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Opinião

"O município adiado", opinião de Rosa Aparício

Rosa Aparício é deputada municipal eleita pelo Partido Socialista e coordenadora da Estrutura Concelhia de Aveiro Mulheres Socialistas - Igualdade e direitos.

"O município adiado", opinião de Rosa Aparício

Tentaram adiar o curso de Medicina. À primeira tentativa conseguiram-no: forças que se sentem, mas não se veem, e que costumam ter sede onde se decide quem pode fazer concorrência a quem, trataram de abortar um curso que não chegou a ver mais do que um ano letivo. À segunda, encontraram pela frente uma universidade que não pede licença para existir. Um reitor que a defendeu com saber e mestria, um projeto próprio, sem barriga de aluguer, um curso que se afirma com solidez e identidade e de ninguém depende senão de si mesmo. Contra o adiamento, houve em Aveiro quem soubesse o que fazer.

Mas a câmara depende de todos: do Governo que promete, da administração que adjudica, dos tribunais que suspendem, do calendário que é sempre o próximo. E de todos se queixa, com o já famoso queixume “LITIGÂNCIA” porque a dependência tem esta comodidade: fornece sempre um culpado à mão. E, o hospital de Aveiro é, há anos, um projeto que de constante só tem o adiamento.

Anunciado com pompa e circunstância pelo chefe do Governo, em plena caça ao voto autárquico, o hospital foi promessa de palanque antes de ser sequer projeto de gabinete. Nem tão pouco constava do Orçamento do Estado para 2026, onde outros hospitais constavam. Só em Maio deste ano a Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro adjudicou a um consórcio espanhol o projeto de especialidades da nova Unidade de Ambulatório, e por um momento pareceu que se saía do lugar. Em Agosto, a adjudicação foi impugnada judicialmente. É a lei a funcionar. Mas quem governa sabe disso antes de começar. Que uma adjudicação se impugna, que um recurso demora, que um projeto atrasa. Nada disto é imprevisto, e numa boa gestão sabe-se que é para o previsível que se guarda margem. O Governo teve dois anos largos para se focar na ampliação da Unidade de Ambulatório e só ao cabo deles deu o primeiro passo, quando já não sobrava folga para contratempo nenhum. A culpa não está no tribunal. Está nos dois anos que o precederam, em dois anos em que não houve vontade de avançar. Aqui uma nota importa reter: O recente eleito Conselho de Administração não teve qualquer intervenção neste processo de travagem da ampliação do nosso hospital.

E a aritmética é impiedosa. O projeto levaria dezoito meses a fazer-se, o que atirava para Novembro de 2027 não a obra, mas o desenho da obra, e só depois disso iria a concurso o que quer que seja. Esse prazo já não se cumpre. Em Aveiro, o hospital ainda não é uma obra adiada, é um risco no papel que ainda ninguém traçou.

Voltemos ao dia da promessa. Ao lado do chefe do Governo, estava quem o Governo vinha apresentar aos aveirenses. A promessa do hospital foi-lhe entregue como dote de candidatura, e como dote foi usada. Passada a eleição, cumprido o serviço que tinha a prestar, veio a impugnação, veio o prazo que já não se cumpre e não se lhe conhece palavra pública. Nem uma exigência, nem uma censura, nem sequer aquele protesto de circunstância que os autarcas costumam dirigir aos governos da oposição. Mas, como Governo e Câmara jogam no mesmo clube, o silêncio é rei. O silêncio, contudo, também é uma forma de falar, e este fala alto: diz que a promessa nunca foi para ser cobrada, apenas para ser dita. Quem alardeia palavras alheias enquanto elas rendem votos fica moralmente obrigado a explicar-se quando elas se desmancham. É o mínimo que se deve a quem acreditou.

Entretanto florescem inaugurações. Erguem-se taças na abertura do que quer que abra, monta-se palanque de manhã e desmonta-se à noite, repete-se o ritual do espumante e dos ovos moles a cada evento festivo, cultural, desportivo ou outro, e no dia seguinte parte-se para o próximo, porque a inauguração é um bem que se esgota no ato de ser consumido e obriga a repor existências. Assim se vai fazendo crer que a vida de um município se conduz de festa em festa, de fita em fita, de subsídio em subsídio. É um método com uma vantagem considerável sobre todos os outros: inaugurar é imediato, e governar demora. Uma passadeira corta-se numa tarde; um hospital leva dez anos e não dá fotografia nenhuma enquanto não estiver de pé.

A poucos minutos de distância, outra pedra foi lançada. Em Outubro de 2025 começou a construir-se em Aveiro um hospital privado de sete andares, com atendimento permanente, bloco operatório, centena de camas e centena de gabinetes, dezenas de milhões de euros de investimento e abertura anunciada para o final de 2028. Tem projeto, tem prazo, tem preço, tem obra. Teve também, da parte do município, uma diligência que o hospital público nunca conheceu: para que pudesse erguer mais um piso do que o plano de urbanização consentia, o executivo municipal reconheceu-lhe relevante interesse económico e social e levou a proposta à Assembleia Municipal que sabiam, ser aprovada. Registe-se a proeza porque merece registo. Quando a saúde privada precisou de um andar, a câmara moveu-se. Quando a saúde pública precisa de um edifício inteiro, a câmara cala-se.

Fica então Aveiro com uma escola de Medicina e sem o hospital onde ela há-de ensinar. Formam-se médicos numa cidade cujo hospital público não tem obra, não tem projeto, não tem sequer a certeza de quem o há-de desenhar. A universidade fez a sua parte e fê-la sozinha, contra quem a quis adiar. O município limitou-se a aplaudir a promessa alheia e a emudecer quando ela se desfez. É uma inversão que devia envergonhar quem governa esta cidade: quem nada devia à autarquia construiu, e quem tudo lhe devia espera. Enquanto isso, os nossos cidadãos, aqueles que prometemos defender esperam consulta, esperam cirurgia, esperam exames, o aluno espera um hospital para praticar medicina e todos esperam pela mesma coisa, que é aquilo que se lhes prometeu e nunca se lhes deu: melhor qualidade de resposta num direito tão precioso como é a saúde. Um município que adia o essencial e inaugura o acessório não é um município pobre. É um município adiado.

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