"Era suposto isto ser “só” sobre um concerto, mas não consegui", opinião de Ana Inês Conde
Mestre em biologia na Universidade de Aveiro (UA). Enquanto frequentava o curso, decidiu juntar-se ao Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro e foi essa a sua ruína (e salvação). Desde então que faz comunicação, no início apenas para o GrETUA (enquanto aprendia) e, agora, "para onde a quiserem".
Ana Inês Conde
OpiniãoÚltimas
Era suposto isto ser “só” sobre um concerto, mas não consegui. Não que não houvesse o suficiente a dizer sobre o mesmo: quando as coisas são boas, podemos falar delas por dias. Porém, quando há más, temos de falar sobre elas.
Há dias em que já acordamos magoados. O domingo foi um deles. Por esta altura, creio que os acontecimentos dessa madrugada não têm de ser revisitados ou discutidos. Entristeceram-nos a todos. Nesse dia, saí de casa com um cravo ao peito em pleno outubro, porque senti que era preciso. Tinha bilhete para o concerto de abertura dos Festivais de Outono da Universidade de Aveiro. Illuminations, pela Orquestra Filarmonia das Beiras, com Sofia Marafona (soprano) e direção de Pablo Urbina, abriu com Metamorphoses… homage a M. C. Escher, de Luís Carvalho, uma peça que, tal como as obras de Escher, pretende brincar com o impossível e com o modo como as formas se podem transformar umas nas outras. Seguiu-se Les Illuminations, de Benjamin Britten, sobre poemas de Rimbaud, e fechou com a Segunda Sinfonia, de Louise Farrenc.
Digo já, para não quebrar a tradição da bruta honestidade, que não percebo grande coisa de música de orquestra (citando-me a mim própria: nada mais snob do que opinar com ares de quem sabe). Felizmente, não é preciso ser especialista para ver a beleza nas coisas. Afinal, essa será sempre a beleza da música. Os arranjos eram lindos, a combinação das “vozes” de cada instrumento, que se juntavam e se separavam como numa boa conversa. Vi-os tocar como quem tem algo a dizer. A sala ouviu como quem precisava de ouvir. No fim, o público aplaudiu de pé durante muito, muito tempo.
Para aquele momento, pelo menos para mim, as escolhas do programa não podiam ter sido mais certeiras (tematicamente ainda não sabia, mas fui pesquisar). Britten escreveu parte de Les Illuminations longe de casa, a lidar com o exílio e com a sua própria identidade. Assim, a sua música está cheia de alienação, de percepção aguçada, de tensão entre a beleza crua e a rutura. Ouve-se ali a ideia do artista como o único que tem a chave deste “desfile selvagem” que é a vida humana, o único capaz de o observar e de lhe dar sentido. Já Louise Farrenc compôs a sua segunda sinfonia em 1845, numa Europa em que (mesmo muito) poucas mulheres conseguiam afirmar-se neste meio, e provou que o seu domínio da orquestra era equiparável ao dos compositores mais celebrados. Duas obras sobre quem está à margem e sobre quem insiste em ocupar o seu lugar, num dia em que tanta gente insistia em ocupar o seu.
Foi por isso mesmo que, sobre os visuais do espetáculo, senti falta de mais. Os visuais que acompanharam o concerto, feitos por Arianny Cavalcante e Matheus Almeida, alunos do Departamento de Comunicação e Arte, disseram-me pouco “dramaturgicamente”, quando tinham matéria-prima de sobra. Numa altura em que os jovens têm tanto a dizer, ou devem ter, senti falta de uma voz mais ativa deles, justamente quando as obras podiam dizer e lhes davam tanto. Percebo que a cultura também seja descanso, mas esta música pedia que lhe respondêssemos. Não deixa de ser um bom ponto de partida, e foi bom ver os resultados do que se faz em casa, a valorização dos seus estudantes. Fica o desejo de os ver a arriscar mais.
A meio do concerto, uma corda de um violino partiu-se. Dois músicos trocaram de instrumento e aquele que ficou com menos uma corda começou a substituí-la, com a ajuda dos colegas à sua volta. Havia um problema e havia quem ajudasse. Foi provavelmente o momento mais bonito da tarde. Fiquei a pensar em como se critica quem faz exatamente isto: quem dá tendas, comida, mantas e proteção. A vida devia ser feita destes momentos, de compreensão, de empatia, de partilha, não?
Ouvir esta orquestra fez-me pensar noutra, noutro lado do mundo. Em Paris, a Orquestra Nouveau Monde, dirigida por uma pessoa de 24 anos, tem levado a música para as manifestações, e confesso que a imagem me persegue: no meio de uma multidão apertada nas ruas, violinos, clarinetes e partituras. Começou com uma mão cheia de músicos, profissionais e amadores, e foi crescendo à medida que mais gente quis juntar-se. A 17 de outubro, na Praça da República, em Paris, eram 400 a tocar. Os mesmos 400 que encontraram a “voz” para não parar de tocar, até com gás lacrimogéneo à volta. Os mesmos 400 que põem a música ao serviço de quem não se resigna e persevera.
Nada disto se liga, por acaso, num concerto da universidade. Sabemos: uma grande parte das pessoas que mais sofre com a crise da habitação são estudantes, a geração “adulta” mais nova. Estudantes que não conseguem pagar casa nas cidades onde estudam, que acabam a viver nas periferias, muitas vezes sem transportes públicos eficientes, que ficam em casa dos pais e viajam todos os dias para ter aulas. Estudantes que, simplesmente, desistem de estudar. Quando a universidade se torna um privilégio de quem lhe pague a renda, falha na sua função.As manifestações que começaram no Porto a 10 de outubro e se expandiram a Lisboa são uma resposta a um problema real, e quem sai à rua tem direito a fazê-lo sem medo. O perigo de deixar passar ações policiais que põem em causa os direitos das pessoas não é abstrato: é o de nos habituarmos.
É também esta a importância da cultura, da música e das outras artes. É através delas que partilhamos o que pensamos, que mudamos mentalidades, que falamos dos problemas. A Professora Susana Sardo, Pró-reitora para Cultura, Património Imaterial e Multiculturalidade, disse que, para os jovens, “a cultura faz pensar o futuro”, e que os Festivais de Outono querem criar oportunidades para os estudantes pensarem o lugar que querem ocupar na vida artística e cultural. Os jovens estão a pensar, continuamente. Deixem-nos pensar, e deixem-nos gritar o que pensam. Foi um concerto lindo, daqueles de onde se sai com a certeza de que é preciso que estes momentos se perpetuem. Pensem. Cantem. Toquem. E não deixem de ir para a rua, em qualquer formato que puderem.
Últimas
Recomendações
"Aveiro, habitação e compromissos", opinião de Rui Castilho Dias
Rui Castilho Dias é vereador independente eleito pelo Partido Socialista na Câmara Municipal de Aveiro.
A lenda vida de Pedrinho Xalé e o suor habitual inerente à noite onde se vai dançar, dançar, dançar
Opinião de Emanuel Graça, antigo aluno da Universidade de Aveiro. Arquivista musical e DJ. Está por trás do projeto @emrotação, dedicado à documentação de músicas do mundo, com ênfase para os países PALOP.
"Metrobus em Aveiro, a resposta antes da pergunta", opinião de Rui Castilho Dias
Rui Castilho Dias é vereador independente eleito pelo Partido Socialista na Câmara Municipal de Aveiro.
"Igualdade - uma luta diária", opinião de Sara Tavares
Sara Tavares é professora aveirense e deputada pelo Partido Socialista na Assembleia Municipal de Aveiro.