RÁDIO UNIVERSITÁRIA DE AVEIRO

Universidade

Reitor Artur Silva concede primeira Grande Entrevista à Ria: “Vamos ter que trabalhar muito”

Dois meses depois de ter tomado posse como reitor da Universidade de Aveiro (UA), Artur Silva falou pela primeira vez com a Ria sobre aquilo que pretende fazer ao longo dos próximos quatro anos. Durante quase uma hora e meia de conversa, o reitor falou sobre a reestruturação interna, sobre possíveis soluções para o problema da habitação estudantil e sobre a relação com a Câmara Municipal de Aveiro. A entrevista foi conduzida por Gonçalo Pina e Maria Rego.

Reitor Artur Silva concede primeira Grande Entrevista à Ria: “Vamos ter que trabalhar muito”

Foi no passado dia 20 de maio, na Nave Caixa UA, que foi formalizada a passagem do testemunho de Paulo Jorge Ferreira, que liderou os destinos da Universidade de Aveiro entre 2018 e 2026, para Artur Silva. O novo responsável tinha sido eleito um mês antes, a 21 de fevereiro, em reunião do Conselho Geral da instituição, com 15 votos a favor e três votos em branco.

Artur Silva foi candidato único à reitoria depois de ter sido vice-reitor durante os dois mandatos de Paulo Jorge Ferreira. Com 62 anos, chegou à UA ainda nos anos 80, como monitor e bolseiro de iniciação à investigação no Departamento de Química, tendo-se licenciado em Ensino de Física e Química em 1987. Em 1993 doutorou-se em Química Orgânica e, em 2001, tornou-se professor catedrático do Departamento de Química.

Ao longo do seu percurso na Universidade de Aveiro, Artur Silva assumiu várias funções, entre as quais: presidente do Conselho Diretivo do Departamento de Química, entre 2001 e 2006, diretor do programa doutoral em Química, entre 2007 e 2018, e do programa doutoral em Química Sustentável, desde 2013 até à atualidade, foi diretor do Mestrado em Química, entre 2009 e 2018, e presidiu o Conselho da Escola Doutoral da UA, de 2013 e 2018).

Nos órgãos centrais e estruturantes da Universidade de Aveiro, Artur Silva passou pela Assembleia da UA, ente 1989/1990 e 1992/1993, pelo Senado, entre 2007 e 2008, pela Assembleia Estatutária, entre 2007 e 2008, e pelo Conselho Geral, entre 2009 e 2017.

A entrevista completa feita pela Ria – a primeira desde que o novo responsável assumiu funções – pode ser ouvida na íntegra em formato podcast ou pode ler a transcrição completa em baixo.

Começamos pelo momento atual. É a primeira entrevista desde que tomou posse há cerca de dois meses, no passado dia 20 de maio, e já teve tempo, acredito, para “arrumar a casa”. Gostava de saber como é que foram estes primeiros dois meses e o que é que já teve tempo para fazer.

O primeiro período é sempre de… não diria arrumar a casa, mas preparar para este mandato de quatro anos. Logicamente que o reitor, que foi vice-reitor durante oito anos, conhecia um pouco a máquina, conhecia um pouco a Universidade, a sua organização, mesmo ao nível da reitoria, dos serviços, mas há ideias que foram apresentadas no seu plano e que estamos a organizar.

Há vice-reitores novos, há pró-reitores novos e isso está tudo a reajustar-se para nós avançarmos rapidamente. Como sabem, a previsão foi de que nós iríamos montar o plano estratégico e fazer a reorganização que queremos fazer até dezembro de 2026, para que em 2027 nós tenhamos tudo a funcionar. É nisso que nós estamos a trabalhar.

Pegando aqui no processo de auscultação alargada que existiu: tem sido público que o reitor Artur Silva tem reunido com grupos… não só houve um almoço com todos os reitores da UA, houve também um almoço com os autarcas de toda a esfera da ação da UA, um encontro com a Associação Académica, bem como com docentes e investigadores. Queria saber exatamente com que pessoas é que esteve e se é possível percebermos um bocadinho de como é que funcionou esta auscultação.

A auscultação também é mostrar a forma como nós queremos que este mandato seja. Um mandato que seja de diálogo com todas as forças da academia. E começamos com o exemplo de falar com todos os reitores. Existe uma história, existe uma experiência, e nós ouvirmos essa história e essa experiência é bom para nos aconselhar, para ouvirmos algo de que até podíamos estar mais esquecidos.

Depois, não fizemos só [uma auscultação] interna, vou fazer aqui o contraponto. Tivemos os senhores reitores com a sua experiência, com a sua história, mas depois também ouvimos os autarcas. Nós estamos integrados na CIRA [Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro], mas nós não trouxemos só os autarcas da CIRA, nós trouxemos também os autarcas daquilo que eu chamo a ‘Cidade da UA’, das cidades onde a UA está presente. O que é que eu quero dizer com isso? Nós, para além da CIRA, fomos buscar Oliveira de Azeméis, fomos buscar Feira, Espinho, Gaia. Porquê? Porque nós temos um forte envolvimento com eles devido ao curso de medicina. Por isso, nós quisemos mostrar este ouvir e a abertura que a Universidade vai ter para com a nossa região envolvente.

A seguir foi a Associação de Estudantes. Porquê? A Universidade existe porque existem estudantes. Mais uma vez, até no seguimento daquilo que tínhamos vindo a fazer nos últimos dois mandatos, a abertura da reitoria para a associação de estudantes… para nós a auscultarmos também e mostrarmos que este vai ser o mandato em que nós vamos querer estar “em colaboração com”.

Em todas aquelas grandes decisões, nós vamos querer ouvir a associação. Nós vamos querer ouvir a Associação também de outra forma, para eles nos trazerem problemas, dificuldades ou desafios que nós não vemos e, por isso, os estudantes vão trazer. Esta foi a forma de nós mostrarmos que nós vamos fazer esta forma aberta de discussão.

Depois fomos ouvir o pessoal técnico, administrativo e de gestão (TAG), os docentes e os investigadores. São muitos, não podemos ouvi-los todos e a forma que nós encontramos foi [chamar] os mais recentes. Chamamos-lhes “mais novos”, mas mais novos em termos de integrar [a instituição] dentro da sua carreira. E foi interessante porque são gente nova que chegou à Universidade, que tem ideias novas, tem ideias frescas.

Alguns já têm algum tempo, apesar de serem novos, já têm algum tempo. Já têm alguns conhecimentos, já nos foram dadas algumas dicas sobre as dificuldades, sobre a forma como foram recebidos, como tratamos o acolhimento…

A ideia global foi nós mostrarmos a todos com quem fizemos a reunião que nós vamos querer estar no mandato desta maneira: de ouvir, fazendo nós perguntas, mas de ouvir também do outro lado, de as pessoas nos trazerem ideias e nós fazemos esta gestão aberta e com todos.

Mas essa ideia de ouvirem mais jovens é uma mensagem que pretende passar para fora e para dentro da instituição?

Sim, foi uma opção. Vamos pensar nos docentes: nos docentes de carreira e docentes convidados nós teremos de ter 1300. Não podemos ouvir 1300, tínhamos de tomar uma decisão. E, por isso, a forma mais eficiente ou era [trazer] os mais experientes ou os mais novos.

Ao escolher os mais novos, significa que são aqueles que entraram mais recentemente, que são… alguns já estariam na academia ou já conheciam a academia, outros vieram de fora. E, por isso, nós ao ouvi-los constatamos algumas das dificuldades, os desafios que eles sentem quando chegam à academia. Aqueles que já foram mais experientes já se esqueceram possivelmente da experiência de quando entraram na academia. São pessoas mais recentes que viam: «Olhe, nós sentimos esta dificuldade porque não conhecíamos a casa, o acolhimento talvez fosse melhor nos primeiros tempos…» Toca-nos desta maneira, ajuda-nos desta forma. E dizermos que a academia está em risco do conhecimento também. Também foi para dar essa ideia.

Artur, a primeira decisão que tomou, pelo menos a primeira pública e que teve impacto logo no primeiro momento, no momento da tomada de posse - refiro-me à escolha da equipa reitoral e das pessoas que o acompanham -, foi uma escolha um bocadinho sui generis, se assim se pode dizer. Isto porque há uma renovação quase total. Havia cinco vice-reitores antes, agora passa haver três: há aqui uma redução, dos quais só continua a professora Sandra Soares e o próprio Artur Silva, que passa a reitor. Depois havia mais pró-reitores do que há atualmente e os que há também foram todos renovados. Queria perceber que linha de raciocínio é que teve na escolha desta equipa e porque é que fez estas alterações.

Nós quando entramos num desafio destes, de ser reitor da Universidade, temos uma ideia do processo e de como vamos tentar gerir esta máquina complexa. A minha experiência também na casa, como vocês sabem, já é muita. Tenho um conhecimento profundo da casa porque desempenhei as funções quase todas na Universidade, o que me permite ter, incluindo na reitoria, uma visão sobre aquilo que eu acho que se deve implementar.

Uma equipa mais curta significa que é uma equipa mais coesa. Tem mais responsabilidades, mas também permite que haja uma atribuição de outras, uma divisão de funções, com outro tipo de intervenientes: estou a pensar em assessores, estou a pensar numa gestão descentralizada e em que nós temos de pôr também maior responsabilidade nos nossos serviços. Foi por isso que eu decidi [quando optei apenas por] termos só três vice-reitores.

São áreas fundamentais da Universidade, ou seja, nós temos o genérico: nós temos ensino e aprendizagem, nós temos a investigação e depois temos a qualidade. Agora podem-me perguntar logo a seguir: «Porque é que não colocou um vice-reitor para a cooperação?». Essa é a minha visão: eu acho que a investigação e a cooperação devem estar juntas. Depois temos uma pró-reitora que ajuda mais na parte da cooperação.

É a visão que eu tenho de ser algo global, porque a investigação… nós temos muita investigação pensando no ADN da Universidade. O ADN da Universidade é a colaboração com a sociedade, é a colaboração com a região, com Portugal, com o mundo. Foi por aí que [decidi que] nós temos uma vice-reitora enquadrando tudo e depois temos uma pró-reitora que está mais dedicada à cooperação.

Os pró-reitores são específicos para a área das infraestruturas, mas também… [temos] alguém conhecedor, porque vem do Departamento de Engenharia Civil, que vai tratar das infraestruturas. Temos alguém também com experiência muito pronunciada na área de comunicação e informação, estou a falar dos STICs e companhia…

É uma equipa reduzida. Se eu sentir que é necessário acrescentar, nós podemos sempre aumentar e nomear mais um vice-reitor ou um pró-reitor. Não é isso que está no meu pensamento, mas se a experiência com a equipa reduzida me levar a esse caminho, eu não meterei a cabeça na areia. Se eu sentir que é necessário, eu atualizo a equipa.

Pergunto-lhe ainda em relação à renovação: tínhamos três vice-reitores que acabam por sair de funções, a professora Ana Isabel Lillebø, a professora Alexandra Queirós e o professor João Veloso. Porquê optar por não dar continuidade e ter sangue novo? Porquê não manter e dar essa continuidade que, de alguma maneira, vinha no seguimento ao trabalho do professor Paulo Jorge Ferreira?

A continuidade começa pelo reitor. O reitor é vice-reitor durante oito anos e tem uma continuidade. Por isso, nós temos de ter ideias frescas e a ideia de renovar foi nessa direção e sentido. Só tenho a louvar o trabalho desenvolvido tanto pelos vice-reitores Alexandra Queirós, João Veloso e Ana Isabel Lillebø. É uma forma de mostrarmos à academia que, de vez em quando, nós temos de trazer gente nova para a gestão, gente com ideias mais frescas, diferentes, seguramente.

Eu acho que a Universidade e até o mundo não iria perceber se nós mantivéssemos uma reitoria de continuidade durante 16 anos. Tivemos oito anos, trabalhamos forte sob comando do reitor Paulo Jorge Ferreira, mas, nesta altura, vamos consolidar muito o trabalho, mas vamos dar mais um salto qualitativo.

Eu acho que a academia, o mundo, estaria à espera de que esta nova reitoria tivesse gente nova. Gente nova não quer dizer em idade. Gente nova, gente fresca, com ideias frescas para vir renovar a gestão da Universidade.

Esta renovação na gestão da Universidade não passa só pela reitoria. Entretanto, já teve a oportunidade de escolher uma nova diretora-delegada nos Serviços de Ação Social (SAS) da Universidade e também um novo administrador. Falo, portanto, de Ana Braga e de Pedro Jesus, respetivamente. Faço-lhe a mesma pergunta. Primeiro, porquê é que decidiu não reconduzir as pessoas que antes estavam nestes cargos, e depois perceber porquê estas pessoas em concreto.

Genericamente, ao longo dos anos da Universidade, os nossos administradores têm, na sua formação inicial, uma formação jurídica. Eu acho que, com a complexidade que a Universidade já tem, nós precisamos de um gestor. E por isso, quando eu idealizei o novo administrador, eu sempre pensei em ter alguém da área da gestão. Fui à procura, fiz as minhas consultas, e, como já ouviram com certeza na entrevista do senhor administrador, que já disse como é que foi a nossa primeira reunião, ele veio para me ouvir e saiu daqui com um problema pelo desafio que eu lhe coloquei.

É alguém que tem experiência em termos de empresas, em termos internacionais, é nosso antigo aluno, é um gestor novo…

Isso era uma pergunta que eu lhe ia fazer a seguir, mas aproveito para fazer aqui o parênteses. São ambos alunos, portanto, tanto Pedro Jesus como Ana Braga são ex-alunos. É um sinal de uma aposta desta reitoria numa ligação aos ex-alunos - que é, aliás, um dos eixos da sua candidatura?

Seguramente. Começando pelo reitor, que é um antigo aluno também, não é verdade? Acho que sim. Se eu tivesse encontrado na minha procura alguém que não fosse ex-aluno, também não ia tirá-lo da equação. Mas é um add-on nós termos aqui alguém que também já foi nosso aluno, já esteve aqui nos nossos corredores, tem uma experiência vivida com a casa. É uma mais-valia tanto de um [lado] quanto do outro.

Também me fez a pergunta relativamente ao diretor-delegado. A mesma coisa: o João Ribeiro fez um bom trabalho, tinha oito anos, mas por isso é também uma maneira de... Há sempre um desgaste na gestão que a pessoa tem. Foi por isso, e quando eu falei com o João Ribeiro disse isso mesmo, há um desgaste com o tempo, e por isso acho que estamos também na hora de trazer gente nova, em termos de ideias frescas.

A Ana Braga também é a nossa antiga aluna e também já estava aqui a desempenhar outras funções na casa, por isso tem um conhecimento não só como aluna, mas também como pertencente ao corpo de gestores desta Universidade. Ela tinha também a experiência já dos SAS de outra universidade. E, por isso, tudo isto foi um conjunto [de coisas] que me levou a estas duas escolhas, e que eu acho que serão, seguramente, bem-sucedidas nestes próximos anos.

Voltando aqui à sessão de auscultação pública, aquando da apresentação do programa: Artur Silva falava também de uma revisão profunda, quer uma criação do Serviço de Apoio à Reitoria e Administração, também a saída do dossiê Estrutura e Organização de Eventos dos SCIRP (Serviços de Comunicação, Imagem e Relações-Públicas), entre outras coisas. Queria que me explicasse em concreto o que é que muda e porque é que muda.

Eu acho que o Gabinete do Reitor deve ser uma estrutura simples, ágil e que existe enquanto existe o reitor. No dia em que o Reitor acaba o seu mandato, essa equipa desfaz-se. Tipo “Missão Impossível”, estão a ver?

Atualmente, o Gabinete do Reitor tem muitas outras estruturas lá dentro e são estruturas que são de apoio à Reitoria e de apoio à Administração. Elas vão existir independentemente do reitor que estiver. Do Artur, do Paulo, do Joaquim, do André, etc. Ou seja, o reitor sai, mas vamos continuar a precisar de uma Divisão de Internacionalização. Nós vamos continuar a ter o Núcleo de Apoio à Gestão. E, por isso, deve estar num serviço que existe independentemente do reitor.

Há algumas pessoas que ficaram com dúvidas na minha apresentação, mas aquilo é só organizacional. O Gabinete do Reitor deve ser algo simples, algo que começa com o reitor e, no dia em que o reitor termina o mandato, toda essa gente acaba a sua função. Vem o novo reitor e escolhe a sua nova equipa.

Todos os outros serviços que são necessários para apoiar a Reitoria e a Administração devem estar num serviço e, como serviço, devem continuar ao longo do tempo. Assim é o Serviço de Apoio à Administração e à Reitoria, que se cria com a maioria das pessoas que estão atualmente no Gabinete do Reitor.

Relativamente ao Núcleo de Desporto e Lazer. Eu considero que muito da atividade, além do desporto, tem muito a ver com espaços. E, nos SCIRP, na organização, temos um grupo de pessoas que trabalha com espaços. Por que não criar um núcleo, neste caso vai ser um serviço, que tenha todos os espaços? Podem ser desportivos, pode ser de sala de aulas, pode ser para organização de conferências, etc. Porque, como sabem, a nossa Nave não vai ser só para atividades desportivas, vai ser para atividades culturais, vai ser para atividades científicas, organização de congressos… Tudo isto é a ocupação de espaços e é a organização dos espaços. Nós temos que fazer também render esses nossos espaços em termos financeiros e, por isso, este também é o objetivo.

Queria falar precisamente dos SCIRP e da comunicação no geral da Universidade, porque foi uma das áreas de que o Artur Silva foi mais crítico ao longo do programa. Vou citar: dizia, “a ação comunicacional atual liderada pelos SCIRP carece de maior proatividade, sistematização e posicionamento estratégico, assim como de uma gestão mais articulada das narrativas institucionais” e “acrescem fragilidades ao nível do rigor editorial e da qualidade da informação produzida e divulgada”. Queria perceber qual é que é a estratégia, hoje, desta reitoria para uma comunicação diferente da Universidade que seja alternativa àquilo que se tem feito até agora.

Aí está tudo dito…

Percebo que aqui se identifica o problema, mas queria perceber qual é a solução agora.

Nós estamos em fase de contratação de uma nova diretora de serviço e nós queremos que a comunicação interna e externa faça parte da gestão da Universidade. Que seja uma forma de nós, através da comunicação… vocês já mencionaram há pouco, muito daquilo que nós fizemos nos primeiros tempos, foi o reitor e a equipa reitoral a escutar. Mas a seguir eu vou querer escutar muito mais, eu vou querer escutar as unidades orgânicas, eu vou querer passar também a essas unidades orgânicas as nossas decisões. E, por isso, nós vamos tentar que as decisões estratégicas sejam algo construído ouvindo a nossa comunidade e comunidades orgânicas, unidades de investigação. Ouvindo e depois também transmitindo e usando a comunicação como algo estratégico na gestão da reitoria.

Externamente, a nossa comunicação também tem de ser uma forma de nós nos valorizarmos e de nós sermos capazes de divulgarmos aquilo que nós fazemos de melhor para captar talento. Desde a captação de alunos, a captação de novos investigadores, de novos docentes, de novos TAG. E, por isso, a comunicação também pode ser para isso, para nós fazermos uma comunicação daquilo que de bom fazemos na Universidade.

Para nós, a nossa reputação internacional também depende da forma como nós comunicamos, aquilo que nós fazemos. E nós fazemos muita coisa boa, em termos de investigação, em termos da inovação, nas nossas colaborações com a indústria… nós temos de fazer isso bem e de forma organizada.

Percebendo isso, queria lhe pedir de alguma forma que concretizasse. Ou seja, a minha dúvida é: O que é que neste momento está a ser mal feito para que isso não aconteça, essa estratégia que tem apontado? O que é que falha e onde é que dá para remediar (ou alterar totalmente) para que a Universidade consiga fazer isso e consiga projetar melhor, tanto dentro como fora?

Eu também disse no plano que nós precisamos de nos organizar. Isso significa que eu acho que temos aqui uma questão de organização. A outra coisa que está lá muito bem explícita é que nós precisamos ter um plano estratégico, nós precisamos ter um plano de comunicação e, depois, organizarmos de top down e bottom up para nós termos algo para nós nos organizarmos. E se nós tivermos esse plano, nós temos as linhas mestras para fazer a organização. Enquanto nós não tivermos um plano e não tivermos tudo muito bem organizado, muito bem definido, quais são as funções de cada pessoa, quais são as funções…

Quando alguém elabora um artigo para sair, uma notícia, como é que essa notícia é elaborada, como é que essa notícia é checkada, como é que nós vamos à procura das notícias… Ou seja, o jornalista tem que estar em movimento pela Universidade, tem que estar a bater à porta dos investigadores, bater à porta das unidades de investigação, das unidades orgânicas, para saber o que é que nós estamos a fazer de ponta naquela hora e o que é que nós vamos comunicar naquela hora. Primeiro de tudo é preciso termos um plano e termos uma organização.

Há aqui ainda um tema que se prende agora com a atualidade – refiro-me ao Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior. No seu programa dá ainda algum destaque – nos em 16 eixos que identifica, o tema vem logo em terceiro lugar -, e, cito, “há sinais de alerta que não podem ser ignorados”. Recordo que o ano passado não foi um bom ano, quase metade dos cursos ficaram com vagas por preencher e, portanto, pergunto-lhe: Que fatores é que a UA entende que podem estar a jogar contra e como é que os pretende contrariar?

O ano passado, as regras de acesso foram diferentes dos anos anteriores. Por isso, o ano passado, eu acho que - pelo menos foi a visão que muita gente teve - as consequências que existiram na Universidade de Aveiro e em outras instituições se deveu, essencialmente, à alteração das regras de acesso. Por isso, nós temos de ver como é que nós podemos olhar para elas. Depois, o Sr. Ministro permitiu que este ano se retornasse ou se regressasse a algumas dessas condições anteriores e vamos ver o impacto que vai ter, se nós regressamos aos números anteriores ou se ainda temos [uma fraca adesão].

Agora, o que disse também nesse plano é que há condições que nós devemos divulgar para que os alunos escolham a Universidade de Aveiro. Uma delas, que eu disse há bocado, é a comunicação. Nós comunicarmos as excelentes condições que nós temos para fazer desporto, as excelentes condições que nós temos de acompanhamento dos estudantes para o seu bem-estar, algumas ações que são consequência do que está a acontecer - na verdade, nós estamos a oferecer novas residências, nós vamos ter mais residências -, fazermos alguma interação com a comunidade envolvente para podermos oferecer mais alguns lugares de quartos… Estou a pensar: algo que eu tenho em mente é ir [ter] com a comunidade aveirense, ver pessoas que vivem sozinhas, que podem ter ou estão disponíveis para ter um estudante com elas.

Nós ao oferecermos melhor qualidade e maior número de residências estamos a facilitar a vida dos estudantes, porque nós sabemos que Aveiro é um sítio muito concorrido em termos de quartos, com algumas dificuldades. Ao simplificarmos a vida dos estudantes que nós queremos captar para aqui e ao dizermos que nós temos estas condições de bom desporto, boas residências, os nossos restaurantes universitários a funcionar bem, com boa comida, com várias opções… esta divulgação serve para nós captarmos os alunos e dizer aos alunos: «Venham para Aveiro porque nós temos condições ótimas para vocês estarem aqui».

Neste tema ainda, este ano será muito particular - já falámos consigo em relação a isso, muito em virtude de todos os constrangimentos dos exames nacionais, mas também relacionados com a entrada, ou não, em vigor do novo modelo de ação social [entre o momento da entrevista e da sua publicação, o Governo anunciou que a reforma não vai já entrar em vigor na sua plenitude]. De que forma é que acredita que isto pode vir a impactar concretamente aqui a Universidade de Aveiro?

Bom, nós ainda não sabemos se o Sr. ministro irá implementar as novas regras ou não, por isso ainda estamos, logicamente que saiu já…

Mas há também incerteza associada, também já falámos disto.

Bom, esta situação, vamos ver… o impacto, já falei com vocês sobre isso, se se aplicar o que está descrito no decreto-lei, aplicando à Universidade de Aveiro… nós, como já vos disse também, [com base numa previsão feita através de uma] pequena amostragem, que nós fizemos, existem umas consequências: 20% das pessoas poderão deixar de ter bolsa. E, por isso, isto será um impacto real e é preciso termos aqui algumas situações, vermos como é que vai acontecer. Mas, primeiro, ainda estou à espera de saber se vai realmente implementar-se já com a nova plataforma, com a nova regra, ou se ainda não.

O tempo urge para o Sr. Ministro tomar uma decisão muito concreta, mas o impacto real é, se se aplicar o novo, com estas regras que estão, a estimativa que nós temos pode envolver uma redução de 20% de bolsas.

Mas existe alguma solução pensada, no sentido de tentar trazer mesmo assim mais alunos aqui para a Universidade?

Nós não temos uma varinha mágica. É um balanço entre isto. Ou seja, se nós oferecermos mais lugares de residência, se nós encontrarmos outras formas na cidade de haver mais alguns quartos disponíveis, o que nós estamos a fazer é com que, especialmente, o custo de vida vá diminuir. O custo dos quartos. Porque muito do impacto que tem a Universidade passa por aí, passa pelo custo da estadia em Aveiro, e a estadia tem a ver com as residências, tem a ver com o restaurante universitário, etc.

A forma de atuar, nesta altura do campeonato, o que eu imagino, é isto mesmo. É com as novas residências, com a tentativa de encontrarmos mais quartos, mais camas disponíveis, [tentar] que o custo seja menor. E depois dizer o que é que a Universidade de Aveiro tem de melhor relativamente às outras, algumas das condições que nós temos e que somos conhecidos já por ter, e que essas condições convençam os estudantes a vir para Aveiro.

Entretanto, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, já adiantou que vai ser criada uma nova época especial de exames em setembro. Há uma noção de como é que esta mudança vai afetar as candidaturas ao Concurso Nacional de Acesso? Pode trazer aqui algum tipo de alteração ao calendário letivo? E perguntava-lhe ainda se, tendo em conta que as provas acabam no dia 8 e o período de candidaturas termina a 22, é expectável que haja resultados dos exames em menos de duas semanas?

Aqui terá de ser o senhor ministro a opinar sobre o assunto. Se me pedissem a opinião, eu possivelmente fazia deslocar uma semana tudo e acalmava mais toda esta situação, porque eu acho que o impacto que vai ter nos próximos dias (que vamos ver o que é que vai acontecer) tem a ver com o pedido de revisão de provas.

Vocês também devem saber que no primeiro dia de candidaturas, em que normalmente nos outros anos eram cerca de 10 mil candidatos, este ano foram 340. Isso significa que há um número muito elevado de estudantes que está expectante, está a estudar ou está a ver as suas possibilidades, mas se metade ou mais de metade dos estudantes pedirem a revisão de provas, eu penso que o sistema vai ter alguma dificuldade em cumprir os calendários que estão. Conforme está, vamos seguindo o que vai acontecendo e como é que a comunidade se vai comportar - comportar não é no bom sentido ou no mau sentido, é a reação que tem perante as classificações que saíram e, nessa análise, o que é que vão fazer.

Há o calendário que vem do governo, mas eu queria saber, da parte da Universidade de Aveiro, face a tudo aquilo que já se sabe ao dia de hoje, há alguma perspetiva de adaptações do calendário letivo para a entrada no próximo eletivo?

O que vocês estão a dizer é se nós temos um plano A ou um plano B?

Exatamente, é essa a questão.

Nós temos. Se o senhor ministro for conseguir que o plano inicialmente previsto vá funcionar, o nosso plano A não tem razão para não funcionar, porque os alunos serão colocados nas datas [previstas]. Se não, existirá um plano alternativo, como é lógico, e por isso eu penso que aquilo que eu disse há um bocadinho, de [adiar] uma semana, poderá ser algo que vai acontecer. Mas vamos esperar [para ver] o que é que vai acontecer. Mas [existe] plano A e o plano B, sim, em função do que acontecer externamente à Universidade.

Vou pegar na questão do alojamento, que já percebi que queria pegar, e, portanto, vou-lhe fazer essa vontade. Uma das coisas que o seu programa diz é que, como resposta a esta problemática, a aposta que tem sido feita é no reforço da oferta de alojamento universitário para fazer com que sejam mais comportáveis as condições de vida dos estudantes em Aveiro. Nesse sentido, queria-lhe perguntar, nesta aposta, são mais de 420 novas camas distribuídas, algumas aqui no Crasto, outras na Quimigal, outras na ESAN - portanto, espalhadas um bocadinho pelos Campi - que são financiadas, ou co-financiadas, pelo PRR. Numa altura em que os prazos já começam a apertar, qual é que é o estado destes empreendimentos?

Os PRR estão todos a terminar. Como deve ser do vosso conhecimento, o PRR devia ter terminado todo a 30 de junho, por isso a maior parte das medidas foram prorrogadas até 31 de dezembro. Estamos a terminar. Os 52 projetos em que estamos envolvidos estão no caminho de terminar.

Se vocês me perguntam: «Nas residências, vocês vão terminar tudo dentro do prazo previsto do PRR?» Possivelmente não, existirão algumas na ESAN que, perante a situação que nós encontrámos na construção, possivelmente não serão [terminadas a tempo], são duas pequenas residências.

As residências de Quimigal e do Crasto, em princípio, terminaremos dentro do prazo previsto do PRR.

Portanto, pode-se dizer que para o próximo ano letivo já serão alternativa ou ainda não?

Eu fui muito cauteloso quando disse que terminariam dentro do prazo do PRR. Se me está a perguntar se as 420 camas estarão disponíveis para iniciar em setembro, a resposta é não.

Nós teremos algumas disponíveis, mas, para entrarem todas em funcionamento, eu apontaria para o segundo semestre do próximo ano letivo. Em setembro, ao dia de hoje, eu posso dizer que nós iremos ter mais residências das que estiveram a ser construídas no âmbito do PRR em funcionamento.

Consegue estimar mais ou menos valores deste acréscimo ou ainda não?

Ao dia de hoje, não.

No programa de ação também fala, neste âmbito do alojamento, de parcerias externas. E eu lembro-me, na apresentação do programa, falava de possíveis colaborações com autarquias. Queria perceber exatamente de que colaborações é que estamos a falar. Era aquilo de que falava há pouco, de tentar identificar residências onde estivesse uma pessoa em situação de isolamento e tentar ter um estudante [a acompanhá-la], ou é algo mais abrangente?

Esta é mais fácil, que não precisa quase das autarquias. Somos nós, conhecedores das situações, mas também era irmos ver com as autarquias… e quando se fala em autarquias, fala-se de autarquias da UA...

Estamos a falar em Aveiro, estamos a falar em Oliveira de Azeméis...

É a tal ‘Cidade UA’ de que falava há um bocadinho.

Exatamente. Aquela ligação que nós fizemos com as autarquias também foi isso. Ou seja, nós fomos a escutá-los, fomos dizer, com abertura, «Nós estaremos disponíveis para colaborar com vocês naquilo que nós pudermos e que nós soubermos, mas também precisamos da vossa ajuda. E a vossa ajuda também será nessa direção e sentido».

Se ao dia de hoje me perguntam: «Vocês já têm alguma iniciativa nessa direção e sentido?». Eu diria que não temos, mas a ideia é ir discutir com as autarquias para ver se existem algumas ajudas que eles nos possam prestar nessa direção e sentido.

Aqui em Aveiro, como sabem, vamos ter o edifício que está a ser construído ali em frente ao Hospital e ao Seminário, que será uma residência que também poderá contribuir para que haver mais camas disponíveis. Logicamente não são da Universidade.

São residências privadas.

Exatamente. Mas também vai contribuir para haver mais oferta na cidade de Aveiro.

Mas essas aí terão um preço, se calhar, não tão acessível ao estudante comum...

Mas são mais residências disponíveis. Nem toda a gente que vem para o Ensino Superior… e sabem a minha origem também… existem seguramente estudantes que têm dificuldades, mas existem outros estudantes que têm capacidade de pagar outro tipo de valor. E, por isso, significa que nós teremos ali mais um conjunto de residências disponíveis para os nossos estudantes e para os investigadores que nos visitam, percebem? Ou seja, há mais disponibilidade e alguns investigadores que nos visitam precisam de [onde] estar e às vezes não vêm porque não há sítio para as pessoas se alojarem.

Posso-vos dizer que existem algumas pessoas que colaboram comigo, num grupo de investigação, que já estão a alojar-se em Avanca, percebem? Ou seja, já estão mais longe. Por isso, se nós tivermos aqui na cidade mais capacidade de alojamento, seguramente que outros investigadores poderão vir e poderão ter essas condições.

Vou puxar para o caso concreto da Câmara Municipal de Aveiro - e agora falando sobre habitação em concreto, depois sobre o resto já falaremos a seguir -, o próprio presidente Luís Souto Miranda tem dito que acredita que, construídas as residências que agora estão a ser edificadas, tanto estas com a ajuda do PRR da Universidade, como as privadas de que falava agora, vai ser preciso avaliar que tipo de problema é que temos em Aveiro… Se continua a haver um problema de habitação, ou se, com este acréscimo - que, portanto, são 420 só nas residências públicas mais as outras tantas que se farão privadas -, o problema continua a ter a dimensão de que falamos ao dia de hoje. Gostava de perceber, tendo em conta este cenário e esta visão da autarquia, se há algum tipo de parceria que ainda se possa estabelecer para o futuro no âmbito da habitação.

Cada um de nós, desde o dia 25 de abril, é livre de dizer aquilo que acha por bem dizer. Eu, nestes assuntos, prefiro quando tenho valores e dados mais concretos para poder falar. O que eu tenho é: a Universidade de Aveiro tem, na sua totalidade, há volta de 17 mil estudantes, envolvendo os três ciclos. Nós sabemos que se nós tivéssemos a capacidade total das residências, tudo completo, nós estaríamos agora nos 1600 e tal, camas disponíveis… se somamos 400, vamos pôr 1500 ou 1600 com os arredondamentos. Por isso, nós estamos muito longe do número de camas para os estudantes.

Nos últimos anos sabemos que o alojamento local tem vindo a aumentar muito para o turista que vem, havendo menos disponibilidade para os estudantes, por isso, nesta visão que eu tenho, eu diria que não fica já resolvido com as camas, com as 400 camas, mas vamos vendo o que é que vai acontecer.

Também existem muitos estudantes que não ficam em Aveiro. São de regiões próximas, têm acesso pelo transporte ferroviário e vão e vêm todos os dias. Mas eu penso que, do balanço total, estas nossas 420 camas vão contribuir seguramente para uma maior oferta - que eu penso que vai diminuir um pouco o preço, porque há mais oferta -, que mesmo as residências privadas que vamos ter aqui ao lado também vão ajudar, apesar de serem outros valores, mas não acho que o problema fica resolvido.

Dentro disso, a conversa entre o senhor presidente da Câmara e o senhor reitor vai ocorrer e vamos seguramente discutir algumas possibilidades, se elas existem, se não existirem. Temos de procurar, de ser imaginativos e criativos para encontrar outras [soluções], mas seguramente que não será tabu nós discutirmos formas de colaborar e de ver se entre a Câmara e a Universidade existem algumas formas de nós contribuirmos no sentido de acrescentar mais camas disponíveis para os nossos estudantes.

Nós já vamos voltar, não tarda nada, à Câmara Municipal, mas antes disso queria voltar a um assunto que já foi tocado antes, que é o novo modelo de Ação Social, o RABEES [Regulamento de Atribuição de Bolsas de Estudo a Estudantes do Ensino Superior], que entrará em vigor, ainda não sabemos se para já ou só para o ano, porque ainda paira esta dúvida no ar. Uma das premissas base é de que todos os estudantes bolseiros, a partir de agora, possam escolher a instituição de Ensino Superior onde passam a estudar, portanto, a bolsa adequa-se ao sítio e às condições de vida (neste caso, às condições de vida de Aveiro). Acha que, neste aspeto, a reforma pode ser benéfica para instituições, como é o caso da Universidade de Aveiro, onde o custo de vida é um dos maiores problemas?

Vamos ver como é que se implementa, mas o que está atualmente para a bolsa envolve o custo real do sítio, Aveiro vs Coimbra vs Lisboa, menos rendimento da família. Por isso, se isto for bem calculado em termos do custo real, também já estamos a ter em consideração o custo real que nós temos em Aveiro.

Dentro disto, acho que, agora, pode ter, a outra consequência. Não sei se é por aí que queria ir, é que o estudante também pode, à luz do que está, escolher ou não ficar na residência ou ficar num quarto privado e o valor que o governo paga numa situação e na outra é diferente… Não sei se era por aí que queria ir.

Aí eu acho que devíamos evoluir noutra direção e sentido, porque, em Aveiro, se o estudante ficar no privado, é-lhe atribuída uma bolsa de valor à volta de 320 euros, e, se ficar no universitário, é cerca de metade, para que o estudante possa optar. Não sei se era por aí, mas, se não, posso responder de outra maneira, se for…

Era por aí.

Portanto, entendo que este não será o caminho. Eu penso que não. Nós podemos reclamar, mas se nos for imposto por lei, temos de aceitar, não é verdade? Este é o número que está e os números para cada sítio estão calculados, e, por isso, o nosso, como disse, é aquele valor que nós temos e ponto.

Voltando agora sim à colaboração entre Câmara Municipal e Universidade. Não raras vezes o presidente da Câmara tem referido parcerias e um trabalho conjunto com a Universidade de Aveiro. É público que as relações entre a Câmara e a Universidade nem sempre foram as melhores: Como é que as coisas se estão agora e que projetos comuns é que se avizinha?

Eu tenho uma posição ligeiramente diferente da vossa… a Universidade e a Câmara Municipal nunca podem ser divergentes. Nós estamos numa cidade universitária, nós temos uma cidade que tem 88 mil habitantes e temos uma comunidade universitária que deverá ter à volta de 21 mil pessoas, envolvendo tudo. Por isso, a cidade não pode virar as costas a 21 mil pessoas e as 21 mil pessoas na academia precisam da Universidade.

Existem muitos projetos que têm sido feitos em conjunto e que são bem-sucedidos. Eu posso realçar aqui um, porque é algo que eu gosto muito, que é a Escola de Ciência Viva, que foi criada no início da nossa regência anterior, quando eu iniciei o mandato de vice-reitor. E foi entre a Câmara e a Universidade, através da Fábrica Centro de Ciência Viva, que é lá.

É algo que foi construído entre nós, que foi discutido, que é pago pelos dois e é algo de que nós nos orgulhamos, porque significa que as crianças da quarta classe de todas as freguesias do nosso concelho de Aveiro passam a semana na Fábrica Centro de Ciência Viva. A Câmara faz o seu papel, nós fazemos o nosso papel e é um projeto bem-sucedido.

Nós temos o projeto STEAM da educação, que é feito também entre a Câmara e a Fábrica Centro de Ciência Viva, e esse sempre existiu. Houve um período em que o financiamento vindo da CCDR não ocorreu e a Câmara e o senhor presidente da Câmara colocou, se não estou enganado no número, à volta de 150 mil euros para aquilo ocorrer nos dois anos em que não tivemos financiamento.

A Câmara e a Universidade trabalham em conjunto. Pode haver divergências em algumas partes da nossa discussão e na discussão pública entre os dirigentes das duas instituições, mas as instituições existem e, como tal, têm tido muitos projetos e vão continuar a ter projetos em conjunto. Não podem estar de costas viradas numa cidade em que, como proporção, a Universidade é um quarto da cidade.

Colocando até de parte essas divergências, a verdade é que o presidente da Câmara tem dito várias vezes que quer retomar uma aproximação maior, portanto, uma ideia de que quer mais do que antes havia. Queria saber se isso tem acontecido, se tem havido mais parceria, se tem havido mais projetos conjuntos e se há coisas para o futuro que sejam idealizadas entre os dois.

Nós temos discutido… falado muito, na proximidade das nossas discussões. Há projetos que eu não irei discuti-los hoje aqui, porque estão a ser discutidos, mas que são desafios que a Câmara nos traz e a que nós vamos tentar responder. Ainda agora, vocês já viram no Diário da Aveiro, que houve uma delegação que foi agora a Salerno, por isso a Câmara…

Será tema daqui um bocadinho, já vamos tocar…

…mas estão a perceber? Fomos todos em conjunto: foi a Associação Académica, foi o reitor e foi o presidente da Câmara. E nós fomos em conjunto porque é um objetivo que interessa à cidade e à Universidade. O foco é: fomos em conjunto porque é algo que nos interessa a todos e é algo em que nós vamos colaborar. Conforme existem estes, [também] existem outros projetos que o senhor presidente da Câmara já me colocou e há outros desafios para nós trabalharmos em conjunto.

Seguramente que vamos conseguir trabalhar em conjunto, mas - e eu já no meu discurso [de tomada de posse] também disso até para a Academia - não necessitamos de estar todos os dias de acordo, a divergência também faz evoluir e a Universidade é isso mesmo. Nós temos opiniões diversas e dessas opiniões nós evoluímos aqui, e com a Câmara será a mesma coisa.

Posso até já pegar nesse grande projeto em que estarão ambas envolvidas, nessa candidatura aos EUSA Games 2032. É conhecido que tanto o Artur Silva, como a Joana Regadas, como o Luís Souto Miranda estiveram agora em Salerno para perceber as implicações futuras para um evento desta dimensão. Que papel é que terá a Universidade aqui e que gastos é que pode representar para a instituição, bem como benefícios?

Nós fomos ver como se organiza, quais são as condições necessárias, mas também fomos mostrar a nossa disponibilidade para organizar, a nossa comunhão de objetivos. Ou seja, estarem presentes a Associação Académica, a Câmara e a Universidade, é uma imagem que passa a quem vai decidir atribuir a organização lá mais à frente de dizer «Nós podemos pensar nesta cidade, porque é uma cidade pequena, mas estão todos a comungar do mesmo objetivo, todos querem organizar isto».

O que nós, para organizarmos o EUSA Games… existem já muitas condições que nós temos [de cumprir] e nós temos contribuído nos últimos anos para isso. Nós temos uma Nave, nós temos um Aristides Hall, mas também temos aqui, na região, para organizar… Não têm que ser só as nossas infraestruturas: nós temos os Galitos, nós temos São Bernardo, nós temos o Illiabum, ou seja, nós temos aqui, numa região muito próxima, condições para oferecer. Salerno estava bem organizado, mas nós fomos ver dois jogos e entre um e outro nós, de carro, demorámos mais de uma hora. Nós aqui podemos oferecer, na região - e a região aí já, como já disse, não será só Aveiro -, nós temos condições para oferecer.

E nós… este terá de ser um projeto nacional. Nós teremos de ter ajuda do Governo para fazer algumas infraestruturas, porque o que interessa também nesta organização dos EUSA Games é aquilo que nós temos para oferecer e o ‘legacy’ que nós vamos ter para o futuro também - algo novo que nós podemos construir, com o auxílio do nacional, para nós no futuro dizermos: «Nós organizámos os EUSA Games e conseguimos melhorar as infraestruturas desportivas que nós temos, conseguimos melhorar as infraestruturas da Universidade»… mesmo aquilo que nós já falámos há pouco, o número de camas que nós temos disponíveis também contribui para essa organização. Nós dizermos à organização: «Nós vamos ter na Universidade cerca de 1.600 camas que nós podemos oferecer para os estudantes que vêm».

Mas existe algum conhecimento já de que gastos é que pode implicar?

Eu diria que aí devemos ser mais cautelosos em pôr números, porque existem seguramente alguns números de experiências passadas e de experiências que estão a ocorrer, mas tudo isso depende um pouco do nível de vida de onde nós estamos. Organizar os EUSA Games em Aveiro, ou organizá-los em Lisboa, ou em Madrid, em Salerno… são diferentes e por isso eu diria que nesta altura do campeonato devemos ser mais contidos na estimativa do custo que poderá ter. Tanto mais que nós estamos em 2026 e, se tudo corresponde àquilo que nós queremos, queremos organizá-lo em 2032, isso significa que nós estamos a 6 anos. Acho que a estimativa… é melhor ser cauteloso nesse número.

Pegando aqui numa informação que noticiámos no outro dia, o SC Beira-Mar desafiou as instituições a cooperarem na recuperação da pista de atletismo [da Universidade]. Isto é algo que está em cima da mesa?

Está a falar do Beira-Mar, do senhor presidente do Beira-Mar, do Nuno Quintaneiro. Ainda ontem eu li essa notícia nas redes sociais… foi quando nos juntou aquando da final do basquetebol.

Sim, nós temos esta infraestrutura e nós vamos querer melhorá-la, vamos pô-la em funcionamento como deve ser. E os parceiros inerentes serão o Universidade de Aveiro e a Câmara. Esse é um dos tópicos que nós temos de nos sentar para encontrarmos o financiamento necessário - como sabem, será cerca de meio milhão de euros e, por isso, é preciso encontrar esse dinheiro. Dentro desta colaboração, quem nos faz o desafio também quererá seguramente usar a pista e também vai ter de se aproximar e de nos ajudar de alguma forma, de forma a nós pormos a pista utilizável e em boas condições.

Mas, já agora, pergunto-lhe se há algum tipo de plataforma de entendimento entre a Câmara e a Universidade para este empreendimento específico?

Há: queremos resolver. Não sabemos ainda como, mas já foi assunto de conversa.

Muito bem, pegando agora noutra infraestrutura desportiva, que também, aliás, já foi motivo de discórdia entre a Câmara Municipal e a Universidade, a Nave Caixa UA é uma nova grande infraestrutura, que desde o início do projeto tem recebido críticas um bocadinho de toda a parte. O Artur Silva começou o mandato lá com um concerto de grande dimensão. Portanto, pergunto-lhe primeiro se isto é uma mensagem sobre a própria infraestrutura da Nave e depois que visão é que tem para aquele espaço em concreto, se o objetivo é que se façam mais grandes eventos a partir de agora.

Primeiro: não foi o concerto, primeiro foi a tomada de posse.

Sim, foi a tomada de posse, com o concerto dentro da cerimónia da tomada de posse.

Exatamente. O grande evento é a tomada de posse. Já que você falou em críticas, também foi motivo de algumas críticas, porque as pessoas achavam que devia ser no Auditório Renato Araújo, que era mais consentâneo com a dimensão e a cerimónia propriamente dita. Mas também posso aproveitar este momento para dizer que eu fiz uma estimativa de que nós teríamos entre 1000 e 1100 pessoas a assistir - se nós estivéssemos no Renato Araújo, teríamos metade dessas pessoas.

Significa que foi a primeira mensagem de abertura à comunidade, ou seja, a comunidade não só comunidade do UA, mas comunidade aberta. A Aveiro, às autarquias aqui vizinhas… pôde muito mais gente assistir à tomada de posse e isso é abertura à comunidade.

Depois, o concerto que houve à noite é também para dar essa imagem de que nós podemos ter naquele espaço uma tomada de posse do reitor e um concerto, mas também podemos ter um jogo de basquetebol ou um jogo de andebol, mas também podemos ter um evento científico, uma conferência científica… Nós temos que usar a Nave para todos estes eventos: eventos científicos, académicos, desportivos, culturais… e usá-la na máxima capacidade.

A ideia, portanto, é ir por aí, é potenciar a partir de agora mais vezes a Nave e para uma diversidade maior de eventos?

Sim, sem dúvida.

Um dos objetivos que também tinha sido traçado aquando da construção [da Nave] era de que tivesse alguma sustentabilidade económica, ou seja, que o espaço pudesse gerar receita e contribuir financeiramente para a universidade. Tendo em conta o investimento que foi feito e o contexto de pressão orçamental que o próprio Artur Silva reconhece ao longo do programa de candidatura, eu gostava de perceber se, neste momento, a Nave, até com esse objetivo futuro de que seja mais utilizada e seja mais utilizada de forma multidisciplinar, se tem condições de cumprir esse desígnio.

Voltámos um bocadinho ao que a sua colega me perguntou há um bocadinho. Quando nós vamos criar um serviço a partir do Núcleo de Desporte [e Lazer] e levar para lá a parte dos SCIRP… E eu disse há um bocadinho, pode ter passado despercebido, que nós temos que fazer rentabilizar os nossos espaços - e rentabilizar passa desde as nossas salas de aulas, os nossos auditórios, a Nave e o Aristides.

Existirá tempo para a Taça UA, mas existem, para além da Taça UA e do desporto dos estudantes… existem vários meses em que a Nave pode ser usada para muita outra coisa e, como disse há um bocadinho, temos que usar a Nave e temos que a tornar rentável nesse aspeto - ou sustentável, não rentável de lucro, mas sustentável – e, por isso, a organização de eventos desportivos, culturais, musicais (porque musicais é cultural) tem que ser usada e com o objetivo de também ter rentabilidade daquele espaço, do Aristides e de outros.

Neste momento, a Nave está completamente equipada? Portanto, tem tudo aquilo de que precisa para ter todas estas valências e suportar todos estes eventos? Falta fazer algum tipo de investimento, quer seja do ponto de vista de equipamento técnico, quer seja da própria reconfiguração do espaço?

Eu acho que a resposta é sim, embora exista uma pequena adaptação que irá ser feita nos próximos tempos.

Consegue desenvolver um bocadinho mais sobre que investimentos é que é preciso fazer?

Não estou a pensar em investimento. Estou a pensar em [retirar] todas as máquinas que nós temos para fazer ginásio, que eu acho que elas não devem estar lá, para dar outra versatilidade à Nave. Atualmente, quando nós organizamos… - e foi o caso da tomada de posse - Tínhamos ali uma parte que ainda estava fechada porque estão lá as máquinas.

Se quiser organizar um congresso científico… para usar aquele espaço também debaixo da bancada nós temos de ter outra versatilidade. É isso a que eu me estava a referir do rearranjo.

Passando agora para a cultura: o programa de ação dizia que neste mandato a UA vai passar de iniciativas dispersas para uma infraestrutura institucional, falava inclusivamente de criar uma Comissão para a Cultura, Artes e Património e um plano integrado de programação. Concretamente, o que é que isto significa para a Universidade e que tipo de oferta cultural é que a UA pretende promover com esta nova aposta?

Por isso é que nós nomeámos uma pró-reitora para a Cultura e as Artes. Nós já temos muitas atividades, e por isso nós temos o Festival do Outono, nós temos o Jazz… mas eu acho que nós precisamos de dar alguma… - como disse há um bocado para a comunicação - alguma organização. Nós temos aqui coleções, que as temos, mas não estamos a tirar o máximo partido delas. São coleções que podem ser usadas para o ensino e aprendizagem, para a investigação, e nós temos que as colocar no mapa, nós temos que colocar uma organização para elas estarem disponíveis.

Existem muitas atividades da Associação Académica, de alguns departamentos em termos culturais, estamos a falar de DeCA e de GrETUA’s, etc. Porque é que nós [não] temos um plano organizado para isto tudo funcionar?

Mas também, e já voltando àquilo que vocês já há um bocadinho também foram abordar, a nossa ligação com a Câmara. Nós podemos… o Festival dos Canais pode vir até à Universidade, e algumas das nossas atividades - o GrETUA e outras [atividades] culturais - também podem ir para a cidade. É um pouco pormos uma organização, pormos este… eu diria, uma organização, está bem?

E depois teremos algumas atividades que a pró-reitora irá implementar durante estes próximos tempos… eu não queria avançá-las hoje, mas significa que é esta a lógica de nos organizarmos e vermos a ligação com a cidade, de nós irmos… e eu disse cidade de Aveiro, mas o mesmo se aplica para Ílhavo, para Oliveira de Azeméis, para Águeda...

Para a tal ‘Cidade do UA’, não é?

Exato, a ‘Cidade UA’. E eu há um bocadinho tinha-me esquecido de Ílhavo. Não se esqueçam que em Ílhavo nós também temos o Ecomare e também é ‘Cidade UA’.

Mas têm existido conversas nesse sentido com a Câmara Municipal, também de uma perspectiva cultural?

Sim. Vocês já viram o exemplo que eu dei há um bocadinho: o Festivais dos Canais a vir e o GrETUA ir para lá. são exemplos, mas há mais.

Pensando naquilo que vem de trás e tentando dar uma visão mais de conjunto à UA, o anterior reitor dava muito destaque à formação ao longo da vida, indicava esse como um caminho a seguir, sempre acompanhado de inovação, com grande foco também no papel da inteligência artificial, também de cooperação com a sociedade civil e com o tecido empresarial. Pelo programa, dá para perceber que esta é uma visão partilhada entre ambos. O que é que entende que a UA deve fazer para se desenvolver também neste sentido?

Voltamos ao ADN da UA. A UA é a colaboração com a sociedade. Atualmente, no tempo das tecnologias que nós temos atuais, as indústrias, por vezes, precisam de fazer o ‘reskilling’, o ‘upskilling’ dos seus funcionários: aí está a formação ao longo da vida, aí estão as microcredenciais.

Nós temos essa aposta, desde que nós, em 2018, decidimos, ao nível do ECIU, mas com a aposta forte do Universidade de Aveiro, candidatarmo-nos ao ‘label’ de Universidade Europeia. [Aí], o tópico principal eram as microcredenciais. E foi aí que nós começamos a nossa aprendizagem. Quando chegou agora o PRR, nós já tínhamos esse conhecimento, essa forma de fazer, e por isso nós abrimos muito essas [microcredenciais]. E, por, isso houve uma oferta de microcredenciais para a sociedade, para muitas das indústrias. E isso vai ser o futuro.

Agora, está a acabar o PRR, temos de nos focar, temos de nos organizar, temos de ver quais são os desafios que a indústria nos põe. Existem, pelas tecnologias, existem atualmente empregos que vão deixar de existir, outras funções que vão ser criadas. Há funções na nossa vida normal que são emergentes, há trabalhos novos… e por isso nós temos que estar prontos para responder a essas solicitações.

Eu estou a focar na indústria, mas pode ser das ULS [Unidades Locais de Saúde], pode ser dos museus, pode ser de muita outra coisa, mas é a nossa oferta formativa ao nível dos micromódulos, dos microcursos, dos microcredenciais… serão fundamentais para a região - e não só para a região, para Portugal inteiro. A nossa ligação à ECIU permite-nos estar ligados e oferecer algumas dessas microcredenciais para o mundo.

Artur, nós nesta altura já estamos perto de terminar, e, portanto, vou tentar ir picando alguns dos tópicos que não fomos picando até agora durante a entrevista. Um deles é um que lhe é muito caro: vamos falar um bocadinho de investigação. Numa conversa há nem um ano, na altura, no podcast de balanço dos mandatos, dos dois mandatos do reitor Paulo Jorge Ferreira, nós falávamos e dizia-me que a investigação tinha “mudado tudo” na Universidade de Aveiro. Fruto da legislação, existem agora muito mais investigadores com contrato do que havia anteriormente, e que havia também, fruto disso, mais capacidade de captação de investimento.

Queria saber… sei que a estratégia deve passar pelos chamados ‘overheads’, já me disse isto na altura, os tais custos indiretos, e depois tentar reinvestir na contratação de mais investigadores e na eliminação da precariedade. Gostava de saber, portanto, tendo em conta todo este caminho que foi traçado até aqui, e em que teve muitas responsabilidades, porque era a sua pasta enquanto vice-reitor na altura, qual é que é o ponto de situação atual, e quais é que são os objetivos traçados para, numa altura em que saia da reitoria, a 4 ou 8 anos. No momento em que sair, onde é que gostava que a Universidade estivesse neste capítulo?

Vou corrigi-lo um bocadinho, porque há um bocadinho disse que tudo isto resultou de uma alteração da lei ou da regulamentação. Não só, foi a Universidade que também fez essa aposta. A aposta da Universidade foi forte, por isso quando nós chegámos nós fizemos uma aposta forte em termos de investigação, e vou relembrar aqui: quando nós começámos, deviam existir na Universidade contratos com entre 6 a 8 investigadores. Atualmente nós temos à volta de 500 investigadores com contrato.

Investigadores com contrato sem termo, estaremos nos ordens dos 145, por aí, e os outros sem contrato de 3 anos, 6 anos, etc. Existe aqui uma comunidade de investigadores, carreira de investigador… porque depois nos esquecemos que nós temos os docentes que também são investigadores nas suas funções, mas aqui estou a focar-me especialmente nos investigadores. Nós temos esta comunidade de investigadores que tem contratos.

A aposta foi, e continua a ser, nesta direção e sentido. Eu tenho dito: nós durante estes 8 anos chegámos a este número de 145 investigadores com contrato sem termo. Nós não poderemos continuar com esta velocidade de contratação, porque temos que ter uma sustentabilidade da Universidade, mas nós iremos continuar a apostar em investigadores, investigadores de qualidade. Ao trazermos investigadores de qualidade, vamos àquilo que nós já falámos nesse podcast, que é: nós vamos obtendo financiamento, o que significa que vamos ter verbas disponíveis para investirmos nos investigadores.

Lembro outra vez que o orçamento da Universidade, quando iniciámos o primeiro mandato de Paulo Jorge Ferreira, seria à volta de 100 milhões de euros. O ano passado, se eu não me engano, estava a volta de 180 ou 185 milhões de euros. Por isso, significa que… e como sabem, não foi das propinas, porque as propinas até diminuíram durante esse percurso. Significa que é a investigação, a cooperação que traz este volume financeiro.

Pensando que nós tínhamos os ‘overheads’… os ‘overheads’ depois permitem-nos gerir a Universidade, e fazer movimentar a Universidade. Como sabem também, o Orçamento de Estado pagará cerca de 66, 67% dos salários dos funcionários, dos trabalhadores da Universidade. Isso significa que nós também temos de ter receitas próprias que vêm da investigação, que vêm da cooperação, para gerir tudo isto, mas também para nós investirmos na investigação.

Depois, falando um bocadinho sobre a Inteligência Artificial… Já me disse também sobre as formações e as microcredenciais, acredito que também aqui se enquadra a Inteligência Artificial, na tal formação ao longo da vida. Eu queria perceber… este é um salto que tem sido dado pela Universidade, tanto na sala de aula, como fora dela. Nós aqui há uns tempos fizemos uma reportagem onde procurávamos falar com alguns estudantes, que diziam que não sentiam muito isso, especialmente dentro da sala de aula. Fora da sala de aula não terão tanto essa perceção. Queria perceber o que é que já mudou, tanto na sala de aula, mas também fora, nos serviços, de que maneira é que já evoluíram, e se isto tem algum tipo de melhoria qualitativa.

Isto é crescimento contínuo todos os dias. Durante os últimos tempos, o Núcleo de Ensino e Aprendizagem teve ações de formação ao nível da Inteligência Artificial para ajudar os nossos docentes e investigadores que queiram participar a estar preparados para trazer melhorias ao seu processo de ensino-aprendizagem. Por isso, estamos a falar de inovação pedagógica, e um dos tópicos era a inteligência artificial.

Mas nós temos que evoluir e, por isso, foi aprovado recentemente no Conselho Pedagógico, e virá a ser implementado no próximo ano, aquilo que nós denominamos “Referencial à Inteligência Artificial”, ou seja, indicações concretas aos docentes de como nós pretendemos que vá funcionar.

Como vai funcionar, a ajuda que vão ter, e também existirá… será hoje [dia 23 de julho] apresentado aos senhores diretores das unidades orgânicas… Nós pretendemos que no próximo ano, pelo menos uma unidade curricular de cada curso e de cada semestre tenha, de alguma forma, incorporada a Inteligência Artificial. Nós dizemos que é 20%, mas é 20% porque nós temos normalmente cinco unidades curriculares [por semestre], e isso é a indicação concreta que vai sair do senhor reitor com despacho a dizer isso mesmo.

Este é o primeiro impacto, porque nós temos de dizer aquilo que é que é permitido, em termos de avaliação, em termos do processo de ensino-aprendizagem. Nós o que pretendemos é que, daqui por algum tempo, nenhum estudante passe pela Universidade de Aveiro que não saiba utilizar bem e fazer bem algo usando esta ferramenta que é a Inteligência Artificial.

Mas também, essa Inteligência Artificial está a condicionar e vai fazer com que… vai alterar a forma como nós ensinamos, vai alterar a forma como nós avaliamos, e estamos aqui nessa direção e nesse sentido. Conforme fazemos isto, e este é o primeiro impacto ao nível do ensino-aprendizagem, nós iremos fazer [o mesmo] ao nível da investigação. Existem já unidades de investigação que já estão a usar a Inteligência Artificial no seu desenho de materiais, estou a pensar no CICECO, estou a pensar no TEMA…

Vai haver um evento também em setembro em que nós vamos procurar fazer um Observatório do que é que está a ser feito já na Universidade, para também darmos um corpo e uma organização para continuar nesse desígnio da Inteligência Artificial.

É difícil não trazer aqui outro tema à discussão, neste caso o novo Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES), que vai mudar radicalmente o ensino superior em Portugal. Antes de mais, queria saber se, tendo em consideração que em breve teremos eleições para a Assembleia Transitória, a elaboração de novos Estatutos e depois eleições para o Conselho Geral… Não acredita que as sobreposições de todos estes processos possam condicionar de alguma forma o que tem planeado?

O que vamos ter é que trabalhar muito. Porque, se eu não estou enganado, durante um ano nós temos de implementar tudo isso. Nós temos uma Assembleia Estatutária que nós temos de nomear… que temos de eleger, porque são eleitos os seus membros, os seus 21 membros - de investigadores, de estudantes, de membros cooptados, etc.

Temos de fazer eleições, depois temos que… como consequência depois vamos ter [as eleições para o] Conselho Geral. Depois vamos ter, também agora já à luz do que foi publicado esta segunda-feira, que mesmo o tipo de eleições que existam já na Universidade… o reitor já tem de olhar para isso para ver se é um modelo que está ou se vai parar os processos para ser um novo modelo… vai haver aqui muito trabalho para implementar todas as consequências.

Deixe-me só dar aqui uma nota sobre os timings: é um ano e meio, portanto é um ano para eleger esta Assembleia e esta Assembleia fazer os Estatutos, e depois, feitos os estatutos, no prazo máximo de um ano, são seis meses para eleger o Conselho Geral.

Vai ter muito trabalho metido ao barulho e é preciso trabalhar. Isto tudo, como sabem, havendo eleições há posições convergentes, posições divergentes… Eu já fiz parte de uma Assembleia Estatutária, quando em 2007 e 2008 houve necessidade de implementar o RJIES que nós temos atualmente. Na verdade, eu fiz parte dessa Assembleia Estatutária da discussão dos estatutos, que foi, digamos, partir pedra, porque foi [fazer] os estatutos com um regime novo.

Aqui também há alterações novas e nós também temos… acontece que nós recentemente, como sabem, também alterámos os estatutos. Agora temos aqui algo que nos condiciona outra vez a alterar os estatutos ou a olhar para os estatutos outra vez. Mas, por isso, é um trabalho que vai ser feito e acho que vai ser feito com grande dinamismo e com grande abertura para que a comunidade toda possa intervir e para que nós consigamos ter no final algo que de nos orgulhemos e que seja vívido e consensual da maior parte da comunidade académica.

Mas com que olhos é que vê o bolo geral desta mudança? Acha que vem trazer de alguma forma mais democracia ao ensino superior?

Ontem estive na abertura de um evento em que se discutia a democracia realmente. O que temos aqui é uma visão diferente da forma como nós vamos eleger o reitor, da forma como estaremos a discutir os estatutos. Não quer dizer que há mais democracia ou menos democracia, existe uma forma diferente de o fazer.

Se querem a minha opinião, se todos deviam ser envolvidos ou não, ou se as percentagens são as adequadas ou não… cada um vai ter a sua [opinião], é como os treinadores de futebol. Nós todos somos treinadores, aqui teremos cada um a nossa posição. Eu também fui dos poucos nesta casa que elegeu um reitor por eleição direta - e aí foi eleição direta, não eleição direta proporcional conforme é agora, era uma eleição direta. Mas eu acho que a intervenção de todos, de docentes e investigadores, dos antigos alunos, dos estudantes, dos nosso pessoal técnico de Universidade… é sempre bem-vindo. Agora, qual é a percentagem? Eu vou seguramente ter uma ideia, a Maria terá outra, o Gonçalo terá outra e outras pessoas terão outras.

Há uma proposta que pode ter alguma variação que a Universidade vai ter de discutir. É pequena a variação, por isso o grosso já está estabelecido, foi-nos imposto. Acho que a participação de todos é boa, e por isso eu não diria que é mais democracia, mas é uma forma diferente de nós elegermos o reitor.

Aqui, precisamente sobre essa questão da eleição do reitor, que tem sido talvez a mais mediática em relação ao Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES): já vi reitores de outras universidades a pronunciar-se, alguns com críticas ao facto de ser demasiado grande e disperso o universo eleitoral, outros a dizer que se tornava quase um concurso de popularidade... São críticas que se subscreve de alguma maneira? Esta eleição universal, embora proporcional como apontava, é benéfica para as instituições?

Tal como qualquer alteração, se for bem implementada, é benéfica. Se for mal implementada, é um desastre. Vamos pensar nos antigos alunos: vamos ter muitos desafios para implementar e pô-los a votar.

Eu vou só dar um exemplo. Se nós fizermos uma eleição presencial, só votarão as pessoas da Aveiro. Nós temos de ir para além disso. Como é que nós vamos recensear todos os nossos antigos estudantes para votar? Este é o desafio. A forma como se implementa pode ser espetacular se eu tiver os 150 mil estudantes já passados pela Universidade de Aveiro [a votar]. Se nós conseguirmos que umas centenas de milhares fossem votar, é espetacular. Agora se eu tiver 100 ou 200 a votar, é um desastre. Será condicionado, pode ter outras decisões políticas até por trás, com um número reduzido de estudantes.

Este é um tópico que vai ser desafiante. A forma como se implementa. Pode ser algo muito bom e pode ser um desastre.

Só mesmo para terminar: nós até agora escolhemos sempre os tópicos da discussão, mas agora queria colocar de seu lado o ónus de escolher quais são os principais desafios que acredita que vai enfrentar ao longo deste mandato enquanto reitor da Universidade de Aveiro.

Eu acho que são conhecidos todos. Vocês hoje já tocaram muitos. Eu acho que é a captação de estudantes, de docentes e investigadores e de pessoal TAG de qualidade. Nós devemos proporcionar, organizar-nos… devemos estar disponíveis e ter uma comunicação a funcionar para nós melhorarmos.

Nós temos um corpo de investigação - e não é só os investigadores, são os docentes e os investigadores - muito competente e por isso nós temos que todos contribuir para a sustentabilidade da Universidade. Indo à procura de financiamento, financiamento europeu, financiamento mundial, financiamento nacional, financiamento com as indústrias.

Nós temos que pensar também no bem-estar daqueles que cá estão e daqueles que virão para cá. O bem-estar outra vez de toda a comunidade, não é só dos estudantes, não é só dos docentes, não é só dos investigadores, não é só do pessoal técnico. É outro desafio. E estes são, digamos, as marcas principais da Universidade.

Por isso, nós temos que pensar na nossa comunidade e na nossa comunidade total, em termos da captação, em termos de lidar o bem-estar, em termos de depois nós termos dinheiro, financiamento para nós mantermos tudo.

Financiamento, e isso fazia parte do meu plano também, nós necessitamos, atualmente, de investir em espaços, porque a investigação… os investigadores foram captando muito financiamento, foi aumentando a nossa comunidade e nós estamos com falta de espaço. Por isso existe no plano: nós precisamos de construir um Complexo de Investigação, nós precisamos de ter também para o ensino um edifício para podermos inovar do ponto de vista pedagógico. Nós já temos feito, nos espaços que nós já temos, nas nossas unidades orgânicas, um investimento para ter já flexibilidade nos espaços de ensino, mas também [queremos] ter um edifício para isso.

Temos também o Centro Académico Clínico, que eu sempre o disse, está associado com o nosso investimento na área da saúde. E toda a gente vai logo pensar: «Está a falar de medicina» Não, não estou a falar só de medicina, nós temos na Universidade muita gente a trabalhar na área da saúde. Nós precisamos, para a nossa região, e em ligação mais uma vez com a região, de que se faça a construção do ambulatório do Hospital - e nós estarmos envolvidos com o Centro Académico Clínico para contribuir, para termos uma melhor formação dos nossos estudantes, mas também de todos os profissionais de saúde que queiram vir formar-se. Como consequência, para termos uma melhor assistência à nossa região, à nossa população.

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