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Opinião

Acabou o glamour do Mundial, está de regresso o CP: Crónica do Sanjoanense 1-1 Beira-Mar

O Mundial teve testes de qualidade em todos os parâmetros, escrutínio máximo às decisões de arbitragem, jogadores de topo que alinham nos melhores clubes de mundo, logística cuidada ao milímetro e transmissões para os quatro cantos do mundo. O Campeonato de Portugal reapresentou-se no Sanjoanense 1-1 Beira-Mar como sendo a antítese de tudo isto e havia muita gente cheia de saudades.

Acabou o glamour do Mundial, está de regresso o CP: Crónica do Sanjoanense 1-1 Beira-Mar

O interregno dos clubes do Campeonato de Portugal (CP) – que começa mais cedo que o dos demais, especialmente daqueles que não conseguiram aceder à Fase de Promoção – foi pautado por muito e bom futebol. Finda a época das equipas dos escalões cimeiros, que decidiram subidas de divisão, campeonatos, taças e jornadas europeias, foi o momento de voltar os holofotes para a América do Norte, onde se disputou o mais concorrido Mundial de sempre.

No total, contabilizaram-se 104 jogos difundidos para todo o mundo por dezenas de canais de televisão. O telespectador, confortavelmente sentado na sua poltrona ou numa esplanada com amigos, tinha acesso a mil e uma repetições que ainda auxiliavam uma comitiva de videoárbitro instalada algures para não deixar passar o mais pequeno erro do homem do apito.

Os relvados, minuciosamente cuidados por vastas equipas de especialistas, rodeavam-se de algumas dezenas de milhares de cadeiras ocupadas por fervorosos adeptos que, com meses de antecedência, largaram um rim para poderem ver de perto a sua equipa favorita. Em algumas ocasiões, imagine-se, até a temperatura do estádio era controlada de forma a não prejudicar um futebol já de si imaculado.

Como tanta perfeição até chateia, beiramarenses e sanjoanenses foram este domingo presenteados com um espetáculo sem paralelo possível com os jogos disputados do outro lado do Atlântico. Se não soubesse, era capaz de apostar que eram dois desportos diferentes.

As coisas começaram mal ainda cá fora, na bilheteira, onde os ingressos eram escassos para o número de adeptos que estiveram em São João da Madeira. Com os últimos entusiastas a entrarem na bancada já depois do apito inicial e de uma breve ‘troca de galhardetes’ com os congéneres que vinham apoiar o adversário, o primeiro impacto deu-se no confronto com qualidade do tapete da Sanjoanense: cheio de peladas, tufos de relva a saltitar, pedaços de terra a explodir de cada vez que o esférico por lá passava… Não enganava, era dia de Campeonato de Portugal.

No que ao jogo jogado diz respeito, podia-se esperar que a Sanjoanense trouxesse algum brilho da Liga 3, mas foi o SC Beira-Mar quem se impôs desde cedo. Um par de remates dos aurinegros perto dos 20 minutos de jogo ditavam o ritmo da partida, que chegou a hydration break [pausa para hidratação] – a única moda que pegou do Mundial – a pender para os forasteiros. Não foi preciso esperar muito mais para ver Didi cumprir a ‘Lei do Ex’: o craque que no ano passado fez 10 golos vestido de amarelo e negro sacou um ‘coelho da cartola’ e, depois de arrancar quase do meio-campo com a bola dominada, disparou da meia-lua sem hipóteses para André Duarte.

Quando se podia esperar uma resposta dos homens de São João da Madeira continuou a só dar Beira-Mar. Apenas dois minutos depois, sem saber bem como, a bola voltou a ir parar aos pés de Didi. Isolado, o avançado atrapalhou-se, perdeu a oportunidade e falhou quando tentou combinar com um colega.

O intervalo também foi à Campeonato de Portugal. Muitos adeptos não tinham assento próprio – viram-se condenados a sentar-se na bancada de pedra – e ficaram a torrar ao sol. Entretanto, o speaker sorteava rifas vendidas aos adeptos da casa: de certeza que disto não houve no Mundial.

Se na primeira-parte houve muito Beira-Mar, na segunda (especialmente no princípio) a história foi bem diferente. A Sanjoanense aproximou-se uma e outra vez e já se notava que a defesa do plantel liderado por Fabeta tremia que nem varas verdes. A determinada altura, num canto, a ilusão de ótica chegou a fazer os adeptos da casa gritar golo duas vezes, mas a sorte acabou por cair para o lado do Beira-Mar.

Uma velha máxima do futebol, celebrizada por Hélder Conduto nos videojogos da EASports, dita que “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. No entanto, pouco duro foi o rochedo que se instalava na baliza dos aveirenses – é difícil ser simpático com o tremendo disparate do guarda-redes Ricardo Benjamim que valeu o empate à Sanjoanense. O guardião, com a posse de bola, tentou atrair o adversário e esperou, esperou, esperou… até ser tarde demais. Diogo Machado apertou, intercetou a bola e ela só morreu no fundo das redes – sangue gelado do avançado que festejou à Cole Palmer numa tarde demasiado quente para isso.

O golo fez com que a Sanjoanense ganhasse ainda mais confiança e partisse para cima com uma chuva de oportunidades – foi valendo Ricardo Benjamim que, infelizmente, já não foi a tempo de conseguir o aval positivo da massa adepta. Nesta altura, as vozes da bancada eram quem melhor sintetizava o momento do Beira-Mar: «Estão todos a dormir».

Encostado às cordas, Fabeta acabou por ganhar (e muito!) com nova hydration break. Algumas mexidas estratégicas fizeram com que o Beira-Mar reaparecesse de cara lavada e, mais uma vez, à procura da vitória. Primeiro de bicicleta e depois através de uma combinação entre David Oliveira, Flavinho e Gustavo, os amarelos e negros ameaçaram, mas foi uma jogada do lateral Tiago Melo que podia ter mudado o rumo da partida: do lado direito, o capitão apareceu com imenso espaço e tentou cruzar para o segundo poste, mas, no caminho, a bola encontrou um braço adversário e não chegou ao destino final.

Atónito com a inação do árbitro, Tiago Melo abdicou de um ataque que ainda se revestia de perigo para protestar. Os colegas ainda lá foram tentar dar sequência ao lance, mas o juiz interrompeu o jogo para dar cartão amarelo ao contestatário. Numa demonstração de autenticidade que o Mundial plástico da FIFA jamais poderia almejar, os adeptos forasteiros não pouparam na caracterização do senhor do apito, que certamente não será bem-vindo a Aveiro nos próximos tempos.

O Beira-Mar ainda tentou mais um bocadinho e o tempo de descontos seria da Sanjoanense, mas o destino já estava traçado: 1-1 no marcador, um ponto para cada lado. Para quem estava cansado de assistir a jogos ao longe na Fan Zone do Rossio, são boas notícias – o CP está de regresso.  

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Mestre em biologia na Universidade de Aveiro (UA). Enquanto frequentava o curso, decidiu juntar-se ao Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro e foi essa a sua ruína (e salvação). Desde então que faz comunicação, no início apenas para o GrETUA (enquanto aprendia) e, agora, "para onde a quiserem".