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Paula Urbano (PS): “Não consigo identificar uma mudança que tenha impactado a vida dos aveirenses”

A presidente da Comissão Política concelhia de Aveiro do PS, Paula Urbano Antunes, foi a primeira convidada para o ciclo de entrevistas de balanço ao primeiro ano do mandato autárquico. Durante quase uma hora de conversa, a vereadora socialista apontou o dedo à falta de medidas do executivo municipal no campo da habitação, assumiu que a solução do metrobus “pode funcionar” em Aveiro e identificou o acordo entre o Chega e o PSD como o momento mais relevante do mandato.

Paula Urbano (PS): “Não consigo identificar uma mudança que tenha impactado a vida dos aveirenses”

A Ria está a levar a cabo um ciclo de entrevistas de balanço do primeiro ano do mandato autárquico com os líderes dos partidos com assento parlamentar na Assembleia Municipal de Aveiro (AMA). Lê e ouve aqui a entrevista a Paula Urbano Antunes, presidente da Comissão Política concelhia de Aveiro do Partido Socialista.

Ria: A Ria começa um ciclo de entrevistas com os responsáveis políticos dos partidos com assento na Assembleia Municipal de Aveiro (AMA) para fazer o balanço ao primeiro ano deste mandato autárquico. Hoje contamos com a presença da vereadora Paula Urbana Antunes, presidente da Comissão Política Concelhia (CPC) do Partido Socialista e, antes de mais, Paula, queria agradecer-lhe por ter aceitado o nosso convite para estar aqui e para inaugurar este ciclo de entrevistas.

Antes de discorrer sobre o mandato autárquico por ordem cronológica, que é um bocadinho aquilo que vamos fazer ao longo desta entrevista, eu gostava de lhe pedir que elegesse aquele que foi o momento mais marcante, para o bom, para o mau ou para o mais ou menos - aquele que foi o momento deste primeiro ano de Luís Souto de Miranda como presidente da Câmara Municipal de Aveiro que mais marcou o discurso autárquico e a política autárquica aqui em Aveiro.

Paula Urbano (PS): Boa tarde, Gonçalo. Eu é que agradeço o convite que nos dirigiram e o facto de podermos estar aqui.

Relativamente a essa questão de eleger o momento do mandato autárquico, eu gostaria muito de poder eleger um momento que tivesse a ver, por exemplo, com algumas ações para minorar o problema grave que temos em Aveiro e que tem a ver com a habitação. Não é só em Aveiro, é no país, mas o Partido Socialista foi alertando sempre para essa questão e gostaria muito que tivesse marcado já este primeiro ano de mandato com alguma ação / algumas ações na tentativa de resolver esse problema.

Lamentavelmente não o poderei fazer. O momento mais impactante deste primeiro ano do mandato, francamente, não consigo identificar nada, nenhuma mudança que tenha sido impactante na vida dos aveirenses e que tenha melhorado a sua condição.

Claro que houve um momento importante, que foi o momento em que o presidente da Câmara decidiu fazer uma coligação com o Partido Chega, por todos os motivos que são conhecidos. É uma coligação que achamos estranha, no mínimo, até por tudo aquilo que foi dito em campanha eleitoral pelo próprio Chega acerca do presidente da Câmara. Foi, de facto, um momento marcante deste primeiro ano do mandato.

Assim de repente não consigo elencar nem identificar outros momentos que tenham sido importantes e, sobretudo, que tenham sido impactantes na vida dos aveirenses.

Ria: Eu vou regressar a este primeiro momento, portanto, o momento da campanha eleitoral, ainda quando se discutiam as principais propostas. Até porque foi colocada em cima da mesa uma coligação “anti-natura”, dizia na altura o agora presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Luís Souto de Miranda:

Intervenção de Luís Souto, presidente da CMA, durante o debate da Ria entre todos os candidatos dos partidos com assento na AMA (29 de setembro de 2025)

Luís Souto: “Não somos como estes colegas aqui dos… enfim, da coligação que nós não estávamos à espera, mas que está em campo neste momento, que só assusta os investidores. Nós queremos captar os investidores, nós não andamos aqui a fazer climas de suspeição sobre todo o tipo de investimento público e privado”.

Ria: Paula, indo primeiro a esta coligação de que falava o agora presidente Luís Souto, eu queria tentar perceber porque é que esta coligação foi possível à direita e não à esquerda? Houve mais abertura do Chega para dialogar do que do PS? O PS foi menos construtivo?

Paula Urbano (PS): De todo, Gonçalo. O PS sempre teve uma atitude construtiva. Desde o início deste mandato, nunca fomos força de bloqueio, muito pelo contrário. Agora, não dizemos de forma acéfala que sim a tudo aquilo que é proposto. Questionamos, pedimos transparência, pedimos informação e obviamente que isso nunca foi bem aceite, porque quem lidera a Câmara Municipal de Aveiro acha que está mandatado, embora não…

Ria: Mas já agora pergunto-lhe se o Chega tem feito isso – até porque quando o PS propôs a revogação do Plano Pormenor de Cais do Paraíso, que é um assunto a que daqui um bocadinho já iremos, o Chega votou ao lado do PS.

Paula Urbano (PS): Sim, sim, o Chega votou ao lado do PS e penso que era a isso que o presidente Luís Souto se estava a referir nas declarações que ouvimos anteriormente. Estava-se a referir ao facto de se assustarem os investidores e, portanto, isso queria dizer que o projeto para o Cais do Paraíso era um projeto de investimento que Aveiro deveria agarrar. O Chega e o Partido Socialista, em sede de campanha eleitoral, estavam de acordo relativamente a essa questão, assim como depois estiveram quando o Partido Socialista levou à reunião de Câmara a proposta de revogação do Plano Pormenor do Cais do Paraíso.

Ria: De onde é que parte esta ideia, portanto, de que o Partido Socialista seria menos dialogante do que o Chega? Portanto, o presidente acusou várias vezes o PS de ser força do bloqueio e nunca o fez com o Chega.

Paula Urbano (PS): Provavelmente porque o Chega, a partir do momento em que tomou posse, acabou por ir concordando com as propostas que iam sendo apresentadas e concordando com a linha que o presidente da Câmara seguiu. E quem sabe se haveria já negociações para o acordo que depois mais tarde se veio a fazer (e também ninguém conhece quais são os termos desse acordo).

O Partido Socialista nunca foi força do bloqueio e isso pode-se ver nas reuniões de Câmara, nas votações em que o PS maioritariamente vota favoravelmente. Há um ponto ou outro em que se abstém, pouquíssimas vezes votou contra e quando vota contra é de forma sustentada. Agora, o Partido Socialista pensa, propõe, pede informações, pede mais transparência em alguns processos e isso não é do agrado do senhor presidente da Câmara, que acha que ninguém lhe deve pedir contas. Mas um presidente da Câmara, assim como qualquer gestor público, tem de prestar contas, sim, e o papel da oposição também é pedir essas contas em nome de quem a elegeu.

Os aveirenses que nos elegeram entenderão que temos de fazer esse papel de pedir contas, de ir solicitando informações e de ir fazendo as nossas propostas. E muitas das propostas que nós temos feito eram propostas passíveis de serem levadas a cabo e de serem inclusive até implementadas, mas isso não é entendido e é mais fácil dizer que o PS é força do bloqueio. O PS não é força do bloqueio e isso prova-se facilmente…

Ria: Luís Souto vai mais longe e diz mesmo que o PS, muitas vezes, sobrecarrega os serviços da Câmara Municipal com pedidos de informação. Isso não acontece? Não existem estes entraves sucessivamente colocados, mesmo que de forma, no entendimento do PS, construtiva?

Paula Urbano (PS): Mas vamos cá ver uma coisa: nós temos o dever de pedir informação e temos o direito que essa informação nos seja transmitida de forma clara. Se há assuntos que vão à reunião de Câmara e sobre os quais nós temos de deliberar e temos que tomar uma decisão, nós temos de ter toda a informação que nos permita votar de forma consciente e de forma que não venhamos inclusive a ter problemas no futuro, porque nós podemos ser responsabilizados pelas decisões que tomamos. Isso a mim parece-me normal, assim como me parece normal que quem gere a causa pública preste toda a informação que lhe é solicitada.

Isso não acontece porque, provavelmente, o senhor presidente acha que está acima de tudo e de todos e que pode tomar as decisões sem prestar contas. Não, tem de nos prestar contas e nós pedimos a informação que entendemos que devemos pedir e é normal que nos seja facultada. Nós somos eleitos, nós somos vereadores e não tomamos decisões sem termos a informação toda do nosso lado. Isso não constitui bloqueio algum ao normal funcionamento dos serviços da Câmara.

Isso é de facto uma falácia e o senhor presidente gosta muito de dizer isso e diz isso muitas vezes, porque era muito mais agradável para ele dizermos a tudo que sim e não questionarmos nada. Nós estamos lá também para questionar e não abdicaremos disso até ao final do mandato.

Ria: Vou então voltar agora ao Plano Pormenor do Cais do Paraíso. Eu recordo que, na campanha eleitoral, Alberto Souto, que era o cabeça-de-lista do Partido Socialista, chegou a dizer que se podia falar num “perfume a lavagem de dinheiro”. Depois, já durante o mandato autárquico, foi proposta a revogação do Plano – revogação aprovada em sede da Câmara Municipal, como dizia há pouco, com o voto favorável também do vereador do Chega, Diogo Soares Machado, mas que depois não passou na Assembleia Municipal.

Este assunto, que ainda é um assunto que provavelmente voltará à agenda política mais à frente e que agora está em suspenso, não é um assunto sobre o qual os eleitores já se pronunciaram nas eleições ao ter escolhido a ‘Aliança com Aveiro’?

Paula Urbano (PS): Relativamente a esta questão. De facto, como o Gonçalo disse - e bem -, neste momento essa questão está suspensa. E está suspensa porque houve uma intervenção também do Tribunal relativamente à questão do Cais do Paraíso. Não vamos estar aqui, sinceramente, não vou estar aqui a perder muito tempo com isso. Acho que é um assunto que, por enquanto, estando suspenso, não vale a pena conjeturarmos sobre o mesmo.

É claro que aquele local como está, não está bem. Somos todos a favor de uma requalificação do mesmo, não somos é a favor da construção de um hotel naquele local. E, pelos vistos, os contornos não são assim tão claros, tanto que o Ministério Público interveio em relação a este processo.

Como disse, neste momento está suspenso e para a frente é que é o caminho, não vamos ficar aqui agarrados a essa questão. Fizemos aquilo que tínhamos de fazer em sede de reuniões de Câmara. A Assembleia Municipal, como sabe, não votou favoravelmente a revogação do Plano de Pormenor, mas depois o Tribunal e o Ministério Público vieram fazer aquilo que o PS havia proposto. Vamos ver como é no futuro.

Ria: Acredita que, não tendo sido a ação do Partido Socialista, o Ministério Público se teria mexido neste sentido. E da mesma forma também lhe pergunto, como foi acusado do lado da ‘Aliança’ algumas vezes em relação ao Partido Socialista em outros aspetos, se não podemos estar aqui perante um caso da judicialização da política.

Paula Urbano (PS): Não me parece, até por causa do timing. Obviamente que isto já estava sob investigação à data em que nós fizemos a proposta na Câmara Municipal, portanto não me parece que uma coisa esteja relacionada com outra.

Ria: Mas o primeiro momento em que o Ministério Público intervém, que é no pedido de informação ao, na altura, presidente da Câmara, José Ribau Esteves, é ainda antes das eleições autárquicas - sendo que esse pedido não foi conhecido até depois das eleições. O Ministério Público intervém ainda antes da ida às urnas.

Paula Urbano (PS): Sim, sim, e quando vai à votação na Assembleia Municipal a proposta que o Partido Socialista tinha já feito aprovar em reunião de Câmara, a Câmara Municipal já sabia desse pedido de informação por parte do Ministério Público. Ainda assim, a ‘Aliança’ com Aveiro votou no sentido da não revogação do Plano de Pormenor.

Obviamente que pode ter sido levantada a polémica durante a campanha eleitoral e o Ministério Público pode ter recebido alguma queixa. Sinceramente não sei, mas não terá sido só o facto de o Partido Socialista ter falado no assunto que levou a haver um pedido de informação.

Ria: Eu mesmo assim insisto. A forma como foram levantadas suspeitas - recordo mais uma vez a ideia do “perfume a lavagem de dinheiro” - não pode levantar a questão da judicialização da política?

Paula Urbano (PS): Não lhe posso dizer nem que sim, nem que não, Gonçalo. Claro que sim, que pelo facto de politicamente o assunto ter sido discutido e ter sido debatido, a Justiça pode ter ficado alerta, mas não lhe posso dizer que há uma relação direta entre uma coisa e outra.

Ria: Este é um investimento que, no entendimento do atual executivo e do anterior, vem para suprir uma falha em Aveiro, uma falha a nível hoteleiro. Existem poucos hotéis, nomeadamente hotéis de luxo que possam servir a alguns eventos que aconteçam tanto em Aveiro como no Porto ou à volta, e portanto, a cidade não está preparada neste momento para esse tipo de eventos.

Eu queria saber… o PS já disse várias vezes que não tem nada contra a existência de hotéis e prédios construídos em altura, aquilo contra o que o PS está é contra a localização e todos os contornos deste processo em concreto. Nesse sentido, eu queria saber se o Partido Socialista tem alguma solução alternativa.

Paula Urbano (PS): Para aquele local?

Ria: Não necessariamente para aquele local, mas para que esta questão do turismo e deste turismo muito concreto em Aveiro, ara que as falhas identificadas pelo executivo possam ser supridas. Mas, já agora, também posso estender a pergunta para saber que alternativa é que o PS propõe para aquele local.

Paula Urbano (PS): Obviamente que aquele local precisa de ser requalificado e sobre isso acho que qualquer aveirense não tem a mínima dúvida. Agora, será muito mais interessante para Aveiro que aquele local possa ser um local para usufruto da população e um hotel de cinco estrelas não seria para usufruto dos aveirenses. Obviamente que há ganhos indiretos, mas diretamente não seria para os aveirenses usufruírem.

Agora, para requalificar o local, acho que deve ser feito um estudo que nos indique quais são os serviços, quais são as infraestruturas que poderão ser mais interessantes para aquele local. Tem uma frente ria absolutamente extraordinária, tem um horizonte quase infinito de uma enorme beleza e importa que os aveirenses possam gozar e possam usufruir do que a natureza nos deu de forma tão generosa.

Relativamente à questão do turismo em Aveiro: obviamente que é uma questão importante, mas é uma questão importante e que deve ser olhada dentro de uma estratégia. O Partido Socialista, para as Grandes Opções do Plano (GOP) de 2026, uma das propostas que fez foi precisamente a elaboração de uma Estratégia Municipal para o Turismo, porque o turismo em Aveiro, já todos devemos ter percebido, precisa de aprender muita coisa com outras cidades e com outros locais. Precisa de implementar muitas outras coisas também, diferentes daquilo que temos neste momento.

Neste momento, o turismo que temos em Aveiro são pessoas que vêm em autocarros, que param no Rossio, dão uma voltinha de moliceiro, andam por ali e já está. A maioria das pessoas que vêm a Aveiro é isso que fazem e a Aveiro precisa de se dotar de algumas infraestruturas que possam, de facto, servir o turismo e os turistas. Mas também precisa, ao mesmo tempo, de pensar na qualidade de vida que os aveirenses devem ter e que, muitas vezes, por conta do turismo desordenado que vamos tendo nos últimos anos, não têm.

Qualquer um de nós já teve a experiência de, num fim-de-semana, se deslocar à zona do Rossio, das pontes, do bairro da Beira-Mar… e tem uma enorme dificuldade em se movimentar. Tem um espaço público que não está cuidado, tem muito lixo, tem ali uma série de constrangimentos. Obviamente que há ganhos para o comércio, há ganhos para a restauração e somos a favor de tudo isso, mas a Aveiro é muito mais do que aquela zona da cidade e, por isso, um Plano Estratégico para o Turismo é fundamental.

Foi a única proposta, das propostas que o Partido Socialista apresentou para as Grandes Opções do Plano (GOP) de Orçamento de 2026, que foi aprovada pela Câmara, mas até hoje, que saibamos, ainda não está escrita uma linha sobre esse assunto. Nós temos que olhar para o turismo não só como uma indústria, entre aspas, que nos faz ganhar dinheiro rápido e [de forma] aparentemente fácil - não o é, de todo -, mas como algo que nos faz ganhar dinheiro, mas de forma sustentável. E que aqueles que vivem em Aveiro, os cidadãos de Aveiro, não olhem os turistas como alguém que está a invadir o seu espaço e cujo retorno acaba por ser muito pouco para a maioria dos cidadãos.

Ria: Mas, já agora, pergunto-lhe, Paula, esta estratégia deve passar por onde? Porque já percebi, não deve ser de forma desordenada como acontece até agora, mas continua a ser um setor importante e que se deve espalhar para além daquilo que é o centro principal. Então vamos para onde a partir daqui?

Paula Urbano (PS): Podemos ir para todo o Município de Aveiro. Não nos podemos esquecer que temos uma praia fabulosa em São Jacinto e que deve fazer parte dessa estratégia, porque não é fácil quem visita Aveiro deslocar-se até São Jacinto e a maior parte das pessoas não vai lá. A maior parte dos turistas que visitam Aveiro ficam mesmo pelo centro da cidade. Aveiro também tem uma pateira fabulosa em Requeixo e no Carregal e os turistas não vão visitá-la. Se calhar, ainda bem, porque consegue manter-se tudo muito bonito.

Mas, de facto, se nós mapearmos todos os pontos de interesse passíveis de serem pontos de interesse turístico que temos no Município de Aveiro, se criarmos infraestruturas em alguns, se os tornarmos produtos turísticos atrativos, todos nós ganhamos, porque deixamos de ter uma grande pressão num local e nós sabemos onde é que está a pressão e qual é esse local em Aveiro. Passamos a ter ganhos um pouco para todo o Município e isso obviamente acaba por melhorar a qualidade de vida de todos, porque as receitas também terão de ser espalhadas e os investimentos terão de ser feitos por igual em todo o território. Isso aumenta também a coesão territorial.

Agora, qual é a grande preocupação? É termos o espaço público cuidado na zona que recebe mais turistas. Nós vamos para outros pontos do Município de Aveiro e percebemos que não há cuidado nenhum com o espaço público, porque só lá vivem… só é usufruído pelos residentes. Não vamos fazer um investimento tão grande como fazemos onde temos turistas, porque queremos atrair turistas, porque isso tem a ver com a necessidade que nós temos de ter uma economia mais revitalizada também a esse nível. E está tudo bem, porque as pessoas precisam de manter os seus postos de trabalho.

Temos muitos restaurantes, temos cafés, temos lojas, já temos demasiadas lojas de souvenirs em detrimento de um comércio tradicional - que também importava acarinharmos, porque isso é que faz a diferença e cada vez há mais pessoas que viajam à procura daquilo que é diferente, à procura daquilo que é tradicional de um determinado local e não daquilo que é igual a tudo o que existe nos outros locais; nós podemos cair também nesse risco, ter para oferecer aquilo que há em todo o lado.

Ria: Paula, demos aqui esta guinada para o turismo, mas recordo que estávamos a falar sobre os projetos que, diz o executivo municipal, o Partido Socialista quer travar. Falávamos do Plano Pormenor do Cais do Paraíso, mas não é o único, também recordo o projeto para a Antiga Lota, o projeto do Pavilhão-Oficina… Não se pode depreender destes vários projetos estruturantes para o município que são propostos pelo atual executivo e pelo executivo anterior que haja de facto aqui um travão na mão do Partido Socialista?

Paula Urbano (PS): Não é um travão e nem vamos conseguir impor esse travão, porque, neste momento, com a coligação PSD-CDS-CHEGA, há uma maioria na Câmara Municipal e o Partido Socialista não porá um travão e isso já se percebeu…

Ria: Mas não porá porque não consegue pôr. Porque, se conseguisse, se calhar, já era uma situação diferente. Estou aqui também a voltar um bocadinho à discussão pré-acordo entre o PSD e o CHEGA.

Paula Urbano (PS): …temos uma outra leitura sobre as coisas e temos outras propostas que temos vindo a partilhar. Nós não dizemos apenas “Achamos que isso não se deve fazer” sem apresentar uma alternativa.

Em relação a tudo aquilo que o Gonçalo referiu, em relação à questão da Lota, em relação ao Pavilhão-Oficina… nós concordamos com o Pavilhão-Oficina, nós concordamos que tem de haver, só não é o Pavilhão-Oficina como ele está concebido. Nós concordamos que tem de haver, de facto, resposta ao nível do desporto para os clubes e para as coletividades que existem em Aveiro, e para quem quer praticar as diversas modalidades. Sabemos perfeitamente que neste momento não estão todos os clubes / todas as associações dotadas de infraestruturas que permitam a prática das diversas atividades desportivas com o máximo de qualidade e de condições possíveis.

Em relação à antiga Lota, concordamos com a requalificação daquele local, obviamente, é um local no concelho da Aveiro absolutamente extraordinário, com uma localização extraordinária. Agora, temos outras perspetivas sobre as coisas e partilhámo-las. Isso não significa de todo que nós queiramos travar a fundo, e há contributos que podem perfeitamente ser integrados, assim o queiram.

Ria: Falando no domínio dos grandes projetos, há ainda outro que tem dominado, de certa forma, este primeiro ano de mandato. Refiro-me ao Eixo Aveiro-Águeda. E aqui, pode-me corrigir se eu estiver errado, toda a gente está de acordo - portanto, tanto o Partido Socialista, como o PSD, como o CDS, como o Chega, como os restantes partidos na Assembleia Municipal, dizem que estão de braço dado para que se concretize o Eixo Aveiro-Águeda.

No entanto, há uma discussão que foi tida em Assembleia Municipal no passado mês de fevereiro, entre o deputado socialista João Sarmento e o presidente da Câmara, Luís Souto, sobre a paternidade do projeto.

Discussão entre João Sarmento (PS) e Luís Souto (presidente da CMA) em Assembleia Municipal (25 de fevereiro de 2026)

João Sarmento: “Anteriormente, na sua intervenção, disse que Aveiro não podia esperar e que muitos governos prometeram fazer e acontecer. Pois bem, foi de facto no governo do Partido Socialista que isto se fez acontecer e está a acontecer devido ao Partido Socialista.

Luís Souto: O PS esteve no Governo… O deputado João Paulo, eu compreendo, foi metade da sua vida. Portanto, em metade da sua vida esteve o PS e o Aveiro-Águeda não avançou um centímetro!

Ria: Paula, como dizia o presidente, em metade da vida do deputado João Sarmento…

Paula Urbano (PS): Acho que não, acho que não é assim tão novo…

Ria: Pois, foram oito anos…

Paula Urbano (PS): [O João Sarmento]não tem 16.

Ria: …mas depois também há o governo anterior, de José Sócrates, também entre 2005 e 2011, portanto, seriam mais seis anos. Mas vamos considerar dentro deste período de tempo: a verdade é que não houve avanços significativos num projeto que já tem mais de 30 anos. O PS não ficou aquém neste desígnio, que é um desígnio, como dizíamos, coletivo?

Paula Urbano (PS): Eu acho que têm ficado aquém todos os partidos que têm passado pelo Governo. É um desígnio coletivo, é uma necessidade enorme para Aveiro, para Águeda e para toda a região e obviamente que estamos todos de acordo.

Neste momento, também ainda ninguém sabe de onde é que virá o financiamento para Aveiro e Águeda. Inclusive já questionámos se em última instância não teria de ser do orçamento das respetivas câmaras municipais, mas neste momento o que é relevante é que a obra se faça. A questão do financiamento vai ter de ser resolvida, como é óbvio, e seja do orçamento das câmaras, seja do Orçamento do Estado, estamos de acordo porque achamos que, de facto, para a região, é um investimento estruturante.

Agora, nós todos temos consciência que, de facto, tudo demora demasiado tempo, desde o momento em que é pensado até o momento em que é projetado e depois construído. Com este Eixo Aveiro-Águeda também assim tem sido. Fala-se no mesmo há demasiado tempo, há demasiados anos, e congratulamo-nos, seja qual for o Governo, que ele seja efetivamente construído e que se venha a resolver este grave problema da acessibilidade, quer em Aveiro, quer em Águeda.

Ria: Mas eu aqui vou incluir neste pacote outras grandes obras: falo das portagens na A25 – que, entretanto, já é um assunto resolvido - ou do Hospital - de que falaremos também mais à frente. Não há uma crítica injusta feita ao Governo de Luís Montenegro, que neste momento está no executivo há pouco mais de dois anos, ao dizer que o atual executivo e o executivo camarário ainda não estão a fazer o suficiente nestas matérias?

Paula Urbano (PS): Não é uma crítica injusta, porque a partir do momento em que nos apresentamos a eleições e em que temos determinados projetos para implementar… Tudo tem já a sua história e obviamente…

Ria: Eu digo isto também porque o Partido Socialista fez a mesma coisa. Apresentou-se a eleições várias vezes com estes projetos como projetos estruturantes da candidatura aqui a pensar no círculo eleitoral da Aveiro.

Paula Urbano (PS): Sim, sim, e são projetos estruturantes e o Partido Socialista apresentou-se a eleições com eles. O PSD também. E estes são daqueles projetos em que há acordo e tem mesmo de haver acordo entre os diversos partidos, porque é toda a região que vai ganhar com eles.

Para estarmos agora nesta fase em que estamos, das expropriações já – portanto, muito perto do início da construção - há todo um trabalho de anos e anos que está feito atrás. Infelizmente, a construção de uma estrada, de um eixo rodoviário, não é de um momento para o outro que se pensa e que se começa a construir. Infelizmente, tudo demora demasiado tempo e este também é um projeto que demorou demasiado tempo, como os outros que o Gonçalo referiu há pouco.

Ria: Mas, como dizia o deputado João Sarmento, o projeto chegou a ser incluído no PRR com uma verba de 48 milhões de euros, que agora sabemos está muito aquém do valor real do projeto, mas nunca chegou a ser executado. Também aqui o Partido Socialista tem alguma responsabilidade?

Paula Urbano (PS): E não se pode eximir dessa responsabilidade do projeto não ter começado a ser executado, mas o PRR também nos trouxe um excesso de obras e uma dificuldade muito grande em encontrar operadores para as poderem iniciar e para as poderem levar a cabo.

Nós sabemos perfeitamente que a execução do PRR ficou muito aquém daquilo que era desejável, muito também por esse motivo. Isso depois cruza com outras questões: tem a ver com o envelhecimento da população na Europa, com a falta de mão de obra disponível… estamos a viver um momento de pleno emprego, portanto há aqui uma série de questões a outros níveis que nós também temos de ponderar. Por isso é que temos de ter alguma contenção nas críticas que vamos fazendo a quem está na gestão de alguns programas - nomeadamente nesta questão que tem a ver com obras e com as obras PRR.

Foi-se fazendo aquilo que era possível num determinado contexto, um contexto particularmente difícil a esse nível. Não podemos olhar para isto de forma isolada. Depois há toda a questão que se prende com o excesso de burocracia que nos vai assolando e que aumenta quando estamos dependentes de fundos comunitários, como é o caso.

Ria: Portanto, o Partido Socialista, considerando essa argumentação, também percebe o lado de quem está na posição neste momento, tanto do governo nacional como do governo camarário, que até agora pode ter sido difícil fazer mais e chegar mais à frente, mesmo do ponto de vista do financiamento, com tão pouco tempo e com todas as condicionantes que elencou.

Paula Urbano (PS): Concretamente no Eixo Aveiro-Águeda, sim. Agora, há outras questões em que as coisas podem ser mais céleres e já poderiam estar implementadas e ter sido feitas. Uma gestão não é só feita de grandes obras, é feita também de pequenas coisas que no dia-a-dia têm impacto na vida das pessoas e podem melhorá-las. Agora, no que diz respeito às grandes obras, temos todos consciência de que, de facto, são muitos anos desde que se pensa a obra até que se elabora o projeto, depois se começa a sua execução e a mesma termina.

Ria: Eu já vou falar de uma outra grande obra, do Hospital, mas para já eu quero manter-me aqui no domínio da mobilidade e, para já, ainda dentro do Aveiro-Águeda, porque me falava há um bocadinho do financiamento, que ainda não é conhecido de onde é que virá. No entanto, o Governo já tem vindo, com vários porta-vozes diferentes, dizer e garantir que o financiamento está assegurado e que os responsáveis políticos podem ficar tranquilos - o último dos quais foi o ministro Castro Almeida, no aniversário da CIRA, que veio dizer precisamente isto. O PS, neste momento, e também com estas garantias todas, continua a ter reticências?

Paula Urbano (PS): Em relação ao Eixo Aveiro-Águeda?

Ria: Em relação ao financiamento para o Eixo Aveiro-Águeda.

Paula Urbano (PS): Em relação ao financiamento só não sabemos de onde é que ele virá, porque, em última instância, poderá vir do orçamento das duas câmaras municipais. Não temos dúvidas que há de haver financiamento, só perguntamos de onde virá - isso já perguntámos e não nos responderam a essa pergunta. Mas em última instância isso será das câmaras municipais.

Ria: No domínio da mobilidade, como dizia há pouco, houve algumas novidades, em concreto nos últimos meses, a propósito da Semana Europeia da Mobilidade, a maior das quais, na altura apelidada pelo presidente como a “bomba atómica”, foi o esboço do metrobus para ligar Aveiro e Ílhavo.

Eu queria saber do seu lado - isto porque já tinha sido um projeto adiantado por Luís Montenegro (embora aí sim de forma muito menos concreta, a dizer apenas que queria replicar aquilo que acontecia em Coimbra noutras cidades, como era o caso de Aveiro, que fizessem a ligação ao sistema de alta velocidade) -, o PS já reagiu a isto e disse que parecia que a discussão de alguma maneira estava a começar pela própria solução. Eu queria perceber, antes de irmos a essa discussão: esta solução é inerentemente má ou pode funcionar em Aveiro?

Paula Urbano (PS): Esta solução pode funcionar, mas não só com a ligação a Ílhavo. Eu acho que aí, até porque o investimento que implica…

Ria: Essa é uma ideia que foi deixada no ar, é que ainda pode depois sair deste esboço inicial e ligar-se a outros concelhos. Mas tendo em consideração este primeiro eixo desenhado…

Paula Urbano (PS): Este primeiro eixo, Aveiro e Ílhavo, incluindo também, presumo, as Gafanhas, portanto que são…

Ria: Neste momento, penso que ainda não. É só entre o centro de Aveiro e o centro de Ílhavo.

Paula Urbano (PS): Sim, mas mais ganhos teria se de facto tivesse também linhas dedicadas, porque tem de ser e só faz sentido se assim for, se for com linhas dedicadas. Se não for não vale a pena. Não traz nada de novo se andar no meio do trânsito dito normal.

Agora, eu acho que esta solução BRT é uma solução muito interessante e aquilo que eu vejo em Coimbra - na região de Coimbra, porque não é só em Coimbra; inclusive no início o projeto era Coimbra-Serpins, depois percebeu-se que dentro da própria cidade de Coimbra deveria haver um alargamento e por isso é que tem demorado (a partir do momento em que começou a ser construído, mas foi talvez 20 anos, ou se calhar mais, depois de ter sido pensado pela primeira vez), percebeu-se que deveria ser alargado - é de facto uma solução muito interessante e que é uma boa alternativa ao transporte público.

Claro que aqui também seria, nesta região. Parece-me pouco ser só Aveiro-Ílhavo. Acho que a pensar-se numa solução que é tão cara, que implica um investimento tão grande, que implica obras tão grandes, se deve pensar nela logo desde o início, incluindo não só Ílhavo-centro, também a zona das Gafanhas, eventualmente as praias, e depois tentar pensar quais são os outros municípios aqui à volta. Ou se calhar estender até Cacia, por exemplo. Depois Estarreja tem ali algumas localidades onde tem o comboio, talvez não faça sentido, mas Albergaria já poderá fazer sentido.

Isso parece-me que carece de um estudo muito sério para se perceber se este investimento desta forma vale ou não vale a pena e em quanto tempo é que ele pode ser implementado. Tivemos este exemplo em Coimbra, que acho que é muito mau, de mais de 20 anos até se começar a construção. Depois, como sabe, aquilo que estava previsto inicialmente era mesmo um metro de superfície, só que depois fez-se a agulha para este novo modelo, que no fundo não é um metro, é um autocarro com uma linha dedicada. Mas parece-me que é uma questão que tem de ser estudada e tem de ser aperfeiçoada.

Ria: Mas se formos ao caso concreto de Aveiro, estamos a falar neste momento de um esboço que existe e que ainda não é conhecido - pelo menos o traçado exato ainda não é público -, mas tem, salvo erro, 7 ou 8 quilómetros, ao contrário de Coimbra, que é uma linha muito maior, que liga três concelhos e que custou cerca de 220 milhões - isto colocando só a obra em concreto e não o dinheiro que foi desperdiçado anteriormente a esta obra do sistema de mobilidade de Mondego.

Em Aveiro está previsto um investimento de 60 milhões. Falar numa ligação, por exemplo, a Albergaria, às praias, às Gafanhas… não iria ser uma coisa de uma dimensão muito maior e seria ambicionar, pelo menos para projeto inicial, demasiado?

Paula Urbano (PS): Obviamente que o investimento será muito maior e fica efetivamente muito caro, mas também, para tão poucos quilómetros, fazer o investimento de 60 milhões… também questiono se se justificará e se há, de facto, passageiros em deslocações pendulares diárias que justifiquem esse investimento.

Ria: Não acredita que esta ligação possa fazer sentido, aqui é a proposta, portanto, que vai da estação dos comboios, depois passa pelo centro da cidade, o hospital, a universidade, o PCI, depois o centro de Ilha, esta ligação como um todo não acredita que possa ter passageiros que justifiquem este investimento?

Paula Urbano (PS): Provavelmente até terá, porque haverá pessoas que utilizam transporte próprio e, se tiverem essa alternativa de transporte público, até passarão a utilizá-lo. Agora, esses estudos têm de ser feitos, obviamente, com seriedade, porque estamos a falar de um investimento muito elevado e temos de estar seguros de que, de facto, haverá retorno.

Continuo a dizer, parece-me muito curta a distância para um investimento tão grande. Acho que - até porque terão de ser feitas grandes alterações, porque há uma linha dedicada que terá toda ela que ser construída - há muita coisa em jogo e o que isso implica… será muito curto fazer-se para uma distância tão pequena.

Ria: Agora sim, Paula, vou voltar à discussão do hospital, que continua na ordem do dia e que assim está de forma ininterrupta desde as eleições. Há pouco tempo teve um novo desenvolvimento porque Ricardo Matos, o novo presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro (ULS-RA), esteve em audição na Assembleia da República e, nessa sessão, o deputado Armando Grave, do Chega, apontou o dedo aos governos sucessivos da AD e do Partido Socialista.

Intervenção de Armando Grave, deputado do Chega, na audição a Ricardo Matos, presidente do Conselho de Administração da ULS-RA, na Comissão de Saúde, na Assembleia da República (22 de outubro de 2026)

Armando Grave: “Fico muito admirado agora quando vejo os dois partidos aqui a dizerem que eles é que teriam feito. Aveiro não tem menos camas, menos consultas e menos cirurgias por acaso. Os sucessivos governos do PS e do PSD e sucessivas administrações hospitalares trataram esta região não como uma prioridade.”

Ria: Mais uma vez, eu faço a mesma pergunta que fazia há um bocadinho em relação ao Eixo Aveiro-Águeda: os governos - nomeadamente os governos do primeiro-ministro António Costa, mas também os governos anteriores do Partido Socialista - não ficaram aquém nesta matéria?

Paula Urbano (PS): Há muito tempo que, de facto, se está aquém no que diz respeito à requalificação e à ampliação do Hospital da Aveiro. E essa é uma questão que nos preocupa a todos e que também faz com que estejamos todos de acordo: qualquer partido político está de acordo em que são necessárias uma ampliação e uma requalificação do Hospital da Aveiro - não só do edifício propriamente dito, mas no que diz respeito ao poder vir a ter mais especialidades, poder vir a realizar mais consultas, mais cirurgias, poder vir a servir mais utentes do que aqueles que serve neste momento.

Todos nós também sabemos que, muitas vezes, em Aveiro, os doentes não encontram resposta e que têm de recorrer a Coimbra, recorrer ao Porto… são aqueles para onde as pessoas recorrem pela proximidade. De facto, a questão do Hospital da Aveiro tem vindo a ser adiada de alguma forma por diversos governos, mas eu tenho de relembrar que o último governo do Partido Socialista inscreveu no Orçamento do Estado verba para o Hospital da Aveiro. Neste momento, e está um projeto… aquilo que também o Hospital da Aveiro necessita é da ampliação da urgência, que é aquilo que está...

Ria: Mas, já agora, deixe-me fazer o parêntese a propósito da verba que foi inscrita. O Ricardo Matos, presidente do Conselho de Administração, falou sobre isso agora na sessão quando questionado pela deputada do PSD, Ana Gabriela Cabilhas, e disse que a verba de facto estava prevista, mas que, no entanto, não havia projeto e, portanto, deve ter sido reprogramada. Portanto, acabou por não haver um planeamento consertado entre todas as entidades para que a ampliação de facto chegasse a bom porto.

Paula Urbano (PS): Exatamente. E, neste momento, e neste Orçamento do Estado, também não está contemplada. Mas também não faz sentido que esteja, porque se ainda nem projeto há, não vai…

Ria: Mas há várias vozes dentro do Partido Socialista que têm reivindicado isso. Aliás, no ano passado o Hospital entrou dentro do Orçamento do Estado precisamente por proposta do Partido Socialista. Que sentido faria que estivesse? Porque, como dizia, neste momento não vai fazer grande coisa porque a adjudicação da obra não acontecerá em 2027.

Paula Urbano (PS): Não, de certeza que não acontecerá em 2027, só lá para 2028, porque o projeto ainda nem sequer está concluído. Aquilo que importa, de facto, e aquilo que já está numa fase mais adiantada, é a requalificação da urgência e a ampliação da urgência.

E, de facto, parece-me que temos de ir aqui também por partes, já que não se consegue inscrever a construção de um novo Hospital para Aveiro de raiz, pelo menos que se amplie o que temos e que se comece pela Urgência, porque a Urgência é a porta de entrada maior em qualquer hospital. Aqui em Aveiro é preciso que a Urgência esteja também disponível em diversas valências para aqueles que acorrem a ela diariamente, porque nós temos consciência que há muitas especialidades que nem sequer estão disponíveis na Urgência de Aveiro.

As pessoas chegam à Urgência de Aveiro e são logo enviadas para outro hospital. Tem havido, de facto, ao longo dos anos, alguma falta… eu não sei se é a falta de vontade, se há outras aqui à volta, se há outros lobbies que façam mais pressão ao nível do poder central para conseguirem aceder a algumas melhorias significativas para os seus hospitais, para os seus centros hospitalares do que Aveiro. Mas, de facto, eu acho que nós temos todos que estar de acordo. Temos todos que lutar por ter melhores condições de resposta às necessidades que na doença os cidadãos da região de Aveiro têm.

Ria: Neste dossier, à semelhança do Aveiro, o PS pode dizer que está ao lado do executivo municipal? Queria saber se tem críticas a fazer àquilo que tem sido o trabalho até agora neste dossier.

Paula Urbano (PS): Não, aquilo que nós pedimos é que, de facto, se use a influência que se tem para se poder resolver esta questão o mais depressa possível.

Ria: Mas acredita que isso não está a ser feito até agora?

Paula Urbano (PS): Não posso dizer que não está a ser feito. Eu acredito que se tenha exercido influência nesse sentido.

Ria: Eu sei que o Partido Socialista também, entretanto, reuniu com o Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro, com o novo presidente Ricardo Matos, que entrou em funções no passado mês de maio - isto já depois de ter sido impugnada à adjudicação do projeto, que tinha acontecido cerca de duas semanas antes da sua entrada em funções.

Eu queria saber como é que avalia aquilo que tem sido feito até agora por este novo órgão e a visão que tem sido de Ricardo Matos para o hospital, para o futuro. De que maneira é que é diferente daquela que vinha antes e que avaliação é que o Partido Socialista pode fazer até agora?

Paula Urbano (PS): O Partido Socialista não pode… eu não posso propriamente fazer uma avaliação das competências e da execução do atual presidente do Conselho de Administração da Unidade Local.

Ria: Mas há uma visão política subjacente àquilo em que acredita e o sentido em que se deve mover este projeto do hospital.

Paula Urbano (PS): Sim, mas eu acredito que o presidente do Conselho de Administração está em funções e está imbuído do espírito de um servidor público que quer o melhor para o hospital que está a dirigir, que quer o melhor também para esta região onde ele está implantado e que exerça toda a sua magistratura de influência junto do governo central para resolver aquelas questões que são mais prementes. São a da ampliação, a angariação de mais valências, de mais profissionais para este hospital.

Não tenho dados que me permitam avaliar de outra forma o trabalho que está a ser feito pelo presidente do Conselho de Administração do hospital, não seria sério da minha parte vir aqui fazê-lo.

Ria: Eu agora vou voltar ao início, porque me dizia que gostava que um dos grandes marcos deste mandato estivesse relacionado com mais soluções do ponto de vista da Habitação. Tem sido um tema grande e, portanto, não poderia deixar de ser debatido nesta entrevista.

Eu recordo, na última reunião de Câmara pública, o Partido Socialista questionou o executivo, por intermédio do vereador Leonardo Costa, sobre a não apresentação do programa “Habitação+”, que estava previsto para março. Na altura, Rui Santos, o vice-presidente da Câmara, fez um mea culpa de não ter sido apresentado até então e disse que precisava de mais tempo para poder entregar um programa que fosse sério.

Intervenção de Rui Santos na reunião de Câmara Municipal de Aveiro (1 de outubro de 2026)

Rui Santos: “Ou fazíamos um número político. Apresentar uns powerpoints com uns chavões sem métricas, só para, digamos, para fazer um número político. Ou então - e eu com toda a franqueza prefiro não fazer um número político - apresentar aquilo que é um programa que seja exequível e que seja cumprido.

Não é pelo facto de o programa não ter sido apresentado que nós baixamos os braços, que não fizemos trabalho. E já fizemos muito.”

Ria: Esta resposta, na altura, do vice-presidente da Câmara, foi satisfatória para o Partido Socialista? Percebeu os argumentos utilizados por Rui Santos?

Paula Urbano (PS): Esta resposta não é satisfatória, assim como não é satisfatória a resposta da Câmara Municipal da Aveiro para este problema há muito tempo.

Aqui temos de voltar lá atrás. Se, de facto, este executivo trouxer um programa de habitação, uma Estratégia Local de Habitação, já ficamos satisfeitos. Estamos disponíveis e inclusive temos vindo a apresentar diversas propostas à Câmara Municipal nesse sentido, porque não nos podemos esquecer que o anterior executivo camarário não elaborou sequer Estratégia Local de Habitação. Foi dos poucos municípios do país que não o fez - com todos os custos que isso teve para as pessoas que têm necessidade de habitação.

E aqui não estamos só a falar de habitação pública. Não estamos só a falar das famílias mais carenciadas, porque a inexistência de uma Estratégia Local de Habitação impediu, por exemplo, pessoas com uma condição de recursos mais baixa de se candidatarem a fundos para fazerem obras nas suas habitações, quando são proprietários das mesmas. Isto só para termos noção daquilo que não foi feito durante muito tempo em Aveiro ao nível da habitação, porque este é um problema de facto do país, é um problema de muitas cidades europeias.

Nós, a nível local, temos de ir fazendo aquilo que nos compete e aquilo que está ao nosso alcance. E é importante, mais do que nunca, que a Câmara Municipal de Aveiro tenha um programa de habitação, tenha uma estratégia para a habitação. E podemos-lhe chamar “Habitação+”, podemos lhe chamar aquilo que entendermos. Agora, estamos todos de acordo e temos perguntado por isso muitas vezes, porque nos parece que para um problema tão grave e tão premente as respostas já deveriam ter começado a surgir.

Nós temos abordado esta questão imensas vezes, porque nós sabemos que hoje em dia não são só as pessoas com baixa condição de recursos que não têm acesso à habitação. As pessoas da classe média que trabalham também têm neste momento quase uma incapacidade para alugarem ou para comprarem uma casa. Nós não nos podemos esquecer que, em Aveiro, os encargos com uma casa, em média, são de 57% em relação ao rendimento disponível da família. Deveria ser 35%. 57% é mais de metade do rendimento. É muito dinheiro ao final do mês só para a habitação, para pagar a renda ou para pagar um empréstimo bancário.

Há muita gente que não tem capacidade nem para alugar, nem para arrendar, nem para recorrer ao empréstimo, porque os bancos não lhes vão emprestar dinheiro. E, cada vez mais, deparamo-nos com famílias que continuam a viver com os seus progenitores, de filhos que não saem de casa porque não têm capacidade para assumir uma despesa com a habitação.

Aveiro é um dos municípios onde ainda vai havendo um aumento da população. As pessoas vêm para aqui porque há trabalho, mas depois deparam-se com o problema da habitação e partilham casas. Contudo, o que isso implica com todos os problemas é que isso nos virá a trazer, posteriormente, ao nível social, ao nível psicológico… as coisas vão-se cruzando todas umas com as outras e a questão da habitação não tem uma implicação só no conforto de termos um local para dormir.

Ria: Eu queria-me centrar aqui na resposta do vereador Rui Santos, porque, como dizia, na opinião do Partido Socialista, este executivo chega já com herança pesada…

Paula Urbano (PS): Chega sem herança.

Ria: Tendo em conta esta consideração: compreende, primeiro, que o executivo precisa deste tempo que pede Rui Santos para conseguir elaborar um programa que seja digno e que faça sentido e que seja exequível; e, daquele que foi o trabalho já apresentado - porque, na sequência desta intervenção, Rui Santos elenca tudo aquilo que já foi feito até aqui durante este ano de mandato -, se acredita que a Câmara tem feito os possíveis para resolver ou se teria mais ferramentas ao seu alcance para ter feito mais até aqui?

Paula Urbano (PS): Não, poderia claramente ter feito mais. Há fogos municipais que estão devolutos porque precisam de obras, precisam de ser requalificados e poderiam ser colocados no mercado. A lista de espera, junto da Câmara Municipal, de pessoas que têm necessidade e que têm critérios para vir a beneficiar de uma habitação pública é longa, é muito longa, e, se essas casas que estão devolutas, que são propriedade da Câmara Municipal, já tivessem sido requalificadas, eram menos de 25 famílias que estavam à espera de casa e que estavam a viver em condições...

Ria: Mas, sendo que 25 famílias não é minimamente menosprezável, não resolveria nunca o problema da habitação.

Paula Urbano (PS): Claro que não resolve o problema, mas, como disse, eram menos de 25 famílias.

Agora, é claro que o problema da habitação tem de ser atacado noutras frentes. Há uma outra medida que a Câmara Municipal - à semelhança do que fazem outras câmaras municipais - poderia fazer, que é arrendar para subarrendar, assumindo uma parte da renda de acordo sempre com a condição de recursos das famílias e tendo sempre em vista os 35% do arrendamento disponível que deve ser alocado às despesas com a habitação. A Câmara Municipal também já poderia ter ido ao mercado por essa via. Há outras câmaras municipais que o fazem.

Ria: O presidente da Câmara, durante a campanha eleitoral, respondeu a essa que era uma proposta da candidatura do Partido Socialista às últimas eleições autárquicas. Disse que, se isso acontecesse, os senhorios esfregariam as mãos porque poderiam aumentar [as rendas], isso iria sobreaquecer o mercado, a Câmara poder-se-ia endividar e, ao fim de um ano, estaria falida. Esta solução não poderia ter este efeito de que o mercado tornasse os preços ainda mais elevados, tendo por base que a Câmara poderia comportar parte dos custos?

Paula Urbano (PS): De todo. Obviamente que a Câmara também tem de ter ali um limite para que possa financiar, mas isso é só ir copiar o que as outras câmaras estão a fazer. Isso tem muitas vezes a ver com a confiança que o senhorio tem na Câmara e não tem num estranho, num desconhecido, que lhe quer arrendar a casa. E tem mais a ver com essa confiança do que, propriamente, com o facto do senhorio aumentar exponencialmente o valor.

Depois é assim, mais uma vez, nós não nos podemos focar só no centro da cidade de Aveiro, porque nós temos outras casas devolutas na periferia e, se calhar, não são arrendadas porque os senhorios não têm confiança em quem vai à procura dessas casas para as arrendar.

Uma Câmara Municipal apresenta-se sempre como uma pessoa de bem, entre aspas, que vai estabelecer um contrato de arrendamento com aquela pessoa e em quem aquela pessoa confia, porque, no fundo, é o intermediário entre aquele que vai ser, na realidade, o inquilino e o proprietário da casa. E, se isso resulta em outros municípios, porque é que nós não vamos ver, não perguntamos como é que eles fazem e fazemos da mesma forma?

Agora, essa questão de que isso vai sobreaquecer o mercado, obviamente que a Câmara também não iria… e as pessoas não iriam arrendar uma casa por um preço que é três ou quatro vezes mais o valor que ela tem na realidade. Depois a Câmara poderia não aprovar o apoio, porque tem de haver um concurso e tem de haver critérios para a aprovação desse apoio.

Ria: Mas, se em resultado desta aposta do município, o mercado subisse de forma uniforme, em Aveiro?

Paula Urbano (PS): Mas isso não tem acontecido nas outras localidades. Porque é que havia de acontecer em Aveiro?

Tem de haver critérios, tem de haver um caderno de encargos para esse apoio. Não é agora: eu tenho um T1 que vale 500 euros e vou, porque é a Câmara, arrendá-lo por 2 mil. Isso não faz sentido algum e não é isso que se tem verificado. Isso tem, sobretudo, a ver com a questão da confiança e tem a ver com a possibilidade que se dá a munícipes de viverem em condições dignas - que é algo que, neste momento, não está a acontecer para muitas famílias.

Ria: Eu lembro também, quando esta proposta era apresentada, na altura, pelo candidato Alberto Souto, o Partido Socialista dizia que queria não só fazer isto, mas que esta era uma solução para o curto prazo, que serviria como balão de oxigénio. No entretanto, para a Câmara não se endividar no longo prazo, a ideia seria construir muito, de forma a ter casas e um parque habitacional público que fosse suficiente para poder dar resposta. Mas, como a construção demora tempo, teria esta solução como os primeiros socorros.

Eu queria saber, sobre esta construção: primeiro, o Partido Socialista continua a defendê-la? Se sim, onde, em que terrenos e com que financiamento é que isto poderia vir a acontecer?

Paula Urbano (PS): A questão da construção da habitação pública… obviamente que tem de haver mecanismos para financiarem a mesma. Quanto aos terrenos, tem de se procurar dentro do concelho e, obviamente, não é só no perímetro urbano da cidade. Nós temos periferias que são perfeitamente acessíveis até à cidade de Aveiro, aos meios de transporte e aos serviços, e onde pode ainda haver construção. E construção pode não ser toda em altura - claro que isso acaba por gerar mais fogos.

Agora, é importante perceber quais são os mecanismos de financiamento que existem neste momento disponíveis para se fazerem as devidas candidaturas e pensar-se em aumentar, de facto, a construção da habitação pública. Porque a habitação pública é que acaba por responder a muitas pessoas.

A habitação a custos controlados… também é importante que se tente atrair algumas empresas para construir a custos controlados, dando-lhes os devidos benefícios fiscais. Agora, depois é difícil controlar o que é que acontece a seguir. Nós também sabemos que há habitação que foi construída a custos controlados e que depois aparece no mercado de arrendamento aos preços ditos normais. Acabou por não haver um benefício direto a quem efetivamente precisa de ter casa com essa construção.

Portanto, a construção pública acaba por ser aquela construção que nos dá mais garantias de que quem efetivamente precisa pode vir a ter casa com mais facilidade.

Isso é uma questão que está obviamente em cima da mesa, está na ordem do dia. A Câmara Municipal, se o quiser fazer, terá todo o apoio do Partido Socialista. Já fizemos várias propostas nesse sentido porque entendemos que têm de começar a ser dados passos consistentes e sérios no sentido de minorar este problema.

Não vamos resolvê-lo de uma vez, até porque, como o Gonçalo há pouco disse, as casas demoram muito tempo a ser construídas e, por isso, esta questão do arrendar para subarrendar era uma questão de curto prazo. Depois, tentarmos, se calhar, elencar imóveis do Estado que tenhamos em Aveiro, que possam ser reconvertidos em habitação.

Mas isso também leva tempo. Também não se faz de um dia para o outro. Portanto, esta questão é uma questão que não se resolve a muito curto prazo. Têm de começar a dar passos muito consistentes e rápidos para que se consiga resolver.

Ria: Paulo Urbano Antunes, mais uma vez, agradeço-lhe por ter estado presente nesta que foi a primeira entrevista de balanço ao primeiro ano do mandato autárquico com os partidos com assento na Assembleia Municipal de Aveiro. Nós continuaremos a fazer este trabalho nos próximos dias.

Paula Urbano (PS): Eu é que agradeço, Gonçalo. Foi um gosto.

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