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"IA e a urgência de formar novas gerações", opinião de Diogo Gomes

Diogo Gomes é Professor Associado do Dep. Electrónica, Telecomunicações e Informática da Univ. Aveiro, Investigador Senior no Instituto de Telecomunicações.

"IA e a urgência de formar novas gerações", opinião de Diogo Gomes

A civilização é um barco que navega, de forma frágil, num oceano em permanente mudança. À sua frente estão capitães capazes de apontar rotas, tomar decisões e enfrentar tempestades. Mas nenhum barco avança apenas com capitães. Depende, indivisivelmente, de marinheiros experientes e de muitos outros ainda jovens, em processo de aprendizagem mas cheios de vigor, capazes de subir aos mastros e hastear velas.

A educação, o treino e a experiência são fundamentais para formar esta tripulação. Não há capitão bem-sucedido que não tenha acumulado anos de navegação. Não há marinheiro experiente que não tenha aprendido com quem já enfrentou oceanos antes dele. A renovação das gerações, em qualquer organização ou sociedade, depende precisamente desta transmissão contínua de conhecimento, prática e responsabilidade.

Escrevo esta metáfora a propósito dos novos ventos que impelem a nossa civilização. A Inteligência Artificial é uma tecnologia profundamente disruptiva, comparável, em muitos aspetos, à introdução da máquina a vapor. Permite-nos ser muito mais produtivos, concentrar-nos no essencial e delegar na máquina muitas tarefas acessórias. Dá às organizações a possibilidade de produzir mais, com menor esforço e, no limite, com menos recursos humanos.

É sobre este último ponto que importa refletir.

O líder de uma organização depende dos seus executivos para implementar uma estratégia. Estes, por sua vez, apoiam-se nos colaboradores seniores para a concretizar, recorrendo frequentemente aos colaboradores juniores para tarefas mais repetitivas, morosas ou menos valorizadas: compilar dados, organizar informação, fazer pesquisas preliminares ou redigir documentos técnicos iniciais.

Ora, é precisamente sobre estas tarefas que a Inteligência Artificial tem hoje maior impacto. Muitas das funções tradicionalmente atribuídas a colaboradores juniores são também as mais fáceis de automatizar com recurso a ferramentas e agentes de IA. À primeira vista, poderíamos concluir que este é um resultado positivo: a eficiência da organização aumenta, os custos diminuem e tarefas de menor valor acrescentado passam a ser executadas por máquinas.

Mas esta “otimização” encerra um risco estrutural ainda pouco discutido: se deixarmos de integrar colaboradores juniores, como teremos colaboradores seniores no futuro?

A médio prazo, os colaboradores seniores de hoje, com toda a sua experiência acumulada, chegarão à idade da reforma ou sairão das organizações. E nessa altura poderá tornar-se impossível contratar novos profissionais experientes pela simples razão de que, entretanto, não demos aos mais jovens a oportunidade de adquirir a experiência necessária. Ao eliminar a base da pirâmide, comprometemos inevitavelmente o seu topo.

Este risco não é apenas organizacional. É também civilizacional.

Num cenário em que se perde experiência acumulada sem que esta tenha sido transferida para novas gerações, uma parte relevante do conhecimento desaparece. Não falamos apenas de conhecimento codificado em documentos, bases de dados ou manuais de procedimentos. Falamos de práticas, cultura profissional, intuição técnica, critérios de decisão e conhecimento ultraespecializado que muitas vezes só se adquire com anos de contacto direto com problemas reais.

A Inteligência Artificial pode apoiar, acelerar e ampliar esse conhecimento. Mas ainda não substitui plenamente a experiência humana acumulada, nem a aprendizagem feita no contexto concreto das organizações, das equipas e das suas responsabilidades.

Como num barco, é impossível ao capitão comandar apenas marinheiros experientes, ignorando a formação dos mais jovens. Não podemos simplesmente substituir os jovens marinheiros pela nova máquina a vapor. Tal como aconteceu há dois séculos, é necessário formar, requalificar e preparar novas gerações para trabalhar com as novas máquinas, não para serem excluídas por elas.

Nem as organizações, nem muito menos a nossa civilização, sobreviverão à canibalização dos mais jovens. A Inteligência Artificial deve libertar tempo, aumentar capacidades e abrir novas possibilidades. Mas não pode servir de pretexto para destruir os percursos de aprendizagem que garantem a renovação do conhecimento.

Precisamos, por isso, de criar novas oportunidades para que os mais jovens aprendam, experimentem, errem, sejam acompanhados e ganhem experiência. Só assim os nossos barcos poderão atravessar esta transição tecnológica, e todas as outras revoluções que se avizinham, sem perderem a tripulação de que dependerá o futuro.

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