Imaginarius procura quem queira expor mamilos na rua em reflexão sobre preconceito e censura
De acordo com a agência Lusa, o festival Imaginarius está à procura de voluntários para participar de cara coberta e mamilos expostos num espetáculo que pretende levar às ruas de Santa Maria da Feira uma reflexão sobre preconceito, censura e julgamento social e jurídico.
Redação
Com estreia nacional às 19h00 de 23 de maio, na cidade do distrito de Aveiro e Área Metropolitana do Porto, a performance, que consta da edição comemorativa dos 25 anos do recém-rebatizado Festival de Artes Performativas em Espaço Público, é da companhia brasileira Desvio Coletivo e só foi encenada uma vez em São Paulo, já que, após o seu lançamento em 2021, nunca voltou a ser autorizada no Brasil – por ser considerada um atentado ao pudor e isso constituir crime que prevalece sobre a liberdade de expressão artística.
Para Leandro Brasílio, coautor e produtor de “Mamil(a)s”, essa situação explica a necessidade do próprio espetáculo: “A legislação brasileira prevê pena de detenção para o crime de ato obsceno, que consiste em praticar ato sexual, conduta libidinosa ou exibição de partes íntimas em local público, ofendendo o pudor coletivo. Ora, o que é pudor coletivo? Porque é que os aplicadores da lei e a sociedade entendem que os mamilos de uma mulher ofendem todos, ao passo que, nos homens, mostrar os mamilos no espaço público é natural?”.
Os interessados em participar no projeto podem candidatar-se até 8 de maio no 'site' do festival Imaginarius, têm de ser maiores de 18 anos e irão receber formação prévia que explicará o carácter “plural e inclusivo” do espetáculo, preparando os figurantes selecionados para uma tarefa que, embora tão simples quanto caminhar na rua, “não é um gesto neutro”, representando, para uns, “um direito adquirido” e, para outros, “exposição constante, vigilância e risco”.
Com figurinos próprios, “Mamil(a)s” vai assim cruzar Direito e Feminismo, combinando, por um lado, a experiência de Leandro Brasílio como advogado há 14 anos e, por outro, várias pesquisas de Priscilla Toscano, diretora artística da performance, sobre o corpo das mulheres no espaço urbano.
A companhia quer envolver nessa reflexão 30 participantes de qualquer identidade de género e acredita que a formação para o espetáculo constituirá uma reflexão antecipada e mais intimista sobre questões sensíveis da circulação no espaço público.
“Como é a vida de uma pessoa ‘queer’? Como é a vida de uma mulher ali? Convidamos [os voluntários] para falar, mas, principalmente, para ouvir o depoimento de pessoas que, na mesma cidade, vivem realidades completamente opostas”, antecipa Leandro em entrevista à Lusa.
O advogado e produtor brasileiro reconhece que a atuação final perante o público “é um ato de coragem, de disputa do simbólico”, de saída da esfera individual para criação coletiva da sociedade desejada, mas acredita que a maior transformação é a que se opera antes da entrada em cena, durante a formação prévia e os ensaios. A verdadeira performance acontece, diz ele, “nesses momentos de partilha e construção coletiva”, porque “é impossível participar num trabalho assim e voltar a olhar a cidade como antes”.
Uma das principais tomadas de consciência daí resultantes é que o corpo feminino está mais sujeito a riscos, não apenas quando se expõe perante uma plateia, mas “em praticamente todas as situações ao longo da vida”. Já o físico do macho, se é verdade que começa por passar despercebido no espetáculo porque os mamilos dos homens “cis ou trans” se confundem com os das mulheres, dificilmente gerará sobressalto. Dada a ausência de linguagem verbal em toda a performance, a identificação da mama masculina depende apenas da capacidade de observação do espectador e pode nem chegar a verificar-se.
“Tomamos todos os cuidados e damos todas as orientações necessárias para que a arte sempre seja o nosso maior argumento”, realça Leandro, a propósito da proposta que o traz pela segunda vez ao Imaginarius, depois de em 2017 ter coberto 30 figurantes com argila e os deixar “Cegos” pelo capitalismo. Mas o confronto entre atentado ao pudor e arte continuará a existir mesmo nos países mais tolerantes, sobretudo face ao “atual contexto de disseminação de ideologias ‘red pill’, em que meninos e homens são ensinados a odiar meninas e mulheres”.
É por isso que a companhia Desvio Coletivo descreve “Mamil(a)s” como “um projeto comunitário e um espaço de debate sobre género, cidade, direito e arte”, ao qual aplica “uma metodologia de consenso em que não há vontade de maioria, mas uma construção coletiva que faça sentido para todos”.
A partir desse objetivo geral, Leandro chega aos exemplos específicos de Ângela Diniz, brasileira assassinada pelo seu companheiro e difamada mesmo após a morte, e Erika Hilton, travesti negra que foi a primeira mulher ‘trans’ do Brasil a ser eleita vereadora, deputada federal e presidente da Comissão de Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados.
Por revolta ou orgulho, portanto, o espetáculo da Desvio Coletivo assume-se como uma celebração da presença e participação feminina na sociedade – “seja na conquista de direitos como o descanso, a liberdade, o gozo, a escolha ou não pela maternidade; seja na obtenção de respeito profissional, igualdade salarial, representatividade e poder político” – mas é também “uma homenagem a todas as mulheres vitimadas pela violência masculina ao longo da história”, mesmo quando essa agressão ocorreu da forma mais subtil.
“Houve uma mulher que nos disse, num relato muito tocante, que jamais imaginou ter coragem de tirar a blusa no espaço público; que só pensar na ideia já lhe causava mal-estar”, recorda Leandro. “Mas, a partir da performance [com o peito exposto], viveu uma experiência extraordinária de liberdade – a mesma experiência de liberdade que sempre foi extremamente normal na vida de um homem”.
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