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Cabo Verde estreia-se no Mundial: Uma nação cujo alfabeto futebolístico também escreve Beira-Mar

No dia em que Cabo Verde pisa pela primeira vez o palco do Campeonato do Mundo de futebol, a Ria decidiu explorar a ligação entre o Sport Clube Beira-Mar e os seus homónimos cabo-verdianos Beira-Mar Futebol Clube – Maio e Sport Club Beira-Mar do Tarrafal.

Cabo Verde estreia-se no Mundial: Uma nação cujo alfabeto futebolístico também escreve Beira-Mar

A mais de três mil quilómetros do bairro da Beira-Mar, que dá nome ao clube de futebol mais conhecido de Aveiro, vivem-se tempos de festa. Entre as ilhas de Cabo Verde, celebra-se a inédita estreia da seleção nacional de futebol no Mundial a acontecer na América do Norte.

A primeira qualificação de sempre da história do país ficou consumada com a vitória por 3-0 frente ao Essuatíni, a 13 de outubro de 2025. Agora, a estreia aproxima-se a passos largos – é já esta segunda-feira, dia 15, pelas 17h00, no Estádio de Atlanta – e o clima de entusiasmo é tal que o próprio Governo cabo-verdiano decretou tolerância de ponto para que os cidadãos pudessem assistir ao embate com a seleção espanhola.

Mas que relação tem o universo futebolístico de Cabo Verde com o Sport Clube Beira-Mar? No campeonato do país africano, que funciona de forma descentralizada – primeiro, as equipas competem dentro das suas ilhas; mais tarde, as melhores de cada ilha vão disputar o título nacional -, há três clubes cujo nome faz lembrar a turma aveirense.

Uma pesquisa rápida é suficiente para perceber que o Beira-Mar de Santo Antão, da Ilha de Santo Antão, não tem qualquer relação com os homónimos portugueses. O clube, fundado em 1984, assume como cores o azul e o branco e tem no golfinho a sua mascote.

Ora, o mesmo não acontece com o Beira-Mar Futebol Clube - Maio e com o Sport Clube Beira-Mar do Tarrafal. Ambos se apropriam das cores e de alguns dos elementos que constam no emblema do SC Beira-Mar.

(Emblemas do Beira-Mar do Maio e do Beira-Mar do Tarrafal, respetivamente)

Beira-Mar Futebol Clube – Maio: Um clube formado por emigrantes neerlandeses que passou a “Beira-Mar” sem conhecer o SC Beira-Mar original

Na Ilha do Maio opera o Beira-Mar Futebol Clube – Maio, um dos clubes mais antigos da ilha. Numa tentativa de conhecer melhor a realidade da diáspora auri-negra, a Ria conseguiu chegar à fala com José Maria Duarte, presidente do Conselho de Gestão do clube.

Se esperávamos a história de um clube satélite do SC Beira-Mar, com raízes a preceder a independência de Cabo Verde, então as nossas expectativas saíram completamente goradas. Segundo o responsável do clube, o clube foi fundado com o nome de “Holanda”, em 1978, por um grupo de imigrantes neerlandeses residentes na ilha que regularmente organizavam torneios de futebol.

Só mais tarde, pela mão de Amílcar Andrade – que viria a ser o primeiro presidente eleito da Câmara Municipal do Maio, em 1991, pelo Movimento pela Democracia (MpD) -, é que o clube passou a assumir o nome atual. No entanto, o facto de os clubes partilharem o nome não era sinónimo de uma qualquer ligação a Aveiro, dado que o clube só se passou a chamar Beira-Mar por estar sediado, precisamente, à beira-mar.

Anos depois, os cabo-verdianos descobriram a existência de um clube homónimo em Portugal. A partir daí, começaram vestir de amarelo e preto – deixando para trás o laranja, alusivo aos Países Baixos – e alteraram o símbolo para se assemelhar ao dos aveirenses.

Na sua história, o Beira-Mar do Maio já ganhou tudo o que havia para ganhar a nível insular - o campeonato, a taça, a supertaça e a 2ª divisão da ilha -, tendo apenas alcançado o Campeonato Nacional por uma ocasião, no já longínquo ano de 1997. Para além do futebol masculino, o clube também compete no andebol masculino e feminino, bem como no futebol feminino – em que, antes da pandemia, chegou a estar perto do campeonato nacional.

É no campo organizacional que surgem as maiores dificuldades do clube, que não consegue captar líderes para assumir as rédeas do Beira-Mar. Exemplo disso é o caso de José Maria Duarte, que é presidente desde 2018, apesar de residir atualmente em Londres: “Faço isso de longe. É tentar aproveitar a tecnologia que há e tentar ser próximo, mesmo lutando de longe”.

Apesar dos contratempos, o dirigente explica que o Beira-Mar é um clube com “muitos adeptos” e que consegue agregar muita gente para competir – inclusive nos escalões femininos, cujas equipas participam nas competições desde que elas existem. “Os jogadores organizam-se, fazem um ‘time’e chegam ao clube: «Vamos participar com o nome do Beira-Mar». Aí sim, nós apoiamos, damos a camisola e é Beira-Mar”, explica.

O objetivo é, acima de tudo, dinamizar a Ilha do Maio, que é “muito pacata”, e “formar jovens”. Exemplo disso é Wi Tavares – avançado maiense que hoje alinha pela formação do Atlético da Malveira, do Campeonato de Portugal – que começou a carreira no Beira-Mar e que, em 2023, quando já representava o Boavista da Praia, chegou a ser convocado para a seleção nacional cabo-verdiana.

Em êxtase com a participação de Cabo Verde no Mundial 2026, o presidente acredita que há muita margem de crescimento no país e que a Federação Cabo-Verdiana de Futebol vai estar mais disponível a “ajudar” os clubes de forma a construir um campeonato mais competitivo. Para além de sentir que o impacto já se sente na melhoria das infraestruturas desportivas, José Maria Duarte também acredita que o feito tem motivado os jovens desportistas da Ilha do Maio.

“Sinto que daqui a uns anos o Beira-Mar vai ter um jogador na seleção de Cabo Verde. Tenho a certeza, certeza absoluta. Temos miúdos com muita dinâmica, com muito entusiasmo para chegar lá. É só uma questão de motivar e dar forças para continuar”, remata.

Sport Clube Beira-Mar – Tarrafal: A união de várias equipas nascidas em Chão Bom no pós-independência

Nascido a 7 de dezembro de 1985, o SC Beira-Mar do Tarrafal está sediado na aldeia de Chão Bom, no Tarrafal, na Ilha de Santiago – exatamente onde operava o Campo de Concentração do Tarrafal durante o Estado Novo.

Segundo escrevem os beiramarenses nas redes sociais, apesar de a data de fundação, o clube tem raízes ainda mais antigas: “Reza a história que, depois da independência [entre 1977 e 1978], vários jovens e veteranos da cidade resolveram criar grupos desportivos para jogarem e ocuparem os tempos livres”. O primeiro clube a aparecer terá sido o “Voz de África” e, pouco depois, surgiu o “Astros e Moscal”.

“Anos mais tarde, houve a necessidade de juntar esses clubes num só. O nome Beira-Mar surgiu de forma natural e consensual, devido ao facto de Chão Bom estar à frente de uma baía de água cristalina”, explica o clube num comunicado partilhado aquando do seu 29º aniversário. A ligação ao clube de Aveiro não é clara, mas supõe-se que não terá sido imediata – até porque, em fotografias datadas dos anos 80, o clube vestia de verde e branco.

Não obstante, o SC Beira-Mar do Tarrafal faz questão de, recorrentemente, exibir o laço de irmandade que o une aos aveirenses. Em não raras ocasiões, o clube partilha resultados e felicita os aurinegros por feitos conseguidos em Portugal, tendo até já recebido respostas da conta oficial do Beira-Mar.

À semelhança do que acontece no Beira-Mar do Maio, o Beira-Mar do Tarrafal também se afirma como uma instituição para formar jovens – num texto partilhado por ocasião do seu 38º aniversário, o clube escreve que tem “largas experiências no campo futebolístico e na promoção e fomento da participação dos jovens como forma de intervir e precaver o uso de drogas no seio da camada jovem”.

Do ponto de vista desportivo, o Beira-Mar viveu o melhor momento da sua história em 2015, quando se sagrou campeão regional de Santiago Norte, tendo por isso conseguido o apuramento para o Campeonato Nacional. Aí as coisas já não correram de feição, tendo a equipa somado o único ponto na competição num empate a uma bola frente ao Sporting da Brava.

Atualmente, a equipa vai oscilando entre a primeira e a segunda divisão de Santiago Norte – o momento que se vive é de festa, uma vez que, após cair para o segundo escalão em 2025, a equipa conseguiu reestruturar-se de forma a garantir o regresso à divisão principal já neste ano.

O nome mais sonante formado nas escolas do Beira-Mar do Tarrafal é, de acordo com a informação disponível, o avançado Euclides Andrade, apelidado de Clé no mundo do futebol. Depois dos aurinegros, o atleta ainda passou pelo Boavista da Praia durante três temporadas até vir parar a Portugal pela mão do Oliveira do Hospital, onde apenas participou em seis partidas do Campeonato de Portugal (CP).

Do Campeonato de Portugal caiu às distritais de Lisboa para representar ‘Os Belenenses’. Clé acabaria por acompanhar a ascensão meteórica dos azuis do Restelo e foi peça importante nas subidas ao CP, à Liga 3 e à Liga 2. A meio da temporada 23/24, o jogador migrou para os cipriotas do AEZ Zakakiou para, no final da temporada, ter seguido para Israel. Primeiro representou o Hapoel Kfar Shalem e, este ano, jogou pelo Hapoel Petah Tikva, que ficou na sexta posição da liga israelita.

Clé, com 27 anos, soma já seis internacionalizações pela seleção de Cabo Verde, três das quais a contar para a qualificação para o Campeonato das Nações Africanas (CAN). Foi num desses jogos que o jogador ex-Beira-Mar do Tarrafal apontou o seu único tento ao serviço dos Tubarões Azuis – foi o 3-1, aos 90+4’, frente ao Burquina Faso.

A Ria procurou falar também com o SC Beira-Mar do Tarrafal, embora sem sucesso. Assim sendo, toda a informação sobre o clube foi recolhida online.

‘Beira-Mares’ não têm nenhuma ligação formal, mas querem

Segundo José Maria Duarte, do Beira-Mar do Maio, já houve várias tentativas de aproximação do clube ao SC Beira-Mar original, de Aveiro, mas nunca foram correspondidas. O dirigente aponta que os ‘Beira-Mares’ de Cabo Verde conhecem-se entre si e já se cruzaram em contexto competitivo, mas também não mantêm nenhuma relação formal.

“Antigamente tentámos uma aproximação, algum laço de amizade, de protocolo… sem sucesso. Depois viemos a descobrir que há mais ‘Beira-Mares’ nas ilhas de Cabo Verde, um na Ilha de Santiago e um na Ilha de Santo Antão […] Com outros ‘Beira-Mares’ já cruzámos, já fizemos torneios, já nos encontrámos nas provas nacionais… Mas o que é preciso é uma ligação, porque nunca existiu uma ligação entre os ‘Beira-Mares’”, explica.

Para além dos clubes cabo-verdianos, existem mais ‘Beira-Mares’ espalhados por países que também estão representados no Campeonato do Mundo. Em 2019, após a assinatura de um protocolo firmado em Aveiro, nasceu o Sport Club Beira-Mar of Gwangju, na Coreia do Sul. Nos Estados Unidos da América existe o Newark Beira-Mar Club.

A Ria procurou ainda falar com SC Beira-Mar, mas não obteve resposta até à publicação.

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