"Aveiro: uma cidade universitária que esquece os seus estudantes", opinião de João Sarmento
João Sarmento é natural de Aveiro, licenciado em Contabilidade pelo ISCA-UA e com mestrado em Gestão pela Universidade Portucalense. Atualmente integra o secretariado da Federação Distrital do PS Aveiro, é deputado municipal e ainda presidente da JS Aveiro.
João Sarmento
OpiniãoHoje celebra-se o Dia Nacional do Estudante. Em Aveiro, temos a felicidade de acolher uma das melhores universidades do país. É impossível assinalar esta data sem reconhecer a Universidade de Aveiro e o seu papel crucial no desenvolvimento e crescimento da região. Contudo, ter uma universidade de excelência não basta para que Aveiro se possa afirmar como uma verdadeira cidade de estudantes.
Perante o maior flagelo que a minha geração enfrenta - a crise da habitação -, a Câmara Municipal de Aveiro escolhe a inação, sustentada por um preconceito ideológico que deixa os estudantes reféns de um mercado desregulado e especulativo. Pior: a única “resposta” do Executivo passou pela alienação de um terreno municipal para a construção de residências de luxo, convenientemente rotuladas de “universitárias”, junto ao Seminário de Aveiro. Como afirmou o deputado municipal João Ribeiro, “trata-se de um investimento privado, sem natureza jurídica, missão institucional, nem vocação social próprias de uma residência universitária”.
Segundo o Observatório do Alojamento Estudantil, o preço médio de um quarto em Aveiro ronda os 350 euros - muito acima, por exemplo, dos 280 euros registados em Coimbra. Ainda assim, perante esta realidade, o Executivo optou por não concorrer ao Programa Nacional para o Alojamento no Ensino Superior (PNAES), desperdiçando uma oportunidade concreta de reforçar a oferta pública com fundos de apoio garantidos. Esta decisão torna-se ainda mais incompreensível num contexto em que a Universidade de Aveiro continua a aumentar o número de vagas, incluindo a abertura do curso de Medicina. Com mais procura e uma oferta pública manifestamente insuficiente, a autarquia abdica de liderar uma resposta estrutural e limita-se a facilitar investimento privado, tentando apresentá-lo como solução de interesse público.
Também no plano da ação social direta, a ausência de intervenção é evidente. Não se trata de incapacidade - trata-se de uma escolha. Enquanto municípios vizinhos, com menos recursos e centralidade, implementam bolsas de estudo como instrumento de equidade, Aveiro demite-se dessa responsabilidade e volta a remeter a solução para o mercado. Não se trata de falta de meios, mas de uma conceção ideológica que substitui política pública por mercado. Mas este não é o único tema desta problemática.
Há freguesias como Aradas, São Bernardo ou até mesmo Esgueira que poderiam contribuir para aliviar a pressão no centro da cidade e os preços praticados, mas a ausência de uma rede de transportes eficaz impede que isso aconteça. Faltam horários compatíveis com a vida de um estudante universitário e com as suas rotinas, faltam ligações eficientes e sobra frustração para quem depende diariamente destes serviços. Basta pensar no inferno das manhãs, sobretudo para os estudantes que chegam de comboio e enfrentam um sistema de transportes incapaz de dar resposta.
A isto soma-se a incoerência de uma cidade que se promove como sustentável, mas onde falta uma rede ciclável segura e funcional. Mesmo numa cidade plana, onde a mobilidade suave deveria ser uma prioridade, deslocar-se de bicicleta continua a ser um risco a muitos dos estudantes que aqui residem. A chamada “Cidade da BUGA” permanece, na prática, dominada pelo automóvel.
Ser estudante em Aveiro é olhar para o campus da Universidade de Aveiro como o exemplo do que deveria ser a nossa cidade. Um campus moderno, acolhedor, sustentável, ecológico, desenvolvido e integrado. A universidade não produz apenas ciência. Uma das melhores e escassas ofertas culturais da cidade tem o berço na UA - o GrETUA. E nem o estatuto de Capital Portuguesa da Cultura inverteu o subfinanciamento nesta área. Num orçamento de 13 milhões de euros, cerca de 4,5 milhões são canalizados para a reabilitação do Museu Santa Joana, revelando uma concentração de investimento que não se traduz numa estratégia cultural verdadeiramente abrangente.
No desporto, o cenário repete-se. O executivo demite-se das suas responsabilidades, atribuindo verbas insuficientes à Associação Académica da Universidade de Aveiro, que tem feito um excelente trabalho junto da universidade para atrair as maiores provas do desporto universitário para o nosso concelho. Faltam equipamentos desportivos que permitam alavancar o município como um polo desportivo central do distrito, limitando assim a atração de eventos e o desenvolvimento de atletas.
Mas Aveiro não é feita apenas de estudantes universitários. Os estudantes – e toda a comunidade escolar da Escola Secundária Homem Cristo - vivem dias de enorme apreensão. Com 166 anos de existência, foi criada de raiz para funcionar como Escola Secundária. Esta instituição centenária vê o fecho de portas cada vez mais próximo, por um capricho pessoal no passado e por uma teimosia injustificável no presente. Não existe nenhum documento que a Câmara Municipal disponha que avalie os custos-benefícios do encerramento da Escola e da criação de um novo edifício. Não há nada que justifique o encerramento da Escola por falta de condições de albergar a comunidade escolar com as devidas requalificações. E qual é a solução proposta? Atirar os alunos para um espaço contíguo a uma escola já existente que, muito provavelmente, sofrerá uma redução do espaço em prol da nova projetada.
Não basta dizer que se é para ser. É preciso agir. Aveiro continua a dar pouco aos seus estudantes e a desperdiçar o enorme potencial que eles representam. Há energia, ideias e vontade de participar, mas faltam oportunidades, ligação à cidade e uma verdadeira aposta política nesse sentido.
Ao não escolher integrar e valorizar quem aqui estuda, a cidade está, na prática, a limitar o seu próprio futuro. Está a afastar talento e a perder dinamismo. Perdem os estudantes. Perde a cidade.
Aveiro deveria ter ambição para ser mais do que aquilo que é hoje.
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