GrETUA: Novos intérpretes estreiam-se em palco e querem “ser felizes” a fazer teatro
É já esta noite, dia 15, que o Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro (GrETUA) estreia a criação original “A Floresta”, de Joana Magalhães, que representa o momento final do Curso de Formação Teatral ministrado no ano letivo de 2025/2026. A Ria visitou o espaço durante a preparação do espetáculo para conhecer o processo e antecipar o “momento fundamental da vida” anual da organização.
Gonçalo Pina
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Por esta altura, entrar no GrETUA é aceder a um pequeno caos instalado que antecede a grande consagração. Há quem varra furiosamente a sala, de forma a que esteja mais apresentável – apesar dos vários ramos e pedaços de árvores pela sala -, há quem esteja a pintar e há quem, cá fora, esteja a esboçar um pré-ensaio antes da hora marcada. “Está um desarrumado que nem é bonito, é mesmo só desarrumado”, confidencia João Garcia Neto, diretor artístico do GrETUA.
A confusão tem uma explicação lógica: aproxima-se a passos largos a estreia da nova criação original do grupo académico, ‘A Floresta’. Este espetáculo, encenado por Joana Magalhães, vai colocar em cena 16 novos intérpretes formados ao longo do último ano na ‘cantera’ do GrETUA, constituindo assim o ponto mais alto da temporada.
Embora paute a sua atividade por uma programação cultural constante que atravessa todo o ano letivo, o verdadeiro alimento da essência da secção é o Curso de Formação Teatral, organizado anualmente – apesar de existir uma segunda vaga de inscrições no segundo semestre, os Recursos de Formação Teatral, e um reforço da componente formativa, com o Kit de Sobrevivência de Criação Teatral.
Chegados à caixa-negra do GrETUA, deparamo-nos com uma sala convertida em floresta: o chão pintado de caruma e terra; troncos altos, quase acabados, que se estendem do chão até quase tocar o teto; e algumas pinhas espalhadas. No centro da sala pode ver-se uma estufa que, apesar de pequena, ocupa quase toda a extensão do espaço. Lá atrás, longe das bancadas onde se sentará o público, um acampamento recheado de adereços, como uma mesa, uma tenda e até uma caçadeira.
Em conversa com a Ria, João Garcia Neto conta que a própria produção do cenário funciona em articulação com a formação ministrada ao longo do ano: “O tal ‘Kit de Sobrevivência de Criação Teatral’ convocou uma série de oficinas e, para cada oficina, diferentes profissionais do teatro, de áreas que também fazem parte da criação para palco. Desde a cenografia, à escrita, aos figurinos, à costura, à conceção dos figurinos. Em grande parte dessas oficinas nós já começámos também a preparar, ou pelo menos a idear, a ganhar algumas competências mais técnicas ou mais criativas”.
“Há uma equipa a trabalhar também no som, há uma equipa a trabalhar na luz… Portanto, a criação teatral acontece, por excelência, de forma multidisciplinar”, acrescenta o diretor artístico.
A formação converge assim para este exercício final, em que é necessário enfrentar o palco tomando por base as ferramentas adquiridas nos últimos meses. No entanto, e porque o GrETUA não se faz só de caras novas, João Garcia Neto explica que esta é uma ocasião em que “o espaço convoca toda a gente” em torno de um “propósito comum”. Nas palavras do diretor, “é um momento que injeta muita vida e que faz com que as pessoas criem um vínculo, que depois também se alimenta no início do ano letivo seguinte […] Malta que estava no elenco [no ano passado] agora está a fazer produção ou a trabalhar noutras áreas”.
Como grupo de teatro universitário, é natural que muitos dos que agora se juntam ao GrETUA sejam estudantes. É o caso de Gustavo, do Departamento de Educação e Psicologia (DEP) da Universidade de Aveiro (UA), que diz ter ingressado “para brincar e ser feliz”, porque “o teatro é uma das [suas] grandes paixões e motivações na vida”.
Apesar de não ser uma estreia absoluta em palco, Gustavo conta que o Curso de Formação Teatral mexeu com a sua experiência. A título de exemplo, lembra o módulo de interpretação, que veio mudar “a forma como via o teatro e a forma de interpretar os personagens […] Eu sinto muito que veio aumentar essa minha paixão por perceber as pessoas e por perceber as personagens”. “Também vem da minha paixão pela psicologia… tentar perceber as outras pessoas, estar lá para elas e ter simpatia”, completa.
Diferente é a história de Mariana, que vem de propósito de Coimbra, onde é investigadora do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade, para participar. Para estar nos módulos e para ensaiar, a recém-formada intérprete tem de se deslocar a Aveiro e, muitas vezes, de dormir em casa de colegas. “Em Aveiro, conheço o GrETUA e agora o Mercadona onde vou buscar comida [risos]”, brincou.
Apesar de também haver teatro universitário em Coimbra, em estruturas como o Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC) ou o Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC), Mariana diz que se identificou mais com o formato formativo proporcionado pelo GrETUA. “Aqui os cursos são intensivos, ou seja, há módulos específicos em que temos, sei lá, x aulas de cada módulo […] É um compromisso a que eu acho que é mais fácil de aderir e que ao mesmo tempo dá uma certa intensidade. Muitas vezes em Coimbra têm ensaios ou aulas todos os dias do ano letivo”, explica.
Ainda a alguns dias da estreia – a conversa aconteceu no passado dia 6 -, o “nervoso miudinho” ainda não se tinha apoderado dos atores. Ambos assumiam estar “preparados” e o “entusiasmo” era sentimento partilhado - a cabeça de Gustavo e Mariana só pensavam em “ensaios, repetir textos e ser dirigidos”.
“Gerir energia” de quem tem de ter “jogo de cintura”
Não é fácil coordenar as quase 20 pessoas que estarão em palco ao longo destas sessões d’”A Floresta” – quem o diz é a própria encenadora Joana Magalhães, corroborando a “loucura” anteriormente descrita por João Garcia Neto. O mais essencial, conta, é “gerir a energia” de todos os intervenientes. Não obstante, o elenco alargado foi tido em consideração durante a criação da dramaturgia e, portanto, a “pequena comunidade que habita a floresta” acaba por estar “relativamente livre”, o que “torna a coisa mais fluída e mais fácil de trabalhar”.
Conforme seria de esperar, os atores não chegaram às mãos de Joana Magalhães como “atores profissionais” e, por isso, “o «preparado» [para entrar em cena] vai sendo preparado à medida que o espetáculo está a ser montado, segundo as necessidades do próprio espetáculo”. “Já tenho bastante experiência de trabalhar com atores amadores e, portanto, não é coisa que me assuste. Acho que a grande preparação é ao nível da imaginação, na verdade. A partir do momento em que as pessoas estão imbuídas de um espírito de imaginação, de descoberta e de partilha, acho que, à partida, mesmo não tendo todas as ferramentas que um ator profissional tem ao seu dispor, conseguem apresentar um bom espetáculo”, conclui.
Mas que espetáculo? “A Floresta”, conta a encenadora, é uma adaptação contemporânea da obra “O Pato Selvagem”, do dinamarquês Henrik Ibsen. Embora seja considerado “uma das peças mais negras deste dramaturgo”, também é considerado, ao mesmo tempo, um “drama tragicómico” – “existem acontecimentos relativamente ridículos que vão dar quase uma tragédia no final”.
“Nesta adaptação, há uma equipa de realização que se adentra dentro de uma floresta para gravar o filme d’«O Pato Selvagem»”, conta Joana Magalhães, que se debruça de seguida sobre o conceito central da obra: a “mentira vital”. “O que é a mentira vital? São as pequenas ficções que nós inventamos todos os dias para conseguirmos sobreviver num mundo cada vez mais caótico e cada vez mais próximo do fim […] Nesta adaptação, esta equipa de realização espelha um bocado a narrativa da própria peça d’«O Pato Selvagem»”, explica.
Assim sendo, “temos, no filme que eles estão a gravar, a peça, com o texto da peça original. Na equipa de realização há personagens com o mesmo nome, que reproduzem um bocado a trama da peça do Henrik Ibsen na própria equipa de realização”.
Para além desta discussão em torno da “mentira vital”, o espetáculo acaba também por pegar na imagem do cinema como “fábrica das ilusões” para a confrontar com o “selvagem” da floresta. Ou seja, afirma a encenadora, ir além do conceito-chave da peça apenas para confrontar ficção e realidade absoluta, mas também para colocar lado-a-lado um cenário de controlo absoluto – o “ideal” - e “uma força incontrolável”.
Joana Magalhães sustenta que “o Ibsen tensiona muito esta ideia do que está fora de controlo. Este fim trágico é muito motivado pela ideia de que não é acerca da verdade ou da mentira. As coisas não podem ser controladas, quer seja com ficção, quer seja com o ideal”.
Ao passo que a obra original acaba por pedir um tipo de representação “mais clássica”, a equipa de realização já necessita de uma representação mais “hipernaturalista” – um contraste que exige “jogo de cintura” aos intérpretes que, durante o espetáculo, estarão quase sempre todos em palco.
Durante a peça, haverá várias coisas a acontecer em simultâneo – “num espaço pode estar a acontecer um determinado jogo e num outro espaço esteja a acontecer outro jogo completamente diferente” – o que cria uma ideia de “ambiente vivo”. “É uma coisa que procuro no meu trabalho. Se eu estiver aborrecido com o que está a acontecer aqui, eu tenho outra coisa ali a acontecer que se calhar me vai interessar”, aponta.
A obra estreia hoje, dia 15, pelas 21h30, no GrETUA. No mesmo horário, os mesmos atores voltam a subir a palco nos dias 16, 17, 18, 19, 21, 23 e 24 de maio. No último dia, excecionalmente, a peça também é levada à cena pelas 17h00.
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