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Diretor artístico dos Festivais de Outono aposta em concertos aliados com pintura, teatro e dança

Em entrevista à Ria, o diretor artístico dos Festivais de Outono da Universidade de Aveiro explica o processo criativo por detrás do cartaz anunciado esta quinta-feira e reforça aquilo que denomina de “investimento” na “nova geração de músicos e artistas”.

Diretor artístico dos Festivais de Outono aposta em concertos aliados com pintura, teatro e dança

Esta quinta-feira, foi divulgado o cartaz para a 22ª edição dos Festivais de Outono, que acontece de 25 de outubro a 27 de novembro. Em entrevista à Ria, o diretor artístico do evento, Pedro Rodrigues partilha os destaques, o conceito base de “Música Mais” - que procura explorar as “relações multidisciplinares da música” - bem como, a missão do festival de “mostrar aos alunos aquilo que pode ser o seu futuro”.

Ria: Começava por perguntar-lhe em que é que consistem os Festivais de Outono?

Pedro Rodrigues: Aquilo que nós vamos ter é, a partir do dia 25 de outubro até 27 de novembro, cerca de 15 concertos que vão percorrer Aveiro, Ílhavo, Oliveira de Azeméis e Águeda.

Portanto, em termos estilísticos, há uma grande variedade, mas convenhamos que existe um maior foco naquilo que será denominada música erudita. Este ano, em termos de temática, decidimos privilegiar as relações multidisciplinares da música. Isto é, e de uma forma, digamos, temática, denominamos “música mais”. Então há concertos que é música mais dança, música mais pintura ao vivo, música mais teatro. E, nesse sentido, alargar aquilo que é a nossa forma de sentir e receber um concerto.

Ria: Este conceito de que fala de “música mais” foi também parte do processo criativo para chegarem aqui a esta edição, a estes nomes, a este cartaz?

Pedro Rodrigues: Sim, digamos que foi a nossa linha de pensamento. Se bem que dentro da música quase sempre exista, quer na origem da própria música, quer no próprio processo de apresentação, uma forma extramusical de a criar, de a interpretar: aqui decidimos que, de facto, deveria acompanhar todo esse tipo de processo para o público.

Ria: Consegue apontar os destaques desta edição?

Pedro Rodrigues: Sim, portanto, dos 15 concertos, eu sugiro os 15 concertos. Fazendo assim uma triagem, para quem não tem tanto tempo disponível, eu talvez sugerisse cinco. O Concerto de Abertura, que vai juntar a Orquestra Filarmonia das Beiras, que já é tradição serem eles a abrir os festivais, a solista Sofia Marafona, e, em termos de relação multidisciplinar, vamos ter a presença de alunos do Departamento de Comunicação e Arte, que vão apresentar segmentos de tratamento de vídeo ao vivo, live visuals.

Para um segundo concerto, talvez um dos nomes mais conhecidos desta edição, seja o da cantora Ana Moura. Esse concerto terá lugar na Caixa UA, que é o espaço com a maior capacidade de público que temos aqui, nas proximidades, digamos assim, e que será, de certeza, escasso para todas as pessoas que querem assistir ao concerto.

Um outro [concerto] que eu também acho muito interessante será o Concerto do Ensemble Mediterrain, que é um trio de cordas, que vem na sua formação de trio de cordas, ou seja, violino, viola, violoncelo. Vão apresentar as “Variações Goldberg” de Johann Sebastian Bach, que é uma obra icónica, originalmente escrita para piano, e a relação multidisciplinar aqui é música e poesia: então vamos ter poesia de Jorge de Sena, que se chama precisamente as variações Goldberg-Bach.

Uma especificidade que eu acho interessante deste concerto é que a abertura do concerto vai estar a cargo de alunos da Escola Artística do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Aveiro. Portanto, é um pouco como se vê em festivais de outros estilos musicais, em que a primeira parte está a cargo de nomes promissores. Então, assim, há toda uma presença de alunos que esperamos inspirar e esperemos que nos inspirem também com aquilo que são as suas crenças na música e no futuro.

Para este ano, nós criamos o que chamamos o Ensemble Efémero Internacional. E esperemos que não seja efémero porque, de uma forma muito sucinta, decidimos reunir alunos dos três ciclos de Música: Licenciatura, Mestrado e Doutoramento oriundos de outros países. Portanto, para já temos um Ensemble que certamente irá crescer no futuro, que reúne alunos do Brasil, da China, de França, de Venezuela, da Colômbia, do Irão, da Turquia.

E aqui o propósito é ouvirmos a sua música no momento em que, talvez, as fronteiras estejam criadas de uma forma ainda mais artificial nas nossas cabeças e percebermos, através da arte, o tipo de união que existe e o tipo de beleza que, muitas vezes, somos mais capazes de aceitar numa forma para a qual estaremos mais sensíveis.

O último concerto, o quinto, talvez fosse o concerto de encerramento que será também no Teatro Aveirense, dia 27 de novembro e este concerto é dedicado à temática do mar. Portanto, temos aqui uma relação música e ambiente, música e literacia oceânica e este concerto tem o privilégio de ter o endosso da década do oceano e todo o programa irá, digamos, andar em torno da temática do mar.

Teremos Debussy com La Mer, obras de Luís Tinoco, o sotaque azul das águas e, finalmente, Benjamin Britten, Four Songs of the Sea. Portanto, este concerto é antecedido por uma mesa-redonda às seis da tarde que reunirá a professora Susana Sardo, pró-reitora, o professor Luís Menezes, também do DeCA e comissário da década do oceano e o compositor Luís Tinoco. Portanto, uma forma de pensar de que forma é que a ecologia, a arte, a educação têm uma missão em conjunto.

Ria: Que importância tem envolver estudantes, antigos alunos, neste conceito dos Festivais de Outono?

Pedro Rodrigues: Nestas relações com as escolas, não é apenas o conservatório, mas também a Banda Amizade, aquilo que nós consideramos interessante passa por vários pontos. Primeiro, uma forma de mostrar aos próprios alunos aquilo que pode ser o seu futuro, se assim o desejarem, se para tal trabalharem. Como é que funciona um festival profissional de música? Isto dá-lhes um entendimento sobre aspetos muito práticos, quer do ponto de vista da gestão, da profissão, mas também no tipo de preparação.

Convenhamos que, para esses alunos, eles talvez não estejam tão prontos em novembro como estarão no final do ano letivo. Portanto, há aqui logo uma necessidade de urgência que é mais apropriada para alunos mais velhos logo já é uma espécie de um indicativo do que aí virá.

Por outro lado, esta educação passa também por todo o contexto familiar. E esse tipo de apoio, que em todos os alunos tem de ser constante e construído em relação não apenas com a escola, mas com toda a sociedade, é um dos elementos que decidimos privilegiar.

Relativamente aos antigos alunos, não aparecem neste contexto, digamos que esta é para faixas etárias até aos 18 anos, mas os nossos antigos alunos são, de facto, uma das forças mais importantes deste tipo de evento. E tem todo sentido porque estamos, digamos, não apenas a trazer à tona aquilo que é o nome da instituição, mas a reforçarmos em conjunto essa missão de divulgação.

Ria: Já ouvi aqui falar-me da música com teatro, da música com poesia, agora da música com a parte mais ambiental, digamos assim. Que outras ligações é que existem aqui nesta “Música Mais”?

Pedro Rodrigues: Talvez uma que seja muito interessante e que providencie uma visão menos frequente dos concertos é a construção de instrumentos.

No dia 3 de novembro vamos ter o Tiago Matias, que é um músico da região de Aveiro e toca instrumentos antigos como o alaúde, o violão. Com ele no palco estará o Orlando Trindade, que é um violeiro, um luthier de excelência e ele próprio irá explicar como é que se constrói um determinado instrumento que eles irão apresentar, que é um instrumento português do século XVIII.

Outras relações que ainda não falámos, talvez a música e pintura. Vamos ter pintura ao vivo tanto em Oliveira das Meias no dia 15 como também em Aveiro no dia 21 com o Quarteto de Cordas Contemporâneo. Cada uma destas pinturas em termos de técnica será diferente e acompanhará também um estilo de música bastante distinto.

Ria: Esta pintura, desculpe interrompê-lo, estará depois exposta, por exemplo? O que é que acontecerá a esta pintura?

Pedro Rodrigues: Ficará exposta e aquilo que está previsto também num dos concertos é que o próprio público também participe artisticamente. Portanto, digamos que será assim uma atividade coletiva.

Posso talvez ainda destacar os concertos que nós já temos há alguns anos que têm sempre esta vertente mais pedagógica e formativa como é o caso do Concerto de Laureados da Universidade. Ou seja, temos aqui premiados de concursos. No caso, estará a cargo de dois alunos de piano e outro que é um concerto que se chama “Presente em Mente” que é dedicado às obras dos jovens compositores do Departamento de Comunicação e Arte.

Ria: Já fui percebendo o porquê de existirem no cartaz alguns nomes que se calhar possam não ser assim tão familiares para o público em geral, digamos. É também essa uma aposta? Ou seja, trazer novos artistas para os Festivais do Outono?

Pedro Rodrigues: Tem que ver com aquilo que é a nossa política. Ou seja, em certa medida aquilo que nós acreditamos que é correto fazer é um investimento naquilo que serão valores futuros.

E aquilo que nós estamos a criar é precisamente essa nova geração de músicos e de artistas. Portanto, se fizéssemos apenas um festival com grandes nomes, que teremos todo o prazer em receber, evidentemente, possivelmente estaríamos a passar ao lado de um investimento naquilo que serão os nossos vizinhos, digamos assim, que será o nosso espaço, que será a nossa formação e não estaríamos a dar aquilo que é um lugar de exposição e de trabalho com condições adequadas e seria estar a plantar para o outro escolherem. Portanto, digamos que é uma crença nossa de valorização daquilo que será o futuro.

Ria: Esses espetáculos são todos abertos ao público? Existem espetáculos em que existe restrição de idades, por exemplo?

Pedro Rodrigues: Sim, existe. Também temos concertos especificamente para todas as idades, nomeadamente os concertos para famílias, que acabámos por não mencionar. Concertos que decorrem ao domingo de manhã, às onze da manhã e evidentemente que os mais pequenos, a partir dos dois dias de idade, são muitíssimo bem-vindos. Outros serão a partir dos seis anos de idade.

Ria: Que afluência esperam ter?

Pedro Rodrigues: Idealmente todos os concertos teriam uma lotação esgotada, não é? E é esse o nosso objetivo, evidentemente, é tentar, de facto, cativar cada vez mais público.

Entendemos que tal não é possível porque as preferências não são todas as mesmas entre todas as pessoas, as disponibilidades não são todas as mesmas, mas aquilo que achamos que é fundamental destacar é que será uma nova maneira de viver cada um dos concertos, através de uma relação artística que nem sempre é privilegiada nesses mesmos eventos e que, em função disso, o público, mesmo que vivencie dois concertos seguidos, nunca terá exatamente uma mesma reação, pois as relações multidisciplinares são muito diversas entre si. Portanto, o fator de novidade aqui é constante e esperamos que isso possa ser, de facto, uma mais-valia naquilo que será a atenção do público.

Ria: Neste processo criativo que teve para construir este cartaz, também foi avaliando aquilo que está a ser feito e esse fator de novidade para trazer para aqui?

Pedro Rodrigues: Sim, eu felizmente tenho o privilégio de poder dialogar livremente com os músicos, no sentido de lhes apresentar aquilo que será uma ideia, uma provocação.

E a partir daí, em alguns casos, a ideia já vem totalmente disponível segundo este modelo, no caso de interação com outras artes, ou eventualmente conseguimos construir. E agradeço a todos os artistas e a toda a equipa de produção dos festivais pela disponibilidade que sempre demonstraram. E, claro, à equipa reitoral por aceitar este desafio. Mas digamos que, de facto, é um privilégio que eu tenho essa capacidade de criação que os artistas me concedem ao participar neste evento.

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