Neerlandês sai de cena e direção do SC Beira-Mar quer renegociar com sócios: Saiba o que pode mudar
O processo de constituição da Sociedade Desportiva por Quotas (SDQ) do SC Beira-Mar sofreu novo revés depois de, para já, a direção do clube ter descartado o investimento de Marcel Boekhoorn, que apenas estava interessado em ingressar no projeto a partir de 2027. Obrigado a voltar à mesa de negociações, Nuno Quintaneiro, presidente da direção, explica à Ria que pretende flexibilizar os pressupostos aprovados pelos sócios para que um entendimento seja possível e conta que proposta levará a Assembleia Geral.
Gonçalo Pina
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Pouco mais de um ano volvido desde que, à segunda tentativa, a direção do Sport Clube Beira-Mar conseguiu aprovar junto dos sócios os pressupostos para a constituição de uma sociedade desportiva, a direção do clube quer voltar a alterar o documento. Desde aí, recorde-se, muita água correu debaixo da ponte: existia um pré-acordo com Breno Dias Silva, mas o empresário brasileiro acabou por não cumprir com o clube e o entendimento não prosseguiu; mais tarde, também chegou a existir um “princípio de acordo” com investidores portugueses, mas, mais uma vez, o entendimento não chegou a bom porto; nas últimas semanas especulou-se – em Aveiro e nos Países Baixos – sobre o ingresso de um magnata, mas as partes também não chegaram a acordo.
Neste momento, a discussão com os sócios já tem data marcada e a convocatória da Assembleia Geral do clube é conhecida: a 17 de julho, os sócios vão debater “alterações à Proposta de Constituição da Sociedade Desportiva aprovada em 16/05/2025”. Antes disso, a 10 de julho, de acordo com Nuno Quintaneiro, reunirá ainda o Conselho Beiramarense.
Direção quer flexibilizar pressupostos: “Não faz sentido amarrar os investidores [ao sucesso desportivo]”
Em maio do ano passado, os sócios deram o “sim” a uma Sociedade Desportiva por Quotas que injetasse 10 milhões de euros no projeto do clube: 1,5 milhões – pagos a 10 anos - seriam para liquidar o passivo do SC Beira-Mar; cinco milhões – pagos a cinco ano – seriam para investir na equipa principal de futebol; e 3,5 milhões seriam para a edificação de um centro de alto rendimento.
Recuando no tempo, Nuno Quintaneiro avalia que, “bem-intencionados, pusemos demasiada blindagem para o clube”, o que acabou por “intimidar” os interessados no investimento. Nesse sentido, o dirigente entende que deve ser dado um passo atrás: “Nós tínhamos […] definido que teria que acontecer obrigatoriamente um investimento de oito milhões e meio de euros […] Se esse investimento não fosse executado, automaticamente o investidor perderia a sua participação na sociedade, que reverteria automática e diretamente para o clube. Nós decidimos remover essa obrigação contratual e passámos a torná-la recomendável - ou seja, um fator de valorização da proposta”.
“Tivemos interessados que nos disseram que percebiam o projeto, mas que os timings de execução - nomeadamente a concretização do investimentonas infraestruturas - iria sempre depender também do sucesso desportivo da equipa principalde futebol […] Portanto, eles concordavam com esse desígnio, mas não concordavam com o estabelecimento doscinco anos […] Não estavam disponíveis para assinar uma coisa a que ficavam obrigados, senão perdiamtodo o investimento que já tivessem feito”, esclarece Nuno Quintaneiro.
Na opinião do presidente, a alteração não vai vulnerabilizar o clube. A primeira parte do investimento – os cinco milhões para a equipa principal – é, por si só, um caminho para o sucesso desportivo, pelo que, “havendo sucesso, está cumprido o objetivo”. Já a segunda parte – os 3,5 milhões para um centro de alto rendimento - “vai ser uma necessidade da própria sociedade desportiva”.
Nuno Quintaneiro lembra que, ao dia de hoje, o SC Beira-Mar não tem um campo de treino de relvado natural com as medidas oficiais, o que acaba por limitar a preparação de alguns momentos de jogo, como os “lances de disputa”, os “passes longos” ou o “ataque à profundidade”. “É algo que tem sido uma limitação e uma sociedade desportiva […] vai perceber que só tem duas hipóteses: ou estabelece acordos com outros clubes, […] sabendo que o Beira-Mar não está a treinar em sua casa – com todas as dificuldades logísticas e operacionais que isso implica […] - ou então percebe que faz todo o sentido desenvolver esse equipamento para a sua propriedade, investindo num ativo tangível da própria sociedade desportiva que pode ser complementado com residência para atletas deslocados”, desenvolve o dirigente.
Embora note que é importante que este investimento tenha lugar, até para poder captar “qualidade e talento” para Aveiro, Quintaneiro nota que o investidor pode precisar de investir “valores avultados” para tirar o clube da quarta divisão e, por isso, “esse centro de alto rendimento [pode] ter que esperarmais um pouco por uma questão de segurança económica do projeto”.
Por outro lado, o dirigente do SC Beira-Mar refere que há um incremento do valor que o investidor deve adiantar para liquidar o passivo do clube de 1,5 milhões para 1,7 milhões de euros. Nesse aspeto, o presidente diz ser “inflexível”, porque “o mínimo dos mínimos de um negócio destes é que o clube tem de ficar livre do seu passivo e numa posição financeira equilibrada”.
Recorde-se que, até à constituição da sociedade, devem ser investidos 500 mil euros e o remanescente tem que ser pago em prestações anuais até um limite máximo de dez anos. Se houver incumprimento de alguma das prestações, vencem-se todas as outras e é revertida a participação do investidor.
Nuno Quintaneiro aponta também que, noutras cláusulas impostas pelo clube, são criados “mecanismos de suavização […] para dar algum espaço às próprias direções e futuras administrações da SDQ”. Exemplo disso, explica, está na questão da “perda dos capitais próprios da sociedade”: “A experiência diz-nos que muitas das sociedades desportivas chegam a 30 de junho, que é o fimdo exercício económico, com mais de metade do seu capital social deteriorado. E isto porquê?Porque os grandes ativos da sociedade desportiva são os jogadores defutebol. As vendas desses atletas e a realização das receitas muitas vezes só acontecem em julho e agosto.Ou seja, temos uma situação ali em junho de capitais próprios negativos, mas que emjulho e agosto facilmente, entre aspas, podem ser corrigidas”.
Como, acredita, a situação acaba por não ser “justa” para o investidor, o presidente da direção do clube propõe que, a partir de agora, a administração da SDQ possa aprovar um plano de recuperação implementado a um ano para recuperar esses capitais próprios.
Marcel Boekhoorn deixou de ser opção (para já), mas há mais propostas em cima da mesa
Depois de o interesse de Marcel Boekhoorn – empresário neerlandês que tem investido no NEC, clube que no último ano ficou em terceiro da ‘Eredivisie’ - ter sido adiantado pelo Diário de Aveiro e posteriormente confirmado pelo próprio presidente da direção do clube, é agora público que o negócio não vai prosseguir.
Nuno Quintaneiro explica que a intenção de Marcel Boekhoorn seria avançar com a parceria apenas a partir de janeiro de 2027, pensando na próxima época desportiva. O clube entende que o investimento deve ser “imediato” e, portanto, quis procurar outras oportunidades, embora sem fechar a porta a um entendimento futuro: “Se não encontrarmos uma solução ou se alguma solução que encontrarmos também falhar, ficou essa porta aberta. As pessoas mostraram muito interesse no Beira-Mar e no projeto, mas simplesmente percebemos que havia aqui timings que não eram compatíveis com os nossos”.
Se, em abril, quando falou à Ria, o presidente se referia a timings apertados para a comunicação da mudança de modelo societário à Federação, o novo “Regulamento de Filiação e Competição nas Competições Desportivas” passa a permitir que haja alterações no decorrer da temporada. Como descrito no ponto 2 do Artigo 25º do regulamento, a única obrigação é: “A pessoa ou entidade que, mediante subscrição ou aquisição de participações sociais, passe a deter participação qualificada no capital social de uma sociedade desportiva […] ou que se torne na sua maior acionista, deve, no prazo de cinco dias, informar a sociedade desportiva e a FPF sobre o número de participações sociais que titula”.
Com mais folga temporal, Nuno Quintaneiro explica que o objetivo é resolver a questão “o mais depressa possível” – embora sem definir prazos – e existem vários possíveis parceiros em cima da mesa. Conforme explica, “há contactos que são apenas no âmbito da manifestação de interesse,há outros que já estão ao nível mesmo de um processo de ‘due diligence’ - ou seja,já houve a manifestação de intenção e já estão de facto na troca de informaçõesfinanceiras, contabilísticas, institucionais, jurídicas do clube - e depois ainda há outrosque estão arrefecidos e que nós estamos, entre parênteses, a reaquecer”.
Para além dos contactos que ficaram pelo caminho e que o Beira-Mar quer retomar após a renegociação com os sócios, o presidente acredita que ainda podem chegar novos ‘players’ à mesa negocial.
Votação de Plano de Atividades e Orçamento foi adiada, mas não foi apenas devido à constituição da SDQ
A direção requereu à Mesa da Assembleia Geral do SC Beira-Mar não só a marcação de uma AG “com a maior brevidade possível”, mas também o “prorrogar excecional do prazo de apreciação e votação do Plano de Atividades e Orçamento para a época 2026/2027”.
Questionado se o adiamento esteve relacionado com a possibilidade de apresentar um orçamento já a contar com a entrada de um investidor, Nuno Quintaneiro explicou que “tem naturalmente a ver com esta questão da sociedade desportiva e da inclusão ou não do orçamento da equipa principal e da equipa B no orçamento do clube”, mas também com a “possibilidade da equipa sénior de basquetebol participar ou não na Pro Liga [as três desistências dos campeonatos cimeiros deram azo a um processo de candidatura à subida de divisão ainda a decorrer] […] e também com uma situação relacionada com o bilhar: se nós aceitarmos o conviteda Federação para participar no Nacional de Bilhar, isso implicará uma alteração ao orçamento”.
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