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Nuno Quintaneiro acusa CMA de ter “muito receio político de dar a mão ao Beira-Mar”

No decorrer da Assembleia Geral de sócios do Sport Clube Beira-Mar que aconteceu na passada sexta-feira, dia 17, Nuno Quintaneiro, presidente da direção do clube, teceu várias críticas à ação do atual executivo municipal. O dirigente, que chegou a um entendimento com a autarquia sobre o uso do Estádio Municipal de Aveiro e da Academia do Beira-Mar por uma futura Sociedade Desportiva, diz que solução “não é ideal” e sente que o executivo da Câmara Municipal de Aveiro (CMA) não reconhece que deve “apoiar estrategicamente” o Beira-Mar como “maior clube de Aveiro”.

Nuno Quintaneiro acusa CMA de ter “muito receio político de dar a mão ao Beira-Mar”

O principal ponto da Assembleia Geral de sócios da passada segunda-feira prendia-se com a apreciação e votação de alterações à Proposta de Constituição da Sociedade Desportiva aprovada em 16 de maio de 2025 – alterações que acabaram por ser aprovadas por unanimidade. Para além do que Nuno Quintaneiro já tinha adiantado à Ria, foi também acrescentada uma adenda no ponto 6 com as condições que a CMA acordou com o clube para a utilização do Estádio e da Academia após a constituição da Sociedade Desportiva. A negociação entre as partes, recorde-se, aconteceu a propósito da negociação do clube com Marcel Boekhoorn, que acabou por falhar.

Conforme descrito pelo presidente do clube, o entendimento prevê, entre outras coisas, a duração inicial do contrato de 10 anos, com períodos de renovação, e os “valores de comparticipação e despesas gerais [mil euros mensais] com uma taxa de atualização que pode ir até ao limite 2% no Campeonato de Portugal e na Liga 3 e 5% na Primeira Liga e na Liga 2”.

“Não subscrevo estas condições. Não eram as condições que nós achávamos mais sensatas e mais moderadas para a utilização destas infraestruturas, sobretudo aqui a questão do Estádio”, apontou Nuno Quintaneiro.

O presidente afirmou que “tentou sensibilizar a autarquia” para o histórico da relação entre a Câmara e o clube, marcado pelo abandono do antigo Estádio Mário Duarte, aquando da construção do novo estádio para o Euro 2004. Quintaneiro lembrou que a ida para a Municipal de Aveiro correspondeu a um “desígnio do Município”, que não quis perder o “comboio” do Euro, contra a vontade dos sócios do clube e que, para convencer o Beira-Mar, foi necessário um protocolo que definia o pagamento de 500 mil euros por ano ao clube. Na altura, em 2003, o protocolo estabelecia também que a autarquia ficava com a gestão dos camarotes, de três mil lugares de bancada e de uma segunda linha de publicidade.

Desde 2016, segundo Nuno Quintaneiro, o SC Beira-Mar paga 1.500 [+ IVA] euros mensais à autarquia – um valor que Luís Souto, presidente da Câmara Municipal de Aveiro, disse ser uma “ninharia”, nas palavras do dirigente do clube. “Não. Qualquer euro que o Beira-Mar pague é muito caro. Já houve um tempo em que o Beira-Mar recebia 500 mil euros para jogar aqui. Agora não só não recebe 500 mil, mas ainda paga 1.500”, reagiu Nuno Quintaneiro.

O facto de o Campeonato de Portugal ser “altamente deficitário” também foi algo que o presidente do SC Beira-Mar usou para tentar sensibilizar a Câmara Municipal durante as negociações. Conforme explicou durante a Assembleia, a competição está “escondida” e os patrocinadores “não veem benefício económico” em apostar no clube, ao passo que cada jogo em casa significa uma despesa fixa “à volta dos 1.500 euros” e a receita “mal chega” para a cobrir.

Apresentados estes argumentos, Nuno Quintaneiro disse que sentiu “boa vontade” da parte de quem gere a autarquia, mas também “muito receio político de dar da mão ao Beira-Mar, de dizer que o Beira-Mar é o clube mais importante da cidade e uma agente estruturante para o desenvolvimento desportivo e social” do Município.

Recordando que, nas imediações do estádio, está prevista a construção de um novo Centro Comercial por parte da Visabeira, do novo Pavilhão Municipal Oficina do Desporto - cuja empreitada já foi adjudicada por 22 milhões de euros à ATLÂNTINÍVEL – Construção Civil, Lda. – e que já foi aprovado, em Assembleia Municipal, o Plano de Pormenor do Parque Desportivo de Aveiro (PDA), Nuno Quintaneiro assinala que a cidade beneficia de um Beira-Mar que dê vida àquele espaço.

“Quando nós pensamos em alavancar toda uma zona de território, é fundamental haver agentes ativos nessa zona que tragam para aqui pessoas. Obviamente, o Beira Mar tem de ser visto como um parceiro do Município também para o desenvolvimento desta zona. Para o ser, precisa de estar vivo, precisa de estar pujante e atrativo”, remata o presidente.

Assim sendo, no que aos pressupostos diz respeito, Nuno Quintaneiro reiterou que as condições estabelecidas “não são as melhores, são as possíveis”, e disse que não sabe se poderão ser dissuasoras da vinda de novos parceiros. Não obstante, o dirigente notou que o acordo tinha sido aceite por Marcel Boekhoorn durante a negociação e garantiu que, caso se venha a verificar que é motivo de “desmotivação” para um futuro possível investidor, o Beira-Mar vai “forçar politicamente” a revisão junto da Câmara.

Na sequência da última negociação, de acordo com Nuno Quintaneiro, o executivo municipal tinha-se comprometido também a ajudar o investidor [na altura, Marcel Boekhoorn] na procura de terrenos para a construção do novo Centro de Alto Rendimento previsto no acordo para a constituição de uma sociedade desportiva.

Beira-Mar queixa-se de falta de fundos públicos para o desporto: Nuno Quintaneiro considera que clubes de Aveiro estão em “profunda desvantagem” em relação ao resto da região

À boleia da discussão sobre as condições estabelecidas com a Câmara Municipal, Nuno Quintaneiro disse também ter tentado “flexibilizar” o valor de 1.500 euros + IVA anual que o clube paga à autarquia, mas não sentiu “muita abertura”. Reagindo à postura do executivo, o dirigente apontou que o valor não o chocaria se houvesse um “apoio efetivo” da Câmara ao clube.

“A crítica não tem a ver com o Beira-Mar, tem a ver com o desporto em Aveiro. Quando colocamos os clubes de Aveiro em patamar concorrencial com os clubes de São João da Madeira, Santa Maria da Feira, Oliveira do Bairro, Estarreja, Mealhada… nós estamos em perfeita desvantagem em termos de apoios públicos, é uma diferença brutal”, frisou.

Embora exemplificando com um clube de fora da região, Nuno Quintaneiro levantou o caso do Basquete Clube de Barcelos, que subiu este ano do CN1 [terceira divisão do basquetebol, a mesma em que milita o SC Beira-Mar] e que recebe, segundo afirma, “100 mil euros” da autarquia. Por outro lado, os aveirenses apenas contam com “17 mil euros” vindos dos cofres da Câmara para a sua secção de basquetebol.

“Quando querermos dizer «Aveiro quer apostar no desporto»… Nada contra o programa “Aveiro em movimento” [mais voltado para o desporto informal, no sentido de “combater o sedentarismo, reduzir fatores de risco e promover uma população mais ativa e saudável”], mas a aposta no desporto tem de começar pelas associações e pelos clubes que promovem a atividade desportiva diariamente junto da sua população”, defendeu o presidente do Beira-Mar.

O presidente insiste que o “Programa Municipal de Apoio às Associações (PMAA)”, que tem uma vertente orientada para o apoio à atividade regular e outra dedicada ao investimento, está “desajustado”. Como o desporto competitivo e o desporto de lazer têm exigências diferentes, afirma que “se Aveiro quer estar no contexto da elite nacional dessas modalidades de relevância, tem que haver apoio dedicado para o desporto de competição - não na ótica do subsídiozinho, do apoiozinho, mas na ótica do verdadeiro patrocínio”.

Nuno Quintaneiro alegou que tem sempre tentado agir pela via diplomática, evitando recorrer à comunicação social e à confrontação pública e, no mesmo sentido, diz que têm existido “reuniões regulares” entre os clubes de Aveiro para “construir estratégias comuns para o desenvolvimento do desporto” e para exercer “influência junto do poder político e do poder decisório”.

No total, estão representados 13 clubes de diferentes modalidades do concelho nestas reuniões em que o Beira-Mar tem assumido uma “postura liderante”. Segundo o presidente, o resultado das reuniões tem sido remetido para a Câmara Municipal: “Temos dado conhecimento à autarquia desse trabalho que temos vindo a fazer. Podem-me dizer assim: «Eles lá na Câmara… aquilo vai para o spam e não querem saber». Se calhar, mas nós não deixámos de fazer o nosso trabalho […] Orgulho-me de estarmos a construir este legado. Se isto depois vai dar alguma coisa… não sei, mas investimos no que acreditamos”.

Beira-Mar continua a insistir com a Câmara Municipal para encontrar uma sede na cidade, conforme protocolado em 2016

Questionado pelos associados, Nuno Quintaneiro garantiu que o processo de encontrar uma nova sede social para o SC Beira-Mar no centro da cidade – conforme ficou protocolado entre clube e autarquia em 2016 – não está esquecido. Conforme relata, quando disse ao presidente da Câmara Luís Souto que a “intenção” do anterior presidente Ribau Esteves era alojar a nova sede no “edifício da antiga sede da Junta de Freguesiae da Vera Cruz”, a reação não foi a melhor: “«Não, esse edifício não, porque nós temos várias associações…»”.

“Nós não temos aqui posiçõesdefinitivas sobre o assunto […] A nossa visãoé que nós precisamos de um espaço de lojanuma artéria central da cidade. O turismo hoje tem um potencial de receita[…] Se nos arranjar uma loja numa artéria central, eu até posso aceitar que nos arranje uma sede numa rua mais secundária, desde que essa sede tenha espaço para nós colocarmos os troféus, as salas para as nossas modalidades poderem reunir, poder lá colocar um posto de atendimento, um espaço de convívio para os sócios, etc”, explicou Nuno Quintaneiro.

Apesar deste trabalho de “lobby direto” estar a ser feito, o dirigente do Beira-Mar refere que a prioridade tem sido a sociedade desportiva e que, uma vez finalizado este processo, o clube vai voltar a insistir com mais força para encontrar uma nova sede.

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