comportar como se tivesse uma inquestionável maioria absoluta e que os outros é que se deviam vergar perante a imperial maioria da AD (com um apoio de menos de 35% do Parlamento). Começou, por isso, muito mal o debate orçamental, em que o PS se envolveu e participou com sentido de Estado e, num Orçamento que é para todo o Estado e todos os seus setores, só fez duas exigências: a retirada da medida do Governo da AD do IRS Jovem e não aceitar a descida que o Governo da AD propunha para o IRC. O resultado é o que conhecemos: o Governo da AD recuou quanto à primeira proposta, não recuou quanto à segunda. O PS anunciou, mesmo assim, que se vai abster, viabilizando o OE 2025.

Compreendo as críticas que alguns dos meus camaradas vão fazendo ao sentido de voto que o PS vai ter neste Orçamento do Estado. A posição natural de um partido da oposição, que tem uma visão tão diferente sobre o caminho que o país deve tomar, não devia ser a de se abster apenas porque conseguiu retirar da “ementa” orçamental uma medida tão estúpida como o IRS Jovem e descer um ou outro ponto o IRC. Ainda para mais quando o IRS Jovem, nos moldes inicialmente apresentados pelo Governo da AD, seria praticamente inconstitucional. Bastaria ao PS na oposição pedir a fiscalidade sucessiva ao Tribunal Constitucional, não era preciso viabilizar o Orçamento.

No entanto, se o PS não tivesse negociado e não tivesse tido esse bom ganho de causa neste Orçamento, teria obviamente de chumbar o documento. Ao chumbar o documento, esta medida nem sequer ia para o Tribunal Constitucional porque não havia Orçamento, e estaríamos na rota certa para umas eleições antecipadas. Não porque seria algo obrigatório, não o é!, mas porque Marcelo Rebelo de Sousa decidiu inaugurar um novo costume de ir a eleições se não existirem Orçamentos e fez questão de fazer esta pressão política constante ao longo do processo. Sobre isto há muito para dizer: por exemplo, que o Governo espanhol, mesmo aqui ao lado, decidiu não apresentar um Orçamento para 2024 e não foi por isso que (1) o mundo acabou e (2) a Espanha deixou de ter um bom desempenho económico à mesma, com um défice abaixo da zona Euro e um dos maiores crescimentos da União Europeia.

Ou seja, o problema de um eventual chumbo orçamental não seria financeiro ou orçamental, mas sobretudo político. Seria uma situação pior para toda a gente, incluindo para nós, os eleitores. Em primeiro lugar, porque a repetição eleitoral – imposta por Belém (e pelo PM) – com um Governo que ainda não teve nada para mostrar (e o que mostrou foi mau) não ia gerar ganhos de causa para ninguém. As sondagens, pelo menos, valendo o que valem, indicariam um resultado mais ou menos semelhante ao de março. Ou seja, o problema mantinha-se. Em segundo lugar, corríamos o risco de a situação se agudizar ainda mais, de a polarização política aumentar e de não termos uma solução com a repetição eleitoral. Iríamos ser a nova Bulgária que, já no próximo domingo, vai para eleições a sétima (!) vez em três anos? (estou a exagerar, claro).

Apesar de tudo, esta foi, e continuo a achar que é, a melhor das soluções em cima da mesa por um motivo, dá-nos tempo. Dá tempo ao Governo e à oposição séria, dá tempo à política, à clarificação e – sobretudo – ao país.

2.

Com toda a novela orçamental, existiu algo que foi divulgado e que quase passou despercebido no meio das discussões: as previsões para o crescimento económico. A mesma AD que disse em março que tinha todas as condições de pôr Portugal a crescer 2,5% em 2025, e depois 2,7%, 3,0%, e 3,4% em 2028, em outubro diz afinal que Portugal só vai crescer 2,1% em 2025, e depois 2,2%, 1,7%, e 1,8% em 2028.

Se há coisa a que a AD sempre nos habituou foi a mares de rosas antes das eleições e à revelação posterior de que, na prática, era tudo uma grande mentira. Desta vez não foi exceção: pudemos ver nesta campanha a utilização do embuste eleitoral que é sempre usado pelo PSD, de Barroso a Montenegro. E, não, a realidade não mudou nestes últimos meses.

Recomendações

"Aveiro: uma cidade universitária que esquece os seus estudantes", opinião de João Sarmento
Opinião
24 mar 2026, 10:41

"Aveiro: uma cidade universitária que esquece os seus estudantes", opinião de João Sarmento

João Sarmento é natural de Aveiro, licenciado em Contabilidade pelo ISCA-UA e com mestrado em Gestão pela Universidade Portucalense. Atualmente integra o secretariado da Federação Distrital do PS Aveiro, é deputado municipal e ainda presidente da JS Aveiro.

“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira
Opinião
11 fev 2026, 10:01

“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira

José Manuel Castanheira é professor de Física do Clima, no Departamento de Física, na Universidade de Aveiro, e membro do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM).

"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira
Opinião
03 fev 2026, 11:38

"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira

Ricardo Dias Sequeira é jurista, licenciado em Direito, com frequência de mestrado em Ciência Política na Universidade de Aveiro, período durante o qual obteve bolsa para estudos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com foco em cidadania e comportamento eleitoral. É, atualmente, secretário da Comissão Política Distrital de Aveiro do CDS, cargo que já exerceu em 2013.

"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites
Opinião
24 jan 2026, 10:00

"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites

Carlos Brites é natural da Nazaré e reside em Aveiro desde 1999. Formado em Ensino de Física e Química e doutorado em Física pela Universidade de Aveiro, é atualmente Professor Associado no Departamento de Física da Universidade de Aveiro, onde dirige a Licenciatura em Engenharia Computacional. Desenvolve investigação científica nas áreas da nanotecnologia e dos materiais fotónicos avançados, com aplicações à computação e à lógica molecular. Tem na educação, na ciência, na cidadania e no desenvolvimento local os principais eixos da sua intervenção cívica, integrando o movimento 'Sentir Aradas'.

Últimas

AAAUA aprova contas de 2025 com resultados positivos pelo quarto ano consecutivo
Universidade
27 mar 2026, 13:11

AAAUA aprova contas de 2025 com resultados positivos pelo quarto ano consecutivo

A Associação de Antigos Alunos da Universidade de Aveiro (AAAUA) realizou, no passado dia 26 de março, uma Assembleia Geral Ordinária no auditório do DEGEIT. De acordo com uma nota de imprensa enviada à Ria, a reunião resultou na aprovação, por larga maioria, do Relatório de Atividades e Contas (RAC) de 2025, assinalando o quarto ano consecutivo de resultados líquidos positivos para a associação.

Estarreja reduz para metade valor das taxas na feira semanal
Cidade
27 mar 2026, 13:00

Estarreja reduz para metade valor das taxas na feira semanal

A Câmara de Estarreja vai reduzir em 50% as taxas de ocupação dos lugares na feira semanal, a partir de quarta-feira, para apoiar os feirantes e revitalizar o comércio, anunciou hoje, dia 27, o município do distrito de Aveiro, avança a agência Lusa.

UA considerada “excelente” enquanto Centro Autorizado dos exames de Cambridge
Universidade
27 mar 2026, 12:15

UA considerada “excelente” enquanto Centro Autorizado dos exames de Cambridge

A Universidade de Aveiro (UA) obteve, pela terceira vez consecutiva, a classificação de “excelente” enquanto Centro Autorizado para a realização dos exames de inglês da Cambridge University Press & Assessment. De acordo com a nota enviada à redação, esta distinção foi atribuída recentemente após uma avaliação remota, equivalente a uma inspeção.

Região de Aveiro quer incluir CP no novo passe intermodal
Região
27 mar 2026, 11:22

Região de Aveiro quer incluir CP no novo passe intermodal

O presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro (CIRA) revelou hoje, dia 27, que está em conversações com a CP – Comboios de Portugal para que o passe intermodal regional inclua o transporte ferroviário, segundo avança a agência Lusa.