Reitor Artur Silva toma posse com garantias de diálogo e a querer voltar a UA para o mundo
O reitor Artur Silva tomou posse como novo reitor da Universidade de Aveiro (UA) na tarde de hoje, dia 20. No seu discurso, garantiu que os próximos passos vão ser dados com “diálogo” e de forma “transparente” e disse que “o desafio do próximo ciclo não será apenas produzir mais conhecimento, mas garantir que esse conhecimento contribua efetivamente para responder aos problemas concretos das pessoas, das empresas, das cidades e do país”.
Gonçalo Pina
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Perante uma casa cheia na ‘Nave’ Caixa UA, Artur Silva foi o último a fazer uso da palavra. Antes de mais, o discurso começou com os agradecimentos naturais à “referência” Paulo Jorge Ferreira, que agora cessa o mandato de reitor, bem como a toda a restante equipa reitoral, ao presidente do Conselho de Curadores, ao presidente do Conselho Geral, aos antigos reitores, ao presidente da Associação de Antigos Alunos da Universidade de Aveiro (AAAUA) e à presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv).
Numa nota introdutória, Artur Silva citou Miguel Torga – “O universal é o local sem paredes” – e recordou o falecido arquiteto Nuno Portas, que desenhou a expansão do campus, para frisar a ideia “moderna” de “universidade sem muros, integrada na cidade, feita de encontros, de relações humanas e de proximidade”.
Segundo aponta, o tempo que vivemos impõe “desafios societais cada vez mais complexos” que não podem ser respondidos apenas por uma área científica, pelo que é importante que “o conhecimento não permaneça fechado sobre si próprio, mas que contribua para compreender melhor os problemas do mundo e para construir respostas com impacto económico, social, cultural e institucional”.
É precisamente nesse sentido que, depois de pintar um quadro dos desafios que se impõem – desde o crescimento dos níveis de ansiedade e solidão entre jovens, à “polarização” da sociedade e à “sobreposição do ruído” sobre o pensamento informado” -, Artur Silva concretiza que “o verdadeiro desafio do nosso tempo não é apenas tecnológico: é saber se continuaremos capazes de colocar o progresso científico ao serviço do desenvolvimento humano, da liberdade intelectual, da coesão social e do bem comum”.
Voltando-se para a Universidade de Aveiro, o novo reitor recordou que, no desenho do seu programa eleitoral, colocou como primeiro eixo estratégico o “reforços do bem-estar e das condições de vida da Universidade”. “Não foi por acaso”, aponta, salientando que “não há excelência académica sem condições para estudar, investigar e trabalhar com dignidade”.
Tendo em conta aquilo que foi preconizado para esse eixo, Artur Silva mencionou o reforço das respostas ao nível do alojamento, da saúde mental, da inclusão, da acessibilidade, do apoio social, mas também a necessidade de “proteger o tempo académico” – uma das principais preocupações que manifestou na candidatura.
O compromisso passa por “reduzir burocracias, simplificar processos e libertar tempo para […] ensinar, criar e cooperar”. “A modernização institucional não pode significar mais camadas de complexidade. Deve significar mais qualidade, mais eficiência e mais tempo útil para as pessoas”, sublinha.
Artur Silva não esqueceu os “grandes desafios do nosso tempo”, como a transição digital, a transição ambiental, a sustentabilidade ou a coesão social, e referiu a necessidade de que a UA se afirme como uma “universidade pedagogicamente distintiva, preparada para os desafios da inteligência artificial, da digitalização e da aprendizagem ao longo da vida”.
“Esse caminho passa também por continuar a atrair talento, promover o sucesso académico, reforçar a mobilidade internacional e garantir que nenhum estudante veja o seu percurso limitado pela sua condição económica ou social. Exige-se, por isso, uma universidade com preocupação social, aberta ao mundo e capaz de reforçar a sua presença internacional sem perder a proximidade ao território, às comunidades e às instituições com quem construiu a sua identidade ao longo das últimas décadas”, considerou Artur Silva.
No campo da investigação e da inovação, em que o novo reitor desempenhou funções enquanto vice-reitor ao longo dos últimos oito anos, apontou que o caminho deve passar pelo aprofundar de redes colaborativas, pelo reforço da cooperação internacional e pela consolidação da capacidade de transformar conhecimento em valor para a sociedade.
Por outro lado, Artur Silva definiu que a comunicação deve ser uma “prioridade” – área sobre a qual se tinha debruçado no seu Programa de Ação com duras críticas ao trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela UA. Na sua ótica, a comunicação não serve apenas para “difundir informação”, é também importante para “criar coesão, reforçar a participação da comunidade e afirmar a Universidade no espaço público”.
Tendo em consideração que o momento em que toma posse coincide com uma série de mudanças estruturais no ensino superior e no sistema científico – a entrada em vigor do novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) e a criação da Agência para a Investigação e Inovação (AI²) -, Artur Silva recorda que vai ser exigida “capacidade de adaptação, visão estratégica e um forte sentido institucional” à UA.
Com isto em mente, o novo reitor definiu três objetivos a ser concretizados até ao início do próximo ano: a adaptação da Universidade de Aveiro ao novo RJIES, a construção do Plano Estratégico para 2027-2030 e a revisão do Regulamento Orgânico dos Serviços da Universidade de Aveiro. Associado a estes objetivos, Artur Silva deixou também o compromisso de que o trio de processos se fará “com diálogo, participação e forte envolvimento das diferentes unidades orgânicas e de investigação, serviços e estruturas da Universidade”.
Não obstante, deixa a nota de que “não alimenta a ilusão de que existirá consenso absoluto em todas as matérias” e, por isso, apenas garante “processos transparentes, participados e mobilizadores, capazes de reforçar a confiança coletiva no futuro da nossa Universidade”.
Numa nota pessoal, de voz embargada, Artur Silva deixou agradecimentos à família, à esposa e, entre outras pessoas que fizeram parte do seu percurso profissional, à própria Universidade, onde “construiu grande parte da sua vida”. O reitor recordou que o seu percurso “não foi feito de facilidades” e que, “como muitos estudantes que ainda hoje chegam à universidade com esforço e incerteza quanto ao seu futuro, também conhece o peso das dificuldades económicas”.
Joana Regadas exigiu que UA continue a ser “a melhor” no futuro; Todos deixaram agradecimentos a Paulo Jorge Ferreira
O discurso de Joana Regadas, presidente da direção da AAUAv, começou por exaltar a Universidade de Aveiro como “a melhor”: no desporto, na inovação pedagógica, na internacionalização, na promoção da cultura, na “promoção de ideias brilhantes” e a “pensar bem-estar”. Tudo isto apesar de condições adversas, como, considera, o “financiamento imprevisível” e insuficiente, a “falta de reconhecimento da carreira de docente e investigador” e de “apoios aos jovens investigadores”.
Segundo afirma, para “ser os melhores foi preciso desafiar as probabilidades” e “não ter medo de redefinir o sucesso”. “Disseram-me uma vez que o sucesso […] se deveria medir não pelas páginas infindáveis de currículo ou participações, não por rankings ou pelas áreas que dominamos, mas sim pelo brilho dos olhos nas pessoas que nos rodeiam quando terminamos”, disse a presidente, que se dirigiu de seguida a Paulo Jorge Ferreira para dizer que “não existem olhos nesta nave que neste momento não brilhem”.
Sobre o papel do ex-reitor e equipa reitoral, Joana Regadas destacou a “clara prioridade na comunidade UA, nos estudantes”, e referiu que “ajudaram a mudar muito mais do que Portugal: quebraram fronteiras, mudaram gerações, romperam com estigmas e deram a voz a cada um dos estudantes que por esta casa passou”.
Já a olhar para a frente, a dirigente estudantil frisou que “ser o melhor agora de nada nos basta” e que “é preciso sermos o melhor no futuro”. Conforme acredita, “preparar esse futuro é reconhecer que não há lugar para conformismos num meio universitário, […] que o romanticismo das primeiras vezes e primeiras conquistas de nada vale se ficarem apenas inscritas em papel e não passarem para aqueles que vivem e constroem a UA, […] que a informação tem de estar disponível para todos desde o primeiro dia, […] que as instituições de ensino superior se têm de antecipar à mudança das gerações, […], que as gerações mudam, as necessidades de Portugal, da Europa e do mundo se alteram, […] que não é aceitável esperar 95 dias para ter a primeira consulta de psicologia” e “que a atratividade para os 2º ciclos não é suficiente, que tantos e tantos estudantes não são incluídos por falarem uma língua diferente ou por percecionarem o ambiente onde estão inseridos de uma forma singular”.
“Importa relembrar que um futuro sem questões nunca existirá. Uma universidade sem dúvidas, inconformismos, paixão e estudantes nunca poderá ser imaginada. Precisamos de um futuro com espaço para primeiras vezes, mesmo nas repetições”, rematou.
Antes da estudante, António Correia de Campos, presidente do Conselho de Curadores, também deixou uma palavra de agradecimento a Paulo Jorge Ferreira pelo que “deixou à instituição, à cidade e ao sistema de ensino”.
Sobre a Universidade, manifestou preocupações com a necessidade de ter sempre presentes “fatores de mudança”, mesmo que eles deixem “traumas”. Para além de citar Camões – “Todo o mundo é composto de mudança,/ Tomando sempre novas qualidades” - , o presidente do Conselho de Curadores reiterou que “a estabilidade é uma das condições da longevidade, mas essa longevidade tem de ser questionada sempre pela inovação, pela modernidade, pela mudança […]”.
Por seu lado, Paulo Macedo, presidente do Conselho Geral da Universidade de Aveiro, lembrou que é preciso que a instituição se mantenha como “forte e credível” para resistir e diz que é preciso, por isso, “ir para lá do horizonte”.
Também com uma palavra de agradecimento e de reconhecimento a Paulo Jorge Ferreira, o responsável do Conselho Geral enalteceu ainda a “clareza” dos compromissos assumidos pela candidatura de Artur Silva.
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