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A lenda vida de Pedrinho Xalé e o suor habitual inerente à noite onde se vai dançar, dançar, dançar

Opinião de Emanuel Graça, antigo aluno da Universidade de Aveiro. Arquivista musical e DJ. Está por trás do projeto @emrotação, dedicado à documentação de músicas do mundo, com ênfase para os países PALOP.

A lenda vida de Pedrinho Xalé e o suor habitual inerente à noite onde se vai dançar, dançar, dançar

Ao palco da caixa negra do Gretua subirá uma autêntica instituição da música de Cabo-Verde: Pedrinho Xalé. Em Cabo-Verde, ainda muito jovem, descobriu os teclados quando entrou para o seminário (tratava-se de um instrumento que era bastante incomum naquela zona à época e que por isso quase só existia em ambientes religiosos ou em escolas de música) e desde então aprendeu a tocar de maneira autodidata.

Pedrinho emigrou para Portugal um ano antes de se dar a revolução do 25 de abril, tinha ele 18 anos. Quando chegou a Lisboa passou algum tempo a tocar teclado em bandas que atuavam em discotecas locais e chegou, com ela, a gravar o seu primeiro registo discográfico. A sua primeira aparição discográfica dá-se então com Os Alegres, que gravaram o disco longa-duração “Reacção”, editado em Portugal em 1975.

No ano seguinte sai de Os Alegres e, com três irmãos oriundos da ilha de São Nicolau, funda e baptiza um nome de culto da música de Cabo-Verde que proliferou em Portugal: os Afrika Star. Gravam o disco “Cá Nhôs Dam Gravata” em 1976 e é aqui que surge um dos momentos chave na carreira de Pedrinho Xalé: acostumado a ser o teclista da banda, e embora escrevesse sempre as suas canções, Pedrinho não se assumia como cantor. Numa entrevista ao Rimas e Batidas a propósito de um concerto seu no último festival Tremor, nos Açores, conta: «Mas a verdade é que eu não era cantor. Nunca pensei ser cantor. Eu tocava teclado. Fazia coros. Mais nada. Eu, sinceramente, nunca pensei em cantar. Mas fui para o microfone e gravei a música. E sabe o que aconteceu? Foi precisamente essa música que vendeu o disco. Foi aí que tudo mudou.»

E mudou tanto que isto motivou a sua saída dos Afrika Star e o fez apostar numa carreira a solo que se revelou espantosa (embora pelo meio fosse tocando, acompanhando e gravando com artistas de proa como os Bulimundo, Conjunto Flor Negra, Octávio ou os guineenses Sábá Miniambá). Grava três discos a solo: Nhõs No Dêxa De Estupidês, Nhõs Dêxa De Conta Mintira e Aleluia, albúns elementares e onde se consolidam alguns dos ritmos mais vibrantes e frenéticos da história do funaná. A sua identidade sonora mescla a tradição de cabo-verde, camadas de reggae, algum funk e é orientada por liricismos que embora ressoem em segundo plano, albergam consigo (ainda hoje, talvez sobretudo hoje) um sentido de pertinência e resistência brutais. Um factor que estabelece também Pedrinho Xalé como um dos mais proeminentes cantautores da história de Cabo-Verde (e se não acreditam, escutem, por exemplo, a canção Ódio Sem Valor).

Pedrinho afastou-se da música por volta dos anos oitenta, optando por ter um trabalho mais estável (ao contrário de depender da sua música para viver, devido à irregularidade e imprevisibilidade que isto lhe criava do ponto de vista financeiro). Infelizmente, o seu legado musical permaneceu longe dos holofotes e careceu de atenção por imenso tempo, tendo ganho uma nova vida sobretudo a partir da viragem do século e a partir do momento em que investigadores, DJs e curiosos musicais começaram a perceber o potencial de dançabilidade inerente às suas músicas (e que se encontra um pouco patenteado por todos os ciclos da história dos ritmos de Cabo-Verde). A sua música e os seus ritmos são procurados por ouvidos dos quatro cantos. Há quem diga que na música não existe linguagem. Ou que ela se pode traduzir pelo corpo.

Recentemente, e num mundo cada vez mais global (e com cada vez mais complicações em ser global), a música de Pedrinho tem sido redescoberta. E não é por acaso que, por exemplo, o seu disco Aleluia mereceu uma reedição física em vinil pela editora Mar & Sol em 2018. Algumas outras canções suas ecoam em compilações editadas por editoras internacionais como a AnalogAfrica e Ostinato Records e que em muito ajudaram o mundo a conhecer algumas das maiores pérolas da história da música moderna de Cabo-verde. De resto, estou em crer (e com desejo também, confesso) que os seus outros dois longa-duração também irão merecer uma reedição física nos próximos tempos. Assim esperamos.

Na Caixa Negra do GrETUA, uma coisa é certa: vai haver muito suor. Muito aleluia. E muito para ali, para ali, rapaz. Para ali, para ali, rapariga.

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