RÁDIO UNIVERSITÁRIA DE AVEIRO

Opinião

"Sorte é a nossa", opinião de Ana Inês Conde

Mestre em biologia na Universidade de Aveiro (UA). Enquanto frequentava o curso, decidiu juntar-se ao Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro e foi essa a sua ruína (e salvação). Desde então que faz comunicação, no início apenas para o GrETUA (enquanto aprendia) e, agora, "para onde a quiserem".

"Sorte é a nossa", opinião de Ana Inês Conde

Era eu muito, muito pequenina e a minha mãe já dizia “se não tens nada de bom a dizer, não digas”. Isto de escrever sobre a nossa opinião é um processo tramado. Não me parece minimamente justo, e menos justo seria, criticar algo sobre o qual não tenho conhecimento aprofundado. Para além disso, não há nada mais “snob” do que dar a nossa opinião sobre algo cujo tema não sabemos nada. Acima disto, parecia-me injusto “criticar” algo que leva tanto trabalho, tanto esforço e, sobretudo, tanto amor quanto o Rádio Faneca. 

Numa edição sobre o mistério, o destino, a Sorte, é precisamente sobre ela que vos quero falar. Porque, verdadeiramente, sorte é a nossa. 

Nos clichés habituais: num distrito onde os equipamentos culturais estão reduzidos a metade. Onde, também por isso, a programação cultural é diminuta, o 23 Milhas parece ser, de certo modo, a nossa bênção. Não só pelo seu funcionamento habitual, mas porque oferece, ano após ano, 3 dias de programação ininterrupta que, mais do que ser muita, é nossa próxima. Não são apenas 3 dias de concertos, são dias de verdadeira envolvência pela cidade, feita para e pelas suas pessoas. É passear pelo parque com cheiro a pada de Vale de Ílhavo, viajar pelas casas à procura de portas abertas e autocolantes, ver os bordados da equipa da Maior Idade. Como se diz noutros festivais, “Vem Viver a Aldeia!”, aqui é vir viver a cidade. 

Mas sim, é importante destacar a programação musical. Não por ser “o que mais importa”, mas pela sua curadoria. É alternativa qb., conhecida qb., gostável no ponto certo. Com isto digo, é próxima das pessoas, é fácil de gostar, é atrativa para sair à rua, nem que seja para berrar com os artistas ou bater pé nos “DJ Sets” que nunca desapontam (apesar de, pessoalmente, ter sempre saudades de ver a Maria Inês a passar som). 

Agora que os básicos estão estabelecidos, posso falar mais do coração. Talvez por ser muito lamechas, a parte que me deixa sempre mais encantada no Rádio Faneca é a presença de tantas famílias e, principalmente, de tantas crianças que parecem estar tão ou mais felizes quanto nós. Andam aos saltos pelo recinto, são pegadas ao colo para saltar (pelos pais ou pela Inês Marques Lucas), correm para “front rows”, dançam ao nosso lado ou ficam 5 horas a brincar e jogar juntas. 

Isto tudo fez-me pensar, se calhar a sorte nem é nossa, a sorte é delas. Sorte das crianças que têm famílias que as trazem atreladas para usufruir da cultura. Sorte por serem expostas a teatro e música desde tão pequerruchas. Sorte por poderem, desde tão cedo, aproveitar o que o mundo tem de melhor. Sorte porque vão crescer com este gostinho, com este amor pelo que sai do coração dos outros. Que sorte que o seu município, ou pelo menos um próximo, programa e dinamiza eventos deste género. Sorte que seja, mas não devia. Chamo-lhe sorte, mas só o é porque constitui um privilégio que milhares de outras crianças não terão. 

É bonito (lindíssimo até), como 3 dias, no meio da zona centro, podem deixar tanta gente feliz, de tantas gerações, e em tantos conjuntos diferentes. E que ao mesmo tempo nos faça pensar no que estará de errado em tantos outros sítios. 

É sorte, mas será também escolha. Uma boa escolha de quem se esforça para fazer acontecer, trabalhar, oferecer, para deixar estes milhares felizes. Até ser uma escolha mais recorrente doutros municípios deste país: sorte é a nossa. 

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