ESN Aveiro foi cozinhar às Florinhas do Vouga
22 estudantes nacionais, internacionais e de Erasmus provenientes de 11 países diferentes participaram a semana passada na iniciativa Social Cuisine, da Erasmus Student Network (ESN) de Aveiro. O projeto foi recuperado de anos anteriores por Ayva Jacinto, atual coordenadora de projetos com o objetivo de ligar os estudantes internacionais à comunidade local.
Ana Patrícia Novo
JornalistaSopa, massa e frango foi a ementa do jantar da terça-feira passada, dia 19, no refeitório social das Florinhas do Vouga. A cozinha do número 43 da Rua de Espinho foi invadida por cinco estudantes universitários de diferentes países e três voluntários da ESN Aveiro.
Hidde foi um dos estudantes que participou. É holandês e está em Aveiro durante um semestre a tirar Comunicação e Média, no Departamento de Comunicação e Arte (DeCA). Na terça-feira passada, 19, juntou-se a quatro outros colegas internacionais e foi para a cozinha do Florinhas do Vouga. “Eu gosto muito de cozinhar então pensei: se puder ajudar a cozinhar um bocadinho num espaço como este seria fantástico”, comentou Hidde à Ria. Não esconde alguma desilusão sobre não ter cozinhado tanto como pensou que ia fazer, mas brinca e justifica que “talvez tivessem expectativas baixas em relação às nossas habilidades culinárias”.
Depois de pronta a comida o trabalho não tinha terminado. Servir a refeição e limpar o espaço estavam também nas tarefas atribuídas à ESN Aveiro.
Hidde ficou responsável por colocar os copos nas bandejas que os utentes da Florinhas do Vouga vinham levantar. Com um português tímido – característica que partilhava com as colegas de linha de serviço – ia fazendo a pergunta que lhe ensinaram na hora: “quer copo?”. A frase ia sendo repetida em jeito de treino antes da chegada das pessoas. “Quando me perguntarem se aprendi português vou dizer ‘quer copo?’”, brinca o estudante.
A comunicação entre a equipa da ESN Aveiro e das cozinheiras e responsáveis do refeitório social foi sendo traduzida – ora para português, ora para inglês. Nas interações, ouviam-se também tímidas duas estudantes chinesas “quer sopa”, perguntavam aos utentes do Florinhas. Se os utentes respondessem algo além do ‘sim’ ou ‘não’ a que já estão habituadas, recorriam à ajuda dos voluntários portugueses.
"Muita gente precisa e tem vergonha de cá vir"
Fernanda Silva trabalha há cerca de 12 anos no refeitório Social Florinhas do Vouga e está prestes a reformar-se. Falou com a Ria no dia a seguir a abrir a porta da cozinha – que não é só sua – aos estudantes da ESN de Aveiro. Foi contando histórias passadas enquanto embrulhava os talheres. Umas melhores – como quando recebe estudantes que a ajudam - outras piores – como a vez em que foi ameaçada por um utente que ficou desagradado com o menu.
“Vim para cá sem saber o que era as Florinhas do Vouga”, admite. Uma fábrica sanitária foi o seu local de trabalho durante 17 anos. Uma lesão fez com que se tivesse de retirar daquela que era a sua praia e veio descobrir a sua segunda na cozinha salpicada de azulejos coloridos da Florinhas do Vouga.
Fernanda não esconde que sente algum cansaço e descontentamento. Apesar de gostar do trabalho que tem, Fernanda admite que “de há uns tempos para cá” está “saturada”. “A gente está a lidar com eles [utentes], eles ontem estavam calmitos mas é muito complicado”, começa por desabafar Fernanda. Diz sentir falta de apoio, sobretudo a nível psicológico por parte da chefia. “Não temos apoio de ninguém”, garante, “temos de saber lidar”.
Fernanda, tal como as suas colegas de trabalho, conhece todos os utentes pelo nome. “Esta instituição, olhe, é assim - dá apoio a toda a gente”, informa. Por dia servem uma média entre 80 e 90 refeições ao almoço, outras tantas ao jantar. A essas refeições juntam-se ainda as refeições que não são consumidas no local.
Quanto à ajuda prestada pelos estudantes, Fernanda considera que além de ser uma ajuda dada ao pessoal da cozinha é “uma experiência diferente” para os mesmos. “Eles ficam a saber como é que isto funciona porque muita gente não sabe”, apontou. Fernanda sublinhou ainda que o feedback que tem por parte de voluntários tem a ver com o desconhecimento e o impacto com a realidade e a pobreza em que as pessoas vivem. A essa informação a dona Fernanda acrescenta ainda que “muita gente precisa e tem vergonha de cá vir”.
Hidde, voluntário, tinha partilhado uma ideia parecida no dia anterior. Para o estudante, a atividade “é interessante” precisamente por desafiar a sair da zona de conforto e a ter interações que “ajudam a pôr a tua realidade em perspetiva”. “Social e economicamente, a maior parte das pessoas [holandesas] estão bastante bem, mas não é assim para toda a gente”, refletiu o estudante. Hidde considerou ainda que a atividade também permite quebrar algumas ideias em relação aos estudantes de Erasmus. “Quando digo às pessoas que sou de Erasmus elas pensam ‘ah fixe, meio ano a passear por todo o lado, a beber e a festejar muito’ o que não é a realidade”, concluiu.
"Vamos fazer mais datas e um projeto maior"
Para Ayva Jacinto, coordenadora de projetos da ESN Aveiro, o Social Cuisine tem um sabor especial. Para a estudante que assume criar atividades com “impacto social e local” como principais objetivos, o projeto Social Cuisine permitiu que os estudantes internacionais sintam que “fizeram parte desta cidade e deixaram a sua marca positiva”. Ayva acredita ainda que o envolvimento tenha tornado “a experiência de Erasmus mais enriquecedora”.
A coordenadora partilhou que apesar de ser uma iniciativa realizada anteriormente pelo ESN Aveiro, a aposta na divulgação do evento fez com que existisse uma maior adesão e a iniciativa corresse melhor. Sentiram-se “muito bem recebidos” pela instituição Florinhas do Vouga e apontaram como razões, além da parceria antiga, a simpatia e acolhimento das responsáveis e funcionárias do refeitório social.
A iniciativa decorreu durante três dias da semana passada, (terça, quinta e sábado) e contou, no total, com a participação de 22 estudantes – nacionais, internacionais e de Erasmus. “Todos gostaram” da iniciativa e inclusive “estão dispostos a repetir”, informou Ayva. A coordenadora de projetos avança que está a ser pensada a organização de uma iniciativa semelhante para o próximo semestre, “vamos fazer mais datas e um projeto maior”, revela a estudante.
O evento Social Cuisine foi realizado no âmbito das semanas dos Social Impact Days da ESN Internacional em Aveiro. A par destes a ESN Aveiro desenvolveu ainda iniciativas como workshops de primeiros socorros, upcycling e autodefesa bem com uma ação de reflorestação.
Recomendações
GrETUA arranca 2026 a “jogar” com Linda Martini e promove kit de sobrevivência de criação artística
Depois de ter arrancado o ano letivo num exercício mais contemplativo, a pensar na caminhada e na deambulação, o GrETUA tenta agora uma vertente mais interativa, relacionada com os jogos. No editorial que acompanha a programação, João Garcia Neto, diretor artístico do grupo, procura explicar o raciocínio por detrás da temática: “Se já sabemos que o teatro se aprende fazendo, interessa-nos agora aprender desmontando. Olhar para o teatro como um brinquedo: um objeto complexo, feito de peças visíveis e invisíveis, que pode ser aberto. Como uma criança cuja inocência entra em crise e que decide desmontar os seus brinquedos, para entender como funcionam por dentro; munindo-se, assim, do conhecimento dos seus mecanismos internos, podendo ela mesma contribuir para a fabricação do jogo”. Assim, conforme explica à Ria, a ideia do jogo acaba por também “aparecer à boleia do Kit [de sobrevivência de criação artística]”. Este novo instrumento formativo será uma forma de “desdobramento da formação contínua” com um “conjunto de cinco oficinas de áreas para lá da interpretação”. “Mais do que acumular competências, este gesto procura ampliar o campo de jogo, multiplicar as entradas possíveis na criação e tornar visíveis as engrenagens que a sustentam”, explica o editorial. A primeira formação a ocorrer é a oficina de escrita, que acontece a 14 de fevereiro, e tem o nome de “DICTAFONE”. A formadora Mariana Dixe é quem escreve e encena a peça “Obrigada por terem vindo”, que será apresentada no GrETUA nos dias 12 e 13 de fevereiro. Na semana seguinte, o designer de iluminação Rui Monteiro dá uma oficina de desenho de luz, que ocorre entre sexta e sábado, dias 20 e 21. A 28, é a vez da artista plástica Sofia Moço Novo ser responsável por uma oficina de iniciação à costura. O músico Pedro Melo Alves, que passará pelo GrETUA em residência artística com o seu projeto POSTPOSTPOST! ao longo do quadrimestre, vai estar a cargo da oficina de multimédia reativa, onde, no dia 15 de março, os participantes vão “desenvolver experiências audiovisuais que reagem em tempo real à música, à voz e ao corpo em movimento através da experimentação com sensores, câmaras, microfones, algoritmos e ferramentas digitais”. A cenógrafa Ana Gormicho encerra o ciclo com uma oficina de cenografia que decorre entre os dias 10 e 11 de abril. O objetivo é que os conhecimentos adquiridos sejam posteriormente postos em prática com a contribuição para a criação anual do GrETUA. O trabalho vai começar a ser preparado já este semestre e culmina na estreia de um espetáculo encenado por Joana Magalhães, em maio. As inscrições para os vários módulos do Kit são limitadas, cada formação tem duração entre cinco e nove horas e custa entre 20 e 30 euros. O Kit completo, que corresponde a 35 horas de formação, tem custo variável entre os 50 e os 150 euros, sendo gratuito para os colaboradores do GrETUA. As formações do quadrimestre não terminam no Kit, uma vez que o GrETUA volta a apresentar os Recursos de Formação Teatral, o segundo momento de formação teatral para a intérpretes promovido pelo grupo. Entre fevereiro e março, são dadas novas formações que servem não só quem já está a frequentar o Curso de Formação Teatral de 2025, mas também novas pessoas que procurem inscrever-se. Este “recurso” conta com módulos de laboratório de criação, voz, interpretação, movimento e sobre o papel do jogo nas artes performativas. O “recurso” completo, que dura um total de 44 horas, tem um custo variável entre os 120 e os 180 euros. Cada módulo individualmente custa entre 30 e 70 euros. O nome mais sonante da programação do GrETUA entre os meses de janeiro e abril é o dos Linda Martini, “velhas glórias do pós-punk”, como os apresenta o grupo. Numa digressão a que chamam de ‘Liga de Clubes’ – um nome que alinha na perfeição com a temática da programação, como faz notar João Garcia Neto -, o concerto da banda, que acontece no próximo dia 5 de fevereiro, quinta-feira, pelas 21h30, é complementado pelo set da DJ Maria Vai Com Todas. No campo musical, destaca-se ainda a passagem do Super Bock Super Nova pelo GrETUA, ainda com artistas e data a anunciar, bem como a atuação dos minhotos “xauxau dôdô”. Os responsáveis dão ainda nota de duas noites tripartidas: uma entre Anastasia Coope, Collignon e Myria, outra com Ahana, Montanha e DJ Artures. Conforme já mencionado, haverá também lugar a uma residência artística de Pedro Melo Alves no âmbito do projeto POSTPOSTPOST!. De acordo com nota de imprensa enviada à Ria, a ideia é “concebida como uma plataforma de pensamento focada nas questões ontológicas do pós-humanismo e toma forma simultaneamente como uma incubadora de arte digital e como uma performance multimédia”. O produto acabado passará pelo GrETUA no final do ano de 2026. Fazendo jus ao tema da programação, o quadrimestre começa com uma noite de jogos de tabuleiro, a 22 de janeiro, com a colaboração da associação aveirense “Ria Joga”. Resta também dizer que, de forma a articular todas as sessões, a agenda-jornal para os primeiros quatro meses do ano contem em si umas palavras cruzadas, cujas pistas podem ser encontradas no bilhete para cada evento. As primeiras três pessoas a enviar uma fotografia das palavras cruzadas completas para [email protected] vão poder escolher um bilhete gratuito para um dos eventos do quadrimestre de maio a julho. No cinema, o ciclo “Juventude Sónica” aparece repartido entre três diferentes sessões: na primeira, são apresentadas as curta-metragens portuguesas “O Banho”, de Maria Inês Gonçalves, “À Tona d’Água”, de Alexander David e “Conseguimos fazer um filme”, de Tota Alves – realizadora que, no final, vai estar à conversa com os presentes; na segunda sessão, é projetado “Gummo”, de Harmony Korine; na terceira, é apresentado o filme “O Espírito de Colmeia”, de Victor Erice. Já no teatro, a principal atração é o espetáculo “Obrigada por terem vindo”, monólogo de Mariana Dixe que vai ser interpretado por Mariana Lobo Vaz. Para além deste espetáculo, Mariana Dixe marca ainda presença em mais uma edição da rubrica “Boca a Boca”, uma rubrica itinerante de leitura de textos de teatro em que, numa outra edição, também vai participar Joana Magalhães. Os percursos “Field Stages” não ficam esquecidos neste quadrimestre depois do arranque em setembro. Se, na primeira edição, a ideia era trazer os alunos da Universidade de Aveiro (UA) a descobrir o espaço que liga a instituição e o GrETUA em linha com a ideia da programação anterior, num exercício de contemplação e descoberta, esta segunda apresentação pretende seguir “o mote do jogo e do lúdico”. Mais voltada para a cidade, “Meio muro em Babel” é um passeio sonoro com dramaturgia de Inês Hermenegildo e com a voz de Pedro Sottomayor. Este quadrimestre contará ainda com a exposição Pista, da autoria de Gonçalo Fialho (UIVO), no teto do foyer do GrETUA. Na dança, o espaço receberá o espetáculo Budô, de Joana Couto e Leo Calvino, que cruza a dança com as artes marciais – no final, acontece uma oficina aberta ao público, conduzida pelos criadores, que cruza as duas realidades. Regressa ainda a rubrica “Fora do Armário”, dedicada aos livros e à literatura, em parceria com a Ria e com a Livraria Snob, que, com a ajuda dos convidados João Paulo Guimarães e Inês Cardoso, também vai procurar o tema do quadrimestre. Todas as reservas e inscrições para os espetáculos e para as formações encontram-se disponíveis em gretua.pt.
UA: DFis celebra 50 anos e diretor alerta para desinteresse na Física e a “lei do menor esforço”
No decorrer da intervenção de João Miguel Dias, o responsável fez notar que, apesar de “o número elevado de alunos [do Departamento] ser crescente nos últimos anos”, houve “problemas” no último ano. Recorde-se que, na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao ensino superior, a quebra no número de candidatos afetou vários cursos da Universidade de Aveiro (UA), como é o caso da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Clima, no DFis, em que apenas um estudante ficou colocado. À margem da sessão, a Ria esteve à conversa com o responsável do Departamento, que caracteriza a situação como “preocupante”. “Sentimos que há um desinteresse das camadas mais jovens pelas áreas da ciência. Os alunos mais novos não percebem a utilidade da ciência, não percebem a necessidade de se esforçarem e estão a enveredar por áreas que requerem menor esforço (…) Uma área como a Física requer fortes conhecimentos matemáticos, de física, de matemática… É impossível dominar estas áreas sem bastante trabalho”, sublinha. O desafio do DFis é “inverter a situação” para que as camadas mais jovens “percebam que o esforço compensa”. Identificada uma crescente procura pelas áreas da gestão, da economia ou das ciências sociais, que João Miguel Dias considera também “muito importantes”, é necessário “mostrar aos jovens a importância da diversificação e que o conhecimento em física é muito importante”. Não obstante, o diretor considera que os alunos “procuram cada vez mais o que é imediato” e que, por isso, “é difícil passar uma mensagem numa sociedade que está pela lei do menor esforço”. Por seu lado, Paulo Jorge Ferreira, reitor da UA, centrou o seu discurso no futuro do Departamento. Nas palavras do responsável, é consensual que “estamos num momento de extraordinária importância para a física e para a ciência em geral”. Parte disso, destaca, passa pela aposta na Inteligência Artificial. Dando nota do efeito que esta ferramenta tem na ciência, Paulo Jorge Ferreira mencionou o caso do ‘AlphaFold’, que valeu o prémio Nobel da Química 2024 a Demis Hassabis e John Jumper. O programa criado pelos investigadores da Google DeepMind permitiu prever a estrutura tridimensional de uma proteína a partir de uma determinada sequência de aminoácidos. Segundo refere, este foi “o primeiro grande problema a ser resolvido com a ajuda da Inteligência Artificial” e motivou um “acelerar enorme do progresso” na área. Como na Química, o reitor sublinha que “um Departamento de Física é uma peça-chave da nossa realidade”. “Estamos num momento de viragem e tenho a inteira certeza de que o Departamento se irá adaptar-se de forma exemplar, como fez nas últimas cinco décadas”, sublinha. À conversa com a Ria, João Miguel Dias foi cauteloso na forma como se exprimiu sobre o tema: “[A IA] veio para ficar, quem achar o contrário está redondamente enganado. Vai-nos permitir chegar mais longe, (…) mas não veio para nos substituir”. Para o diretor do Departamento, é necessário um “espírito muito crítico” sobre os resultados que se obtêm da Inteligência Artificial, algo que só é possível se houver conhecimento de base. Segundo avalia, “sem o conhecimento de base passaremos a ser meros recipientes do que a IA nos dá. Um mero recipiente não vai fazer avançar o conhecimento, (…) precisamos de somar em cima do que já sabemos”. Entre outros desafios para o futuro, o responsável do DFis referiu a necessidade de trazer de volta os estudantes para o ensino presencial: “Muitas vezes os alunos têm uma perceção de que basta estarem nas redes sociais, na Inteligência Artificial, no Google ou no YouTube e encontram informação. Esquecem-se de que é muito importante o convívio, a interação e que o conhecimento só se obtém de forma consolidada”. Para o campo da investigação, destaca a aposta em novos materiais e equipamentos de topo para os centros de investigação. Entre as áreas apontadas como prioritárias para o futuro, João Miguel Dias mencionou os semicondutores, a modulação, as redes, a ótica, a metodologia, a cinografia, a análise de riscos, a adaptação às alterações climáticas e a sustentabilidade. Quem também falou foi Helena Nazaré, professora emérita do Departamento e antiga reitora da Universidade de Aveiro. A docente recordou os primeiros tempos do Departamento e, à semelhança do diretor, aproveitou para deixar uma palavra a Manuel Fernandes Thomaz. Nas suas palavras, o já falecido ‘pai’ do DFis era uma “pessoa afável”, mas que, “quando franzia o sobrolho, punha em sentido”. A professora disse também ter sido convidada por João Miguel a participar com um artigo de opinião na coluna semanal de textos que será publicado no Diário de Aveiro. Com o título “Para que serve a Física?”, Helena Nazaré adianta escrever que “a física tem de ser entendida como parte da formação universitária”. Na sua ótica, a área vai além do trabalho realizado em laboratório, mas deve ser entendida como uma “experiência da mente” que mede impactos na sociedade. Como exemplo refere a Teoria da Relatividade ou a experiência do Gato de Schrödinger: “Ninguém meteu o gato na gaiola nem ninguém o tapou, mas alguém foi capaz de imaginar isso”. A sessão serviu ainda para apresentar Linha do Tempo do DFis, um projeto onde é apresentada toda a cronologia da atividade do Departamento de Física da Universidade de Aveiro desde o seu nascimento. No programa de aniversário, que se estende ao longo de todo ano, constam também iniciativas como o ciclo de debates “Física à Conversa”, o patrocínio às equipas desportivas do Núcleo de Estudantes de Engenharia Física (NEEF) e do Núcleo de Estudantes de Ciências do Mar (NECM) na Taça UA ou a inauguração de oito novos laboratórios de investigação no Complexo Interdisciplinar de Ciências Físicas Aplicadas à Nanotecnologia e à Oceanografia (CICFANO).
GrETUA recebe 7ª sessão do projeto artístico “Espantar o Caos”
Segundo uma nota enviada à Ria, a iniciativa foi guiada por João Garcia Neto, diretor artístico do GrETUA, que apresentou o espaço e o seu trabalho. “Espantar o Caos” é um projeto artístico e educativo que nasceu da parceria da Fundação de Serralves com a Câmara de Vagos, com o objetivo de “criar um novo espaço dedicado à cultura e à inclusão”. A ação dirige-se a pessoas que experienciam a doença mental grave. No total, o projeto propõe um conjunto de 12 sessões “para a criação de uma coleção de obras originais, reunida num catálogo final que dará visibilidade pública às criações e aos seus autores”. De acordo com o comunicado, para além do valor estético, o projeto afirma-se ainda como um “gesto de reconhecimento e de reflexão coletiva” através da conversão da experiência em expressão artística, da promoção da autoestima, do diálogo com a comunidade e de uma consciência renovada sobre a saúde mental e cidadania. “Espantar o Caos afirma a arte como espaço de encontro, espanto e reconstrução simbólica”, remata.
Estudantes de Medicina da UA passam a integrar a ANEM como membros observadores
Segundo a notícia publicada no site da UA, com esta adesão, os estudantes da MIM-UA passam a estar representados a “nível nacional e internacional, podendo, no futuro, após a passagem pelo estatuto de Membros Observadores, participar de forma mais direta nas discussões sobre políticas de ensino médico e nos processos de tomada de decisão que influenciam a experiência dos mesmos no ensino médico em Portugal”. Entre as vantagens estão a “integração numa rede nacional de estudantes de Medicina, bem como a possibilidade de participação em programas de intercâmbio e projetos de educação médica e saúde pública, que complementam a formação académica e promovem o desenvolvimento pessoal e profissional dos estudantes”. A entrada na ANEM permite ainda uma “maior visibilidade” do MIM-UA no contexto do ensino médico nacional. A UA destaca ainda que no último Congresso Nacional de Estudantes de Medicina, iniciativa promovida pela ANEM, os estudantes do 1º e 2º anos do MIM-UA já participaram. A ANEM é o órgão representativo dos estudantes de Medicina em Portugal. A associação congrega diferentes núcleos de estudantes dos cursos de Medicina do país e assume-se como um “papel ativo na defesa dos interesses dos alunos, na promoção da qualidade do ensino médico e no desenvolvimento de projetos de âmbito académico, científico e social”.
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GrETUA arranca 2026 a “jogar” com Linda Martini e promove kit de sobrevivência de criação artística
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Casa Martelo fecha portas no centro de Aveiro após quase oito décadas por falta de clientes
Marina Vieira era, até recentemente, a gerente da Casa Martelo, uma drogaria situada na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, número 137, em pleno centro da cidade. O estabelecimento encontrava-se naquele local há cerca de 75 anos, embora, em conversa com a Ria, a gerente admita que a casa é ainda mais antiga, uma vez que abriu portas inicialmente na Rua Eça de Queirós. O negócio foi fundado pelo avô de Marina e passou posteriormente para o seu pai. Contudo, devido a problemas de saúde, este acabou por se afastar, o que levou Marina a entrar no negócio de forma algo "forçada". Arqueóloga de formação, partilha, entre risos, que chegou a frequentar cursos de gestão e marketing para conseguir acompanhar as exigências da atividade comercial. Na última semana de 2025, Marina teve de tomar a decisão que mais temia: encerrar a Casa Martelo, consequência direta da falta de clientes. Desde o primeiro dia de 2026, encontra-se afixada na porta uma folha com dois números de contacto apenas para transportadoras. O cenário atual confirma o encerramento definitivo: através dos vidros é possível ver caixas de papel empilhadas, um sinal claro de que a histórica casa fechou as suas portas. Apesar de o encerramento só se ter concretizado agora, Marina Vieira sublinha que o problema é bem anterior. Remonta a “cerca de década e meia” atrás, período em que, segundo a aveirense, o centro da cidade se encontrava “extremamente desagradável”. “O facto de estarmos no centro da cidade fez com que tivéssemos cada vez menos clientes. O centro esteve muitos anos em declínio. Hoje está novamente melhor do ponto de vista urbanístico- mais bonito e com mais pessoas-, mas há década e meia aquela zona estava extremamente degradada e não era apelativa”, afirma. Na tentativa de contrariar esse cenário, conta que a Casa Martelo chegou a procurar “reinventar-se e resistir”, tendo fundado, juntamente com outros comerciantes, a Associação Acorda, que abrangia a Rua Direita e áreas adjacentes. “Tinha dois significados: ‘acorda para a vida’ e também ‘a corda’, porque achávamos que juntos conseguiríamos fazer algo melhor ali, naquela zona”, recorda. A iniciativa resultou numa “série de atividades” e na realização de eventos, entre os quais o Vivó Bairro, desenvolvido em parceria com a Universidade de Aveiro. “Tentámos dar mais vida àquela zona, mas, efetivamente, as condições globais não são propícias ao comércio de proximidade”, reconhece. Entre os principais constrangimentos, aponta a “falta de mobilidade suave na cidade”. “As pessoas esperam chegar de carro a todo o lado”, refere. Ainda assim, sublinha que existia um parque de estacionamento mesmo ao lado do estabelecimento, que raramente era utilizado. “Chegámos a oferecer o estacionamento no parque e, mesmo assim, eram poucas as pessoas que lá colocavam o carro, porque não gostavam das condições existentes”, explica. Marina Vieira garante que a Casa Martelo não sofria de falta de notoriedade. “As pessoas sabiam que éramos a Casa Martelo, o que vendíamos, mas não chegavam até nós”, afirma. A escassez de transportes públicos e de infraestruturas cicláveis é, para si, determinante. “Quando as pessoas circulam a pé ou de bicicleta têm muito mais tendência a consumir no comércio de proximidade. Aqui assistimos, ao longo dos anos, a uma progressiva desertificação do centro da cidade por parte dos aveirenses”, observa. Ainda que o problema já seja bastante anterior, a gerente garante que a principal batalha do negócio começou com a chegada da Covid-19. “Foi realmente quando nós notamos o maior declínio”, admite. Após cerca de seis anos a situação não melhorou o que ditou ao encerramento no início deste ano. “Quando não se tem clientes, mesmo que se tenha feito o possível e o impossível,não se consegue manter uma casa aberta que não consegue pagar os salários dos funcionários”, reage. Atualmente, empregava seis pessoas. “A pessoa que estava há menos tempo estava desde o início do século, portanto, os trabalhadores já faziam parte da família e foi sempre a pensar neles que se continuou a lutar para que as portas estivessem abertas, mas realmente não foi possível mais tempo”, lamenta. Agora, restando apenas um papel afixado na porta, Marina refere que os últimos dias têm sido marcados por uma verdadeira enchente de chamadas. Partilha também que tem acompanhado as diferentes reações nas redes sociais. “Há uns anos, no Natal, ainda durante a pandemia, fizemos um vídeo sobre as pessoas se lembrarem de nós antes de fecharmos e, na altura, esse vídeo teve alguns milhares de visualizações. Acho que muitas pessoas acreditam que as coisas são eternas e não percebem que, por vezes, é mesmo preciso acarinhar aquilo de que se gosta para que continue a existir”, exprime. Questionada sobre um eventual regresso da Casa Martelo no futuro, Marina Vieira descarta “de todo” essa possibilidade. “A partir do momento em que encerramos, já não faz sentido voltar a abrir. Sinto que cumpri a missão de levar esta casa até onde foi possível, uma casa que já tinha quase oito décadas”, sublinha. Deixa ainda um alerta para o futuro de Aveiro: “A cidade não está planeada para as pessoas e não está planeada para que os aveirenses vivam o centro da cidade”. Por fim, prestes a terminar a conversa e antes de as portas da Casa Martelo se fecharem, novamente, pedimos a Marina que nos fizesse chegar uma fotografia sua no estabelecimento. Apesar de ter algumas sozinha, preferiu enviar uma em que, além dela, surgem todos os funcionários que integraram a casa. Justifica que, para si, essa imagem faz mais sentido, já que foram sempre eles os verdadeiros rostos do negócio.
Ribau Esteves apresentou plano de ação para a CCDR-C com promessa de “uma nova dinâmica de trabalho”
O documento a que a Ria teve acesso, intitulado “Linhas Gerais de Ação 2026/2029 da CCDRC”, foi enviado a todos os membros das Câmaras Municipais, Assembleias Municipais e Juntas de Freguesia da região abrangida pela comissão: as pessoas que escolhem o principal representante da CCDRC. Recorde-se que José Ribau Esteves, ex-presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA), é candidato único à presidência do órgão nas eleições do próximo dia 12 de janeiro, segunda-feira, e deve fazer-se acompanhar dos vice-presidentes Nuno Nascimento e Jorge Conde – o primeiro a ser eleito pelos presidentes de Câmara e o segundo a ser eleito no Conselho Regional. De acordo com a reorganização em curso, o Governo deve ainda designar outros cinco vice-presidentes. No texto enviado constam 14 pontos que constituem, cada um, prioridades para a ação da CCDRC. De acordo com Ribau Esteves, o objetivo é “imprimir uma nova dinâmica de trabalho e de relevância institucional e política da CCDRC”. De entre as propostas do ex-autarca, destaca-se a ideia do “desenvolvimento de uma operação especial de gestão dos Fundos Comunitários do PRR e do Centro 2030, com pressão na execução”. Da mesma forma, o candidato quer preparar o Quadro Pós-2027, “com o devido enquadramento no Quadro Financeiro Plurianual 2028/2034 da União Europeia”. Com a nova reorganização do órgão, Ribau Esteves prioriza também o “desenvolvimento dos processos conducentes à boa instalação das novas áreas de trabalho da CCDRC, nomeadamente Educação e Saúde”. Por outro lado, propõe ainda a “concretização de uma Agenda Especial sobre a Floresta da Região Centro” com “todas as entidades públicas e privadas relevantes” e defende a “criação de um Conselho de Aconselhamento e Reflexão, constituído pelo presidente e pelos ex-presidentes da CCDRC”. Noutros pontos, o candidato único à presidência da comissão propõe ainda estudos e projetos com a participação direta das Instituições de Ensino Superior da região, “realização de um ponto de situação de organização e atividades da CCDRC e de um Plano de Ação 2026, com partilha de resultados com o Conselho Regional, no primeiro trimestre de 2026” ou a “realização do Congresso da Região Centro de dois em dois anos”.
UA: DFis celebra 50 anos e diretor alerta para desinteresse na Física e a “lei do menor esforço”
No decorrer da intervenção de João Miguel Dias, o responsável fez notar que, apesar de “o número elevado de alunos [do Departamento] ser crescente nos últimos anos”, houve “problemas” no último ano. Recorde-se que, na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao ensino superior, a quebra no número de candidatos afetou vários cursos da Universidade de Aveiro (UA), como é o caso da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Clima, no DFis, em que apenas um estudante ficou colocado. À margem da sessão, a Ria esteve à conversa com o responsável do Departamento, que caracteriza a situação como “preocupante”. “Sentimos que há um desinteresse das camadas mais jovens pelas áreas da ciência. Os alunos mais novos não percebem a utilidade da ciência, não percebem a necessidade de se esforçarem e estão a enveredar por áreas que requerem menor esforço (…) Uma área como a Física requer fortes conhecimentos matemáticos, de física, de matemática… É impossível dominar estas áreas sem bastante trabalho”, sublinha. O desafio do DFis é “inverter a situação” para que as camadas mais jovens “percebam que o esforço compensa”. Identificada uma crescente procura pelas áreas da gestão, da economia ou das ciências sociais, que João Miguel Dias considera também “muito importantes”, é necessário “mostrar aos jovens a importância da diversificação e que o conhecimento em física é muito importante”. Não obstante, o diretor considera que os alunos “procuram cada vez mais o que é imediato” e que, por isso, “é difícil passar uma mensagem numa sociedade que está pela lei do menor esforço”. Por seu lado, Paulo Jorge Ferreira, reitor da UA, centrou o seu discurso no futuro do Departamento. Nas palavras do responsável, é consensual que “estamos num momento de extraordinária importância para a física e para a ciência em geral”. Parte disso, destaca, passa pela aposta na Inteligência Artificial. Dando nota do efeito que esta ferramenta tem na ciência, Paulo Jorge Ferreira mencionou o caso do ‘AlphaFold’, que valeu o prémio Nobel da Química 2024 a Demis Hassabis e John Jumper. O programa criado pelos investigadores da Google DeepMind permitiu prever a estrutura tridimensional de uma proteína a partir de uma determinada sequência de aminoácidos. Segundo refere, este foi “o primeiro grande problema a ser resolvido com a ajuda da Inteligência Artificial” e motivou um “acelerar enorme do progresso” na área. Como na Química, o reitor sublinha que “um Departamento de Física é uma peça-chave da nossa realidade”. “Estamos num momento de viragem e tenho a inteira certeza de que o Departamento se irá adaptar-se de forma exemplar, como fez nas últimas cinco décadas”, sublinha. À conversa com a Ria, João Miguel Dias foi cauteloso na forma como se exprimiu sobre o tema: “[A IA] veio para ficar, quem achar o contrário está redondamente enganado. Vai-nos permitir chegar mais longe, (…) mas não veio para nos substituir”. Para o diretor do Departamento, é necessário um “espírito muito crítico” sobre os resultados que se obtêm da Inteligência Artificial, algo que só é possível se houver conhecimento de base. Segundo avalia, “sem o conhecimento de base passaremos a ser meros recipientes do que a IA nos dá. Um mero recipiente não vai fazer avançar o conhecimento, (…) precisamos de somar em cima do que já sabemos”. Entre outros desafios para o futuro, o responsável do DFis referiu a necessidade de trazer de volta os estudantes para o ensino presencial: “Muitas vezes os alunos têm uma perceção de que basta estarem nas redes sociais, na Inteligência Artificial, no Google ou no YouTube e encontram informação. Esquecem-se de que é muito importante o convívio, a interação e que o conhecimento só se obtém de forma consolidada”. Para o campo da investigação, destaca a aposta em novos materiais e equipamentos de topo para os centros de investigação. Entre as áreas apontadas como prioritárias para o futuro, João Miguel Dias mencionou os semicondutores, a modulação, as redes, a ótica, a metodologia, a cinografia, a análise de riscos, a adaptação às alterações climáticas e a sustentabilidade. Quem também falou foi Helena Nazaré, professora emérita do Departamento e antiga reitora da Universidade de Aveiro. A docente recordou os primeiros tempos do Departamento e, à semelhança do diretor, aproveitou para deixar uma palavra a Manuel Fernandes Thomaz. Nas suas palavras, o já falecido ‘pai’ do DFis era uma “pessoa afável”, mas que, “quando franzia o sobrolho, punha em sentido”. A professora disse também ter sido convidada por João Miguel a participar com um artigo de opinião na coluna semanal de textos que será publicado no Diário de Aveiro. Com o título “Para que serve a Física?”, Helena Nazaré adianta escrever que “a física tem de ser entendida como parte da formação universitária”. Na sua ótica, a área vai além do trabalho realizado em laboratório, mas deve ser entendida como uma “experiência da mente” que mede impactos na sociedade. Como exemplo refere a Teoria da Relatividade ou a experiência do Gato de Schrödinger: “Ninguém meteu o gato na gaiola nem ninguém o tapou, mas alguém foi capaz de imaginar isso”. A sessão serviu ainda para apresentar Linha do Tempo do DFis, um projeto onde é apresentada toda a cronologia da atividade do Departamento de Física da Universidade de Aveiro desde o seu nascimento. No programa de aniversário, que se estende ao longo de todo ano, constam também iniciativas como o ciclo de debates “Física à Conversa”, o patrocínio às equipas desportivas do Núcleo de Estudantes de Engenharia Física (NEEF) e do Núcleo de Estudantes de Ciências do Mar (NECM) na Taça UA ou a inauguração de oito novos laboratórios de investigação no Complexo Interdisciplinar de Ciências Físicas Aplicadas à Nanotecnologia e à Oceanografia (CICFANO).