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“Crónica de uma morte anunciada”: Squash às portas da extinção, em Aveiro, sem soluções à vista

O desmantelamento dos campos de squash foi recebido pelos atletas da modalidade e o Beira-mar como um verdadeiro “soco no estômago”. A Rádio Ria falou com responsáveis da Universidade de Aveiro e do clube aveirense para perceber o porquê da decisão e o que poderá ser o futuro da modalidade na cidade.

“Crónica de uma morte anunciada”: Squash às portas da extinção, em Aveiro, sem soluções à vista

De um lado a reorganização de um recém-eleito Reitor, do outro a surpresa completa de um clube que fica agora em risco de perder uma modalidade. No mês passado, foi anunciado que os dois campos de squash localizados na Universidade de Aveiro (UA) foram desmantelados. Assim, Aveiro deixou oficialmente de ter courts para a prática da modalidade olímpica, onde a equipa do Beira-mar treinava.

Para o coordenador do Núcleo de Desporto e Lazer (NDL) da UA, Tiago Lourenço o desaparecimento destes campos traduz uma evolução natural do novo ciclo reitoral. “O Professor Artur Silva estando agora em início de mandato traz o que entende de novas ideias para a organização da Universidade de Aveiro, onde se inclui a matéria desportiva”, aponta à Ria.

Mas esta decisão não partiu sem antes acontecer uma consulta aos “números, sobretudo, a participação, adesão e frequência dos dois courts de squash”. A conclusão obtida pela UA foi a de que “80% a 90% dos utilizadores pertenciam à secção do Beira-mar” contrastando com apenas “um ou dois estudantes” que praticavam a modalidade. Deste modo, concluiu-se que o decréscimo “muito acentuado” ia contra a “missão da Universidade que é criar oportunidades para os estudantes e para a restante comunidade académica”.

Segundo Tiago Lourenço esta não é uma realidade apenas da UA, existe uma “tendência nacional de decréscimo significativo da prática de squash”. À Ria, explica que houve uma candidatura para a “organização de um campeonato nacional universitário de squash na presente época desportiva”, mas que não foi para a frente por dois motivos: apenas tinham “três atletas que se disponibilizaram para representar a Universidade de Aveiro” e “a nível nacional, das restantes universidades, não tivemos o mínimo [de atletas]”.

A decisão já não volta atrás e o desmantelamento dos dois courts já foi executado. Ainda sem avançar dados concretos, o coordenador do NDL adianta que aquele espaço “vai ser convertido numa nova sala para a prática de outras atividades desportivas”. Para além da nova “oferta de atividades”, o ginásio vai ser “relocalizado” no Aristides Hall. A ideia é conseguir “potenciar ainda mais o aumento dos praticantes”, não só para “estudantes atletas”, como para “todos os funcionários, sejam eles professores, investigadores ou técnicos”.

A aposta no desporto não fica por aqui. Tiago Lourenço adianta que “há uma intenção de criar um novo espaço desportivo, futuramente, na Universidade, não para a modalidade de squash, mas para outras”.

“Se não encontrarmos uma alternativa deixará de haver squash em Aveiro”

O cenário é menos otimista pela lente do Beira-mar. O clube aveirense e a UA cruzam caminhos no squash desde 1994, altura em que a prática da modalidade já decorria no Aristides Hall. Agora, o presidente do Beira-mar, Nuno Quintaneiro, confessa, em declarações à Ria, que a “continuidade da modalidade depende muito de conseguir ter espaço para treinos e jogos”.

A notícia do fecho dos dois courts chegou de forma “inesperada”. “Tinha existido uma renovação dos campos há pouco tempo e um investimento que foi feito pela Universidade, na qual a secção de squash do Beira-mar participou, na medida em que integrou um aumento de custo da utilização dos campos, (…) e, portanto, nada fazia antever este desfecho”, lamenta. Ainda assim, ressalva que a UA “é dona do espaço e soberana nas suas opções”, restando ao clube aveirense “respeitar e apelar à colaboração possível”.

Para o presidente beiramarense todo o processo aconteceu “muito rápido”. “Desde a comunicação ao desmantelamento dos campos ao encerramento dos mesmos. Ainda por cima, coincidiu com um período de férias. Tudo isto atrasa todo o processo de busca de soluções”, explica à Ria.

Nuno Quintaneiro relata que neste momento o clube procura “algum espaço alternativo onde se possa construir ou aproveitar os materiais dos campos da Universidade que possam ser aplicados no novo espaço”. Todos os esforços são válidos, uma vez que, admite o presidente do Beira-mar: “Se não encontrarmos uma alternativa deixará de haver squash em Aveiro”.

“Ninguém compreende, ninguém aceita. Toda a gente se revolta”

“Imensa tristeza e muita desilusão à mistura”. A reação do responsável da secção de squash do Beira-mar, Luís Monteiro, não deixa esconder o choque perante a notícia do desmantelamento dos courts. À Ria, conta que tentou “contrariar, na medida do possível, mas comunicaram que a decisão era irreversível”.

Apesar de “respeitar” a decisão da Universidade de Aveiro, Luís Monteiro fala de uma deliberação “inesperada”. “Foi um soco no estômago, não estávamos minimamente à espera. Após quatro meses e um orçamento de 30 mil euros que foram gastos nada fazia prever que isto pudesse acontecer”, justifica o responsável.

Os campos de squash estavam a ser “utilizados na sua plenitude”. Luís Monteiro assume que existia um “horário nobre” – “do meio-dia à uma da tarde e das seis às oito” da noite – e que durante estas horas a “taxa de utilização era intensíssima”. Atualmente, praticavam a modalidade “cerca de 50 pessoas”, dos quais “24 integram a comunidade académica” – onde se incluem “não só alunos, mas também funcionários, docentes e ex-alunos”.

O responsável da secção de squash do Beira-mar, recorda que na “Taça UA de squash no ano passado participaram 36 alunos”, algo que vê como uma “adesão significativa”. Não obstante, Luís Monteiro admite que “não temos mais estudantes porque as próprias taxas de utilização dos courts são muitas vezes incomportáveis para eles. Os estudantes, na maioria dos casos, lutam com dificuldades económicas e o aluguer dos courts não é propriamente barato”.

Os timings para a retirada não foram os melhores. As competições avizinham-se e o clube que participa em “competição local, regional, nacional e até internacional” vê-se “sem espaço para treinar” em Aveiro. Mesmo em outras locais dentro do distrito, a “lotação está praticamente esgotada”, e torna-se pouco viável pela “deslocação ao final do dia para ir treinar”.

Luís Monteiro conta que “demorou muitos anos a construir um grupo coeso, que realmente se mantivesse”. Alcançado o feito, o “receio que este grupo venha a desaparecer” é inquietante. As reações dos atletas também demonstram preocupação. “A maior parte das pessoas ficam estupefactas com a decisão. Ninguém compreende, ninguém aceita. Toda a gente se revolta, principalmente, depois de terem feito as obras de recuperação pelas quais lutamos durante anos e anos. Foi uma desilusão tremenda”.

A “curto prazo” não existem “realmente soluções”. Como “medidas alternativas” estão a “construção de um novo espaço, mas essa construção vai demorar com certeza um, dois anos”, explica à Ria. A “construção de courts” poderia ser levada a cabo “no próprio estádio”, no entanto, Luís Monteiro ressalva que seria necessário um “orçamento avultado”. Perante o atual cenário, todo o tempo é pouco para manter unido um grupo que demorou tanto a se constituir e os “jogadores que fazem competição terão que ir treinar para outros locais” caso não exista alternativa.

Manter-se otimista é “muito difícil”. O responsável de squash do Beira-mar considera que se vive uma “crónica de uma morte anunciada” na qual “dificilmente conseguiremos sobreviver”.

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