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IA na UA: Reitoria quer integração contra desejo de proibir, mas alunos criticam falta de preparação

A visão da Reitoria da Universidade de Aveiro (UA) sobre o uso da Inteligência Artificial no Ensino Superior não é consensual dentro da instituição. Houve até um professor que subscreveu o “Manifesto contra o uso da ‘inteligência’ artificial generativa”. Em conversa com a Ria, o docente Miguel Viegas fala de um “grito de alerta”, enquanto a vice-reitora Sandra Soares defende o caminho que a Universidade tem vindo a fazer. Os estudantes apontam que o corpo docente não está preparado.

IA na UA: Reitoria quer integração contra desejo de proibir, mas alunos criticam falta de preparação
Gonçalo Pina

Gonçalo Pina

28 jan 2026, 14:04

A discussão foi desencadeada pelo “Manifesto contra o uso da ‘inteligência’ artificial generativa”, subscrito por 28 professores de instituições de Ensino Superior de Norte a Sul do país. Conforme noticiado pela Ria, os docentes querem “promover a humanização do Ensino Superior e banir o uso da Inteligência Artificial Generativa (IA) nos processos de ensino-aprendizagem”.

Entre as quase três dezenas de docentes subscritores do documento está Miguel Viegas, do Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo (DEGEIT).“Isto tem a ver com o estímulo de determinadas partes do cérebro que depois são fundamentais para garantir o processo de aprendizagem, mas também para garantir a tal capacidade do cérebro de raciocínio que depois o aluno leva para a sua vida profissional. Portanto, é mais na questão do processo de aprendizagem do que banir uma ferramenta de forma universal, coisa que não fazia sentido”, refletiu.

Da mesma forma, o docente, pegando no exemplo da programação informática, explica que “é fundamental que numa primeira fase (…), haja um espaço na aula em que o aluno seja obrigado (…) a escrever o código, passo por passo, para que ele entenda a lógica intrínseca da programação. (…) É este passo que não podemos eliminar”.

Para já, Miguel Viegas entende que o objetivo inicial do manifesto “está cumprido”, uma vez que já foi suscitada a discussão sobre o tema. Pela forma como a questão tem motivado a atenção da comunicação social e de algumas figuras públicas, o docente acredita que foi possível chamar a atenção para a questão e “interpelar as pessoas”. “Estou em diálogo com o Luís Aguiar-Conraria, que escreveu uma crónica no Expresso e que pegou nesta questão. Enviei-lhe um mail a responder (…) e já estamos a convergir”, adiantou.

Quem também já reagiu foi Paulo Jorge Ferreira, reitor da Universidade de Aveiro, e Joana Regadas, presidente da direção da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), que abordaram a questão na passada sexta-feira, dia 23, na sessão de tomada de posse dos novos órgãos sociais da AAUAv. Para a dirigente estudantil, “é com alguma estranheza” que vê que as instituições de Ensino Superior sejam “um dos meios com mais receio dos avanços tecnológicos”. “As universidades devem ser espaços de promoção de inovação, não espaços com receio de mudanças”, defendeu.

Por seu lado, Paulo Jorge Ferreira considerou que, “se a sociedade usa certas ferramentas, é nosso dever e obrigação facultar aos nossos estudantes acesso e conhecimento acerca dessas ferramentas” e frisou que este tipo de pensamento “nunca vingará” na Universidade de Aveiro.

Tal como avançado pelo Notícias UA, desde o início do ano, a Universidade de Aveiro está a disponibilizar “à sua comunidade o acesso gratuito a serviços de inteligência artificial através da plataforma IAEdu, no âmbito de uma parceria com a FCCN”. A ação destina-se a “estudantes, docentes, investigadores e pessoal técnico, administrativo e de gestão”.

Às declarações do reitor, Miguel Viegas responde que o pensamento “vinga” na instituição, uma vez que o próprio pensa assim e trabalha na UA. Para o docente, a existência do contraditório é positiva, embora seja necessária “uma síntese (…), uma fórmula integradora que, no fundo, possa integrar um conjunto de preocupações que não podemos ignorar”.

Ao defender que o “aspeto disruptivo” da inteligência artificial vai alterar o paradigma da sala de aula e que isso merece uma reflexão, o professor aponta que se avizinham vários perigos para além da não capacitação dos alunos. “Ao pedir ao ChatGPT para me fazer uma pequena revisão, corrigir o português, traduzir o inglês… este conteúdo deixa de ser meu. (…) Eu estou, de forma inocente, a colocar conhecimento produzido por mim, que depois poderá (…) ser reproduzido por outras pessoas noutros contextos”, acrescentou.

No mesmo sentido, Miguel Viegas alerta que “se abraçarmos de forma acrítica esta onda avassaladora que aí vem, corremos o risco de ficar reféns de interesses que estão muito acima de nós. (…) Estamos a falar de uma tecnologia que é controlada por meia dúzia de empresas e que, no fundo, se não tivermos cautela (…), pode levar para coisas extremamente delicadas e perigosas”. Outro risco assumido pelo docente prende-se com os impactos ambientais da IA, dada a “pegada ecológica que representa”.

Sandra Soares defende integração da IA e explica que a UA tem promovido formação de docentes

A recusa do manifesto por parte do reitor foi também abraçada por Sandra Soares, vice-reitora responsável pelas matérias atinentes ao ensino e formação na UA, que diz que a postura é “absolutamente transversal” a toda a Universidade. “A proibição não nos parece ser o caminho razoável quando a IA já está integrada nas mais diversas plataformas ou aplicações. Para além de que sabemos que é usada no contexto de trabalho e é nossa obrigação enquanto instituição preparar os estudantes para esses contextos”, refletiu.

Segundo explica, desde 2019 que tem sido desenhada uma estratégia no seio da instituição no sentido de apoiar os professores nas transformações tecnológicas do ensino.

No contexto da inteligência artificial, a responsável destaca que, no passado mês de dezembro, foi lançada a AcademIA, “um programa que tem uma série de ações (…), dedicado a apoiar os docentes, a transformar as suas práticas, usando a IA para um uso ético e responsável e para uma perspetiva não mecânica de uso”. No mesmo sentido, sublinha que existe uma “comunidade prática IA, em que docentes de diversas áreas partilham recursos e reflexões sobre o uso da inteligência artificial nas suas práticas pedagógicas”.

Além dos “inúmeros programas de desenvolvimento pedagógico” que, diz Sandra Soares, a UA tem desenvolvido, as preocupações dos docentes não se esgotam na forma como lecionam e passam também por adaptar as avaliações às novas tecnologias. Conforme aponta, “o relevante não é introduzir IA apenas, mas reconfigurar competências através de práticas ricas em interpretação, comparação”. “Os docentes não podem ficar sossegados no conforto das suas práticas de sempre, precisam de conhecer e saber como usar [IA] da melhor forma”, atentou a vice-reitora.

Por seu lado, o professor Miguel Viegas considera que a formação que tem sido dada aos docentes da Universidade de Aveiro “é mais na ótica do utilizador”. “Nós vamos assistindo a formações que nos ajudam a perceber como é que esta ferramenta trabalha e como é a outra ferramenta, mas, relativamente aos riscos, e, sobretudo, relativamente às cautelas que é necessário ter, eu acho que ainda há muito trabalho a fazer”, acrescentou.

Não obstante, o professor nota que a UA tem procurado constituir um comité para redigir um código de conduta sobre esta matéria, pelo que reconhece que a instituição “está atenta a este problema”.

Sandra Soares “lamenta” as críticas do professor do DEGEIT e nota que, nas várias formações que têm sido dadas, “nunca as questões de natureza ética e uso responsável não foram a tónica”. Seguindo a mesma lógica, a vice-reitora argumenta que os objetivos do programa AcademIA estão focados na reflexão crítica, no uso ético e pedagógico das ferramentas em causa.

“No contexto do Conselho Nacional de Inovação Pedagógica - que integro e onde tenho a oportunidade de coordenar o grupo de IA na Educação - estamos a finalizar um diagnóstico relativamente a estas questões para depois fazer sugestões à tutela. Desse diagnóstico percebemos que o que mais maduro está [no Ensino Superior global] é a dimensão do uso ético e responsável”, nota a professora.

Estudantes relatam pouca integração de IA nas aulas e dizem que professores “não estão formados” para as novas ferramentas

No Campus da Universidade, os estudantes que falaram com a Ria não reconhecem o esforço da UA para a formação do corpo docente no uso da IA. É o que diz Vasco Mil-Homens, estudante da Licenciatura em Biologia na Universidade de Aveiro, que diz que, do lado dos professores, “não há incentivo, não explicam como é que podia ser utilizada [a IA]” e “podia haver mais” preocupação com as questões éticas em torno da tecnologia.

A frequentar a mesma licenciatura, Lua Feliciano relata que já houve uma professora que, em duas cadeiras diferentes, procurou dar tarefas que envolvam a Inteligência Artificial e, por isso, admite que já há quem tente ensinar “a usar a IA não como resposta, mas como ajuda”. Não obstante, a maioria dos docentes tenta “oprimir ao máximo” o uso das ferramentas em contexto de sala de aula e tenta esconder as suas potencialidades. “Parece um tabu. (…) Se não falarem, parece que nós não as estamos a usar. (…) [Dentro da sala de aula] não é tema”, reflete.

Recém-chegado à Universidade de Aveiro, João Ferreira, da licenciatura em Engenharia Mecânica, conta também que não tem sido instruído sobre a utilização de IA ao longo do primeiro semestre. Embora explique que é algo que todos usam e que já é tido como “mais uma ferramenta que está na mochila quando vamos para as aulas”, o estudante não vê que esta seja uma preocupação dos professores, que continuam a usar “os mesmos powerpoints de há cinco anos”.

O aluno do Departamento de Engenharia Mecânica afirma que só uma professora tem incentivado o uso de Inteligência Artificial, mas sem uma orientação para que tipo de ferramentas usar em cada circunstância. Ainda sem ter visto docentes a orientar para a utilização das ferramentas, João Ferreira “espera” que seja algo que aconteça ao longo do curso.

Em Engenharia Computacional, Miguel Vicente admite que já começa a haver alguma abertura da parte dos professores para as novas tecnologias. Segundo afirma, é dito que a IA é “importante”, embora “sem abusar”, e que deve ser feita sempre ser feita referência à utilização. No entanto, o estudante também diz que os professores “não ensinam” como recorrer à Inteligência Artificial e que a componente ética “ainda não foi muito incutida”.

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