Orquestra das Beiras trouxe "repertório que normalmente não se faz" aos Festivais de Outono
Decorreu este domingo a abertura dos Festivais de Outono com a Orquestra Filarmonia das Beiras. Em palco, esteve ainda a solista Sofia Marafona que interpretou “Les Illuminations, Op. 18”, perante uma sala cheia. À Ria, o maestro Pablo Urbina, juntamente com Sofia Marafona, falaram da preparação da atuação e do resultado final.
Maria Rego
JornalistaÚltimas
“Cinco dias de ensaio”. Foi esta a duração do trabalho dos vários músicos que subiram, este domingo, a palco no auditório Renato Araújo para a abertura dos Festivais de Outono, perante uma plateia repleta. No final do concerto, Pablo Urbina, maestro que comandou a Orquestra Filarmonia das Beiras, contou à Ria, que a preparação começou na “terça à noite” com aquela que diz ser uma “orquestra muito simpática”.
Dirigir a Orquestra Filarmonia das Beiras, não é algo novo para Pablo Urbina. O maestro indica que a cada subida a palco nota uma “evolução” e reconhece que, se por um lado, “a orquestra evolui sempre muito com o trabalho do maestro titular”, “ao mesmo tempo, a relação de um maestro convidado com a orquestra também cresce”. Nas palavras de Pablo Urbina, a Orquestra das Beiras “é uma orquestra muito simpática, sempre com muita disposição a trabalhar”, que origina uma “espécie de amizade que faz o trabalhar ser muito mais giro”. “Consigo ver que a orquestra está a evoluir e sinto-me muito feliz e muito confortável de estar aqui com eles”, descreve.
Em palco, três peças. A primeira: “Metamorphoses … homage à M. C. Escher”, de Luís Carvalho; seguida por “Les Illuminations, Op. 18, para soprano e orquestra de cordas”, de Benjamin Britten, e, por fim, “Sinfonia nº2 em Ré maior, Op. 35”, de Louise Farrenc.
O reportório pode não parecer o mais óbvio, mas cultiva a diferença. “É importante trazer essa diversidade. Também para as pessoas perceberem que a música clássica não é só Beethoven, não é só Haydn. E também que quando falamos de música contemporânea… Pode haver música contemporânea como a do Luís [Carvalho], que realmente te transporta para um mundo completamente diferente”, explica à Ria. Sobre esta última obra, Pablo Urbina sublinha que “é muito importante promover o reportório contemporâneo de pessoas que estão vivas”.
Mas não só de “diversidade” se tratou a escolha dos temas. Como indica o nome, os Festivais de Outono assentam numa estação “mais introspetiva”. “Nos três casos, são músicas de evolução. “Metamorphoses”, obviamente, não precisamos de explicar, evolui naturalmente. Depois temos Britten que está a explorar a sua própria identidade e a Sinfonia de Louise Farrenc que é uma sinfonia de evolução”, adianta.
A segunda composição recebeu em palco a solista Sofia Marafona lado a lado com uma orquestra somente de cordas. À Ria, a solista expressa ter sido “super bem recebida” e que “é sempre um gosto trabalhar com a Orquestra das Beiras”. A par com um desafio acrescido, Sofia Marafona exprime que “foi uma honra ter aberto a edição deste ano” dos Festivais de Outono. “Correu lindamente, sou sempre muito bem recebida em Aveiro, pela Orquestra das Beiras, por toda a instituição do Festival”, enfatiza.
Sofia Marafona reconhece que “foi um desafio particularmente bom de trabalhar e de conseguir vir cá com a orquestra, porque é um reportório que normalmente não se faz”. “É um reportório muito bom, muito particular, também muito difícil e, portanto, quem programou este concerto está de parabéns, porque não é música que se ouve e é música é muito boa”, frisa. Até aqui chegar, foram precisas “pelo menos três semanas de grande intensidade a preparar o reportório, a estudar todos os dias e rever”. Tudo isto de modo a “estar quase perfeito para o primeiro ensaio com orquestra”.
Durante toda a atuação foram sendo projetadas imagens, por vezes acompanhadas por texto. A dinâmica integrava um trabalho conjunto dos estudantes de mestrado em Comunicação Audiovisual para os Novos Media do Departamento de Comunicação e Arte da UA (DeCA), numa edição que se rege pelo conceito “Música Mais”. Tal como o conceito indica, a ideia é conseguir explorar as “relações multidisciplinares da música”.
Aos olhos do maestro Pablo Urbina, apesar de se autointitular como “um grande defensor da música sozinha”, reconhece que foi realizado um “trabalho incrível” na parte gráfica que se tornou uma mais-valia. “No mundo em que vivemos, do Instagram, de passar para o próximo reel, próxima música… é tudo muito rápido. Ao mesmo tempo é bom parar e um concerto oferece essa oportunidade, uma experiência que consegues parar e deixar que a música te transporte. Neste caso, [os live visuals] acompanharam muito bem, porque foi feito com muito gosto”, aponta. As imagens escolhidas, acrescenta, “acompanhavam de uma forma calma”, algo que, a seu ver “acrescentou muito valor ao espetáculo”. “Valoriza também o poder da colaboração com outras artes e disciplinas, que é importante”, rematou.
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