"Inovação em Portugal: Podemos Alcançar uma Patente por Dia?", opinião de Pedro Lages
Pedro Lages, consultor em PI na ClarkeModet, licenciou-se em Biotecnologia pela Universidade de Aveiro, onde teve um percurso ativo na representação estudantil na AAUAv e em vários órgãos da UA. Seguiu para um Mestrado em Economia e Gestão da Ciência, Tecnologia e Inovação, passando pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial como Examinador de Patentes, de onde partiu para a PwC como consultor de incentivos financeiros e fiscais. Com experiência em PME’s, Institutos Públicos e Multinacionais, atualmente desempenha funções no desenvolvimento de negócios e assessoria em estratégias de propriedade industrial.
Pedro Lages
OpiniãoOs números não mentem: em 2023 foram pedidas por entidades portuguesas 329 patentes junto do European Patent Office. Ainda abaixo de uma patente por dia, mas será este um objetivo adequado?
Num recente episódio do ainda novo podcast do Expresso “Liga dos Inovadores”, o antigo ministro da Economia, António Costa e Silva, divulgou que tinha o sonho de que o país fosse capaz de “registar” uma patente por dia. Temos vindo a percorrer um caminho lento e sustentado, mas será este um sonho ajustado à nossa realidade e capacidade?
Existem diversos fatores que podem impactar o número de pedidos de patente que cada país soma anualmente. O Sistema Nacional de Inovação tem a sua influência neste número e o investimento em I&D, individualmente considerado, é um desses fatores. Tendo em conta que no ano de 2021 Portugal investiu 3,57 mil milhões de euros em I&D, qual é que seria um número de patentes equiparável à média europeia? Quanto investiram em I&D e quantas patentes pediram nestes anos os nossos “parceiros” europeus? (Dados Pordata vs EPO)
• Alemanha – 110 mil M€ em I&D | 24.966 patentes (227 por mil M€)
• França – 65 mil M€ em I&D | 10.814 patentes (166 por mil M€)
• Suécia – 18,4 mil M€ em I&D | 5.139 patentes (279 por mil M€)
• Países Baixos – 18 mil M€ em I&D | 7.033 patentes (391 por mil M€)
• Dinamarca – 9,5 mil M€ em I&D | 2.596 patentes (273 por mil M€)
• Finlândia – 7,5 mil M€ em I&D | 2.336 patentes (311 por mil M€)
• Portugal – 3,57 mil M€ em I&D | 329 patentes (92 por mil M€)
Mas afinal o que resulta da nossa atividade em investigação e desenvolvimento?
O indicador anterior aponta uma clara dificuldade da economia portuguesa traduzir em patentes a I&D realizada. Essa dificuldade pode efetivamente estar relacionada com o perfil da nossa estrutura produtiva, à qual ainda se reconhece uma baixa ou moderada intensidade tecnológica.
Por outro lado, importa salientar que nem sempre as patentes são a solução que permite maximizar a vantagem competitiva. Há diversos modelos cujo alinhamento com o sistema de patentes não é o mais linear, como por exemplo os modelos de ciclo de inovação rápido onde a inovação evolui rapidamente, modelos suportados em segredo industrial ou estratégias de open innovation. Certo é que a estratégia de PI definida para uma dada tecnologia/produto vai influenciar diretamente a sua competitividade e o retorno do investimento efetuado, pelo que é necessário desde logo prudência.
As patentes continuam a ser, inegavelmente, o melhor instrumento para proteção de tecnologias disruptivas sendo, por isso, extraordinários indicadores de potencial tecnológico. Do ponto de vista do mercado e da competitividade internacional, conferem direitos de exclusividade (monopólio) para além do seu valor económico próprio, transferível e transacionável.
Mas se o perfil da nossa economia está a mudar e a intensidade tecnológica está a aumentar, os 365 pedidos de patente por ano não serão um objetivo comedido?
Os Países Baixos, a Finlândia, a Suécia e a Dinamarca demonstram que é possível ter altas taxas de pedidos de patente por investimento em I&D. Esse investimento é desde logo a chave (média ~3% PIB), juntamente com uma clara perceção da rentabilidade associada à proteção, quer nas empresas quer nas políticas públicas, um setor económico de alta especialização e intensidade tecnológica, mas também com uma forte estratégia de internacionalização.
Como podemos então aproximar-nos desta trajetória? Será através de políticas que reforcem o perfil de especialização e a intensidade tecnológica, que incentivem a colaboração entre setores estratégicos, que promovam a transformação de conhecimento em inovação real e que maximizem o impacto do investimento, como por exemplo:
• Vincular incentivos à inovação ou internacionalização a indicadores de proteção de propriedade intelectual;
• Maximizar o benefício fiscal em incentivos como o SIFIDE, através de critérios associados à conversão e proteção dos resultados dos projetos de I&D;
• Facilitar o acesso ao patent box para promover retornos através de licenciamentos de patentes;
• Ampliar o apoio direto à proteção da propriedade intelectual, designadamente junto de startups e PME’s inovadoras;
• Promover auditorias de PI junto de PME’s para guiar as empresas na identificação de oportunidades de proteção e capitalização da sua inovação.
Portugal tem feito vindo a fazer um caminho relevante, demonstrando talento e capacidade de inovação. O desafio está em acelerar a transformação desse potencial em competitividade global. E ambicionar um pouco mais, apontando às 2 patentes por dia.
Recomendações
“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira
Este Inverno tem sido caracterizado por tempo tempestuoso pouco comum e por valores de precipitação pouco frequente. Entre as tempestades já ocorridas neste Inverno destaca-se a tempestade Kristin, com uma intensidade (violência) raríssima, felizmente. Com este pano de fundo, o discurso mediático e político tem sido acompanhado quase constantemente por referências à chamada “crise climática”. Parece-me também que a comunidade científica, talvez devido à pressão mediática, não tem vindo a fazer o enquadramento mais rigoroso entre tempo meteorológico e clima, pois, quando chamada a comentar os eventos que têm ocorrido, não deixa de estabelecer associações, ainda que indirectas, às alterações climáticas. Com a experiência recentemente vivida e juntando-lhe cenários de alterações climáticas, parte-se para a discussão de como nos devemos preparar para o futuro, com algo de novo a que teremos de nos adaptar. No entanto, o problema é velho. Para que não haja interpretações erradas do que aqui escrevo, fique claro: as alterações climáticas são um facto observado e compreendido pela física do clima. As suas consequências poderão até ser mais gravosas do que alguns dos cenários descritos nos relatórios do IPCC. Neste clima que se encontra em alteração ocorrem fenómenos extremos, quer meteorológicos, como a tempestade Kristin, quer climáticos, como é o caso deste período prolongado de precipitação acima da média. No entanto, não se pode estabelecer uma relação directa de causa-efeito entre estes fenómenos meteorológicos, os eventos climáticos e as alterações climáticas. A explicação desta afirmação não é possível de ser aqui desenvolvida, num texto curto. Mas o leitor concederá que ela terá algum fundamento, uma vez que eventos semelhantes aos que agora vivenciamos ocorreram num passado não muito longínquo. A década de 1936 a 1945 foi rica em tragédia meteorológica e climática. A figura em baixo foi retirada da página web do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. Nela pode constatar-se que os meses de Janeiro de 1936, 1937, 1939, 1940 e 1941 foram muito chuvosos, todos com precipitação igual ou superior à do mês de Janeiro de 2026. A 27 de Janeiro de 1937 ocorreu um dos temporais mais intensos de que havia memória em Portugal. Nos anos de 1940 e 1941 registaram-se grandes cheias no Tejo, a 3 de Fevereiro e a 15 de Fevereiro, respectivamente. Esta última esteve associada ao violento ciclone de 1941, que causou um elevado número de vítimas humanas e avultados danos materiais. Depois de um período chuvoso, a década terminou com uma seca severa em 1944/45. Os eventos meteorológicos e climáticos descritos acima ocorreram num período que incluiu a 2.ª Guerra Mundial, com toda a Europa em convulsão. Imagine o leitor que a informação circulasse, na altura, com a rapidez de um clique e amplificada pelas redes sociais. Seria, sem dúvida, o apocalipse. Legenda imagem: Anomalias da quantidade de precipitação, no mês de Janeiro, em Portugal continental, em relação aos valores médios do período 1991-2020. Discute-se agora como nos devemos preparar para o que irá acontecer de diferente no futuro. Eu perguntaria se já estamos preparados para o que ocorreu no passado. Não serão suficientes os eventos passados para nos prepararmos melhor para o futuro? Existe conhecimento e tecnologia para sabermos enfrentar melhor eventos como os que já ocorreram no passado.
"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira
É lugar-comum dizer que os atuais sistemas políticos ocidentais se basearam, pelo menos em parte, na experiência ateniense. Nos dois modelos que surgiram da Grécia Antiga, Atenas apostava no debate, na participação cívica e na diversidade de opiniões, enquanto Esparta privilegiava a ordem, a disciplina e a autoridade acima da liberdade individual. Ao longo do tempo, foi o modelo ateniense, imperfeito, lento e muitas vezes conflituoso, que deixou uma herança duradoura. Esparta, apesar da sua rigidez e aparente eficácia, revelou-se incapaz de se adaptar, entrou em declínio e desapareceu. A História mostra, assim, que sistemas baseados na repressão e no medo podem impor silêncio, mas não constroem democracias duradouras. As instituições democráticas modernas basearam-se neste espírito ateniense e foram desenhadas para funcionar apesar da falibilidade humana. Como escreveu James Madison nos Federalist Papers, “If men were angels, no government would be necessary”. A democracia liberal reconhece a ambição, o erro e o abuso de poder como parte da realidade humana e responde-lhes com freios e contrapesos, regras claras e separação de poderes. Não se trata de esperar líderes perfeitos, mas de criar mecanismos que limitem erros e protejam o equilíbrio institucional. Embora o sistema constitucional português não precise de anjos, é indispensável que pessoas com qualidades, discernimento e integridade ocupem cargos de responsabilidade, para que as imperfeições naturais do sistema não comprometam a democracia. Nas presidenciais, o Presidente (que não é, como afirmou Cavaco Silva, a Rainha de Inglaterra, mas também não é um líder executivo plenipotenciário como esta campanha quis fazer crer) deve ter capacidade de mediação, respeito pelos limites do poder, visão institucional, caráter sólido e integridade, qualidades que permitem preservar o equilíbrio entre órgãos do Estado e fortalecer a democracia, mesmo diante das suas imperfeições. Do ponto de vista ideológico, a esquerda de inspiração marxista, marcada por uma visão teleológica herdada do materialismo dialético, tende a não olhar a meios e a preocupar-se apenas com o fim, como se a História caminhasse inevitavelmente para um destino previamente definido. Para mim, como conservador, interessa-me não só o fim, mas também os meios, o caminho a percorrer. Se acredito num mercado livre, na iniciativa individual e na liberdade económica, acredito ainda mais em honra, verdade, justiça e responsabilidade, princípios que devem guiar as ações políticas e a escolha de quem ocupa cargos de destaque. Como nota pessoal, filiei-me na Juventude Centrista em 1996 e milito no CDS desde 1998. Acho curioso ver agora tanta gente que, durante anos, pululou na Social-Democracia sem qualquer compromisso firme com os princípios da direita, a tentar ensinar-me em quem devo votar. Voto nesta segunda volta exatamente em quem votei na primeira. Votarei na pessoa que acho que reúne as qualidades que qualquer conservador teria orgulho em apoiar: caráter sólido, integridade, capacidade de mediação, respeito pelos limites do poder, visão institucional, compromisso com a justiça, honra, verdade e responsabilidade, votarei em António José Seguro para Presidente da República.
"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites
O Dia Internacional da Educação, assinalado a 24 de janeiro por iniciativa da Organização das Nações Unidas, é um momento essencial para refletir sobre o papel da educação na promoção da igualdade de oportunidades, da coesão social e do desenvolvimento sustentável das comunidades. Em Aradas, esta reflexão é particularmente relevante. A realidade evidencia um aumento do número de alunos nas escolas da nossa freguesia, nomeadamente na Escola Básica de Aradas (2º ciclo) e na Escola Básica Quinta do Picado (1º Ciclo), refletindo a crescente atratividade da freguesia para famílias jovens, incluindo famílias de origem estrangeira, cuja integração nas escolas locais representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade para construir uma educação mais inclusiva, plural e coesa. No entanto, este crescimento não tem sido acompanhado por uma resposta educativa equilibrada e justa. Persistem dinâmicas de encaminhamento e redistribuição de alunos que contribuem para o esvaziamento das escolas da periferia e para uma pressão excessiva sobre as escolas mais centrais, reforçando desigualdades territoriais e sociais. Esta realidade impõe um aumento dos movimentos pendulares de crianças e famílias entre a periferia e o centro da freguesia, e vice-versa, com impactos diretos na organização da vida familiar, no tempo disponível para as crianças e na sustentabilidade ambiental. Este problema é agravado por uma rede de transportes públicos, pouco ajustada às necessidades escolares, que não responde de forma eficaz aos horários, aos percursos e à dispersão geográfica dos estabelecimentos de ensino. A insuficiência desta rede penaliza sobretudo as famílias com menos recursos, contrariando o princípio da escola de proximidade e dificultando o acesso equitativo à educação. A situação das escolas do 1.º ciclo em Aradas torna-se ainda mais relevante quando analisada à luz das opções previstas na Carta Educativa de Aveiro, aprovada em 2019, o documento estratégico que define onde estão as escolas, como funcionam e como devem evoluir. Entre essas opções, a Carta prevê o encerramento da Escola Básica e do Jardim-de-Infância da Quinta do Picado, com a consequente redistribuição dos alunos por outros estabelecimentos. Esta decisão, longe de ser neutra, reduz a escola de proximidade, aumenta as deslocações diárias das crianças e das famílias e intensifica a pressão sobre as restantes escolas da freguesia. A evolução recente da freguesia demonstra, aliás, que a própria realidade ultrapassou o enquadramento da Carta, evidenciando a necessidade de mais e melhores escolas básicas em Aradas, capazes de responder ao crescimento da população escolar, independentemente da distância ao centro da cidade de Aveiro. Alguma coisa aconteceu, é certo. Existiram investimentos e melhorias de fundo em algumas escolas da nossa freguesia, como nas Escolas Básicas do Bonsucesso e Verdemilho, que beneficiaram de obras de ampliação e melhoramento das instalações. Estes exemplos demonstram que é possível qualificar o parque escolar quando existe planeamento e prioridade. O problema reside no facto de estes avanços não terem sido transversais, deixando outras escolas e comunidades educativas a funcionar em condições claramente desajustadas às exigências pedagógicas atuais. A estas fragilidades materiais juntam-se opções no domínio das iniciativas educativas, culturais e lúdicas promovidas a nível local, que revelam um diminuto grau de ambição pedagógica, científica e artística. A oferta de atividades dirigidas aos alunos (aos filhos de Aradas) tem-se centrado, em vários casos, em propostas de natureza simbólica, pontual e pouco estruturada, com impacto limitado no desenvolvimento cognitivo e cultural das crianças. Assinalar o Dia Internacional da Educação em Aradas não pode limitar-se a declarações de intenção. Implica reconhecer desigualdades, corrigir opções que aprofundam assimetrias e assumir uma visão mais exigente para as políticas educativas e culturais locais. Uma política educativa responsável deve ir além de propostas de baixo valor educativo, baseadas em animações improvisadas e simbólicas, com reduzido conteúdo pedagógico, apostando antes em iniciativas exigentes e estruturadas, que promovam conhecimento, ciência, criatividade e pensamento crítico, assegurando que a diversidade cultural é encarada como um recurso e não como um problema. Importa igualmente educar para a cidadania de forma séria e consequente, integrando no percurso educativo exemplos concretos de transparência, boa gestão pública, participação democrática e responsabilidade coletiva. Iniciativas como visitas aos órgãos de gestão local, quando surgem apenas de forma pontual, chegam manifestamente tarde, sobretudo quando existem alunos da freguesia que já demonstraram elevados níveis de consciência cívica e participação democrática, tendo inclusivamente representado a região de Aveiro no Parlamento dos Jovens. A educação é um direito fundamental e um pilar do desenvolvimento local. Em Aradas, esse direito só será plenamente concretizado quando o compromisso com as escolas e com a comunidade educativa for contínuo e genuíno, e não limitado a visitas pontuais em tempo de eleições ou à distribuição ocasional de vales associados a iniciativas de cariz político. Só assim será possível garantir que todas as crianças têm acesso a escolas bem cuidadas, a propostas educativas exigentes e a um espaço público que valorize o conhecimento, a cidadania e a inclusão, contribuindo para uma freguesia mais justa, coesa e preparada para o futuro. À luz da própria Carta Educativa, os desafios vividos hoje em Aradas não resultam da falta de diagnóstico, mas sim da distância entre o planeamento e a concretização. Criticar estas opções não é rejeitar a Carta Educativa de Aveiro - é exigir que ela seja revista, atualizada e cumprida com ambição, equidade e responsabilidade pública.
"A democracia a votos a 8 de fevereiro", opinião de Miguel Pedro Araújo
Não há outra forma de o dizer sem ser o mais direto e linear: dia 8 de fevereiro o voto vai muito para além da eleição, em segunda volta, do próximo “inquilino” de Belém. Este ato eleitoral será sobre a sobrevivência dos valores e pilares da democracia e do Estado de Direito. Recuando à noite eleitoral de 18 de janeiro, há uma primeira nota inequívoca: António José Seguro foi o candidato preferido por um maior número de portuguesas e portugueses, ultrapassando em mais de 300 mil votos o universo eleitoral do Partido Socialista, alcançado nas eleições legislativas de 2025. O que, com a natural transferência de eleitorado para outras candidaturas (por exemplo a de Gouveia e Melo), significa que António José Seguro conseguiu, atendendo ao anúncio de apoio à sua candidatura por parte do Partido Socialista, agregar um eleitorado suprapartidário, quer à direita, quer à esquerda. A segunda nota relaciona-se com a necessidade (infelizmente, uma necessidade cada vez mais constante e premente) de desmistificar uma narrativa de vitória pífia e uma apropriação demagoga dos factos e da realidade. A passagem à segunda volta eleitoral do candidato da extrema-direita era uma das hipóteses plausíveis e perspetivadas, quer pelo número de candidaturas que repartiam a intenção de voto do eleitorado do centro e da direita, quer pelo previsível vínculo do eleitorado do “partido unipessoal”. E foi tão somente isto que aconteceu. Ou quase… O candidato posicionado em segundo lugar na primeira volta das eleições presidenciais 2026 (excluindo a questão percentual que não é comparável, porque o contexto e os critérios não são semelhantes ou equivalentes), em termos absolutos, perde 111 233 votos, em relação às legislativas de 2025 (tomando como comparação os resultados eleitorais do partido da extrema-direita). Ou seja… o candidato perdeu fulgor político e eleitorado, nestas eleições. Também não é verdade que seja o legítimo representante da direita em Portugal. Primeiro, porque a direita portuguesa, mais ou menos liberal, mais ou menos conservadora, mais ou menos social-democrata (ou social-liberal) não se revê nos princípios e valores do radicalismo e extremismo (mesmo que, para Luís Montenegro, as ditas “linhas vermelhas” do “não, é não” tenham desbotado em várias matérias legislativas, a começar pela questão da imigração). Segundo, porque, mesmo correndo o risco de enviesamento linear, o número de votos expressos na extrema-direita é inferior (em cerca de 200 mil) ao somatório dos votos expressos em Cotrim de Figueiredo (apoiado pela IL) e em Marques Mendes (PSD), sem considerar qualquer flutuação eleitoral expressa na candidatura de Gouveia e Melo. Ou seja, não foi na extrema-direita que se concentraram os votos da direita portuguesa. Portanto, o candidato segundo classificado arrogar-se de líder da direita é apenas conversa para seguidores fanáticos ou discípulos devotos. Para além de ser inqualificável a narrativa entre ‘socialismo’ e ‘não socialismo’, quando se torna evidente o carácter suprapartidário da candidatura moderada, abrangente, confluente de António José Seguro ou o facto de estarem em causa as funções presidenciais e o garante do Estado de Direito, e não responsabilidades executivas que competem a quem governa, ou até mesmo deliberativas que cabem nas competências da Assembleia da República. Só uma cegueira e idolatria fanática pode justificar um acreditar em tal dialética e demagogia. Mas não foram apenas estes os factos e contextos que emergiram do resultado da primeira volta das presidenciais, de domingo passado. Da mesma forma que os candidatos procuraram apoio partidário, por mais independentes que as candidaturas quisessem parecer (e deveriam), ou que os partidos políticos tenham anunciado o seu apoio formal às candidaturas (exceção para o caso de Gouveia e Melo), seria igualmente válido e expectável que os partidos anunciassem um sentido de voto para a segunda volta eleitoral que se avizinha. Isto não significa qualquer condicionamento da liberdade de voto ou a apropriação da legítima opção e convicção individual de cada eleitor. O que, aliás, não faz qualquer sentido já que, mesmo perante os apoios formais anunciados na primeira volta, houve muitos – muitos mesmo – militantes, simpatizantes ou habituais eleitores que optaram por votar em candidaturas distintas. O que está em causa, nesta segunda volta, é muito mais (muito mesmo) do que a linear eleição do próximo representante máximo e principal figura do Estado português. À eleição do Presidente da República, acresce a clara e urgente escolhe entre a Democracia e o Estado de Direito ou a sua destruição e substituição por uma indesejável autocracia. É esta a batalha que é preciso travar no próximo dia 8 de fevereiro. E seria esta a batalha que se esperava ter uma maior e clara adesão por parte de partidos e do próprio Governo que dependem da robustez da democracia e dos valores republicanos e da solidez do Estado de Direito. Não é aceitável esta auto desresponsabilização democrática, política e partidária perante a clara escolha entre a Democracia e a sua destruição, que não se coaduna com estratégias e subterfúgios partidários e eleitoralista para um futuro próximo. Se o Governo da AD não se mostrou nada constrangido, nem preocupado com a sua imagem ou a sua pseudo-neutralidade governativa, não só no anúncio de apoio à candidatura de Marques Mendes, como, também, na sua efetivação prática, não se afigura aceitável o discurso de Luís Montenegro após serem conhecidos os resultados da primeira volta. A insignificante e ilusória neutralidade anunciada pelo Primeiro-ministro (PSD) para a segunda volta das presidenciais é muito mais que imparcialidade ou liberdade de escolha: é validar a tentativa de derrube da democracia. Perder uma eleição em democracia é “democraticamente” normal ou habitual, porque é o garante da liberdade de opção, de expressão ou de convicção. Perdermos a democracia numa eleição é que é inaceitável e perigoso para a sociedade (a história está repleta o suficiente de casos que o sustentam: foi, democraticamente, que o nazismo ascendeu ao poder. As consequências é que nada tiveram de democráticas). Em democracia, a (pseudo) neutralidade a abstenção só tem uma leitura: abdicar da nossa responsabilidade cívica e capitular na defesa e preservação dos princípios e valores democráticos. Quando está em causa a defesa da Democracia e da Liberdade o silêncio (e diga-se… a abstenção) não pode ser opção, porque transforma-se em validação da extinção. Dia 8 de fevereiro não está em causa qualquer exercício político ou mesmo partidário. Não é esse equilíbrio ou confronto ideológico que está adjacente à função ou competências presidenciais. Dia 8 de fevereiro não vamos querer adormecer numa fragilizada democracia, para acordar num pesadelo autocrático e antidemocrático.
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Detido suspeito de esfaquear sexagenária na Murtosa com gravidade
Em comunicado, a PJ esclareceu que o suspeito, que reside nas proximidades do local dos factos em investigação, atingiu a mulher com uma arma branca e um bastão em "partes vitais do corpo". As agressões "aconteceram sem qualquer razão aparente, imediatamente após a vítima ter aberto a porta de sua casa", adianta a PJ, acrescentando que o suspeito poderá ter atuado num quadro de um desequilíbrio psíquico momentâneo. "Acionados os meios de emergência médica, foi prestada pronta assistência à vitima, que foi reanimada e estabilizada no local antes de ser transportada para a unidade hospitalar mais próxima. Apresentava extensos ferimentos, nomeadamente perfurantes, em diversas partes do corpo", refere a mesma nota. A PJ refere ainda que apreendeu as armas utilizadas no crime. O detido vai ser presente a primeiro interrogatório judicial na comarca de Aveiro, para aplicação das adequadas medidas de coação.
Entrevista: Mariana Dixe traz “Obrigada por terem vindo” ao GrETUA para pensar o teatro “a brincar”
Encenado por Mariana Dixe e interpretado por Mariana Lobo Vaz, o monólogo “Obrigada por terem vindo” é, de acordo com uma nota de imprensa enviada à Ria pelo GrETUA, um espetáculo que “assume o fingimento como estratégia: finge não responder a nada, enquanto pensa em tudo” sobre a experiência teatral. Na antecâmara da passagem pelo GrETUA, Mariana Dixe - que também estará no próximo sábado, dia 14, a dar uma Oficina de Escrita no âmbito do Kit de Sobrevivência e de Criação Teatral do GrETUA - esteve à conversa com a Ria sobre o texto que agora apresenta. Rádio Universitária de Aveiro (Ria): A programação deste quadrimestre do GrETUA baseia-se um bocadinho na ideia de jogo. Daquilo que estive a pesquisar sobre esta peça que vão apresentar, parece que assenta quase que nem uma luva, não? Mariana Dixe (MD): Sim, acho que sim. O jogo, se calhar, é um jogo diferente, um jogo mais metafórico, mas acho que o nosso espetáculo “Obrigada por terem vindo” tem muito do chamado jogo teatral, que, se calhar, mais do que jogar, também pode ser brincar. Nós usamos muitas referências da infância. Aliás, o cartaz do espetáculo são fotografias de toda a equipa nas primeiras infâncias, todos nós em pequeninos, porque o jogo do “faz de conta”, ou em inglês, ‘make-believe’ - que é uma expressão que eu ainda prefiro, fazer acreditar - esteve muito presente na criação do espetáculo. Eu acho que está muito presente também no espetáculo, porque nos interessa pensar o teatro, qual o papel que ele tem, porque é que eu fiz estes dois espetáculos, porque é que uma atriz sobe a cena para fazer um monólogo... mas pensar em teatro, sobretudo, com este caráter lúdico, de entretenimento (embora haja um preconceito com essa palavra no meio cultural) e de brincadeira, de jogo, de fazer teatral, de experimentar, de alguma liberdade, portanto, de fazer de conta e de fazer acreditar. Então sim, acho que este jogo encaixa que nem uma luva, acho que sim. Ria: Para além do “brincar” e do problematizar um bocadinho toda a ideia do teatro, há alguma intenção? Esta peça quer respostas? MD: Eu acho que ela lança mais perguntas para que cada elemento do público possa ter as suas próprias respostas. Depois nós temos sempre muito prazer em falar com as pessoas do público e perceber quais é que foram as respostas a que cada pessoa chegou. Mas ela não é uma resposta universal, nem nós tentamos que seja, nem nós temos a pretensão de achar que sabemos qual é a resposta certa. Eu disse ainda agora estas perguntas de «Porque é que o público vê espetáculos? Porque é que uma atriz sobe a palco para fazer um monólogo?», mas eu própria não sei a resposta para essas perguntas. Às vezes acho que sei, tenho uma teoria, mas passados uns meses a teoria já pode ser outra. Com este espetáculo também vou descobrindo novas possibilidades de resposta a essas questões. Eu acho que para nós também é mais divertido - e encaixa mais nessa ideia de jogo - lançar as perguntas e deixar que cada pergunta possa ter múltiplas respostas, que cada pessoa possa ter as suas e que isso depois também seja gerador de conversa pós-espectáculo, pós-evento, muitas vezes depois, pós-digressão. Então, mais do que responder, não deixa de ser uma intenção... mais a de fazer perguntas do que a de encontrar as respostas. Ria: Nós aqui estamos a falar deste “fingimento lúdico” - a expressão que tens usado - um bocadinho no abstrato. Como é que isto depois se concretiza quando estamos a ver a peça? MD: Olha, eu acho que para não fazer grandes spoilers, posso dar um exemplo do que acontece logo no início. A Mariana, que é a atriz do espetáculo, entra em cena dizendo que se chama Isabel, ou Leonor, já aconteceu as duas versões. Ela às vezes improvisa e pode ser uma das duas. Tem 45 anos e tem uma filha. Na verdade, o que nós queremos com essa proposta é que o público perceba que, no teatro, num lugar de palco onde essa proposta acontece, isso é possível, não é? Porque nós vemos constantemente atrizes a dizer que são Ofélia ou atores a dizer que são Hamlet, que vivem não sei onde e que fazem não sei o quê, e acreditamos, porque o pacto entre um espectador e um ator é esse, é o de acreditar. Portanto, logo, uns segundos a seguir, a Mariana diz «Ah, não. Eu chamo-me Mariana, tenho 27 anos, sou atriz e sou de Lisboa». Mas há qualquer coisa nesse jogo em que ela dizer a verdade é menos credível do que ela mentir e dizer que é a Isabel ou o Leonardo. E o público tende a ter essa desconfiança de «Ok, porque é que ela viria para aqui dizer a verdade? Isto é um palco, eu vou ver um espetáculo para ser enganado. Se eu quiser ouvir a verdade vou ao café ou vou ver um jornal». Então nós criamos todo o espetáculo a partir dessa premissa: “O que é que é verdade, mas tem um lugar num palco?; O que é que é mentira, mas também tem um lugar num palco?”. Porque enquanto fazíamos o processo de criação íamos encontrando a mentira na esfera pública, também na política, no jornalismo... E quisemos também de alguma maneira reivindicar o palco como um lugar em que a mentira possa ser lúdica e menos consequente, porque não estamos a enganar ninguém, nem a espalhar fake news. O público só acredita em nós até um determinado ponto, porque está dentro de uma caixa mágica que nos permite mentir. Então, o que é que pode ser verdade, o que é que pode ser mentira, e o que é que, mesmo sendo mentira, é mais credível porque dissemos a verdade antes? Ou, então, o que é que sendo perto da verdade para nós, é tão inverosímil que o público não acredita? Nós divertimos-nos muito com esse jogo de, depois, no final, tentar perceber o que é que as pessoas reconhecem como sendo verdade e de que é que as pessoas desconfiam. Lá no fundo nós sabemos que aquilo ou é verdade ou até poderia ser, mas as pessoas acham que não, e pronto, andamos sempre assim dentro dessas duas linhas... e a mesma coisa às vezes pode ser verdade e mentira, mas isso pronto, terão de ver o espetáculo para perceber que tipo de coisas são essas. Ria: Nas entrevistas que tens dado, tens dito que tentaste inverter um bocadinho a lógica do teatro. Portanto, em vez de começar pelo texto para depois ir para a cena, começas na cena para depois ir para o texto. Como é que se começa a desenhar o texto a partir de uma cena que não tinha texto ‘a priori’? MD: O “Obrigada por terem vindo” tem duas versões de texto, na verdade. Tem uma versão original, também escrita por mim, que foi publicada por uma companhia de teatro chamada “Lendas de Encantar”, numa coleção nova de dramaturgia portuguesa que eles lançam anualmente e onde eu fui colocada no oitavo volume. Depois, quando fui para a sala de ensaio com a Mariana [Lobo Vaz] e com a restante equipa, voltámos a esse texto como base, mas editámo-lo muito e construímos por cima dele. Ele está praticamente irreconhecível, porque, também neste jogo do verdade e mentira, interessava-me que muitas coisas fossem verdade para a própria equipa. Seria praticamente impossível ficarmos a trabalhar com um texto que tinha sido escrito há alguns anos, que eu tinha estado sozinha numa sala e depois a escrever só com a minha verdade, sem as perspetivas das várias pessoas em coletivo. Essa versão original que foi publicada surgiu precisamente, como dizes, de uma “verborreia” tida num palco e que depois foi transcrita para o papel. Basicamente, com essa intenção primária e única de saber se era possível inverter a ordem normal de escrever teatro, o desafio a que me propus foi ir para uma ‘black box’ vazia e, enfim, pôr um cronómetro para uma hora e durante esta hora falar, falar, falar e ter um telemóvel a gravar aquilo que eu ia dizendo. Eu tinha algumas ideias que sabia que queria abordar que, mais do que outra coisa, eram pensamentos que eu ia tendo ao longo dos dias e que achava que valia a pena guardar para dissecar mais tarde... mas não sabia se “mais tarde” ia ser uma conversa com amigos, num texto, sei lá, para um blog, ou se ia ser naquele lugar, naquele momento, que foi o que acabou por acontecer. E então, como acontece frequentemente, às vezes até no duche, quando estamos em silêncio, as ideias que temos tido nos últimos dias começam a aparecer todas de repente. Como eu ali estava em silêncio, sem estímulos, sem um telemóvel para fazer scroll ou sem o meu trabalho de escritório, as ideias que eu ia tendo nesses dias anteriores começaram a surgir e fui falando, falando, falando sobre elas. Quando cheguei umas horas depois a casa, ouvi a gravação e transcrevi o texto para papel, sendo o mais fiel possível àquelas que tinham sido as pausas, as hesitações, as correções do discurso oral, que às vezes tem falhas, e tentei mantê-las a todas. Foi esse texto que depois foi publicado. Agora, isso já não é exatamente assim, porque, como disse, esse texto foi reescrito e muito, muito editado. Foi editado também em sala de ensaios, a partir daquilo que a atriz, a Mariana Lobo Vaz, fazia em ensaio, em improvisação, das conversas que íamos tendo - não só com ela, como com a própria equipa - porque foi um processo muito coletivo. Portanto, o processo repete-se, porque continua a passar da realidade para o papel, mas agora de uma perspetiva mais de grupo e menos individual, como tinha sido a primeira. Mas, nos dois casos, isso acabou por ser verdade. Primeiro as coisas foram ditas e depois é que foram escritas. Ria: Este é um exercício que me parece, nesta primeira instância, nesta versão original, mesmo muito pessoal. Como é que isto deixa de ser pessoal para passar a ser um produto coletivo? MD: Olha, porque uma coisa que me interessa muito, como autora e como artista, é encontrar uma espécie de chão comum. Eu acredito, e tenho toda esta experiência no meu quotidiano, que não há muitas experiências que sejam verdadeiramente singulares. Claro que sim, claro que há coisas de outro mundo que só acontecem uma vez na vida, uma pessoa em cada mil, um milhão, leva com o raio. Aquelas coisas que se dizem do “arco da velha”, não é toda a gente que já levou com o raio. Aliás, o que ganhou o Euromilhões... dizem que é mais provável levar com o raio do que ganhar o Euromilhões. Claro que há estatística envolvida, mas há coisas muito do dia-a-dia que achamos que só nos acontecem a nós e que nos sentimos até às vezes solitárias por isso. Depois descobrimos que é uma experiência partilhada com muita gente, mas porque não falamos sobre essas coisas, elas acabam por nos deixar mais sozinhas do que realmente estamos. Então, na verdade, embora o primeiro texto fosse muito autobiográfico, esta versão não deixa de o ser, só que passa a ser tão autobiográfica para mim, como é para a Mariana, como é se calhar para outros elementos da equipa que se reconhecem naquilo que está escrito e que é dito em cena. Ao mesmo tempo, também se fosse possível encontrar pontos em comum entre as coisas que já estavam na primeira versão e as coisas que iam surgindo em equipa e até coisas que iam surgindo em referência... Sei lá, nós partilhávamos uma série que achávamos que tinha a ver com esta fronteira entre realidade e ficção e depois analisávamos essa série e encontrávamos coisas que já estavam lá na primeira versão, ou que já estavam nas nossas conversas em residência. Ou íamos ver um espetáculo todas juntas e havia pontos em comum, sem que ninguém pudesse prever, porque o espetáculo estava em criação exterior a nós e nós estávamos em criação exterior a esse espetáculo. De repente, dois artistas com geografias diferentes e percursos diferentes tinham ali raciocínios que se tocavam em determinados pontos, sem terem conversado sobre isso. Fomos encontrando esse chão comum e foram essas ideias que foram sendo preservadas até ao objeto final do espetáculo, porque eram aquelas com que mais nos identificávamos e que eram menos particulares, digamos assim, eram mais esse chão comum, mais partilhadas. Ria: A tua passagem pelo GrETUA não vai ser só aqui. Também vais estar presente a dar uma Oficina de Escrita no Kit de Sobrevivência e de Criação Teatral, onde, segundo a descrição, vais fazer exercícios de escrita criativa a partir da oralidade. Há um cruzamento aqui entre aquilo que foi a produção deste espetáculo e aquilo que tu vais também, de alguma forma, ensinar nesta oficina? MD: Sim, a ideia é mesmo essa. Nós na Maratona - Associação Cultural, que é a associação que eu co-fundei e co-dirijo com a Belisa Branças, que é quem produz o espetáculo, fazemos sempre atividades paralelas aos nossos espetáculos, que dialogam precisamente com os mecanismos de criação do próprio espetáculo. Neste caso em específico, a ideia é mesmo essa, vemos que o texto foi criado desta forma e a ideia é propor também que as pessoas que façam a oficina experimentem essa forma de o fazer. Com essa ordem invertida das coisas, primeiro dito e depois escrito, primeiro em cena e depois em papel. [A ideia é] também falarmos de uma autobiografia parcial, ou seja, as pessoas escrevem sobre si, mas escrevem em coletivo porque é uma oficina de grupo. Podem depois encontrar nas leituras e nas vozes das outras pessoas experiências comuns, que também são as suas. Espero que também seja possível, nessa oficina no dia 14, encontrar essas experiências partilhadas e ficarmos um bocadinho menos sozinhos no decorrer dessa partilha. Ria: Não sei qual é a tua experiência em Aveiro e com o público aveirense, mas quais é que são as tuas expectativas para o que vais encontrar aqui? MD: Eu tento criar o mínimo de expectativas possível, porque às vezes posso ficar desiludida ou, pelo contrário, ser surpreendida. Tento não criar grandes expectativas no que diz respeito ao público. Nós temos sempre a intenção de fazer um bom espetáculo, montá-lo, ensaiá-lo e apresentá-lo bem. Depois as pessoas lidarão como lidarem e terão a reação que tiverem. Eu gosto de que seja sempre uma surpresa. Assim, em particular, pela ligação do GrETUA à Universidade, pode aparecer, acho eu, como consequência disso, um público mais jovem. Tenho curiosidade de perceber como é que um público à partida mais jovem poderá relacionar-se mais ou menos com o espetáculo, mas é uma questão quase demográfica e não tanto de expectativa. Nós somos uma equipa jovem, uma associação emergente, então tenho curiosidade de perceber se as pessoas que vão assistir, por serem mais jovens, se relacionam mais ou menos, ou se nós já somos velhas demais para o público da Universidade. Diverte-me pensar assim nesse sentido, mas não tenho expectativas. Gostava muito que as pessoas aparecessem e fossem sinceras na sua opinião. O resto, pronto, nós cá estamos para ouvir qualquer reação que tenham. Os bilhetes para o espetáculo podem ser adquiridos aqui e têm um custo de seis euros para estudante e de oito euros para não estudante.
Câmara de Aveiro lança Workshops no âmbito do projeto europeu Future STEAM Cities
A Câmara Municipal de Aveiro está a coordenar o projeto europeu “Future STEAM Cities”, que se encontra em execução e decorre até agosto de 2026, financiado no âmbito do programa URBACT IV. É neste enquadramento que surgem estas duas atividades piloto. A primeira atividade será um workshop de stop motion para famílias, a realizar na Casa da Cidadania, nos dias 28 de fevereiro e 7 de março, entre as 14h30 e as 17h00. Cada família será desafiada a criar um pequeno vídeo através da técnica de stop motion, representando um passeio em família pela cidade de Aveiro, passando por monumentos, espaços públicos ou locais icónicos, integrando elementos tradicionais como personagens locais, festas, gastronomia ou símbolos identitários. A atividade destina-se a famílias com crianças a partir dos 7 anos, estando as inscrições limitadas a seis famílias. A segunda atividade consiste numa formação de iniciação à programação destinada a pessoas com mais de 40 anos, promovendo a aquisição de competências digitais fundamentais num contexto acessível e prático, contribuindo para uma maior inclusão digital.
Mau tempo: Distrito de Aveiro com 63 estradas interditas ou condicionadas
De acordo com a última atualização feita hoje, às 08h30, pela GNR sobre o estado das vias rodoviárias no distrito de Aveiro, há 63 estradas, entre nacionais, regionais e municipais, interditas ou condicionadas devido a inundação, desmoronamento e abatimento do piso. Na terça-feira, na atualização da GNR feita às 16h00, o distrito de Aveiro tinha 65 estradas interditas ou condicionadas devido às condições meteorológicas adversas e aumento do caudal das linhas de água. Em Águeda, a GNR dá hoje conta da interdição devido a inundação da Rua da Pateira (Fermentelos), da Estrada do Campo (na zona de Espinhel e Recardães), da Rua Arquiteto Filomeno Rocha Carneiro (Borralha), da Rua Professor Dinis Pires (Travassô), da Estrada Municipal (EM) 230 (Eirol), da Praceta da Carapeteira (Assequins), da Rua Principal da Murta (Aguada de Baixo), da Rua do Passal (Espinhel), da Rua 5 de Outubro (Águeda), da Rua Caves (Aguada de Baixo), da Rua da Carapeteira (Águeda), da Rua do Campo (Segadães), a Rua Ponte da Barca (Serém), a Rua Manuel Marques (Macinhata do Vouga), a Rua do Carvalho (Trofa), e a EM577 (Fontinha). Ainda neste concelho estão interditas a Rua do Covão (Aguiar da Beira), e a Rua do Vale do Grou (Aguada de Cima), devido a desmoronamento. A circulação automóvel também está interrompida na EN16 (Pessegueiro do Vouga), devido a desmoronamento. Em Albergaria-a-Velha, segundo a GNR, estão cortadas a EN230-2 (Angeja) e a Rua do Jogo (Vale Maior), devido a inundação, e a M553 (Ribeira de Fráguas), devido a abatimento do piso. Em Oliveira de Azeméis, estão interditas a Rua de São Paio (Pinheiro da Bemposta), a Rua Ponte Medieval (Santiago Ribau-Ul) e a Rua do Cercal (Cucujães), devido a inundação. Em Ovar, a GNR dá conta da interdição da Avenida da Praia (Maceda), devido a desmoronamento, e da Rua de Baixo (Maceda), da Rua Estrada Nova (Maceda), da Rua Rio (Cortegaça) e da Rua do Bussaquinho (Esmoriz), devido a inundação. Em Estarreja, há várias ruas inundadas em Canelas (Rua da Estação, Rua General Artur Beirão e Estrada paralela à linha férrea - BIORIA) e em Avanca (Rua de Gonde, Rua da Várzea e a Rua dos Moinhos), estando ainda interditas a Rua do Vale (Fermelã), a Rua do Feiro (Salreu) e a Rua Manuel Marques Figueira (Antuã). Na Murtosa, mantêm-se cortadas ao trânsito a Rua Caminho das Remolhas (Bunheiro) e a Travessa Arrais Francisco Faustino (Torreira). Em Aveiro, estão cortadas devido a inundação a EN230 (Eixo), a Rua Direita e a Rua da Pateira, em Requeixo, a Rua da Valsa (Eixo) e a Rua Marquês de Pombal em Cacia e, em Ílhavo, está cortada a Rua do Sul (Gafanha de Aquém). Mais a sul, em Anadia, estão interditas a EN235 (Vila Nova de Monsarros), a Rua do Cértima (Mogofores), a Rua da Várzea (Arcos), a Avenida das Laranjeiras (Alféolas), a Rua São Simão (São Lourenço do Bairro), a Rua Costa do Casal (Avelãs de Caminho), a Estrada Real (São João da Azenha), a Rua de Sangalhos (São João da Azenha) e a Avenida dos Áceres (Curia), devido a inundação. Em Oliveira do Bairro, devido a inundação não é possível circular na Rua Escola C+S (Oiã), na Rua do Ortigal, na Rua da Passagem de Nível e na Rua da Bunheira de Vila Verde. A GNR refere ainda a existência de condicionamentos de trânsito no Itinerário Complementar (IC) 2, ao quilómetro 239, sentido norte/sul, em Águeda, devido a desmoronamento, e na EN109 ao quilómetro 45, em Estarreja, devido a inundação. Quinze pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados. A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas. O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.