Beira-Mar: Quem é o multimilionário em busca de um clube-satélite para contornar a lei neerlandesa?
Marcel Boekhoorn, multimilionário que tem sustentado o clube holandês NEC desde 2021, está perto de se tornar no próximo investidor do SC Beira-Mar, conforme foi avançado pelo Diário de Aveiro e confirmado à Ria pela direção do clube. Há pouco mais de um mês, o empresário tinha confessado à comunicação social neerlandesa o interesse em investir num clube europeu de menor dimensão que lhe permitisse captar talento fora da União Europeia sem ter de passar pelas restrições migratórias dos Países Baixos. Contactado pela Ria, Sander Janssen, jornalista da Voetbal International, afirma que o empresário é “confiável”.
Gonçalo Pina
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Conforme noticiado pela Ria, Marcel Boekhoorn é quem está mais perto de se juntar à futura Sociedade Desportiva por Quotas (SDQ) do SC Beira-Mar – um objetivo definido pela atual direção do clube para o presente mandato e que, ao longo do último ano, já esteve perto de se concretizar por duas ocasiões. Depois de o nome ter sido apontado como “praticamente garantido” pelo Diário de Aveiro, Nuno Quintaneiro, presidente da direção do clube, confirmou à Ria que já existe “maturidade negocial”, embora ainda sem dar o negócio como fechado.
Mas quem é Marcel Boekhoorn?
Segundo o site da Ramphastos Investments – empresa de capital de risco e de capital privado de que é fundador -, Marcel tinha, em 2024, um património líquido a rondar os 2,4 mil milhões de euros. Para além dos vários investimentos através da empresa em negócios das áreas da tecnologia, das finanças, dos serviços, do jogo ou do retalho, o neerlandês também é conhecido por deter, desde 2000, o jardim zoológico ‘Ouwehands Dierenpark’ e, claro, pelo investimento no Nijmegen Eendracht Combinatie (NEC), clube de futebol que este ano terminou a Eredivisie, primeira liga do futebol dos Países Baixos, em terceiro lugar, garantindo a qualificação para a terceira pré-eliminatória da Champions League.
Segundo conta,a aposta no NEC é pensada apenas com o coração - o leito de morte do pai, com quem se fez adepto do clube, o empresário terá prometido garantir a estabilidade financeira do clube.
Embora só tenha colocado ‘as fichas todas’ no NEC em 2021, quando o clube regressou à principal competição futebolística neerlandesa, Marcel Boekhoorn já patrocinava o clube desde o início do milénio e foi responsável pela contratação de alguns jogadores importantes da história do clube, como é o caso de Andrzej Niedzielan, Edgar Barreto e Björn Vleminckx.
A relação nem sempre foi linear e, quando o clube caiu para a segunda divisão, em 2014, Marcel, descontente com a direção, anunciou o divórcio com o clube. As palavras do principal investidor lançaram o pânico na estrutura, mas não tardou a que o neerlandês voltasse com a palavra atrás e dissesse que tinha sido apenas uma “reação emocional”.
Em 2021, com a subida à ‘Eredivisie’, o empresário deu um passo grande na relação com o clube e assumiu um papel de maior relevância no clube, embora tenha decidido não o comprar. Segundo o jornal ‘Gerderlander’, que foi o primeiro a noticiar a intenção de Marcel, fontes próximas diziam que o investidor “acreditava que um clube de futebol deve ser propriedade dos adeptos e das pessoas que amam o clube" e queria “ajudar o clube, melhorar a estrutura e garantir que o NEC voltava a ser financeiramente saudável” por “amor ao clube".
A estratégia passava por fazer uma ‘limpeza’ na estrutura acionista do clube, de forma que menos pessoas tivessem peso nas decisões. Wilco van Schaik, CEO do NEC, explicou à ESPN que, antes, administrar o clube era “difícil”: “Temos investidores, acionistas, um comitê de nomeações com 12 pessoas, uma fundação, um conselho fiscal, e ainda temos uma participação de amadores... [..] Não dá para ver a floresta por causa das árvores. Não dá para administrar um clube assim e eu também não consigo trabalhar dessa forma. O que Boekhoorn vai fazer? Primeiro, simplificar essa estrutura”.
Numa entrevista recente, o empresário explica que, à exceção dos períodos em que está aberta a janela de transferências, pouco se envolve nas decisões do clube: “Carlos [Aalbers, diretor desportivo do clube] provou que tem faro para bons talentos, então tenho de deixá-lo fazer o que sabe. É preciso manter a emoção e a razão separadas, o que às vezes é difícil no mundo do futebol. Para mim também, aliás. Às vezes irrito-me quando o treinador não faz substituições mais cedo. Mas, por outro lado, temos tanto sucesso que penso: «Boek, cala a boca»".
"Há uns anos, o NEC era ingovernável. Naquela época ainda tínhamos um fundo de investimento com doze pessoas, incluindo eu. Isso acabou por não ser o ideal: os outros investidores diziam ao Carlos ou ao treinador quem devia jogar ou quem demitir. Era ridículo. O Carlos voltou em 2022 com uma condição: não queria mais essa palhaçada”, aponta.
Segundo afirma, “já faltou mais” para que o clube se torne autossustentável e para que a sua injeção de capital deixe de ser uma necessidade. Não obstante, mesmo com uma receita sem precedentes no relatório de contas da temporada 2024/2025 – 22,5 milhões, mais quatro milhões do que na época anterior -, o NEC não deixou de dar prejuízo de 1,2 milhões de euros, uma vez que as despesas aumentaram na mesma proporção. A diferença acaba depois por ser colmatada com o dinheiro de Marcel.
Ao longo do processo de expansão do clube, o empresário tem batido de frente com a autarquia de Nijmegen. Um dos objetivos passa por aumentar o recém-adquirido estádio De Goffert, de forma a responder à procura da cidade – atualmente pode receber apenas cerca de 12.500 pessoas -, mas o clube não tem contado com a colaboração da autarquia: “Queremos construir algo em volta [do estádio]. Mas aí aparecem algumas pessoas que acham que a salamandra que anda por ali está em extinção e que o ‘sapo-castanho’ está a desaparecer, então não acontece nada […] Em Eindhoven, eles concedem a licença em poucas semanas. Estou extremamente dececionado com a autarquia de Nijmegen”.
O que pretende o empresário neerlandês do SC Beira-Mar?
Durante a longa entrevista concedida por Marcel Boekhoorn à Voetbal International (VI), revista desportiva neerlandesa, o empresário foi questionado sobre a possibilidade de se envolver com outros grandes clubes europeus. A hipótese foi prontamente descartada e Marcel disse mesmo que “não entendia” o porquê de tantas empresas de capital privado estarem a entrar no mundo de futebol.
Por outro lado, o investidor considerou possível a aposta num pequeno clube, mas desde que tivesse “utilidade para o NEC”. No passado mês de abril, o empresário negava que existisse qualquer plano concreto, mas dizia que “comigo nunca se sabe. Pode acontecer assim, de repente”.
O objetivo, dizia, era ter um clube-satélite onde fosse mais fácil potenciar jovens talentos vindos de outros continentes, como África, América do Sul ou Ásia. Nas suas palavras, é “absurdo” que nos Países Baixos tenham de se pagar salários mais altos a jogadores estrangeiros quando, em Portugal, na Áustria ou na Chéquia, se pode pagar “o salário normal e deixá-los [aos jogadores] estabelecerem-se lá. Quando estiverem bons, envio-os para o NEC”.
Para compreender esta linha de raciocínio, a Ria entrou em contacto com Sander Janssen, um dos jornalistas da VI que esteve à conversa com Boekhoorn. Conforme explica, o sistema neerlandês obriga a que os clubes paguem 1,5 vezes o salário médio da ‘Eredivisie’ a jogadores que venham de fora da União Europeia, o que corresponde a 600 mil euros anuais, “muito dinheiro para clubes fora do ‘top-3’ (Ajax, Feyenoord e PSV)”.
Jornalista neerlandês considera que Marcel Boekhoorn é “confiável”
À conversa com Sander Janssen, a Ria procurou saber mais sobre o multimilionário que pode ser o próximo parceiro do emblema aveirense. As palavras do jornalista correspondem àquilo que a investigação prévia já tinha identificado: o empresário “não é o típico investidor que quer o seu dinheiro de volta e que tem muito a dizer”.
“Os assuntos do dia-a-dia são tratados pela direção, o Boekhoorn não tem um papel oficial. Ele dá dinheiro quando o clube precisa. Podia ter comprado o clube e tê-lo feito o seu brinquedo, mas, na opinião dele, o clube não deve ser dele […] Nos primeiros anos desde 2021, o NEC recebeu muito do seu dinheiro, mas agora o clube tem valor no relvado e já quase que consegue cuidar de si mesmo”, aponta.
Se é verdade que, em 2014, Marcel chegou a dizer que iria recuar no seu apoio ao clube, Sander justifica que eram “tempos diferentes” em que muitos investidores pequenos queriam ter uma palavra a dizer. O “amor ao clube” faz com que o apoio ao NEC seja estável e, de acordo com as palavras do jornalista, não há risco de que o empresário se lembre de deixar o clube ao abandono.
“Com o Beira-Mar pode ser diferente, mas o Boekhoorn é confiável. Ele é grande nos Países Baixos e tem uma ‘global network’. Uma vez comprou um zoológico porque ama animais. Estava quase falido quando o comprou e agora prospera. Ele gosta de comprar empresas que não estão bem […] Foi assim que fez a sua fortuna”, esclarece Sander Janssen.
Na ótica do jornalista, o facto de o SC Beira-Mar poder usufruir do Estádio Municipal de Aveiro – uma grande infraestrutura construída para o Euro 2004, com mais de 30.000 lugares – também pode ser um motivo para que Marcel Boekhoorn veja potencial no clube.
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