UA: Marina e Jorge estudam e “vestem” a farda de bombeiros
Marina Souza e Jorge Brás são dois dos estudantes da Universidade de Aveiro (UA) que, atualmente, dividem o seu tempo diário entre os estudos e a paixão pelos bombeiros. Em setembro deste ano, vivenciaram na linha da frente e nos bastidores os incêndios que lavraram, por mais de três dias, no distrito de Aveiro. A Ria foi procurá-los conhecer.
Isabel Cunha Marques
JornalistaMarina Souza é atualmente a única mulher estudante-bombeira da UA na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Aveiro Velhos. Natural de Bela Horizonte, no Brasil, chegou à cidade aveirense, há cerca de cinco anos. “Eu vim para cá por causa do curso e da Universidade… Também tenho a vantagens de ter cá familiares… O meu pai e os meus tios moram cá”, começou por partilhar à Ria. O interesse de Marina pelo voluntariado nasceu ainda no ensino secundário, na escola onde estudou, no Brasil. Na altura, era responsável por organizar os livros da biblioteca. “Eu sempre gostei de ler e como voluntária conseguia ainda mais livros emprestados…”, confessou com uma risada. “Acho que este espírito vem da minha mãe… A minha mãe sempre foi uma pessoa que gosta de ajudar o próximo. Eu cresci com esse ambiente, mas nunca tive ninguém da minha família que fosse para bombeiro”, completou.
O primeiro contacto com os bombeiros aconteceu mais tarde numa das suas vindas a Portugal, neste caso, às Caldas da Rainha, por intermédio da sua antiga madrasta. “A mãe dela era doente oncológica. Eu acompanhava-a nos tratamentos, no Hospital de Santa Maria, com os bombeiros. Foi aí que comecei a conversar e a perceber em que consistia o trabalho dos bombeiros… Eu antes passava à frente dos bombeiros voluntários, mas não percebia o conceito”, admitiu.
Amor à primeira vista ou não [pela profissão de bombeira], foi em outubro de 2018 que Marina Souza decidiu dar esse passo, desta vez, em Aveiro. Na altura, frequentava já o primeiro ano da licenciatura em Ciências Biomédicas na UA. “Como eu moro e estudo aqui na UA os Bombeiros Voluntários Aveiro Velhos eram os mais próximos daqui. Lembro-me de passar na porta deles, de ver um papel de recrutamento e de perguntar aos meus amigos se nos íamos inscrever”, recordou. “O mais curioso é que fui a última a inscrever-me, mas fui a única que fiquei até ao final”, contou Marina, com uma risada, realçando que teve o apoio da família “imediatamente”. “Quando eu passei de bombeira estagiária a bombeira de terceira a cerimónia foi transmitida online porque foi na altura da covid 19. A minha família do Brasil acompanhou tudo à distância. Foi muito emocionante”, descreveu, com um sorriso, a jovem aos 33 anos.
Para conseguir conciliar os estudos com o “bichinho” pelos bombeiros, Marina adiantou à Ria que chegou a levar “várias vezes” os livros para o quartel. “No primeiro ano, como estagiária era mais complicado conciliar só quando passei a bombeira de terceira é que se tornou mais fácil (…) Recordo-me de não ter nenhuma tarefa específica nos bombeiros e de levar o meu material de estudo para o quartel”, confidenciou.
“Eu vi até um camião a arder no meio do caminho”
Longe de desistir desta “paixão”, Marina Souza partilhou que, em setembro, deste ano, face aos incêndios que desolaram a região de Aveirovivenciou, pela primeira vez, aquilo que descreveu como um autêntico “filme de terror”. “Foi muito impactante. Eu já tinha tido a experiência de ir para os incêndios para fora do distrito e o fogo estava bem mais controlado. Neste caso, como foi mesmo lado [de Aveiro] o incêndio estava bem ativo. O sentimento que eu tive quando saí daqui e passei pela A25 foi como se estivesse num filme apocalíptico”, descreveu. “Nunca tinha visto nada assim… Recordo-me de passar na autoestrada e de ver chamas de um lado e do outro… Eu vi até um camião a arder no meio do caminho”, refletiu.
Ao longo dessa semana em que acompanhou a restante equipa de bombeiros para os incêndios em Sever do Vouga e em Albergaria-a-Velha, Marina destacou a segunda-feira [16 de setembro] como o pior dia. “Eu cheguei ao quartel por volta das 7h00 ou 8h00 e assim que nos foi passada a missão [dos incêndios] trabalhamos sempre. O último incêndio que tivemos foi às 5h00 do dia seguinte, numa fábrica. Nesse dia nem dormi”, relatou. “Recordo-me também da história de um homem (…) que nos parou a chorar e a pedir água. Foi chocante…. Tinha gente que não nos entendia e que achava que havia mal vontade nossa de ajudar”, relembrou. “Outra das coisas que me marcou foi já numa vila… Estava a começar a escurecer e eu lembro-me de ver o fogo a descer em direção à vila”, relatou Marina. “Nunca pensei em desistir, mas claro que cheguei a pensar se no final do dia ia conseguir voltar para casa….Acho que quando estamos em missão ninguém pensa nisso”, concluiu.
Atualmente, prestes a terminar a licenciatura em Ciências Biomédicas, Marina Souza tem já o sonho de exercer a profissão, em Aveiro, sem nunca prescindir de ser bombeira voluntária. “A farda tem o lugar dela. Sinto muito orgulho em vesti-la…. Vai além de mim”, exprimiu.
“Era acordar, ir para as aulas e depois seguir para os bombeiros”
Jorge Brás está no 3º ano do curso de Engenharia Mecânica na UA. Além de trabalhador-estudante [na parte do transporte de doentes], é também bombeiro estagiário, pelo menos, “até janeiro”, na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Aveiro Velhos. Natural de Tondela, o “bichinho” pelos bombeiros começou, há um ano atrás, quando viu um panfleto na porta, tal como a Marina, a “pedirem” novos voluntários. “Eu sempre tive o sentimento de querer ajudar os outros… Agora sei que os bombeiros são cruciais nisso”, realçou. Questionado sobre como conciliar os estudos com a vida de voluntário nos bombeiros, Jorge atirou, com uma gargalhada, que conjugar as duas vidas significa “perder mais umas horas de sono”. “Neste momento, como estou a acabar a licenciatura, já só tenho uma cadeira. Mas no 2º ano do curso eu tinha aulas todos os dias e tinha formações nos bombeiros. Tinha de conciliar. Era acordar, ir para as aulas e depois seguir para os bombeiros”, descreveu.
Enquanto bombeiro estagiário partilhou que a formação mais exigente que teve até agora foi na área do salvamento e desencarceramento. “O nosso chefe de escola quis-nos transmitir o pior caso possível de uma ocorrência. Foi muito duro. Neste caso, é quando há uma vítima em encarceramento tipo três em que temos de desfazer o carro todo para retirar a vítima”, explicou.
Aquando dos incêndios, em setembro, Jorge Brás, ao contrário de Marina, acompanhou a ocorrência nos “bastidores” do quartel. “Neste caso, auxiliei os meus colegas no trabalho de logística. Estive no quartel a receber os donativos das pessoas”, disse. No entanto, “recordo-me de ver vídeos dos meus colegas e era chocante…. Havia casas em sítios urbanos a arder… (…) Se aquelas casas em sítios urbanos estavam assim os nossos colegas estavam em sítios muito piores”, confidenciou.
“Não é comum vermos jovens a estudar despertados com esta realidade”
Mauro Martins é o atual comandante na Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Aveiro Velhos. Tal como a Marina e o Jorge chegou aos bombeiros quando tinha 23 anos. Na altura, era também estudante, na UA, no Instituto Superior de Contabilidade e Administração (ISCA). “Eu já tinha família nesta vida…. O meu bisavô e o meu avô também foram bombeiros…. Tinha cá também uns primos e o meu irmão…. Na altura, morava aqui ao lado [do quartel] em frente ao Café Convívio”, apontou. O tempo foi passando, o gosto pelos bombeiros foi aumentando e há cerca de 15 anos tornou-se oficialmente profissional a tempo inteiro. “Se fosse para desistir já o devia ter feito… Só se me saísse o euromilhões”, atirou com uma gargalhada.
Agora, aos 50 anos, descreveu os casos da Marina e do Jorge [nos bombeiros] com um especial brilho nos olhos já que os encara como “raros”. “Eles surpreendem-me pela positiva. Não é muito normal. (…) Eles até são pessoas fora daqui…. Normalmente, a lógica é que as pessoas despertem na sua cidade natal e que depois peçam transferência por estarem a estudar. É uma situação nova. Não é comum vermos jovens a estudar despertados com esta realidade”, atentou. “Isto obriga a muita responsabilidade e a muito empenho… Isto significa vir dia sim, dia não, à noite, para os bombeiros para vir fazer formação depois de um dia de trabalho ou depois de um dia de aulas. Normalmente as pessoas procuram o tempo livre para se divertirem”, desabafou.
“Aquilo que as pessoas doaram num só dia dava para comprar uma ambulância nova”
Segundo o comandante, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Aveiro Velhos tem vindo a enfrentar “dificuldades” para recrutar novos elementos para a equipa. “Antigamente, eram capazes de surgir 20 pessoas para começarem as escolas e depois acabavam 15… Hoje em dia, começa-se com muita gente, mas também sai muita gente”, referiu.
Se tivermos como referência o ano de entrada de Mauro Martins nos bombeiros, ou seja, no ano de 1997, segundo os dados da Pordata, em comparação com o ano de 2022, em Portugal, houve um decréscimo de 9411 bombeiros [profissionais e voluntários]. Particularizando só na região de Aveiro, um ano depois [em 1998], havia 270 bombeiros e, em 2022, 200 bombeiros.
Mauro diz que este decréscimo se deve ao tempo e à responsabilidade que a profissão de bombeiro exige. “Isto é como andar a estudar… Se não cumprirem reprovam e não podem concluir… Isto também significa que todas as semanas vão ter de estar ao serviço e de abdicar de algumas coisas…”, assegurou, destacando que, nos últimos anos, curiosamente, em Aveiro, tem havido mais mulheres a interessar-se pela área do que homens.
Atualmente, com cerca de 100 bombeiros voluntários e de 40 profissionais na corporação, Mauro Martins lamentou que a sociedade ainda associe o papel do bombeiro, unicamente, aos incêndios florestais. “Isto representa uma percentagem mínima do nosso trabalho. Se tivermos uma época em que estamos aqui todos os dias e temos um ou dois incêndios acaba por ser normal. Por exemplo, nós só hoje já abrimos uma porta com uma vítima no interior, já cortamos uma árvore e já fomos a um incêndio”, exemplificou. “É a nossa vida (…) Não sei se ao longo dos anos acabamos por nos habituar… Há sempre novidades, mas como fazemos tantos serviços esta situação [dos incêndios] acaba por nos passar despercebida ou não pensamos como tendo um impacto maior”, frisou.
Com “meia dúzia de sócios”, nos dias de hoje, a apoiar a associação de bombeiros, numa nota final, o comandante apelou a que cada um contribua com o “suficiente”. Dando como referência o último incêndio, em Aveiro, reconheceu que “aquilo que as pessoas doaram num só dia dava para comprar uma ambulância nova”.
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