UA: Antigo reitor antevê futuro com carreiras mais flexíveis e mais formação ao longo da vida
O último episódio do balanço dos dois mandatos do reitor Paulo Jorge Ferreira foi gravado na meia-lua da Alameda do Campus de Santiago. Depois de nove episódios voltados para áreas específicas de atuação, o ex-responsável máximo da instituição voltou-se para o futuro do ensino superior.
Gonçalo Pina
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No momento da gravação, ainda não tinha sido aprovada a versão final do novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior, mas, na Assembleia da República, o documento já tinha passado na generalidade. Nesse sentido, já se conhecia o sentido das maiores alterações e foi por aí que a conversa começou.
No entender de Paulo Jorge Ferreira, a nova forma de eleição do reitor “dá às pessoas outro poder, outra voz” e “isso poderá ser muito positivo no futuro”. Recorde-se que, até agora, o reitor era eleito de forma indireta através dos escolhidos para o Conselho Geral. A alteração faz com que a decisão seja tomada por docentes e investigadores de carreira, estudantes, pessoal técnico, especialista e de gestão e antigos estudantes.
É um “regresso a um passado já antigo”, diz o anterior reitor, que recorda que quando chegou à Universidade as eleições ainda se faziam por voto universal. “Acho que tem enormes vantagens a nível da transparência, do modelo, da responsabilização de todos os participantes”, nota.
Depois, à boleia do tema da inteligência artificial, Paulo Jorge Ferreira debruçou-se sobre um tópico ainda mais abrangente: a necessidade de o ensino superior se tornar mais dinâmico e mais atento ao evoluir da sociedade. Esta já tem sido uma preocupação da UA, explica, que se envolveu em 2019 na European Consortium of Innovative Universities (ECIU), uma das primeiras universidades europeias a ser aprovada.
Segundo explica, a Europa tem procurado ir na direção de promover a formação ao longo da vida – é o que indica, na sua opinião, a “nova proposta de diploma legal que regulamenta os graus e títulos, que contempla os cursos técnicos superiores profissionais pela primeira vez e também as microcredenciais”. “As formações de ciclo mais curto estão a ganhar espaço nas universidades e o nosso grande desafio nos próximos anos é integrá-las e colocá-las ao serviço das pessoas”, aponta.
Paulo Jorge Ferreira adianta que, “neste momento, é possível escolher microcredenciais na Universidade de Aveiro e na ECIU e ter um «um passaporte de competências» nas quais eu carimbo essas microcredenciais ao longo dos anos, digitalmente. Não é um papel, é uma carteira digital”.
Nesse sentido, o antigo reitor acredita que “a universidade deixa de ser um sítio pelo qual se passa uma vez e passa a ser um sítio onde se volta sempre”, uma vez que “um profissional que deixe de estudar […] fica imediatamente e irremediavelmente para trás”. Os cursos conferentes de grau não perderão relevância, entende, mas vão continuar a pedir complementos para que os profissionais continuem a acompanhar o progresso científico nas suas áreas.
Este contacto mais próximo entre o ensino superior e a vida ativa pedirá também uma abordagem diferente das empresas que, de acordo com Paulo Jorge Ferreira, já se estão “a transformar” de forma a estarem mais alinhadas com as próprias universidades. Uma das sugestões que seria do interesse comum é a criação de incentivos fiscais para a formação ao longo da vida, de forma que “as próprias empresas e os profissionais que a ela se submetam tenham um incentivo […], deduzindo as despesas com a formação nos seus impostos”.
Depois, acredita Paulo Jorge Ferreira, o estudante do futuro terá um percurso académico muito diferente daquele que tem atualmente, mais personalizado. Porque “os jovens de 18 anos não querem todos o mesmo” e “vender a todos um diploma não é adequado”, o antigo reitor defende “flexibilidade nas soluções e modelos que ao longo da vida permitam corrigir e mudar de carreira, de curso e de vida”.
Mais flexível deve também passar a ser a carreira dos docentes nas Universidades, que acredita que devem também estar envolvidos no trabalho de investigação. Com a nota de que tanto o Estatuto da Carreira Docente do subsistema universitário e do subsistema politécnico precisam de “revisão urgente”, Paulo Jorge Ferreira sugeriu que, no futuro, “podemos caminhar para a flexibilidade melhor de perfis pessoais nas instituições, de perfis institucionais no terreno”.
“Em vez de ter uma carreira de investigação e uma carreira de ensino, eu posso ter um diploma de carreira comum. Cada professor ou investigador escolhe em cada momento da sua carreira a forma como derrama sobre cada uma daquelas vertentes o seu tempo. Num período da minha vida posso ter uma coisa, no período a seguir outra”, completa.
Numa lógica mais pessoal, Paulo Jorge Ferreira não destapou o véu sobre aquilo que deve ser o seu próprio futuro, mas garantiu que “quer continuar a aprender com os que estão aqui [na Universidade de Aveiro]”.
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