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Opinião

"Quando a pressa substitui a responsabilidade", opinião de Bruno Vilhena

Bruno Vilhena é presidente da Federação de Aveiro da Juventude Socialista. É também estudante de doutoramento do DEGEIT e bolseiro de doutoramento no CIPES, na área da Economia e Ensino Superior. Foi dirigente associativo da AAUAv e Coordenador do NEEC-AAUAv.

"Quando a pressa substitui a responsabilidade", opinião de Bruno Vilhena

Um sistema que funcionava foi substituído por outro que não estava pronto. O resultado é conhecido: exames adiados, professores sobrecarregados e milhares de famílias com os planos destruídos. Falta agora saber se há, no Governo, coragem para assumir toda a responsabilidade.

Existe pressa e existe responsabilidade. Raramente andam juntas. O Ministério da Educação escolheu a primeira e professores, alunos e pais estão agora a pagar o preço de não ter escolhido a segunda.

Havia um sistema que funcionava: o aluno respondia a um exame, um único professor lia a prova inteira, do princípio ao fim, e atribuía-lhe uma nota. Este ano, decidiram substituí-lo. Os alunos continuaram a responder a um exame, isso não mudou. Mudou tudo o resto: a prova passou a ser digitalizada, cortada em respostas isoladas, distribuídas por professores classificadores diferentes numa plataforma eletrónica. Uma mesma prova pode assim passar por dois, três ou mais professores, nenhum com visão de conjunto do trabalho do aluno. A promessa era maior segurança, eficiência e imparcialidade. A pressa entregou outra coisa: o caos.

Esse caos tem nome. Professores sem acesso à plataforma. Atrasos na distribuição das respostas para corrigir. Casos em que um aluno mudou de página a meio de uma resposta e o classificador só teve acesso a parte do que foi escrito ou, pior, a respostas de alunos diferentes, misturadas entre si. Convocatórias com antecedência mínima. Nenhum destes problemas é um pormenor técnico. São, todos eles, sintomas da mesma causa: um sistema que avançou antes de estar pronto.

E sabia-se que não estava pronto. Este modelo já tinha sido testado em piloto, no ano passado. Os resultados nunca foram extensamente publicados, mas já se sabia que os mesmos problemas já existiam nessa altura. Ter um piloto e escolher não o avaliar publicamente e corrigir antes de o generalizar não é prudência atrasada, é pressa disfarçada de planeamento.

Por isso, o problema não é principalmente técnico, é principalmente político. Um problema técnico resolve-se com uma correção informática. A decisão de não testar, de não avaliar riscos, de avançar às cegas, não se resolve da mesma forma. E depois, como já vem sendo habitual neste Governo, a pressa cobra-se sempre a alguém que não a escolheu. Neste caso, cobrou-se aos alunos, com classificações adiadas e a segunda fase de exames reagendada. Cobrou-se às famílias, muitas delas obrigadas a refazer planos e férias. Cobrou-se aos professores classificadores, a trabalhar contra o relógio. E cobrou-se, sobretudo, à confiança: um processo que, até este ano, dava trabalho, mas nunca tinha sido posto em causa, passou a ser motivo de desconfiança generalizada.

Há quem confunda isto com modernização. Não é. A modernização do Estado é necessária e desejável, mas só é progresso quando serve melhor os cidadãos. Quando se pesam custos, benefícios e riscos antes de avançar, não depois de o sistema falhar. Digitalizar por digitalizar não é modernizar. É a mesma pressa de sempre, com um verniz tecnológico.

É essa lógica que, num ponto paralelo, me leva a defender que os exames continuem a ser feitos à mão. Não por apego ao passado, mas porque há partes deste processo que a pressa nunca devia ter tocado. Escrever à mão obriga a pensar antes de responder, a organizar as ideias, a estruturar um argumento. É um exercício de pensamento crítico que nenhum ecrã substitui. Se este episódio ensina alguma coisa, é que nem tudo o que pode ser acelerado deve sê-lo.

Tenho respeito por Fernando Alexandre. Considero-o um académico de qualidade, um bom professor e um investigador de mérito reconhecido. Quando foi anunciado ministro da Educação, disse publicamente que era uma das melhores escolhas de Luís Montenegro para o Governo, precisamente por lhe reconhecer competência técnica e seriedade intelectual.

Mas governar é outra coisa. A responsabilidade política não se mede pelas boas intenções, nem pelo currículo académico de quem exerce funções, mede-se pela capacidade de garantir que as decisões produzem bons resultados e pela coragem de assumir os erros quando eles acontecem.

Neste caso, o Ministério da Educação falhou numa das suas responsabilidades mais elementares: garantir que a avaliação de dezenas de milhares de alunos decorresse com previsibilidade, segurança e confiança. A dimensão das falhas, a repetição de problemas já identificados no piloto do ano passado e a ausência de uma assunção clara de responsabilidade política tornam insustentável dizer que nada deva mudar.

Se ainda existe, neste Governo, um verdadeiro sentido de responsabilidade perante o serviço público, Fernando Alexandre devia assumir a maior responsabilidade política de todas. A pressa já custou caro a alunos, professores e famílias. Não devia custar também a integridade do sistema que os devia proteger.

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