48º Aniversário AAUAv: Joana Regadas critica falta de equidade em ensino “centrado nas avaliações”
As farpas deixadas a uma educação pensada com “medidas de bolso, de execução rápida para apresentação de resultado”, à falta de equidade no acesso ao ensino superior e à transformação das salas de aula em “bunkers” onde o acesso à tecnologia é “limitado” pautaram o discurso de Joana Regadas, presidente da direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), na cerimónia de comemoração do 48º aniversário da instituição.
Gonçalo Pina
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A Alameda do Campus de Santiago encheu-se esta sexta-feira, dia 26, para assinalar o 48º aniversário da AAUAv. Para além dos responsáveis pela direção da associação e dos novos dirigentes dos núcleos, que foram empossados durante a tarde, estiveram ainda presentes, entre outros, o reitor Artur Silva, o antigo reitor Paulo Jorge Ferreira, antigos dirigentes, deputados eleitos pelo círculo de Aveiro para a Assembleia da República e responsáveis políticos do Município – de entre os nove eleitos para a Câmara Municipal, apenas o presidente Luís Souto e o vereador Diogo Soares Machado, eleito pelo Chega, não estiveram na cerimónia.
O ponto mais alto do evento foi o discurso da presidente da direção, que não se absteve de críticas à forma como é pensado o ensino em Portugal e às diferenças de oportunidades de cada um de acordo com o local onde estuda. Depois de elencar algumas das principais conquistas da AAUAv – como a existência de recintos desportivos na Universidade de Aveiro, o fecho das cantinas e da UA para impedir o aumento da refeição social e das propinas ou a eleição do primeiro reitor da UA por sufrágio direto -, Joana Regadas apontou o dedo ao poder político.
“A educação altera pensamentos, muda culturas, é na educação que reside todo o poder de futuro, e ainda assim continuamos a pensá-la em ciclos políticos, com medidas de bolso, de apenas execução rápida para apresentação de resultados, sem medir nunca o impacto que podem ter, tornando-se num cargueiro sem rumo definido que dificilmente sai da doca”, sublinhou a dirigente.
Na ótica da estudante, o ensino continua a ser pensado com foco nas avaliações e “não na obtenção de conhecimento, não na procura por um pensamento crítico, apenas como um meio para obter um fim, sendo esse fim a deposição de conteúdos numa folha em branco, que apenas avalia a capacidade de leitura do docente e a capacidade de memória do estudante”. Nesse sentido, e com os olhos no futuro, Joana refere que que se propõe como solução um “bunker […] para que o acesso à tecnologia, ela própria criada em contexto universitário, seja limitado”.
A presidente da direção da associação académica aproveitou a sua intervenção também para falar da falta de equidade que se sente no Ensino Superior, começando por visar o novo modelo de ação social – conforme, aliás, já tinha feito na cerimónia do Dia da UA. Conforme explica, o acesso ao Ensino Superior “será a partir de agora diferente para os 233 estudantes da UA que residem a menos de 50 quilómetros, mesmo que continuem a ter de fazer percursos de transportes públicos superiores a uma hora e meia”.
Recorde-se que, de acordo com as alterações apresentadas pelo Governo no passado mês de maio, o estatuto de estudante deslocado exige que a residência do requerente seja a mais de 50 quilómetros da instituição – antes, este estatuto dependia da inexistência ou incompatibilidade de transportes públicos entre a residência e a instituição de ensino.
Da mesma maneira, a representante dos estudantes disse também que “talvez não seja apenas o código de postal de naturalidade que define o futuro, mas seja também o código postal onde se estuda um grande promotor de ausências de oportunidades”, notando que, desde o 25 de abril, todos os seis Presidentes da República são formados em Lisboa, bem como 15 dos 17 primeiros-ministros eleitos.
Reitor e vice-presidente da Câmara sublinham “parceria” com AAUAv
Após o momento do corte do bolo de aniversário, protagonizado pela presidente Joana Regadas, o primeiro a tomar da palavra foi o vice-presidente da autarquia Rui Santos. Em frente às dezenas de estudantes presentes, o autarca garantiu que o papel da AAUAv junto dos núcleos e nos âmbitos desportivo e cultural é “reconhecida pela sociedade civil” e “está bem vincado”.
Nas palavras do vice-presidente, o Município tem na AAUAv uma “parceira ativa, importante, relevante e prestigiada para planear um futuro que tem vários desafios”. O objetivo, explica, passa por aprofundar a relação que existe entre a Câmara e a instituição – como, defende, já está a ser feito com a Universidade – no sentido de “atrair jovens” para estudar em Aveiro e para “promover todas as condições” para que se fixem e desenvolvam a sua atividade no concelho.
Por seu lado, já depois da entrega de prémios e da tomada de posse dos novos corpos dirigentes dos núcleos, foi a vez de Artur Silva se dirigir à plateia. Notando que a Universidade e a AAUAv cresceram “lado a lado” – a UA nasceu em 1973 e a AAUAv é de 1978 -, o novo reitor recuou ao início do seu mandato, quando reuniu com a direção da associação, para reafirmar o papel da associação “como interlocutor privilegiado da Universidade na compreensão dos desafios dos estudantes” e para “sublinhar o valor de um diálogo próximo e permanente”.
“A Universidade de Aveiro que hoje conhecemos deve muito a milhares de estudantes que decidiram viver a universidade para além das salas de aula, criando projetos, dinamizando núcleos, promovendo iniciativas, contribuindo para a construção da identidade da nossa universidade”, frisou o reitor.
AAUAv distinguiu Paulo Jorge Ferreira como sócio-honorário e associação ‘Just a Change’ com o Galardão Renato Araújo
A passagem do antigo reitor Paulo Jorge Ferreira como sócio honorário da AAUAv foi formalizada na passada segunda-feira, dia 22, com a votação em sede de Assembleia Geral de Alunos (AGA). Sexta-feira foi o dia de, publicamente, homenagear o anterior responsável da instituição, que se disse “sem palavras”.
Embora tenha confessado ser “avesso” a homenagens – tanto porque “reitor nenhum trabalha sozinho”, como porque, acredita, “não tem lugar a homenagem aquele que tentou sempre cumprir o seu dever” -, Paulo Jorge Ferreira disse que não pode “recusar […] uma honra que querem atribuir”.
Homenageada foi também a organização ‘Just a Change’ com o Galardão Renato Araújo. Ao receber o prémio, a responsável Mariana Borges enfatizou que a organização “mobiliza voluntários para transformar casas em lugares dignos de serem vividos” e que, desde 2010, ajudou a reabilitar “600 casas e 200 instituições sociais, impactando a vida de mais de 20.000 beneficiários e mobilizando mais de 30.000 voluntários”. Mariana Borges deixou ainda o convite a todos os estudantes para que se inscrevam nos programas de voluntariado da associação.
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