Acordo com o Chega divide Aveiro: troca de argumentos marca debate político local
A iminente entrada de Diogo Soares Machado, vereador eleito pelo Chega, no executivo liderado por Luís Souto está a intensificar o confronto político em Aveiro. Entre críticas do PS, reservas do CDS e contra-argumentos no espaço político, o entendimento com o Chega tornou-se um disputa de argumentos, com leituras divergentes.
Redação
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A iminente entrada de Diogo Soares Machado, vereador eleito pelo Chega, no executivo da Câmara Municipal de Aveiro não constitui propriamente uma surpresa. Apesar dos avanços e recuos nas negociações, a Ria apurou que os contactos entre o autarca e Luís Souto remontam a 2025, pouco tempo após a vitória eleitoral da coligação ‘Aliança com Aveiro’.
Segundo informações recolhidas pela redação, o acordo esteve muito próximo de ser concretizado no final de 2025. Contudo, o voto favorável de Diogo Soares Machado à revogação do Plano de Pormenor do Cais do Paraíso gerou desconforto em Luís Souto, conduzindo a um período de afastamento no processo negocial.
A reaproximação viria a tornar-se pública no final de março deste ano, quando, em entrevista ao Jornal de Notícias, Luís Souto admitiu, pela primeira vez, estar a negociar um entendimento com o Chega, com o objetivo de assegurar uma maioria no executivo municipal.
As declarações desencadearam reações no panorama político local, com especial destaque no CDS, parceiro da coligação. A distrital do partido, liderada por Pedro Magalhães, emitiu um comunicado a manifestar discordância com o caminho seguido e a sublinhar que não foi consultada. Também Ana Cláudia Oliveira, vereadora do CDS eleita pela ‘Aliança com Aveiro’ e presidente da concelhia, remeteu-se para essa posição, classificando o tema como “uma matéria de natureza política que merece a devida ponderação, sem qualquer decisão formal”, evitando uma tomada de posição clara.
Mais recentemente, na última semana, a convocatória para uma reunião de Câmara de carácter privado, com um ponto dedicado à aprovação de um novo vereador a tempo inteiro, veio sinalizar o desfecho de um processo negocial que se prolongou por cerca de seis meses e que deverá culminar com a entrada de Diogo Soares Machado no executivo.
A opção por discutir o tema à porta fechada está a ser encarada pela oposição como uma estratégia de reduzir a exposição pública de um dossiê politicamente sensível, limitando a possibilidade dos aveirenses acompanharem diretamente o debate e a posição dos eleitos sobre a nova configuração do executivo municipal.
Num plano mais alargado, o acordo entre Luís Souto e Chega tem vindo a ser acompanhado por um intenso confronto de argumentos no espaço político local. O Partido Socialista tem sustentado que este acordo não foi sufragado nas urnas. Trata-se, porém, de uma argumentação que tem sido prontamente rebatida. Por um lado, o próprio PS, no plano nacional, esteve associado a uma solução governativa - a chamada “geringonça” - que não resultou diretamente de um mandato eleitoral e que permitiu a António Costa governar após perder eleições. Por outro, existem múltiplos exemplos, a nível nacional, de presidentes de câmara que atribuem pelouros a vereadores de forças políticas que não venceram eleições, incluindo casos anteriores na própria autarquia aveirense sob liderança socialista.
Ainda assim, os socialistas não deverão traduzir essa crítica num voto contra. À Ria, Paula Urbano Antunes, presidente da concelhia do PS e vereadora na Câmara Municipal de Aveiro, já tinha admitido que o partido não pretende “obstaculizar” a passagem de Diogo Soares Machado a vereador a tempo inteiro, classificando o entendimento como uma “opção de gestão” da responsabilidade de Luís Souto.
Apesar do tom crítico, a opção pela abstenção assenta numa distinção que o PS procura fazer entre o plano político e o plano institucional. Ao enquadrar o acordo como uma decisão de gestão do presidente da Câmara, os socialistas entendem que não lhes compete bloquear a formação de uma maioria no executivo, evitando dar força à narrativa de que são uma “força de bloqueio”. Ainda assim, esta posição não deixa de expor o partido a críticas no plano comunicacional: ao endurecer o discurso político, mas sem votar contra, arrisca alimentar a perceção de incoerência, numa nuance que nem sempre é facilmente interpretada fora dos círculos políticos mais atentos.
Já Luís Souto tem justificado o entendimento com o Chega com a necessidade de ultrapassar aquilo que considera ser uma “força de bloqueio” por parte do PS. Também esta leitura tem sido contestada por vários atores políticos locais. A ‘Aliança com Aveiro’ dispõe de maioria na Assembleia Municipal e a generalidade das propostas levadas a reunião de Câmara tem sido aprovada com o apoio socialista. Acresce que, nos dossiês em que não houve consenso - como a revogação do Plano de Pormenor do Cais do Paraíso -, o Chega acompanhou o PS na votação, o que levanta dúvidas sobre a coerência política do atual entendimento.
Do lado do CDS, Ana Cláudia Oliveira continua a remeter-se à posição da distrital, numa estratégia interpretada por muitos como uma forma de se proteger e evitar conflitos diretos com o edil aveirense. Apesar da discordância expressa pela distrital e do partido não ter sido consultado, a Ria sabe que Luís Souto transmitiu tranquilidade ao seu núcleo mais próximo, mostrando-se convicto de que o CDS acabará por viabilizar o acordo, seja através de um voto favorável ou de uma abstenção. Entre os argumentos apontados está a intenção de Ana Cláudia Oliveira se manter em funções executivas, evitando, por isso, um confronto direto com o presidente da Câmara.
Esta leitura é corroborada por vários sociais-democratas ouvidos pela Ria, que destacam o reforço do espaço político e mediático de Ana Cláudia Oliveira no atual mandato - um protagonismo que não detinha durante a liderança de Ribau Esteves -, considerando-se pouco provável que esteja disponível para o abdicar.
Apesar da iminência do acordo, permanecem várias incógnitas. Não é ainda conhecida a natureza concreta do entendimento entre Luís Souto e o Chega, nomeadamente ao nível de eventuais cedências relacionadas com os programas eleitorais ou compromissos assumidos por ambas as partes.
Fica também por esclarecer o impacto deste cenário nas eleições autárquicas de 2029. Sem esse esclarecimento, permanece em aberto a possibilidade de o Chega vir a integrar a ‘Aliança com Aveiro’, alinhar diretamente com o PSD ou apresentar-se de forma autónoma - hipótese que poderá limitar o partido, na medida em que ficará politicamente associado a um mandato que passará a integrar e, por isso, condicionado na sua capacidade de fazer oposição.
Paralelamente, a Ria apurou que as negociações entre Luís Souto e Diogo Soares Machado decorreram à margem da secção local do PSD-Aveiro, o que levanta interrogações quanto ao posicionamento dos militantes. Tendo em conta o histórico da última campanha autárquica - marcada por críticas duras de Ribau Esteves a Diogo Soares Machado -, não se antecipa consenso interno. Pelo contrário, começam a emergir, nos bastidores, vozes discordantes que recordam declarações do próprio Luís Souto durante a campanha autárquica, nas quais criticava a atuação de Diogo Soares Machado, recordando a gestão do Parque de Feiras e Exposições, e o acusava de atacar instituições e pessoas, prejudicando o debate democrático.
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