Concerto Ana Moura: Como pessoas com deficiência visual puderam "ouvir com a plenitude dos sentidos"
No passado sábado, decorreu o concerto da Ana Moura, onde foram integradas várias ferramentas de acessibilidade, entre as quais, a audiodescrição. A Ria foi conhecer a realidade das pessoas cegas e de baixa visão, que, graças a esta ferramenta, conseguiram viver o espetáculo de forma mais “imersiva”.
Maria Rego
JornalistaÚltimas
Carlos Pereira tem 43 anos e nunca viu um concerto. É cego “desde sempre”, por isso, o contacto com atuações musicais sempre se limitou à audição de “muitos concertos ao vivo ou na televisão”, mas nunca indo além disso. Por esse motivo, este sábado, quando saiu rumo à Nave Multiusos Caixa UA para assistir ao concerto da Ana Moura, a expectativa era palpável no ar. O que tinha este concerto de especial? Uma ferramenta capaz de fazer o Carlos e seis outras pessoas conseguirem estar mais imersos na atuação: a audiodescrição.
Eram 20h30 quando o grupo foi recebido por Vanessa Gonçalves. O trabalho da audiodescritora começou ali mesmo, uma hora antes do arranque, com uma preparação crucial para o concerto, o “reconhecimento de palco”. As pessoas com deficiência visual foram encaminhadas para a frente do palco, onde Vanessa Gonçalves começou a descrever tudo com grande detalhe. “Estivemos a fazer aqui, no caso deste espaço, a geolocalização, como é que a sala é, e descrevemos o que é que está no palco, quais são os instrumentos em palco e como é que ele está distribuído”, explica à Ria.
Feita a primeira parte da preparação para o concerto - o “reconhecimento de palco” - entra em cena Vasco Cardoso, responsável pelos sistemas de legendagem, coletes hápticos e ring loop. Ali, Vasco Cardoso distribui por cada pessoa a aparelhagem que vai permitir ouvir a audiodescrição durante a atuação de Ana Moura. O equipamento “já é entregue ligado com o canal correto” e quem o recebe “só precisa de ajustar o volume”, tarefa simples, uma vez que os botões são tateáveis. “Nós preocupamo-nos, nos espetáculos em que fazemos audiodescrição, em entregarmos só o auricular de uma orelha, para eles terem perceção do espetáculo com uma das orelhas [onde] estão a ouvir o espetáculo livremente e na outra recebem a audiodescrição”, adianta.
A audiodescrição não é realizada com os dois auriculares, uma vez que, expõe Vasco Cardoso, “podem perder um bocadinho da audiodescrição e precisam se calhar de fazer um esforço maior, mas estão mais incluídas no espetáculo em si” e dessa forma acabam por perceber “realmente o que se está a passar”. No entanto, existem desafios associados a esta ferramenta. “O espetáculo é um bocadinho exigente a esse nível, porque é um concerto e o volume de música é muito alto, então é preciso assegurar que estão a ouvir bem a audiodescrição”, aponta. Para que possam aproveitar bem a experiência é preciso encontrar o “ponto de equilíbrio”.
Vasco Cardoso evidencia que os “concertos são momentos muito eufóricos” e “muito estimulantes” para pessoas cegas e de baixa visão. “[A audiodescrição] Em concertos é uma coisa que está a começar agora a ser feita e a experiência que eu tenho, já há uns três ou quatro anos em que [o] fazemos com alguma regularidade, é que as pessoas saem eufóricas. É como se fossem pessoas mesmo a ouvir com a plenitude dos sentidos”, revela.
Equipamento a postos, Carlos Pereira e as restantes pessoas com deficiência visual são encaminhadas para os respetivos lugares. Está quase a começar o espetáculo. A sala enche rapidamente. As luzes apagam-se. Ouve-se uma guitarra portuguesa. O concerto começa.
Durante o concerto, Carlos vai prestando atenção a duas vozes: Ana Moura e a audiodescritora Vanessa Gonçalves que vai transformando “as imagens em palavras”. A partir de uma “cabine sonorizada”, Vanessa Gonçalves vai aproveitando todos os “pequenos silêncios das letras e das músicas” para descrever os mais variados detalhes. Desde as “luzes, onde estão os instrumentos, em que lugar do palco estão os músicos, em que lugar está a cantora, o que estão a fazer os bailarinos e que movimentos fazem”.
Depois de hora e meia de espetáculo, a postura de Carlos Pereira é já diferente. De sorriso rasgado conta à Ria que a experiência “foi muito positiva”. “Deu para perceber, além da música, o cenário envolvente e o que estava a acontecer. A Ana Moura a dançar, os bailarinos… é uma experiência bastante enriquecedora”, descreve. A música aliada à audiodescrição causam, para Carlos, uma “relação muito interessante”.
As principais mudanças para esta forma de presenciar um concerto centram-se numa alteração do foco. “Se estiver a ouvir um concerto sem nenhum tipo de audiodescrição, estou focado apenas na música. Aqui, neste cenário, deu para estar focado na música e para perceber os movimentos, aquilo que acontecia em palco, as danças, as várias situações que iam ocorrendo durante o concerto”, exemplifica. A experiência foi de tal forma “imersiva” que Carlos Pereira admite, entre risos, estar-se a “imaginar lá no palco também a dançar”.
Mas mais do que uma experiência única, Carlos espera que possam ser possíveis mais “eventos deste género” em outras zonas que não apenas os grandes centros. “Felizmente estamos a ter mais eventos deste género no país, pena que muitos deles são muito concentrados em Lisboa e no Porto, porque também é onde está mais população e onde há mais pessoas com deficiência, se calhar”, admite. Ainda assim, reconhece que “às vezes as pessoas possam ficar um bocadinho relutantes” e mesmo para quem organiza as iniciativas podem existir falhas e receios. No entanto, Carlos Pereira sublinha que mais do que acertar na abordagem à primeira, “é uma questão de irmos educando as pessoas com deficiência, neste caso deficiência visual, que podem ter este tipo de acesso à cultura de uma forma mais imersiva e mais concreta”.
O concerto da Ana Moura integrou a programação dos Festivais de Outono, que pela primeira vez, reuniu vários recursos de acessibilidade, em simultâneo. Para além da audiodescrição – destinada a pessoas com deficiência visual – também foram disponibilizados coletes hápticos, ring loop, legendagem em tempo real e interpretação de Língua Gestual Portuguesa (LGP) – para pessoas com deficiência auditiva.
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