Um ano do novo Rossio: parque de estacionamento “pouco utilizado” continua a ser alvo de críticas
Há precisamente um ano inaugurava-se aquela que viria a tornar-se uma das obras mais polémicas da cidade de Aveiro: a requalificação do Largo do Rossio. Uma das grandes críticas apontadas ao projeto estava relacionada com a construção de um novo parque de estacionamento subterrâneo. A Ria procurou sair à rua para perceber o balanço do primeiro ano de inauguração do novo Rossio.
Isabel Cunha Marques
JornalistaÚltimas
Há mais de um ano que Márcia é lojista na zona do Rossio. Para esta comerciante a obra era “necessária”, não só para os peões como para os automóveis. “Antes era uma grande confusão… Eu via as pessoas a atravessar a rua no meio dos carros. Era bastante perigoso”, começou por recordar. Apesar de reconhecer desvantagens que o trânsito [daquela zona] se faça agora num único sentido, Márcia destacou que a empreitada veio tornar o local “mais amplo e arejado”. “No fundo, acabou por ampliar o espaço. Também se nota aqui o movimento, dado que também estamos bem situados e próximos dos moliceiros (…) As pessoas passam aqui com alguma facilidade…. Inclusive já tive pessoas que são daqui de Aveiro e que, por vezes, nos questionam há quanto tempo é que a loja aqui está porque nunca tinham reparado [nela]”, constatou.
Apesar da construção do novo parque de estacionamento subterrâneo, Márcia opta por estacionar, diariamente, o seu carro “debaixo da autoestrada” já que esta é uma zona não paga. “Trabalhar quase todos os dias e pagar [estacionamento] para mim era impensável…”, frisou à Ria. “Das poucas vezes em que lá estacionei, realmente vê-se muitos lugares vagos, ou seja, o que significa que não é muito utilizado”, lamentou. “Por exemplo, ao pé da Universidade [há uma tarifa de estacionamento] em que o dia inteiro é um euro… Francamente, o dia inteiro não acho assim tão caro… Pode-se pensar numa solução do género”, apontou.
Júlio é outro dos comerciantes que não deixou de assinalar um balanço positivo com o avanço da obra no Rossio. “O comércio beneficiou. Acho que toda a gente deve estar a pensar dessa maneira (…) Também beneficiou a parte social (…) Isto era uma zona com muitos arrumadores, muita prostituição e isso parece que desapareceu daqui…”, relembrou. No que toca ao “nível arquitetónico” da empreitada [o que incluiu também a construção do novo parque de estacionamento] caraterizou a mesma de “polémica”. “Eu era contra a obra do parque [de estacionamento] e continuo a ser. Acho que é polémico… Por causa do parque de estacionamento tiraram a parte do arvoredo. Agora isto tem sempre o lado positivo e o lado negativo... Eu pessoalmente para o comércio acho que melhorou”, opinou.
Se até agora os lojistas identificavam um maior número de pontos positivos do que negativos, para Augusta - que já está há mais de duas décadas na zona do Rossio - a empreitada não trouxe vantagens. “Está engraçada, está muito bonita, mas não tem nada de utilitária. Não era esta a solução de todo…”, frisou. “Isto está muito mal. Não sei se é o sentido de trânsito…. Qualquer coisa aqui não está a correr bem. Depois não temos sítios para parar…. Portanto, nós queremos descarregar alguma coisa e não temos”, desabafou, acrescentando que, nos dias de hoje, os seus clientes “são os turistas que andam a pé”.
“O turista que vai a Aveiro não sai dali e não faz mais do que um passeio de moliceiro”
A obra de requalificação do Rossio e da Praça General Humberto (também conhecida como Ponte-Praça), teve um custo de 20,5 milhões de euros. Um custo de mais 8,1 milhões do que estava previsto inicialmente [o custo inicial era de 12,4 milhões de euros]. Desses, 2 milhões foram comparticipados por fundos comunitários. À data de inauguração a autarquia justificou o aumento do preço da empreitada com “a guerra, a pandemia, a inflação e trabalhos complementares necessários”. A obra incluiu, entre outras estruturas, a construção de um parque de estacionamento subterrâneo, a requalificação da superfície e a remodelação de toda a Ponte-Praça.
Paula Urbano Antunes, presidente da concelhia do PS-Aveiro, não tem dúvidas de que a obra do Rossio era necessária, ainda que reconheça que esta “não era a requalificação” que o seu partido proporia. Por exemplo, o PS “não proporia o parque de estacionamento pelos custos que teve e pela baixa utilização que tem… Proporia uma requalificação que pensasse o espaço de modo que os aveirenses pudessem usufruir do mesmo. Condicionaria ainda o trânsito aos moradores daquela zona... É importante que os moradores do bairro da Beira-Mar possam de facto usufruir do mesmo com alguma qualidade de vida. Retiraria dali também aquela pressão turística, mas isso só se consegue com um plano municipal para o turismo que tenha outras rotas e que tenha outros pontos de interesse devidamente identificados que não o Rossio”, criticou. “O turista que vai a Aveiro não sai dali e não faz mais do que um passeio de moliceiro”, lamentou.
Para a presidente da concelhia do PS-Aveiro, o Rossio tornou-se assim, desde há um ano para cá, um espaço pensado para “passantes” e não para quem quer usufruir dele. “Esse conforto não existe porque as árvores ainda não cresceram e esperemos que de facto cresçam em breve”, esperançou, reafirmando que era uma “requalificação necessária” ainda que, na sua opinião, o “custo benefício” da empreitada seja “negativo”. “Mas não se pode dizer que está pior porque não está… Não estava bem”, sustentou.
Concessionária do Parque de Estacionamento contraria afirmações de baixa utilização
Sobre a baixa utilização do parque de estacionamento do Rossio [descrita pelos comerciantes e pela líder socialista], a Ria contactou a empresa Telpark (Empark), que tem a concessão do espaço, bem como do parque do Mercado Manuel Firmino, que contrariou esta perspetiva e que destacou que o projeto “tem vindo a decorrer de acordo com as expectativas estabelecidas” e que “ambos [os parques] têm registado uma utilização significativa, com fluxos variados em função das dinâmicas e necessidades dos munícipes e dos turistas”. No que toca ao parque do Rossio a empresa acrescentou ainda que o “balanço é muito positivo”. “Este parque de estacionamento destaca-se pelo seu carácter multifuncional, conferindo uma mais-valia ao habitual modelo de parqueamento, ao incluir a opção de converter o espaço num local para exposições e eventos culturais. Aliás, no passado ano de 2024, ano em que Aveiro foi Capital da Cultura, o parque recebeu milhares de visitantes, quer para estacionar, quer para participar nas diversas atividades que se realizaram”, referiu.
A Ria foi, ao longo dos últimos meses, até ao Parque de Estacionamento do Rossio onde verificou que a média de carros estacionados, diariamente, era de 30/40 automóveis, aumentando este número ao fim de semana, mas raramente para números superiores à metade da lotação. Recorde-se que a lotação máxima do parque é de 222 lugares.
Fonte próxima confirmou ainda à Ria que, até ao momento, apenas por duas vezes o parque de estacionamento ficou totalmente lotado, uma no último fim de semana de outubro e outra na véspera de Natal. Também esta realidade foi contrariada pela empresa que referiu à Ria que “em várias ocasiões, o parque atingiu a sua capacidade total”, apontando como exemplo “o período em que decorreu o Europeu de Futebol, mas também noutras ocasiões não relacionadas diretamente com um evento concreto”. Sobre o tempo médio de permanência dos veículos, a Telpark garantiu que o mesmo “varia consoante o período do dia e o dia da semana”.
Ao longo dessas visitas ao Parque de Estacionamento do Rossio, a Ria verificou ainda que já há paredes e portas degradadas no espaço. Confrontada com esta realidade, a Telpark não confirmou a situação e expôs que a “segurança das nossas instalações é fundamental” e que são realizadas “inspeções regulares a todas elas, de forma a garantir a sua segurança e correta manutenção”. “Caso seja detetada alguma necessidade de intervenção ou melhoria, esta é programada e efetuada de acordo com os horários previstos, garantindo sempre a melhor experiência para os nossos clientes”, afirmou.
“O Rossio não é uma zona periférica da cidade”
Maria Miguel Galhardo, atual presidente da Ciclaveiro [uma associação que defende e promove o uso da bicicleta], defende que a obra do Rossio não acrescentou uma “mais-valia” à promoção das bicicletas, no centro da cidade, “por várias razões”. “Primeiro porque a via supostamente ciclável, alocada ao uso da bicicleta, é uma via que não está sinalizada e que não é confortável porque o piso é paralelo (…) Está desenhada sem estar segregada relativamente ao uso pedonal e, portanto, cria conflitos entre o utilizador da bicicleta e o peão (…)”, apontou, reconhecendo que a mesma “muitas vezes” está ocupada. “Ou está a ser utilizada pelos peões (…) ou para os automobilistas pararem, estacionarem e fazerem cargas e descargas para os estabelecimentos que ali existem”, observou.
Sobre a estrutura e os estacionamentos que foram colocados para as bicicletas [na zona do Rossio], a presidente da Ciclaveiro afirmou que os mesmos são uma “solução totalmente contra todas as boas práticas”. “Esta Câmara tem mais do que informação técnica sobre o que são estacionamentos seguros. Aliás, já os colocou em vários outros projetos como na Mário Sacramento (…) Ali aquelas rodas - que parecem quase umas jantes de automóveis - não dão absolutamente segurança nenhuma ao utilizador das bicicletas que a quer deixar em segurança (…)”, reconheceu.
Em jeito de balanço, Maria Miguel Galhardo recordou a posição [contra] da Ciclaveiro, desde o início, no que toca ao projeto do Rossio, realçando que o mesmo tornou “totalmente acética aquela zona da cidade”. “Uma zona onde havia muito verde e era um espaço de fruição… Em dias de pico de calor é terrível estar ali (…) Relativamente à questão prática, esta Câmara disse que aquele estacionamento subterrâneo que ali foi feito é um parque periférico… Isto é completamente incoerente, porque o Rossio não é uma zona periférica da cidade... O Rossio é o coração da cidade. Continuarmos a bombear carros e sobretudo autocarros de turismo enormes (…) a passar no coração do Rossio e da cidade não faz sentido (…)”, salientou.
Ainda sobre o parque de estacionamento subterrâneo do Rossio, a presidente da Ciclaveiro salientou que “nunca teve” fundamento e que o Rossio continua a ter “carros mal-estacionados, em cima de passeios, na zona de coexistência sem que a parte da fiscalização faça o que lhe compete (…)”.
A Ria tentou ainda obter uma reação da autarquia relativamente ao primeiro ano da obra de requalificação do Rossio, mas, até ao momento, não obteve resposta.
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