O fim da era Ribau e o início de um ciclo fragmentado na política local de Aveiro
Luís Souto é o novo presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA). A coligação ‘Aliança com Aveiro’ venceu as eleições autárquicas com 39,35% dos votos e quatro mandatos, mas, pela primeira vez, terá de governar sem maioria. O resultado marca o fim do ciclo de hegemonia de José Ribau Esteves e traduz uma nova configuração política no concelho. Em 2021, o atual presidente da CMA tinha alcançado 51,26%, garantindo seis mandatos e uma maioria confortável. Quatro anos depois, a coligação perde mais de dez pontos percentuais e vê o Partido Socialista crescer de 26% para 33,67%, enquanto o Chega protagoniza o maior crescimento da noite, ao alcançar 10,90% e eleger Diogo Soares Machado como vereador.
Redação
A vitória de Luís Souto assentou numa estratégia clara: compensar a desvantagem na cidade com uma forte implantação nas freguesias mais afastadas do centro urbano. Enquanto Alberto Souto conquistava margens significativas em zonas urbanas como Glória e Vera Cruz e Esgueira (saldo positivo nestas freguesias de cerca de 1300 votos), o candidato da ‘Aliança com Aveiro’ manteve a hegemonia nas freguesias mais distantes do centro urbano, sustentado pela rede de presidentes de junta de freguesia do PSD. O próprio Alberto Souto, em declarações à Ria no dia das eleições, mostrou consciência dessa dificuldade, ao recordar que, nas últimas eleições, a coligação tinha vencido “dez a zero” nas Juntas de Freguesia. O aviso acabou por se confirmar e reforçou uma evidência que continua a marcar a política aveirense: ser poder nas freguesias é uma vantagem estrutural determinante para vencer a Câmara.
Apesar das fissuras internas causadas pela escolha do candidato - uma decisão da direção nacional do PSD que dividiu o partido - e da natural erosão resultante da sucessão a uma liderança marcante como a de Ribau Esteves, Luís Souto conseguiu segurar o eleitorado tradicional da coligação nas zonas periféricas e superar as dificuldades de um ciclo de transição. Um dado curioso ajuda a ilustrar as diferenças entre esta eleição autárquica e a última: apenas em Aradas Luís Souto teve mais votos para a Câmara do que a sua candidata à Junta, Catarina Barreto. Ao contrário de Ribau Esteves, que funcionava como um trunfo eleitoral para os candidatos das freguesias, o novo presidente teve dificuldade em capitalizar o apoio local das estruturas da coligação.
Nas Assembleias de Freguesia, a ‘Aliança com Aveiro’ voltou, ainda assim, a ser esmagadora: venceu em nove das dez freguesias. O Partido Socialista apenas conquistou Glória e Vera Cruz, a freguesia da cidade, onde Bruno Ferreira, atual membro do executivo da coligação 'Aliança com Aveiro', se tornou o novo presidente da Junta. A candidata derrotada, Glória Leite, foi uma escolha pessoal de Luís Souto, algo que o próprio fez questão de destacar no discurso da vitória, com um agradecimento especial. Entre os autarcas da coligação, Cristina Gonçalves, em São Jacinto, e Miguel Silva, em Requeixo, Nossa Senhora de Fátima e Nariz, foram os únicos a melhorar os resultados percentuais em relação a 2021.
Em sentido contrário, houve quedas expressivas em várias freguesias. Em Cacia, Nélson Santos manteve a maioria, mas perdeu 12 pontos percentuais, e só a ausência de uma candidatura do Chega poderá ter evitado maiores danos. Em Esgueira, Rui Cordeiro, que era apontando por todos como o grande favorito, acabou por vencer por uma margem mínima de 12 votos e perdeu 8%, num contexto em que o Chega alcançou 12,16% e elegeu dois mandatos. Já em Aradas, Catarina Barreto viu a sua votação descer de 46,28% (2021) para 34,76% este ano, perdendo a maioria, após um mandato marcado por polémicas que chegaram ao tribunal e afetaram fortemente a imagem do executivo.
Do lado socialista, as apostas de Alberto Souto nas freguesias não produziram os resultados esperados. Em Oliveirinha, Requeixo, Nossa Senhora de Fátima e Nariz e São Jacinto, os candidatos do PS obtiveram resultados inferiores aos de 2021. Uma exceção relevante foi Cacia, onde João Matos Silva protagonizou uma das maiores surpresas da noite: subiu de 20,32% para 33,94%, tornando-se o grande destaque socialista nas freguesias e abrindo caminho para uma futura disputa pela presidência local, quando Nélson Santos atingir o limite de mandatos em 2029.
A ausência de maiorias em várias freguesias promete agora dias de negociações intensas. Os executivos terão de ser aprovados nas primeiras reuniões das Assembleias de Freguesia e há quatro casos em que isso não está garantido: Glória e Vera Cruz, Esgueira, Aradas e Eixo e Eirol. Nestas freguesias, o papel do Chega poderá ser decisivo para a formação dos executivos, embora, no caso da cidade, a Iniciativa Liberal, que elegeu um mandato, possa garantir ao PS uma maioria se houver entendimento entre ambos.
No caso de Aradas, a situação parece mais complicada. Segundo informações recebidas pela Ria, Catarina Barreto, líder da candidatura da ‘Aliança com Aveiro’ nesta freguesia, logo depois de contados os votos e de perceber que tinha perdido a maioria abordou diretamente Gilberto Ferreira, líder do movimento independente ‘Sentir Aradas’, com o objetivo de marcar uma reunião entre ambos. A Ria sabe que será muito difícil para Catarina Barreto conseguir criar executivo nesta Junta de Freguesia. Nesse cenário, poderão ser marcadas eleições intercalares para esta freguesia e tudo fica em aberto, desde entendimentos entre a oposição para superar os 34,76% de Catarina Barreto ou até o surgimento de novos candidatos.
Na Assembleia Municipal, o novo mapa reflete a fragmentação do cenário político do contexto nacional. BE, CDU e PAN ficam sem representação, enquanto o Chega passa de um para três mandatos, a Iniciativa Liberal entra com dois e o Livre estreia-se com um. Somando os presidentes de Junta, que têm assento e direito de voto neste órgão, a ‘Aliança com Aveiro’ assegura a maioria necessária para eleger Miguel Capão Filipe como presidente da Assembleia Municipal.
As eleições de 2025 confirmam uma mudança estrutural no mapa político de Aveiro. A coligação 'Aliança com Aveiro' assegura os mínimos para vencer, mas terá agora que governar sem maioria; o PS reforça-se, mas continua aquém de reconquistar a Câmara; e o Chega afirma-se como novo ator relevante. Luís Souto inicia o mandato num concelho dividido entre centro e periferia e enfrenta um desafio inédito: liderar Aveiro num tempo em que o poder autárquico já não se conquista apenas pela força da máquina partidária, mas pela capacidade de construir consensos.
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