Após obras do PRR, residências da UA acumulam queixas de estudantes
Requalificados no âmbito do PRR, os blocos A1 e R1 do Complexo Residencial de Santiago, na Universidade de Aveiro, estão a gerar queixas dos estudantes, que denunciam falta de água quente, ausência de aquecimento, sinais de degradação em alguns quartos e a manutenção de mobiliário com cerca de 40 anos consecutivos de uso. Do lado da reitoria, Alexandra Queirós, vice-reitora com a tutela das obras de construção e manutenção na UA, fala em “problemas pontuais a serem resolvidos” e garante que “a aposta na manutenção das residências é contínua”, ao passo que Joana Regadas, presidente da direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), diz que, apesar de já desconfiar da “superficialidade” da intervenção, ficou “bastante alarmada” com os novos relatos.
Redação
À mesa do almoço, a requalificação do Bloco A1 das residências do campus de Santiago é tema. Foi a primeira residência da Universidade de Aveiro a reabrir após as obras no âmbito do PRR, em setembro, no arranque do ano letivo. Na cozinha do primeiro piso, onde quatro estudantes se juntam para preparar a refeição, há vários equipamentos novos: fogão, forno, balcões e armários. Mas basta trocar algumas palavras com as residentes para perceber que nem tudo são rosas - a começar pela própria cozinha.
O micro-ondas, que não foi substituído, funciona mal e exige conhecer-lhe as “manhas”. O frigorífico, também com alguns anos, está sistematicamente cheio - afinal, há apenas um para as 14 pessoas que vivem neste piso -, numa queixa recorrente dos residentes que a requalificação financiada pelo PRR não veio resolver nesta residência. Também os quatro bicos do fogão, para o mesmo número de pessoas, já eram apontados como insuficientes antes da intervenção, problema que as obras deixaram igualmente por resolver, segundo relatam as estudantes com quem a Ria esteve à conversa.
É, contudo, nas casas de banho que os problemas mais se fazem sentir. A água quente chegou a ser uma “raridade”. Durante cerca de “um mês e tal”, pouco tempo depois da reabertura desta residência, os residentes chegaram a ter de se deslocar à Nave ‘Caixa UA’, a cerca de 500 metros, para conseguirem tomar banho. “Nós tivemos que ir tomar banho à Nave, porque não havia mesmo água quente. Nós tínhamos um ‘excel’ [enviado pelos Serviços de Ação Social] para marcar as horas em que queríamos tomar banho. Ou seja, se eu quisesse tomar banho às 17h00, tinha que ir ao ‘excel’, marcar e ir para a Nave”, descreve uma estudante.
Uns meses depois, a situação começou a ser parcialmente resolvida, mas persistem falhas. Em muitos casos, é necessário esperar entre “10 a 15 minutos” até que a água aqueça, o que gera constrangimentos no quotidiano dos estudantes e um elevado desperdício de água. E há situações em que residentes dos pisos superiores descem ao primeiro piso para tomar banho, por não terem água quente nos seus andares.
No segundo piso, reservado aos estudantes do sexo masculino, repetem-se algumas das queixas, mas não só. Para além da falta de água quente, apenas dois dos quatro chuveiros estão operacionais - os outros encontram-se assinalados como “Avariado” - o que significa que 14 residentes partilham apenas dois pontos de banho. Um dos residentes aponta, porém, para um problema adicional: precisamente nos dois chuveiros em funcionamento existem janelas voltadas para a rua, sem qualquer proteção ou estores, expondo quem ali toma banho ao exterior. Há ainda relatos de infiltrações nos quartos, ausência total de aquecimento e escassez de estendais de roupa (1 para 14 pessoas).
Também neste bloco, mesmo após as obras de requalificação, persistem dúvidas quanto às condições de acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida, tratando-se de uma residência que, segundo o site da Universidade de Aveiro, “tem condições para alojar alunos portadores de deficiência física”. Filipa Venâncio, estudante utilizadora de cadeira de rodas que reside neste bloco, diz que esperava sentir-se como “em casa”, mas relata múltiplos constrangimentos no dia a dia. Desde uma casa de banho mal preparada, à dificuldade em abrir janelas e estores, passando por uma cozinha com balcões demasiado altos para cozinhar, Filipa considera ser “muito triste” que, após dois anos encerrada para obras, a residência tenha reaberto sem garantir condições adequadas de acessibilidade.
Como se não bastasse, os estudantes referem que a mobília dos quartos permanece a mesma de antes da intervenção, o que indica que a requalificação não contemplou a substituição de mobiliário com quase 40 anos de uso, tendo privilegiado intervenções na fachada, nas janelas e nos espaços comuns.
Na residência ao lado, a R1, também com as obras de requalificação já concluídas, o cenário é distinto. Com muitos estudantes ainda nas primeiras semanas na unidade - vários provenientes de outras residências atualmente em obras -, os problemas continuam a ser descobertos. À exceção da cozinha e das novas janelas, pouco se nota da requalificação no interior da residência.
Persistem espaços e mobiliário bastante degradados: o corrimão das escadas para o primeiro piso está a desprender-se da parede e os detritos vão-se acumulando no chão; as portas mantêm marcas evidentes de décadas de uso; e, apesar da renovação da cozinha, o piso anterior foi mantido e apresenta já um estado avançado de degradação. Há ainda quartos com infiltrações visíveis e, pelo menos num caso, um armário antigo com madeira apodrecida.
De acordo com os relatos recolhidos pela Ria, muitos dos problemas até chegam a ser resolvidos após comunicação pela comissão de residentes, mas de forma temporária: “uma semana ou duas depois, o problema volta”. Uma das estudantes descreve ainda que uma das intervenções coincidiu com a preparação de um vídeo promocional para a página da estrutura de missão “Recuperar Portugal”, associada às obras do PRR. “A empresa [responsável pela reparação] veio aí duas semanas antes [das filmagens] e resolveu os problemas dos quartos que iam ser filmados. Por exemplo, o meu tinha um problema na janela e mudaram-na. (...) Nos quartos que não foram filmados, não mexeram”.
Vice-reitora fala em “avarias a serem resolvidas” e recorda que a UA foi das Instituições de Ensino Superior que “mais projetos apresentou” para melhorar as condições das residências no âmbito do PRR
Ouvida pela Ria, Alexandra Queirós explica que as “avarias” já reportadas no Bloco A1 “decorrem da utilização diária” das infraestruturas e, depois de ter questionado os Serviços de Ação Social (SAS) da Universidade, garante que os problemas “estão a ser resolvidos”. Apesar dos esforços da UA para a melhoria contínua das infraestruturas, a responsável recorda que “há a questão, obviamente, da contratação pública, que por vezes faz atrasar os processos”.
Já sobre as queixas da falta de equipamentos, a vice-reitora realça que “houve um esforço da parte da Universidade de Aveiro - não especificamente no Bloco A1, mas agora olhando para as outras residências e, em particular, as residências de Santiago - para dar mais condições e mais equipamentos aos residentes. Nomeadamente, ao nível da dimensão das cozinhas, que praticamente duplicaram. Duplicando a área da cozinha, duplicam também os equipamentos que faziam parte da cozinha”.
No mesmo sentido, refere que a aposta da instituição foi voltada para o reforço das condições dos estudantes e, portanto, contou com um “investimento muito grande ao nível da sustentabilidade e eficiência energética”. “Onde é que nós focámos a intervenção principal do Bloco A1? Nas fachadas, na caixilharia, na cobertura… numa lógica de tornar o edifício mais sustentável energeticamente e para melhorar a questão térmica”, sustenta.
Alexandra Queirós recorda também que, tratando-se de um processo de reabilitação, “não podemos mudar radicalmente o edifício” e, por isso, o trabalho esteve sempre limitado. Ainda assim, lembra que o PRR foi uma “grande oportunidade que a Universidade abraçou”, tendo sido uma das Instituições de Ensino Superior (IES) que “mais projetos apresentaram, seja para a construção de novas residências, seja para a reabilitação das residências existentes”.
Mais “grave” foi o caso do corrimão no Bloco R1 que, conforme aponta, resulta de “uso indevido por parte de um residente que decidiu levar um equipamento que não está autorizado para o quarto”, tendo-o apoiado na estrutura e causado o dano. Neste caso, “será devidamente aplicado o regulamento das residências”.
No que aos outros problemas diz respeito, a vice-reitora encara com normalidade que haja “situações pontuais que, durante mais ou menos um mês, vão sendo identificadas e corrigidas pelo empreiteiro”. Como o Bloco R1 só tem portas abertas há poucos dias, a vice-reitora diz mesmo que é positivo o levantamento dos problemas que a Ria e a direção da AAUAv fizeram junto dos residentes, porque dessa forma também pode passar mais informações à “fiscalização” da obra.
Durante a conversa com a Ria, a responsável justifica o processo de requalificação das residências está mais suscetível a constrangimentos, uma vez que, “nas residências de Santiago, [...] não podemos - como fizemos, por exemplo, no Bloco 1 - fechar a residência e [os estudantes] vão para lá só depois da obra feita. Temos que ir faseando, o que eu compreendo que possa trazer [problemas]. (...) Mas não é viável, em termos de empreitada, fecharmos toda aquela área da residência de Santiago, que são 14 blocos, para fazer a intervenção toda ao mesmo tempo”.
No que respeita ao alcance da intervenção, Alexandra Queirós sublinha ainda que o financiamento do PRR implicou uma comparticipação por parte da Universidade de Aveiro, traduzida num esforço adicional suportado por receitas próprias da instituição. Nesse contexto, a vice-reitora admite que foi necessário definir prioridades na execução das obras, orientando o investimento para áreas consideradas mais estruturais, como a eficiência energética e a reabilitação exterior dos edifícios. Uma opção que, reconhece, acabou por deixar por resolver vários problemas no interior das residências, nomeadamente ao nível de equipamentos, mobiliário e outras condições reportadas pelos estudantes.
Por último, Alexandra Queirós nota ainda que o investimento da Universidade nestas residências não acaba no PRR: “A aposta na manutenção das residências é contínua - não é uma coisa que se faz agora e depois se fica mais não sei quantos anos sem fazer. Nós queremos ir fazendo à medida do que é possível. Estamos a fazê-lo e vamos continuar a fazê-lo”.
Joana Regadas, “alarmada” com relatos, critica “falhanço na gestão de expectativas” da Universidade de Aveiro
A presidente da direção da AAUAv diz à Ria que, apesar de estar consciente de que a intervenção podia ter sido apenas “superficial”, não estava a par da dimensão dos problemas relatados: “Acho que estávamos cientes de que a intervenção que ocorreu não correspondia às necessidades, mas estamos bastante alarmados com os relatos que recolhemos” durante as visitas às residências.
A dirigente estudantil não deixa de sublinhar que, tratando-se de “intervenções estruturais”, alguns dos problemas agora conhecidos são razão para “alarme”. É o caso das infiltrações que, entende, “dada a humidade que existe em Aveiro, deveria ser uma das principais preocupações”.
Para além de referir que já tem alertado para o facto de o mobiliário das residências não ter sido renovado com a intervenção, Joana Regadas confessa que não sabia das questões levantadas em relação à falta de água quente. A presidente explica que, aquando da polémica da “infestação de formigas” em algumas das residências da Universidade, houve menções a problemas de humidade, mas que o problema das casas de banho não tinha ainda chegado à AAUAv. “Se nos tivesse chegado, obviamente que não estaríamos agora a falar sobre as residências. Já o estaríamos a fazer mais cedo”, remata.
A Associação Académica conduziu no ano passado um inquérito aos residentes - inquérito que procura agora um reforço de respostas - em que os principais problemas apontados se prendiam com “desgaste dos edifícios e do mobiliário, má utilização, problemas com equipamentos como frigoríficos e micro-ondas”. Tendo por base o resultado desse inquérito, a AAUAv pretende, pela primeira vez desde 2022, fazer um relatório sobre o estado das residências - que será tornado público brevemente.
Para além das residências universitárias de Aveiro, Joana Regadas conta que a associação foi também conhecer a realidade do alojamento estudantil de Águeda e que, a par do inquérito, foi também feita uma visita e um acompanhamento com todas as comissões de residentes e com algumas das encarregadas das residências.
Esta reportagem insere-se numa parceria estabelecida entre a Ria - Rádio Universitária de Aveiro e a direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv) e tem resultado, ao longo do último ano, num conjunto de artigos sobre temas que afetam diariamente a vida dos estudantes da UA. Todas as reportagens são acompanhadas por um cartoon satírico que pretende representar a problemática abordada. Se tens sugestões de temas que gostarias de ver abordados envia um email [email protected].
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