Acordo PSD-Chega: PS pede detalhes, mas Luís Souto responde que “não se meteu” na ‘Geringonça’
Durante a sessão da Assembleia Municipal de Aveiro (AMA) da passada segunda-feira, dia 15, Fernando Nogueira, deputado do PS, questionou Luís Souto, presidente da Câmara Municipal, sobre os detalhes do acordo firmado entre o PSD e o Chega para garantir maioria no executivo municipal. O autarca não revelou pormenores sobre nenhuma questão concreta, mas, em declarações à Ria, disse que, “como em qualquer acordo, tem de haver cedências de parte a parte”.
Gonçalo Pina
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A concretização do acordo entre o PSD e o Chega para garantir uma governação maioritária na Câmara Municipal de Aveiro ainda não tinha sido tema na Assembleia Municipal, uma vez que o entendimento só foi conhecido a 24 de abril e oficializado a 28 – a última sessão da Assembleia tinha acontecido a 13 de abril. Assim sendo, o tema acabou por ser abordado no Ponto 1 da Ordem de Trabalhos, “Informação sobre a Atividade Municipal de 1 de abril de 2026 a 31 de maio de 2026”, pelo deputado socialista Fernando Nogueira.
Nas palavras do eleito do PS, o PSD “estava numa relação duradora e estável, mas resolveu literalmente dar uma machadada na ‘Aliança’ e na lealdade com o CDS em nome de supostamente ter melhores condições para governar”. Recorde-se que o acordo estabelecido entre as forças lideradas por Luís Souto e Diogo Soares Machado não passou pelas mãos do CDS-PP, parceiro de coligação do PSD, que não viu o entendimento com bons olhos e que acabou por se abster na entrada do vereador do Chega para o executivo.
A propósito do acordo, Fernando Nogueira afirmou que, sendo “conhecida a existência de divergências e posições antagónicas em relação a alguns projetos de relevo para Aveiro”, gostava de saber como é que a governação acontecerá. Exemplos disso são o projeto de construção da nova escola Homem Cristo – conforme recorda o socialista, o Chega apelidou a desativação da escola no edifício atual de “crime de lesa-Aveiro” -, o Plano de Pormenor do Cais do Paraíso – que o Chega também disse ser uma “agressão contra Aveiro” – ou a Avenida Lourenço Peixinho – que, diz Fernando Nogueira, o “recém-empossado vereador [Diogo Soares Machado]” quer “transformar com um foco na fluidez do tráfego automóvel”.
No que ao Plano de Pormenor do Cais do Paraíso diz respeito, o socialista refere que “ou reiteramos a noção de que os crimes e agressões a Aveiro são afinal banais para o seu parceiro de pacto [Chega] ou assumimos que ambos empurraram com a barriga ou para debaixo do tapete até que ele volte à agenda”. “Será que podemos concluir que um assunto desta importância não fez parte do acordo?”, questiona.
Em conversa com a Ria no final da reunião, Luís Souto também não desvendou qual o entendimento entre os partidos nesse dossier. Recordado de que, em abril, Pedro Frazão, vice-presidente do Chega, disse à Ria que esse seria um assunto plasmado num “caderno de encargos” a ser definido entre os partidos, Luís Souto preferiu não falar sobre a eventual existência deste documento e acrescentou apenas que, “como em qualquer acordo, tem de haver cedências de parte a parte”.
Já sobre a Avenida Lourenço Peixinho, Fernando Nogueira disse que queria saber qual a posição do vereador com o pelouro responsável – Pedro Almeida, com a pasta da “Mobilidade e Transportes” -, “se este assunto está a ser em conjunto ou à parte entre o senhor presidente e o senhor vereador do Chega no âmbito do referido acordo” e “que discussão podemos esperar vir a ter que garanta que a solução final não resulta em retrocesso”.
Luís Souto recordou a 'Geringonça' e disse que “Mário Soares deve ter dado sei lá quantas voltas no túmulo”
Na resposta a Fernando Nogueira, Luís Souto recordou que “nunca se meteu nos acordos do PS com o Bloco de Esquerda e com o Partido Comunista” – uma alusão à ‘Geringonça’, solução encontrada por António Costa em 2015 com os parceiros à sua esquerda para conseguir formar Governo, apesar do primeiro lugar do PSD de Passos Coelho nas eleições legislativas.
O autarca diz que “achava aquilo estranho” e que “Mário Soares [fundador do PS] sempre quis distância do Partido Comunista” e “deve ter dado sei lá quantas voltas no túmulo”, mas preferiu “nunca comentar”. O mesmo aconteceu, como recorda, quando os socialistas se apresentaram a eleições para o Município de Aveiro em coligação com o PAN, em 2021.
“Alguma vez nós andámos: «Olha, mostrem lá o acordo!» Não temos nada a ver com isso, é assunto deles. Compreendo, porque o Partido Socialista apostava tudo noutra estratégia própria e se calhar as coisas não correram assim como pensava, não é?”, atirou Luís Souto.
O presidente adiantou ainda que, como resultado do entendimento com o Chega, “nunca esteve nem poderia estar em causa a coligação ‘Aliança com Aveiro’”, acusando o PS de tentar “dividir para reinar”. Com a nota de que “ninguém está aqui preocupado […] se isto é para o PSD, para o CDS ou para o Chega”, o autarca frisou que só tem a dizer “bem” do “ritmo de trabalho e do entendimento que tem sido observado no seio do executivo municipal”.
Livre fala de acordo anunciado “no dia anterior à celebração daquilo que pensávamos ser a queda do salazarismo”; Chega também responde com a 'Geringonça'
João Paixão, deputado do Livre que esteve em substituição de Bruno Fonseca, também não deixou de se debruçar sobre o acordo entre PSD e Chega na Câmara Municipal. Segundo afirma, o entendimento foi “anunciado com um sentido de oportunidade notável – no dia anterior à celebração daquilo que pensávamos que que seria a queda do salazarismo”.
“Infelizmente, e como também se assiste a nível nacional, o partido do salazarismo a triplicar – porque «são precisos três Salazares» - vai-se tornando num parceiro confiável do partido dito social-democrata, ainda que tenha causado desconforto no Partido Popular [CDS] e em quem votou na ‘Aliança’ pensando que um não seria um não”, disse o deputado, enquanto os representantes do Chega contestavam do outro lado do hemiciclo.
Depois de, durante a intervenção de Diogo Gomes, da Iniciativa Liberal, os representes do Chega terem conferenciado, Armando Grave usou parte do seu discurso para responder a João Paixão. O deputado considerou que o colega parlamentar “não sabe o que é a democracia” nem o “direito democrático” e afirmou que “quando o seu partido estava com a ‘Geringonça’ não havia problema nenhum” e que só agora “há problemas”.
O representante do Livre ainda tentou corrigir no imediato, mas foi advertido pelo presidente da Assembleia, uma vez que não é permitido o diálogo direto entre deputados. Assim sendo, já perto do final da sessão, João Paixão afirmou que “o Livre nunca fez parte da ‘Geringonça’” e, falando na direção do presidente do Município, apontou: “Se, à data da votação, as pessoas que votaram na ‘Aliança’ soubessem que isso ia dar num acordo com Chega, lhe garanto que muita dessa votação não tinha ido para si”.
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