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São Gonçalinho: a Mordomia que toda a gente do bairro da Beira-Mar sonha integrar

Foi na capela de São Gonçalinho, sob o olhar atento do “menino” do bairro da Beira-Mar, de São Nicolau e do Senhor Ecce Homo que António Marques deu a conhecer a festa de São Gonçalinho. Hoje, dia que se comemora São Gonçalo, a Ria conta as memórias de quem já pertenceu por mais do que uma vez à mordomia que serve o santo com um vislumbre de como os tempos mudaram (ou não) a vivência da festa.

São Gonçalinho: a Mordomia que toda a gente do bairro da Beira-Mar sonha integrar
Ana Patrícia Novo

Ana Patrícia Novo

Jornalista
10 jan 2025, 19:00

António Marques – Tó Mané para os amigos – tem 71 anos e mora atualmente em Santa Joana. Vestiu por três vezes o gabão da Mordomia de São Gonçalinho em alturas diferentes - da vida e da festa. Continua a viver o São Gonçalinho com intensidade e não fecha a porta à hipótese de voltar a receber o ramo da mordomia.

A primeira pessoa que lhe passou o ramo foi José Velhinho, antigo morador do bairro da Beira-Mar. José foi colega de António nos tempos em que ambos trabalharam na Sociedade de Pesca Miradouro. “Um dia manifestei a minha vontade de ser mordomo e ele então quando passou o ramo, lembrou-se de mim e passou-me”, conta António Marques.

António recebeu o ramo “com muito orgulho”, conta. Além de colegas de trabalho, José Velhinho conhecia António do bairro da Beira-mar. António passou lá os primeiros 15 anos da sua vida e inclusive foi o Zezocas, como era tratado pelos amigos, que contou a António a história do dia de casamento dos seus pais. “Tentei representá-lo o melhor que pude e soube”, lembra António.

Os mordomos permanecem, atualmente, dois anos a servir São Gonçalinho. Mas nem sempre assim foi. A primeira vez que António Marques entrou na mordomia corria o ano de 1992. Saiu em 1996. Voltou nos anos 2005 e 2006 e a última vez – por enquanto - que envergou o traje da mordomia foi no ano de 2012.

Recorda com saudade no olhar os tempos de infância que passou na Beira-Mar e arredores para explicar o significado da festa que arrancou hoje com uma nova edição. “Para quem cresceu a viver o São Gonçalinho com intensidade e com devoção, o bom desta festa é nós encontrarmo-nos sempre”, explica António Marques.

Na altura em que trabalhava, conta António, tirava férias nas datas da Festa de São Gonçalinho. “E metia sempre mais um dia que era para descansar”, partilha animado. “Saía de casa de manhã, aparecia à noite - a altas horas da noite. E os meus filhos foram iniciados também: nós vínhamos aqui para casa da minha tia e eles ainda pequeninos vinham apanhar cavacas”.

“Não há palavras, para quem é do bairro, que descrevam o sentir aquela devoção em servir o santo”

António tem dois filhos. Os dois fizeram já parte da Mordomia de São Gonçalinho. Rui Vasco Marques é o primogénito de António e participou na mordomia pela primeira vez em 2001 e 2002, quando tinha pouco mais de 20 anos. Para Rui, ser parte da mordomia “foi o realizar de um sonho”. “Toda a gente que é ali do bairro sonha um dia em ser mordomo”, enfatizou Rui Marques.

Para Rui, à semelhança daquilo que conta o pai, o espírito da festa do bairro do Beira-Mar é a confraternização. “Viver as amizades, o cantar as músicas típicas do bairro, andar ali (…) é esse o espírito de São Gonçalinho”, referiu.

A primeira experiência de Rui na mordomia é-lhe difícil de explicar. “Não há palavras, para quem é do bairro, que descrevam o sentir aquela devoção em servir o santo”, conta Rui. A última vez que participou foi há cerca de dez anos, em 2013/14. Os dois anos seguintes marcaram a vez do mais novo da família Marques fazer parte da mordomia.

“As coisas hoje em dia são diferentes. Cavacas sempre houve”

Os anos 90 foram para António a altura em que a festa de São Gonçalinho mais se alterou. “Já nada é como era antes”, refere ao recordar a festa do antigamente. “Eu lembro-me de antes este largo ser de areia, e de nós jogarmos aqui à bola, jogarmos à cavilha”, recorda.

A festa acontecia apenas nas imediações da capela. “Os conjuntos, as bandas de música atuavam aqui no Largo da Capela”, recorda António enquanto descreve o despique das bandas a que toda a gente assistia religiosamente. Hoje em dia, por conta do crescimento da afluência de pessoas, a festa teve de se alargar para acolher os artistas e quem vem viver as festas, contando com o palco na zona do Rossio.

“Apesar de [antigamente] virem pessoas de fora do bairro da Beira-Mar”, só a partir de 1990 é que “as coisas começaram a evoluir de tal forma que de um momento para o outro ganhou uma expressão muito maior junto das pessoas, mesmo a nível nacional”, diz-nos António Marques. Prova disso é a recente inscrição das festas de São Gonçalinho no inventário de Património Nacional Cultural Imaterial.

“E depois havia um bairrismo, havia uma tradição no culto ao Santo muito fervorosa, mesmo muito grande. As coisas hoje em dia são diferentes. Cavacas sempre houve”, recorda. Apesar de não ser à escala de hoje, sempre choveram cavacas da capela de São Gonçalinho, conta António.

Vê as mudanças com misto de emoções, mas crê que o culto e a devoção ao santo continuam a ser a maior ligação das pessoas à festa – e para António isso é o mais importante. Entende as mudanças e recorda até algumas, feitas na altura em que foi mordomo. Destaca a criação das litografias, agora tido como momento tradicional na festa de São Gonçalinho e recorda o primeiro peddy-paper realizado pela mordomia.

Relembra também alguns momentos menos bons dos tempos em que passou pela mordomia. Como a altura em que os mais velhos criticaram o santo ter ido à boate. Para angariar dinheiro para a festa, conta António, a mordomia fez uma festa numa discoteca, algo que as pessoas mais velhas criticaram. “Agora o Santo vai para a boate” era o que diziam, recorda António a rir.

São Gonçalinho: padroeiro da Beira-Mar, casamenteiro e curador

Diz-nos António que São Gonçalinho é “padroeiro do bairro da Beira-Mar e de quem ia ao mar: dos pescadores, dos marnotos, da safra do sal. Foi sempre assim conhecido”, sublinha. “O santo é tido como um santo casamenteiro, é tido como um curador de doenças ósseas. É brincalhão o Santo, é rapioqueiro”, brinca o antigo membro da Mordomia de São Gonçalinho.

São Gonçalinho chegou a Aveiro, na perspetiva de António, pela mão dos dominicanos que pregavam São Gonçalo no norte do país. “Não há escrito nenhum que diga que São Gonçalo passou por Aveiro”, nota António. O dia de São Gonçalo celebra-se a 10 de janeiro, pela data da sua morte, e acredita-se que nasceu e viveu entre Vizela e Guimarães – antes de rumar a Roma e à Palestina.

Milagres, pelo menos a nível pessoal, António considera não ter vivido. Mas desvendou uma coincidência pela qual passou. Pela altura de São Gonçalinho, andava mal de um joelho devido a um acidente que teve. “Houve uma determinada altura que as coisas ficaram um bocadinho negras e eu mancava muito”, revela.

A arruada da passagem dos ramos estava à porta, mas como mancava decidiu ficar-se pela capela. Contudo “a música a tocar e o pessoal todo a dançar e a cantar” foi para António como um chamamento de São Gonçalinho. Viu como coincidência, afinal, diz o dito popular: para a festa não há perna manca, mas o certo é que António se juntou ainda a uma parte da arruada e muito provavelmente à tradicional Dança dos Mancos que se faz no fim da festa, normalmente à capela fechada.

Além de curador dos males de ossos, São Gonçalo é tido também como santo casamenteiro. António vivenciou essa devoção através de uma carta que encontrou na capela.

“Um dia, debaixo da porta da sacristia, apanhei uma carta – nunca mostrei a ninguém, mas ainda guardo essa carta”, começa por contar António. O texto pedia ao Santo, “com um português muito arcaico”, nota António, que fosse concedida “a honra de casar com uma determinada senhora”. “Uma coisa muito engraçada”, enfatiza António Marques.

Se o casamento aconteceu, António não sabe. A carta, essa, está guardada com um dos homens que é do bairro da Beira-Mar (de coração) e serviu já a São Gonçalinho por mais do que uma vez.

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