Menos automóveis, mas automóveis a mais: O que já se sabe do estudo à Avenida Lourenço Peixinho?
A ‘Conferência alargada Semana Europeia da Mobilidade 2026’ organizada pela Câmara Municipal de Aveiro (CMA) na passada quarta-feira, dia 16, serviu para que a empresa ‘Transportes, Inovação e Sistemas’ (TIS) revelasse as primeiras conclusões do estudo a ser feito sobre a Avenida Lourenço Peixinho. Madalena Beja, responsável da empresa, comparou dados de 2026 e 2018 e destacou a diminuição do fluxo automóvel, mas frisou que a redução ainda deve ser mais acentuada e que é preciso criar alternativas à Avenida.
Gonçalo Pina
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Depois de, no passado mês de maio, um estudo sobre a Avenida Lourenço Peixinho ter sido adjudicado, por consulta prévia, à empresa à empresa Transportes, Inovação e Sistemas (TIS) PT – Consultores em Transportes, por 66.845 euros e com prazo de execução de 120 dias, a Semana Europeia da Mobilidade foi o momento escolhido para apresentar as primeiras conclusões. Recorde-se que, em 2023, a Avenida foi alvo de uma requalificação profunda em que foram investidos cerca de 4,5 milhões de euros.
Conforme explicou Luís Souto, presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA), durante a apresentação do trabalho, ainda só está concluída a primeira fase do estudo, que consiste num “diagnóstico” da situação atual da Avenida. Embora a apresentação já conte com alguns apontamentos do que pode vir a ser a próxima fase, as soluções finais que a empresa vai sugerir para melhorar o fluxo de trânsito ficam guardadas para uma próxima apresentação.
Madalena Beja, que falou em nome da TIS, começou por explicar que os dados recolhidos se baseiam em “trabalho de campo” feito ao longo do mês de maio. Durante a análise, os responsáveis fizeram contagens de automóveis, bicicletas e peões durante as horas de ponta da manhã e da tarde na Avenida e na área envolvente – isto porque, aponta, as artérias periféricas são podem vir a fazer parte de soluções futuras para escoar o trânsito.
Comparando com dados de 2018, presentes no Plano de Estruturas Viárias (PEV), Madalena Beja conta que se verifica que “nas principais interseções de Aveiro […] houve um acréscimo de tráfego […], em particular nas ligações com o exterior”. No entanto, “quando olhamos para a Ponte Praça e para a relação que tem com a Avenida, verificamos exatamente o contrário”.
Passando esta avaliação para números: em 2011, na hora de ponta da manhã, havia, no sentido descendente, cerca de 620 viaturas, e, no sentido ascendente, 430; atualmente, Madalena Beja relata que, no mesmo período, há cerca de 380 automóveis no sentido ascendente e 230 no sentido descendente. A tendência também se verifica na hora de ponta da tarde: em 2011, 590 carros no sentido ascendente e 530 no sentido descendente; em 2026, 350 no sentido ascendente, 280 no sentido descendente. Destes números pode ver-se também que, de forma consistente, o sentido descendente tem um fluxo “muito mais pesado”.
Para além da diminuição do número de automóveis a circular, a especialista dá também nota de um “crescimento excecional” de bicicletas a circular – são oito vezes mais bicicletas na hora de ponta da manhã e cinco vezes mais na hora de ponta da tarde. “Olhando para estes valores, o plano da Avenida fez o seu caminho […] Ainda que o tráfego que está a chegar a Aveiro seja maior, ele está a distribuir-se para outras áreas, para que a Avenida seja um espaço menos automóvel”, conclui.
Com o apontamento de que o objetivo não é fazer grandes intervenções na Avenida, uma vez que “a roda já está feita” e de que não se vai “reinventar a roda”, Madalena Beja afirma que seria positivo que o número de automóveis nunca ultrapassasse os 500 por hora, o que significa encurtar o tráfego em cerca de 200 carros em alguns troços.
Os especialistas tentaram também perceber o tráfego no troço específico entre as rotundas em que a Avenida cruza com a rua Alberto Souto e com a rua Engenheiro Oudinot. Aí, diz Madalena Beja, a empresa tentou perceber “quem passa, de onde vem e para onde vai”: “Há algum tráfego que faz ponta a ponta […], mas muitas das situações são de ‘toca-e-foge’. As soluções que podemos gerar são de desviar o tráfego”.
Os cruzamentos, explica a responsável, podem classificar-se de A a F – sendo o A o melhor e o F o pior - de acordo com o quão eficazes a permitir a fluidez do trânsito. Nesse sentido, “há cruzamentos de nível F”, em que os “veículos perdem demasiado tempo a atravessá-lo” – “da parte da tarde, a rotunda-praça aparece com alguns problemas” e “faz sentido olhar para a rotunda com a Engenheiro Oudinot”.
Pegando no caso concreto do cruzamento com a rua Engenheiro Oudinot, Madalena Beja afirma que há duas interseções de nível F que têm impacto direto mais atrás, uma vez que se começa a formar fila para dentro da rotunda da Oita.
A responsável assinalou ainda que o corredor-bus é muitas vezes ocupado por automóveis e que há quem a use para estacionar em segunda fila. Da mesma forma, assinala, o estreitamento da via também levanta problemas quanto à visibilidade das ciclovias nas entradas das interseções.
TIS está a estudar soluções: Tirar prioridade aos automóveis face aos autocarros e procurar percursos alternativos está em cima da mesa
Ainda sem conclusões definitivas, Madalena Beja explica que já existem algumas hipóteses a ser cogitadas para conseguir tirar ainda mais trânsito da Avenida Lourenço Peixinho – um objetivo em linha com aqueles que foram definidos quando a requalificação foi projetada.
Em primeiro lugar, a especialista afirmou que “um dos cenários […] é fazer uma inversão da [rua] Engenheiro Oudinot e criar um arco para criar percursos alternativos da Avenida”. No mesmo sentido, assumiu que está a ser discutida a hipótese de “tentar novamente afastar por percursos alternativos pela rua do Carmo e pela rua do Gravito e depois um retorno à Avenida mais à frente”.
Mais complicadas são as hipóteses de alterar a geometria da Avenida, retirando rotundas para reintroduzir cruzamentos ou protegendo o corredor-bus colocando-o ao centro da Avenida. Madalena Beja sugeriu ainda que, possivelmente, do lado esquerdo, se deve inverter a prioridade: atualmente, os automóveis têm prioridade sobre os autocarros; no futuro, o transporte coletivo pode passar a ser priorizado.
Em jeito de conclusão, a especialista lembrou que existe sempre a possibilidade de aumentar a capacidade para automóveis dentro da Avenida, mas não acredita que esse deva ser o caminho a ser seguido. Para além de esse não ter sido o objetivo da mais recente intervenção, a responsável da TIS aponta que, “quando aumentamos a capacidade [para automóvel], aparecem sempre mais”, pelo que o problema ressurgiria no curto-médio prazo.
Luís Souto enaltece redução do tráfego: “A Avenida estava a definhar e a intervenção acabou por lhe dar uma nova vida”
Durante a intervenção que precedeu a apresentação, o presidente da Câmara Municipal de Aveiro voltou a colocar-se do lado da intervenção feita na Avenida Lourenço Peixinho durante o mandato do seu antecessor José Ribau Esteves e considerou que o espaço “tem já uma renovação considerável do seu comércio”.
Afirmando que antes a Avenida estava “a definhar”, Luís Souto lembrou que a meta não era “facilitar a vida aos carros”. Não obstante, o edil referiu que o executivo municipal também não quer que o trânsito esteja “entupido” e, portanto, introduziu o estudo como uma forma de “melhorar a fluidez do trânsito” sem que recurso ao “achismo”.
Depois de ouvir a apresentação, em conversa com a Ria, o presidente sublinhou que, “se fosse jornalista, havia uma coisa muito interessante [que destacava], que é haver menos carros na Avenida e não mais carros […] [e] há muito mais bicicletas”. “A perceção pública que se tem transmitido é de que a Avenida está cheia. Não está, os dados do estudo […] mostram que há menos carros”, frisa.
Nas palavras de Luís Souto: “Não vamos fazer agora uma alteração estrutural da Avenida, porque ela foi feita há pouco tempo. Foi um investimento muito considerável. Aquilo que é preciso é arranjar mecanismos para dissuadir a utilização do automóvel na Avenida, de forma a que aqueles que realmente têm de o utilizar, utilizam, e que os que não têm de utilizar, não utilizem”.
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