Atraso na classificação dos exames abre incertezas desde a escola à Universidade
O atraso na classificação dos exames nacionais já se está a fazer sentir quer na escola secundária José Estevão, quer na Universidade de Aveiro. De um lado, os professores estão desgastados, com a vontade de terminar correções mesmo "pela noite fora”. Por outro, a Universidade e Associação Académica preparam-se com “Planos A e B” de calendários letivos.
Maria Rego
JornalistaÚltimas
O ministro da Educação aponta que, esta sexta-feira, dia 17 de julho, os exames nacionais vão estar classificados na totalidade. Nas escolas secundárias, no entanto, as certezas não são tantas. A única convicção é a de que algo precisa de mudar para as correções da segunda fase das provas de ingresso ao Ensino Superior.
Para a diretora do Agrupamento de Escolas José Estevão, em Aveiro, Glória Leite, há a vontade de conseguir o “melhor para os alunos”, ainda assim não existem garantias. “Se tudo correr bem, se tudo estiver dentro da normalidade amanhã teremos as pautas, mas não posso prometer, porque não está nas nossas mãos”, assume.
Ao final da manhã, a diretora dava conta à Rádio Ria que até àquele momento – e contrariamente a outros anos - “ainda não chegou nada”, acrescentando que durante a tarde haveriam de “chegar alguns resultados, de acordo com o que estava anunciado”, com a possibilidade de receber provas “até ao final do dia, pela noite fora”. Para este último cenário existe inclusive uma “equipa apostos e mais alguns voluntários”, bem como “professores que estão sob aviso no agrupamento à espera que os chamem para virem ajudar para o trabalho ser mais célere”.
A classificação de exames nacionais tem sido um trabalho particularmente esgotante para os professores. Glória Leite relata que as “pessoas estão extremamente cansadas, não pelo trabalho que têm de fazer, mas pelo desgaste do trabalho”, além disso trata-se, na opinião da diretora, de um “circuito” sem “princípio, meio e fim”. “Um professor de português, de história, cultura das artes que tem folhas de continuação – em que alguns exames têm 5,6,7,8 folhas – convém que sejam acopladas logo quando chega o item”, explica, justificando que é algo que tem de ser melhorado no novo método.
Para a correção de exames nacionais da segunda fase, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, já adiantou que será usado o mesmo sistema de correção. Glória Leite constata que ninguém estava “à espera de outro modelo” de classificação, no entanto, aponta que “gostaria é que o processo fosse menos doloroso para quem tem de o estar a fazer, quer do ponto de vista dos itens a classificar, das folhas de continuação, da qualidade do que é digitalizado e das fichas A”. No fundo, remata a diretora, é preciso que se “suavize o processo, para que quem receba [as provas] possa trabalhar com a calma que classificar exames exige e para que a escola não seja vista como fator de instabilidade, mas sim de estabilidade”.
A novela dos exames nacionais deixou alunos e encarregados de educação colados às notícias. Glória Leite detalha que o segundo grupo tem “feito algumas questões” ao Agrupamento, mas há “confiança no trabalho dos professores”. Não obstante, existem vários encarregados que “têm solicitado a ficha ENES”, inclusive “já fizeram o requerimento”. De acordo com a diretora, em outros anos, esta prática era mais comum para alunos que fossem estudar para o estrangeiro, todavia “este ano é por causa das questões internas”.
Mas não só da classificação dos exames nacionais se preenchem as preocupações de Glória Leite. “Todas as outras tarefas que estão por fazer na escola nesta altura, que são muitas (não deixa de haver matrículas, seleção de alunos, composição de turmas, reuniões do departamento do foro pedagógico, reuniões do conselho pedagógico, avaliação do desempenho docente) tudo isso é trabalho de professores”, enumera a diretora à Rádio Ria. Toda esta lista, relata, “passou para segunda ou terceira prioridade”.
Também questões ligadas a férias dos professores classificadores se levantam para Cláudia Leite. Com um prazo que “não pode ir além do dia 31 de agosto” e com as aulas a terem de começar “até ao dia 15 de setembro”, há uma preocupação real em como se vai conseguir conciliar tudo. Apesar disso, a diretora do Agrupamento de Escolas José Estevão, sublinha que é preciso ter uma postura “calma, com alguma serenidade, senão a nossa sanidade mental não chega às férias”.
Semana de acolhimento e integração pode sofrer atraso de “uma semana”
Do lado das instituições de Ensino Superior também estão a ser feitos ajustes. Na Universidade de Aveiro, a presidente da Associação Académica (AAUAv), Joana Regadas, teme alterações ao calendário já estipulado. “Já alertamos a equipa reitoral – que também já estava ciente deste possível constrangimento – e, enquanto Associação Académica, todo o nosso programa vai ser construído com base num plano A e num plano B”, explica à Rádio Ria.
Por este programa passa a semana de acolhimento e integração que este ano pode acontecer de uma forma diferente. “Podemos ter, no melhor cenário, uma semana de atraso face àquilo que é o programa que está expectável”, contudo, Joana Regadas, sublinha que o “ideal não é retirar esta semana, mas mantê-la e ajustar todo o calendário letivo”.
Para a presidente da AAUAv é importante ter em mente que a entrada no Ensino Superior já é um fator por si só que causa “ansiedade” nos alunos, “quer seja pelo facto de possivelmente serem estudantes deslocados e terem de trocar de casa, ou por poderem não entrar no curso ou instituição de ensino que querem - adicionar mais este fator de incerteza não é benéfico”.
Mas os problemas estendem-se além dos alunos que chegam ao Ensino Superior. Também quem está “dentro e quer fazer uma troca” (através do regime de Mudança Par Instituição/Curso) está a encontrar desafios. A presidente da AAUAv relata que associação académica recebeu “um pedido por parte de uma estudante que teve receio de não conseguir os resultados dos exames a tempo e fez uma solicitação para a alteração das datas”. Com isto em mente, a reitoria da UA procedeu ao alargamento dos prazos – quer dos CTeSP, quer para a Mudança Par Instituição/Curso.
Sobre o novo sistema de classificação de exames nacionais, Joana Regadas reconhece que “informatizar” os processos de correção não é necessariamente uma má aposta, no entanto, “é preciso saber qual é a capacidade e qual é o impacto real que isso terá em todo o processo, especificamente nas pessoas que fazem parte” do mesmo. A presidente da AAUAv acrescenta que importa agora perceber, visto que a correção da segunda fase será feita nos mesmo moldes, “se os problemas foram identificados e resolvidos”.
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