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Cheias em Aveiro: “Falta decisão política”, diz João Miguel Dias, investigador do CESAM-UA

As inundações da zona da antiga lota de Aveiro e de algumas ruas da zona baixa da cidade provocaram, nos últimos dias, uma atenção redobrada sob o fenómeno das marés vivas. Em entrevista à Ria, João Miguel, Dias, investigador do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar da Universidade de Aveiro (CESAM-UA), realçou que este é um processo cíclico, natural, que vai tender a piorar face à subida do nível médio global das águas do mar. No caso de Aveiro, caso “não haja uma construção ou um reforço das estruturas de proteção”, isso pode representar, na Ria de Aveiro, a inundação de uma área “6.4 km2 até ao ano de 2055” e de “8 km2 até ao ano de 2100”.

Cheias em Aveiro: “Falta decisão política”, diz João Miguel Dias, investigador do CESAM-UA
Isabel Cunha Marques

Isabel Cunha Marques

Jornalista
25 set 2024, 10:45

Apesar da crescente preocupação da população, João Miguel Dias explicou que o fenómeno das marés vivas é “comum”, “matemático” e “altamente rigoroso”. “Os efeitos gravitacionais do sol com a lua determinam a maré em que estamos (…) As marés vivas acontecem quando existe um alinhamento entre o sol, a lua e as marés mortas quando o sol e a lua estão em quadratura”, contou, destacando que o fenómeno [marés vivas] acontece todos os meses, especialmente, nos equinócios de março e setembro onde se dão as marés de maior amplitude. “Nas marés vivas temos sempre uma altura de praia-mar mais elevada. Depois disso, dá-se uma diminuição até chegarmos à maré morta. Este processo demora cerca de uma semana. É assim sucessivamente”, apontou.

Sobre o fenómeno em Aveiro, o também especialista em oceanografia considerou que as cheias da semana passada, que atingiram a zona da antiga lota e algumas ruas da zona baixa da cidade, “não foram a maior maré viva” sentida na cidade. “Temos registos que mostram marés semelhantes, nos últimos anos. Pode-se dizer que foi uma maré equacional maior do que a média”, afirma.

“Estamos a falar de 30 centímetros a mais (…) do que tínhamos há 40 anos”

Para João Miguel Dias, o alagamento das águas, em Aveiro, não foi novidade, mas sim uma repetição de um conjunto de episódios que aconteceram no passado. Por exemplo, “a zona do Rossio antes era muito mais sensível. Desde que fizeram as comportas da Ria melhorou. No entanto, se houver alguma rotura, numa zona qualquer, podemos ter o problema da água entrar na mesma”, explicou. No caso destas cheias, na zona da antiga lota, “do que eu ouvi penso que houve, precisamente, uma outra rutura em que a água ao invés de entrar pelas comportas entrou pelas zonas laterais”, desvendou.

O cientista do CESAM justificou a inundação, desta vez, com a subida do nível médio global das águas do mar devido às alterações climáticas. “A maré oscila sempre em torno do nível médio. Os registos não indicam valores alarmantes, mas estamos a falar de 30 centímetros a mais, no nível médio do mar, do que tínhamos há 40 anos”, expôs. Neste momento, “estamos a enfrentar o aquecimento global que pode ter um efeito mais ou menos impactante. O menos impactante é o degelo e o predominante deve-se à temperatura da água do mar. Quanto maior a temperatura, maior o volume de água”, apontou. No caso de Aveiro, “toda a região é uma zona de baixa topografia, portanto, subindo o nível médio do mar, no dia a dia, não é crítico, mas quando temos marés de grande amplitude obviamente que vão ter um grande impacto”, exemplificou.

“Falta decisão política e a necessidade de a concretizar”

Segundo um estudo publicado, em maio de 2022, pelo investigador do CESAM, em parceria com uma equipa de investigação, estima-se que “até ao ano de 2055, na Ria de Aveiro, 6,4 km2 de área esteja inundada e que, até ao ano de 2100, o número aumente para 8 km2”. Relativamente às áreas agrícolas e de pastagens, na região, estima-se “57 km2 de área inundada até 2055 e de 62,6 km2 até 2100. Isto representa mais de 10.500 pessoas afetadas em 2055 e mais de 13 mil até ao ano de 2100”.

Apesar dos números “alarmantes” e ainda atuais, João Miguel Dias considerou que a situação na cidade ainda pode ser revertida se “houver essa opção política”. “Basta ver, por exemplo, o que a Câmara de Aveiro fez na estrada do Sal. Alteou todas as cotas, criou uma estrutura de proteção e a água já não trasvaza. Isto significa que nos temos de adaptar. Neste caso, construir ou reforçar as estruturas de proteção”, reforçou, insistindo na necessidade de investimento. “Claro que isto também significa que há zonas em que é necessário analisar o custo/benefício. Em alguns casos é necessário decidir se vale a pena proteger ou perder o território”, aconselhou.

De acordo com o especialista em oceanografia já não há como evitar a subida do nível médio global das águas do mar. “Vai acelerar. No ano de 2100, em relação a hoje, vamos ter cerca de 70 centímetros a mais do que a média. Isto significa pensar que as estruturas de proteção vão ter de ter, no futuro, mais um metro do que aquilo que têm hoje”, frisou. “Falta decisão política e a necessidade de a concretizar”, concluiu.

“O problema são as zonas baixas da cidade”

José Ribau Esteves, presidente da Câmara Municipal de Aveiro, deixou a garantia, na última reunião da Assembleia Municipal, que o reforço das estruturas de proteção vai avançar “imediatamente”. Segundo o autarca, no pico da maré viva, a autarquia avançou já para o terreno [das inundações] com um conjunto de técnicos para tomar “todas as cautelas” e recolher informações. O objetivo é chegar “à seguinte fase que anunciaremos, brevemente, (…) para proteger a zona baixa da cidade de Aveiro”, anunciou.

Relativamente à antiga zona da lota, onde se deu a enchente de água, o autarca refere que é necessário apenas investimento. “A lota com uma elevação da cota do muro, como fizemos no Cais do Sal, está resolvido. O problema não é esse. A lota é o problema mais fácil de se resolver. É preciso dinheiro. O problema são as zonas baixas da cidade”, reforçou.

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