"Portagens da A25 – A Oportunidade Perdida", opinião de João Manuel Oliveira
João Manuel Oliveira foi jornalista de tecnologias e regional e é, atualmente, consultor de comunicação numa agência. Dedica o seu tempo livre ao conhecimento nas áreas da genealogia e história local, gastronomia e vinhos.
João Manuel Oliveira
OpiniãoCorria o final do ano de 2024. Em todo o país, anunciava-se que às primeiras badaladas, as portagens num conjunto de autoestradas tinham acabado, devido ao esforço do PS, como lembrou Pedro Nuno Santos no X [rede social]. No entanto, uma cidade capital de distrito ficava a saber que afinal há duas A25. Fica aqui a crónica de uma oportunidade perdida, de um engano, da permanência de uma injustiça. E não há partidos políticos ou deputados que fiquem bem nesta fotografia.
Vamos a factos. O PS, que nos últimos oito anos nunca quis o fim das portagens – embora tenha feito descontos - entendeu, passado três meses, que afinal era fundamental para a coesão nacional que as autoestradas que ligam o Interior ao Litoral (ok, e a Autoestrada do Algarve e a A28, numa parte) deixassem de ser portajadas. A razão? “São eliminadas as taxas de portagem cobradas aos utilizadores nos lanços e sublanços das seguintes autoestradas do Interior correspondentes a antigas autoestradas em regime SCUT - Sem Custos para o Utilizadores ou onde não existam vias alternativas que permitam um uso em qualidade e segurança”.
Em Aveiro e na região, desde que foi “destruída” a IP5 – e surgiu a A25, que múltiplos políticos e a sociedade civil tentaram que o início da A25, entre a Barra e Albergaria, não tivesse pórticos. Apenas se conseguiu evitar um troço – aquele que ligava Aveiro às praias. Mas ficámos com a situação mais caótica: ter uma zona industrial que é obrigatório ultrapassar para não pagar num pórtico e ter duas onde camiões passam diariamente para poupar dois pórticos. Tudo isto porque a A25 é portajada em zonas de distribuição de tráfego e acesso a outras autoestradas. Lembro-me, com saudade, da vontade de um deputado municipal, o grande Raúl Martins, sugerir que o pórtico “do Estádio” deveria ser destruído, nem que fosse com uma motosserra…
Nem com motosserra e muito menos com o PS. Por muito que Filipe Neto Brandão [deputado pelo PS na Assembleia da República e natural de Aveiro] votasse contra o seu partido ao longo de algumas tentativas, o PS e o PSD nunca alteraram a situação. Continuámos a ter o acesso ao Estádio e o acesso ao Porto de Aveiro portajado.
Mas chegados a junho, ao PS juntou-se o Chega, o BE, o PCP, o Livre e o PAN. Com a abstenção da IL e o voto contra dos partidos do Governo, PSD e CDS, a Lei 37/2024 passou. E achávamos todos – alguns até ontem – que o assunto estava resolvido de vez. No entanto, tal não era verdade. Os deputados do PS proponentes da Lei, onde não está nenhum de Aveiro, escreveram explicitamente “A25 – Beiras Litoral e Alta”. Ora, esse troço/lanço é um concessionado respeitante apenas à parte desde Albergaria até Vilar Formoso. Já o troço Albergaria – Barra (e os seus três pórticos) fazem parte da concessão da Costa de Prata. E não estão contemplados.
Com este monumental erro – espero que por ignorância e não por má-fé, Aveiro fica condenado, mais uma vez, a ter nas suas estradas municipais - e “onde não existem vias alternativas que permitam um uso em qualidade e segurança” - os carros que evitam pagar portagens. É um erro monstruoso, que não ajuda ao investimento, ao fluxo de bens e pessoas, à segurança e à melhoria do próprio Porto de Aveiro.
O PS não pode dizer que não sabia. No debate, o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, lembrou explicitamente Pedro Nuno Santos ao dizer que com a proposta “não resolvia os acessos a Aveiro”.
Os deputados do PSD e do CDS oriundos da região de Aveiro, mesmo defendendo o princípio do utilizador-pagador e mesmo estando no poder, deveriam ter sido audíveis a denunciar a situação. Em especial Ângela Almeida, a ainda presidente da Junta de Freguesia de Esgueira, território onde estão dois acessos e um pórtico. Mas ninguém fica livre da vergonha de não terem percebido o que estava implícito na Lei e andado a espalhar “fake news”. Fica assim demonstrada a inutilidade de deputados que de Aveiro só têm o círculo por onde foram eleitos – sim, estou a falar do CHEGA, e do lado do PS, gostava que tivessem olhado com mais atenção para uma lei que poderia ter sido fundamental para o nosso desenvolvimento como cidade e região – ou isso ou nunca tiveram força para conseguir e por isso nem pediram para assinar.
Este artigo não é sobre o princípio do pagamento. É sobre como 230 deputados, na Assembleia da República, alguns dos quais conhecedores do território e outros de leis, decidiram manter e agravar a injustiça que temos no nosso território. Uma oportunidade perdida para os próximos anos. Em 2030 acaba a Concessão Costa de Prata e em 2031 a Concessão Beira Litoral e Alta. Será nessa altura?
Recomendações
"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites
O Dia Internacional da Educação, assinalado a 24 de janeiro por iniciativa da Organização das Nações Unidas, é um momento essencial para refletir sobre o papel da educação na promoção da igualdade de oportunidades, da coesão social e do desenvolvimento sustentável das comunidades. Em Aradas, esta reflexão é particularmente relevante. A realidade evidencia um aumento do número de alunos nas escolas da nossa freguesia, nomeadamente na Escola Básica de Aradas (2º ciclo) e na Escola Básica Quinta do Picado (1º Ciclo), refletindo a crescente atratividade da freguesia para famílias jovens, incluindo famílias de origem estrangeira, cuja integração nas escolas locais representa simultaneamente um desafio e uma oportunidade para construir uma educação mais inclusiva, plural e coesa. No entanto, este crescimento não tem sido acompanhado por uma resposta educativa equilibrada e justa. Persistem dinâmicas de encaminhamento e redistribuição de alunos que contribuem para o esvaziamento das escolas da periferia e para uma pressão excessiva sobre as escolas mais centrais, reforçando desigualdades territoriais e sociais. Esta realidade impõe um aumento dos movimentos pendulares de crianças e famílias entre a periferia e o centro da freguesia, e vice-versa, com impactos diretos na organização da vida familiar, no tempo disponível para as crianças e na sustentabilidade ambiental. Este problema é agravado por uma rede de transportes públicos, pouco ajustada às necessidades escolares, que não responde de forma eficaz aos horários, aos percursos e à dispersão geográfica dos estabelecimentos de ensino. A insuficiência desta rede penaliza sobretudo as famílias com menos recursos, contrariando o princípio da escola de proximidade e dificultando o acesso equitativo à educação. A situação das escolas do 1.º ciclo em Aradas torna-se ainda mais relevante quando analisada à luz das opções previstas na Carta Educativa de Aveiro, aprovada em 2019, o documento estratégico que define onde estão as escolas, como funcionam e como devem evoluir. Entre essas opções, a Carta prevê o encerramento da Escola Básica e do Jardim-de-Infância da Quinta do Picado, com a consequente redistribuição dos alunos por outros estabelecimentos. Esta decisão, longe de ser neutra, reduz a escola de proximidade, aumenta as deslocações diárias das crianças e das famílias e intensifica a pressão sobre as restantes escolas da freguesia. A evolução recente da freguesia demonstra, aliás, que a própria realidade ultrapassou o enquadramento da Carta, evidenciando a necessidade de mais e melhores escolas básicas em Aradas, capazes de responder ao crescimento da população escolar, independentemente da distância ao centro da cidade de Aveiro. Alguma coisa aconteceu, é certo. Existiram investimentos e melhorias de fundo em algumas escolas da nossa freguesia, como nas Escolas Básicas do Bonsucesso e Verdemilho, que beneficiaram de obras de ampliação e melhoramento das instalações. Estes exemplos demonstram que é possível qualificar o parque escolar quando existe planeamento e prioridade. O problema reside no facto de estes avanços não terem sido transversais, deixando outras escolas e comunidades educativas a funcionar em condições claramente desajustadas às exigências pedagógicas atuais. A estas fragilidades materiais juntam-se opções no domínio das iniciativas educativas, culturais e lúdicas promovidas a nível local, que revelam um diminuto grau de ambição pedagógica, científica e artística. A oferta de atividades dirigidas aos alunos (aos filhos de Aradas) tem-se centrado, em vários casos, em propostas de natureza simbólica, pontual e pouco estruturada, com impacto limitado no desenvolvimento cognitivo e cultural das crianças. Assinalar o Dia Internacional da Educação em Aradas não pode limitar-se a declarações de intenção. Implica reconhecer desigualdades, corrigir opções que aprofundam assimetrias e assumir uma visão mais exigente para as políticas educativas e culturais locais. Uma política educativa responsável deve ir além de propostas de baixo valor educativo, baseadas em animações improvisadas e simbólicas, com reduzido conteúdo pedagógico, apostando antes em iniciativas exigentes e estruturadas, que promovam conhecimento, ciência, criatividade e pensamento crítico, assegurando que a diversidade cultural é encarada como um recurso e não como um problema. Importa igualmente educar para a cidadania de forma séria e consequente, integrando no percurso educativo exemplos concretos de transparência, boa gestão pública, participação democrática e responsabilidade coletiva. Iniciativas como visitas aos órgãos de gestão local, quando surgem apenas de forma pontual, chegam manifestamente tarde, sobretudo quando existem alunos da freguesia que já demonstraram elevados níveis de consciência cívica e participação democrática, tendo inclusivamente representado a região de Aveiro no Parlamento dos Jovens. A educação é um direito fundamental e um pilar do desenvolvimento local. Em Aradas, esse direito só será plenamente concretizado quando o compromisso com as escolas e com a comunidade educativa for contínuo e genuíno, e não limitado a visitas pontuais em tempo de eleições ou à distribuição ocasional de vales associados a iniciativas de cariz político. Só assim será possível garantir que todas as crianças têm acesso a escolas bem cuidadas, a propostas educativas exigentes e a um espaço público que valorize o conhecimento, a cidadania e a inclusão, contribuindo para uma freguesia mais justa, coesa e preparada para o futuro. À luz da própria Carta Educativa, os desafios vividos hoje em Aradas não resultam da falta de diagnóstico, mas sim da distância entre o planeamento e a concretização. Criticar estas opções não é rejeitar a Carta Educativa de Aveiro - é exigir que ela seja revista, atualizada e cumprida com ambição, equidade e responsabilidade pública.
"A democracia a votos a 8 de fevereiro", opinião de Miguel Pedro Araújo
Não há outra forma de o dizer sem ser o mais direto e linear: dia 8 de fevereiro o voto vai muito para além da eleição, em segunda volta, do próximo “inquilino” de Belém. Este ato eleitoral será sobre a sobrevivência dos valores e pilares da democracia e do Estado de Direito. Recuando à noite eleitoral de 18 de janeiro, há uma primeira nota inequívoca: António José Seguro foi o candidato preferido por um maior número de portuguesas e portugueses, ultrapassando em mais de 300 mil votos o universo eleitoral do Partido Socialista, alcançado nas eleições legislativas de 2025. O que, com a natural transferência de eleitorado para outras candidaturas (por exemplo a de Gouveia e Melo), significa que António José Seguro conseguiu, atendendo ao anúncio de apoio à sua candidatura por parte do Partido Socialista, agregar um eleitorado suprapartidário, quer à direita, quer à esquerda. A segunda nota relaciona-se com a necessidade (infelizmente, uma necessidade cada vez mais constante e premente) de desmistificar uma narrativa de vitória pífia e uma apropriação demagoga dos factos e da realidade. A passagem à segunda volta eleitoral do candidato da extrema-direita era uma das hipóteses plausíveis e perspetivadas, quer pelo número de candidaturas que repartiam a intenção de voto do eleitorado do centro e da direita, quer pelo previsível vínculo do eleitorado do “partido unipessoal”. E foi tão somente isto que aconteceu. Ou quase… O candidato posicionado em segundo lugar na primeira volta das eleições presidenciais 2026 (excluindo a questão percentual que não é comparável, porque o contexto e os critérios não são semelhantes ou equivalentes), em termos absolutos, perde 111 233 votos, em relação às legislativas de 2025 (tomando como comparação os resultados eleitorais do partido da extrema-direita). Ou seja… o candidato perdeu fulgor político e eleitorado, nestas eleições. Também não é verdade que seja o legítimo representante da direita em Portugal. Primeiro, porque a direita portuguesa, mais ou menos liberal, mais ou menos conservadora, mais ou menos social-democrata (ou social-liberal) não se revê nos princípios e valores do radicalismo e extremismo (mesmo que, para Luís Montenegro, as ditas “linhas vermelhas” do “não, é não” tenham desbotado em várias matérias legislativas, a começar pela questão da imigração). Segundo, porque, mesmo correndo o risco de enviesamento linear, o número de votos expressos na extrema-direita é inferior (em cerca de 200 mil) ao somatório dos votos expressos em Cotrim de Figueiredo (apoiado pela IL) e em Marques Mendes (PSD), sem considerar qualquer flutuação eleitoral expressa na candidatura de Gouveia e Melo. Ou seja, não foi na extrema-direita que se concentraram os votos da direita portuguesa. Portanto, o candidato segundo classificado arrogar-se de líder da direita é apenas conversa para seguidores fanáticos ou discípulos devotos. Para além de ser inqualificável a narrativa entre ‘socialismo’ e ‘não socialismo’, quando se torna evidente o carácter suprapartidário da candidatura moderada, abrangente, confluente de António José Seguro ou o facto de estarem em causa as funções presidenciais e o garante do Estado de Direito, e não responsabilidades executivas que competem a quem governa, ou até mesmo deliberativas que cabem nas competências da Assembleia da República. Só uma cegueira e idolatria fanática pode justificar um acreditar em tal dialética e demagogia. Mas não foram apenas estes os factos e contextos que emergiram do resultado da primeira volta das presidenciais, de domingo passado. Da mesma forma que os candidatos procuraram apoio partidário, por mais independentes que as candidaturas quisessem parecer (e deveriam), ou que os partidos políticos tenham anunciado o seu apoio formal às candidaturas (exceção para o caso de Gouveia e Melo), seria igualmente válido e expectável que os partidos anunciassem um sentido de voto para a segunda volta eleitoral que se avizinha. Isto não significa qualquer condicionamento da liberdade de voto ou a apropriação da legítima opção e convicção individual de cada eleitor. O que, aliás, não faz qualquer sentido já que, mesmo perante os apoios formais anunciados na primeira volta, houve muitos – muitos mesmo – militantes, simpatizantes ou habituais eleitores que optaram por votar em candidaturas distintas. O que está em causa, nesta segunda volta, é muito mais (muito mesmo) do que a linear eleição do próximo representante máximo e principal figura do Estado português. À eleição do Presidente da República, acresce a clara e urgente escolhe entre a Democracia e o Estado de Direito ou a sua destruição e substituição por uma indesejável autocracia. É esta a batalha que é preciso travar no próximo dia 8 de fevereiro. E seria esta a batalha que se esperava ter uma maior e clara adesão por parte de partidos e do próprio Governo que dependem da robustez da democracia e dos valores republicanos e da solidez do Estado de Direito. Não é aceitável esta auto desresponsabilização democrática, política e partidária perante a clara escolha entre a Democracia e a sua destruição, que não se coaduna com estratégias e subterfúgios partidários e eleitoralista para um futuro próximo. Se o Governo da AD não se mostrou nada constrangido, nem preocupado com a sua imagem ou a sua pseudo-neutralidade governativa, não só no anúncio de apoio à candidatura de Marques Mendes, como, também, na sua efetivação prática, não se afigura aceitável o discurso de Luís Montenegro após serem conhecidos os resultados da primeira volta. A insignificante e ilusória neutralidade anunciada pelo Primeiro-ministro (PSD) para a segunda volta das presidenciais é muito mais que imparcialidade ou liberdade de escolha: é validar a tentativa de derrube da democracia. Perder uma eleição em democracia é “democraticamente” normal ou habitual, porque é o garante da liberdade de opção, de expressão ou de convicção. Perdermos a democracia numa eleição é que é inaceitável e perigoso para a sociedade (a história está repleta o suficiente de casos que o sustentam: foi, democraticamente, que o nazismo ascendeu ao poder. As consequências é que nada tiveram de democráticas). Em democracia, a (pseudo) neutralidade a abstenção só tem uma leitura: abdicar da nossa responsabilidade cívica e capitular na defesa e preservação dos princípios e valores democráticos. Quando está em causa a defesa da Democracia e da Liberdade o silêncio (e diga-se… a abstenção) não pode ser opção, porque transforma-se em validação da extinção. Dia 8 de fevereiro não está em causa qualquer exercício político ou mesmo partidário. Não é esse equilíbrio ou confronto ideológico que está adjacente à função ou competências presidenciais. Dia 8 de fevereiro não vamos querer adormecer numa fragilizada democracia, para acordar num pesadelo autocrático e antidemocrático.
"Ministro da Educação criticou o sistema, não os estudantes", opinião de Gonçalo Santiago
O ministro da educação Fernando Alexandre esteve reunido na passada terça-feira com reitores das universidades na apresentação do novo modelo de ação social para o Ensino Superior. Mais uma vez, as suas palavras foram alvo de uma interpretação incorreta, resultante da retirada de frases do seu contexto original. O ministro já não é alheio a este tipo de acontecimentos: no contexto do aumento das propinas, excertos das suas declarações foram retirados do contexto e imediatamente explorados em títulos sensacionalistas. Importa, por isso, clarificar as declarações do ministro e o sentido em que foram proferidas. O ministro começa por defender que as residências académicas não devem ser destinadas exclusivamente a estudantes socialmente mais carenciados, uma vez que tal não promove a integração social. Critica, assim, o sistema atual que “empurra” estudantes de estratos socioeconómicos mais baixos para as residências, reduzindo a diversidade e contribuindo, a curto prazo, para a sua degradação. Negar isto, é também ignorar a cultura de guetização que devido ao sistema atual que o ministro criticou, continua a existir. Esta cultura promove exclusão social, acentua desigualdades e estigmas e contribui para a degradação urbana pois zonas socialmente segregadas recebem, muitas vezes, menos investimento público o que leva a degradação dos edifícios, dos espaços públicos e dos serviços. A degradação não acontece por culpa dos utilizadores por estes serem pobres, mas sim, da gestão do serviço público que, se somente utilizado por pessoas de baixo rendimento, deteriorar-se-á. As declarações do ministro devem ser analisadas no seu contexto integral e não através de leituras simples ou títulos sensacionalistas. A sua posição não traduz numa desvalorização dos estudantes socialmente mais carenciados, mas antes numa crítica ao modelo de ação social atual que, esse sim, é um ataque aos estudantes que mais necessitam de apoio.
“Delegar tudo no Presidente não é governar melhor”, opinião de Hugo Filipe Nunes
A Câmara Municipal de Aveiro aprovou uma ampla delegação de competências no seu presidente, Luís Souto Miranda, para o mandato 2025-2029. A lei permite esta opção e, sim, muitas autarquias em situação semelhante à de Aveiro recorrem à lei em nome da “eficiência”, mas a política não se esgota na legalidade, e é aí que começam as perguntas incómodas. Ao contrário do executivo anterior, o atual já não dispõe de maioria absoluta. As aveirenses e os aveirenses distribuíram o seu voto por várias forças políticas, dando a quem lidera a Câmara o direito – e o dever – de governar, mas retirando-lhe o conforto de decidir sozinho. Isto deveria ser lido como um convite da democracia à negociação e à construção de maiorias. Em vez disso, optou-se por repetir o modelo do passado. Delegaram-se em Luís Souto Miranda competências muito vastas: contratação pública com despesas elevadas, licenças urbanísticas e aplicação de regulamentos que mexem com a vida quotidiana de todas e todos. Na prática, o órgão colegial transfere para uma só pessoa uma parte central do poder de decisão. Sem maioria absoluta, o recado do eleitorado é claro: o poder deve ser repartido. Concentrar uma parte importante das competências numa só pessoa é contornar esse recado. A pluralidade existe no papel, mas pesa menos nas decisões concretas. E não está apenas em causa a eficiência administrativa. Quando decisões relevantes deixam de ser discutidas e votadas em reunião de Câmara, perdem-se debate público, contraditório e responsabilização política. Mesmo com maioria absoluta, esta concentração já seria discutível. Sem essa maioria, é politicamente injustificável. Não está em causa a capacidade de trabalho ou a boa-fé de quem preside. A questão é simples: se o voto fragmentou o mapa político, é porque existe a expetativa de que mais vozes sejam ouvidas e de que as decisões resultem de equilíbrios e negociações, e não de cheques em branco. Neste quadro, importa olhar para as posições assumidas na última reunião pública da nossa Câmara. O Partido Socialista, ao propor limites à delegação de competências, não tentou “bloquear” ou criar obstáculos à governação: aceitou que o presidente detenha poderes delegados e que ajudem a agilizar a gestão quotidiana, mas defendeu que determinadas matérias continuem a ser obrigatoriamente apreciadas e decididas em reunião de Câmara. Já o Chega fez o contrário do que apregoa. Apresenta-se como força “anti‑sistema”, contra a concentração de poder, mas acabou por viabilizar a solução que mais reforça o poder de uma só pessoa, quando poderia usar a sua posição para obrigar a maioria relativa a negociar caso a caso. A administração municipal não pode ficar paralisada e ninguém ganha com um executivo amarrado a burocracias inúteis, mas confundir rapidez com concentração de poder é perigoso. A política do medo da paralisação “vendida” por Luís Souto Miranda não pode deixar Aveiro refém: uma Câmara que discute e decide em conjunto pode demorar um pouco mais em alguns processos, claro, mas ganha em escrutínio, transparência e qualidade das decisões. Cinco décadas depois do 25 de Abril, a lição deveria ser clara: governar não é mandar sozinho, é construir soluções. Delegar quase tudo no presidente pode tornar alguns procedimentos mais rápidos, mas empobrece a democracia municipal e afasta as pessoas das decisões que as afetam diretamente. A nova correlação de forças em Aveiro tinha potencial para inaugurar um ciclo diferente mais dialogante e mais exigente em termos de negociação política e construção de consensos, à esquerda e à direita. Ao replicar o modelo de delegação de competências do tempo da maioria absoluta, essa oportunidade foi desperdiçada. As aveirenses e os aveirenses disseram nas urnas que não queriam maiorias absolutas; alguns dos eleitos decidiram, na prática, oferecê-las de novo por via de deliberação interna.
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Mau tempo: Oito mil clientes no continente sem energia elétrica pelas 09h00
Em comunicado, a E-Redes informa que a rede elétrica foi impactada pelas condições meteorológicas adversas, indicando que às 01:00 de hoje cerca de 40 mil clientes estavam sem energia, sendo o distrito de Viana do Castelo o mais visado. As equipas operacionais da E-Redes têm estado mobilizadas na resolução das avarias que se registaram na média e baixa tensão. “Nesta altura, 09:00, estão 8.000 clientes sem energia, mantendo-se o dispositivo operacional no terreno a reparar todas as situações pendentes”, é referido ainda na nota. Portugal continental está a ser afetado pelos efeitos da passagem da depressão Joseph com chuva, vento, neve e agitação marítima, tendo sido emitido vários avisos pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA). Segundo o IPMA, durante o dia de hoje haverá uma acalmia, mas o estado do tempo vai agravar-se a partir das 00:00 de quarta-feira. O instituto emitiu aviso vermelho, o mais grave, para os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra entre as 03:00 e as 06:00, prevendo-se ventos com rajadas da ordem dos 140 quilómetros por hora (km/h). Os restantes distritos do continente vão estar sob aviso laranja por causa do vento forte com rajadas de 100 km/h, podendo chegar aos 120 km/h nas terras altas. O IPMA emitiu também aviso vermelho entre as 03:00 e as 21:00 de quarta-feira para os distritos de Faro, Porto, Setúbal, Viana do Castelo, Lisboa, Leiria, Beja, Aveiro, Coimbra e Braga por causa da agitação marítima, prevendo-se ondas de oeste/noroeste com sete a oito metros, que podem atingir 14 metros de altura máxima. Os distritos de Bragança, Viseu, Porto, Guarda, Vila Real, Viana do Castelo, Braga e Castelo Branco vão estar também sob aviso laranja e Aveiro a amarelo a partir das 12:00 de hoje e até às 06:00 de quarta-feira devido à queda de neve acima de 800 metros. O IPMA colocou também todos os distritos (18) de Portugal continental sob aviso amarelo entre as 03:00 e as 09:00 de quarta-feira por causa da chuva por vezes forte. O estado do tempo deverá melhorar a partir da manhã de quarta-feira. Os Açores e a Madeira estão também com vários avisos meteorológicos.
Mau tempo: Aveiro sob aviso vermelho na quarta-feira devido ao vento
Em declarações à agência Lusa, a meteorologista Cristina Simões, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) explicou que o continente continua sob a influência da depressão Joseph que vai trazendo sucessivos agravamentos do estado do tempo. “Tivemos esta noite chuva forte, vento bastante forte em todo o território à passagem da frente. Agora estamos com uma ligeira melhoria do estado do tempo, embora com ocorrência de aguaceiros e vento”, disse. No entanto, a previsão para a próxima noite é de novo agravamento do estado tempo. “Há uma depressão na circulação da depressão Joseph. É uma depressão secundária, forma-se a oeste do continente (…). Vai-nos trazer muito vento, chuva, neve e agitação marítima”, adiantou. De acordo com Cristina Simões, esta depressão secundária vai estar centrada às 00:00 de quarta-feira a oeste do Porto. Por isso, o IPMA já emitiu aviso vermelho, o mais grave, para os distritos do Porto, Aveiro e Coimbra entre as 03:00 e as 06:00, prevendo-se ventos com rajadas da ordem dos 140 quilómetros por hora (km/h). Os restantes distritos do continente vão estar sob aviso laranja por causa do vento forte com rajadas de 100 km/h, podendo chegar aos 120 km/h nas terras altas. “É uma situação que passa rápido, será tudo entre as 00:00 e as 06:00 de dia 28 [quarta-feira] (…). Vai passar pelas regiões de Coimbra, Porto e Aveiro em direção a Espanha, de oeste para leste”, referiu. O IPMA emitiu também aviso vermelho entre as 03:00 e as 21:00 de quarta-feira para os distritos de Faro, Porto, Setúbal, Viana do Castelo, Lisboa, Leiria, Beja, Aveiro, Coimbra e Braga por causa da agitação marítima, prevendo-se ondas de oeste/noroeste com 7 a 8 metros, podendo atingir 14 metros de altura máxima. Os distritos de Bragança, Viseu, Porto, Guarda, Vila Real, Viana do Castelo, Braga e Castelo Branco vão estar também sob aviso laranja e Aveiro a amarelo a partir das 12:00 de hoje e até às 06:00 de quarta-feira devido à queda de neve acima de 800 metros. O IPMA colocou também todos os distritos (18) de Portugal continental sob aviso amarelo entre as 03:00 e as 09:00 de quarta-feira por causa da chuva por vezes forte. A meteorologista Cristina Simões adiantou ainda à Lusa que a partir da manhã de quarta-feira a situação vai desagravar. “A depressão desloca-se rapidamente para leste, para Espanha, e, por isso, vamos ter uma acalmia. O vento volta a diminuir e não teremos tanta precipitação a partir da manhã de dia 28 [quarta-feira]”, indicou. O aviso vermelho é emitido pelo IPMA nos casos de situação meteorológica de risco extremo. Já o aviso laranja indica uma situação meteorológica de risco moderado a elevado e o amarelo risco para determinadas atividades dependentes da situação meteorológica.
Estudo da Universidade de Aveiro sugere reaproveitamento de resíduos da pesca
O estudo analisou aparas e restos do processo de corte e filetagem desse peixe, que são normalmente descartados pelas empresas do setor, tendo os investigadores concluído que esses materiais “são fontes valiosas de compostos benéficos”. O estudo aponta para perfis lipídicos distintos entre si, já que os restos resultantes da filetagem contêm maiores quantidades de proteínas e ácidos gordos, como o ácido palmítico e o ácido oleico. Já as aparas destacaram-se pela abundância de fosfolípidos essenciais para a estrutura das células e com múltiplas aplicações industriais. Ambos os subprodutos apresentaram quantidades semelhantes de ómega-3, incluindo ácidos conhecidos pelos benefícios cardiovasculares. O investigador João Monteiro, citado em nota de imprensa da Universidade de Aveiro, explicou que os extratos lipídicos demonstraram uma atividade anti-inflamatória significativa em ensaios laboratoriais. O cientista sublinhou que, embora a pescada-do-cabo seja o caso de estudo, o conceito pode ser aplicado a outras espécies marinhas. “Estes lípidos surgem como uma alternativa sustentável às lecitinas tradicionais, obtidas da soja ou do ovo para uso como emulsionantes, pelo que a utilização destes resíduos permite o desenvolvimento de alimentos funcionais e suplementos nutricionais”, esclarece. Para João Monteiro, a valorização desses resíduos representa também uma oportunidade para tornar a indústria do pescado mais sustentável. “Ao transformar subprodutos em matérias-primas de elevado valor acrescentado, é possível reduzir o desperdício, aumentar a eficiência dos processos produtivos e promover uma economia circular no setor das pescas”, observa. Para além do setor alimentar, aqueles compostos “poderão encontrar aplicação em produtos nutracêuticos, farmacêuticos e cosmecêuticos, graças às suas propriedades bioativas, nomeadamente anti-inflamatórias”. A investigação foi desenvolvida no âmbito do projeto Pacto da Bioeconomia Azul com financiamento de fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Participaram no estudo os investigadores do Centro de Estudos e do Mar e do Departamento de Química da UA João Monteiro, Tiago Sousa, Marisa Pinho, Tânia Melo, Pedro Domingues, Ricardo Calado e Rosário Domingues. O trabalho contou ainda com a participação do Departamento de Biologia, do Centro de Espetrometria de Massa e do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV) da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE) da UA. Em termos externos contou também com a colaboração da Escola Universitária Vasco da Gama, da Universidade de Perúgia (Itália), do Instituto Português do Mar e da Atmosfera e da Universidade do Porto.
Bombeiros de Sever do Vouga apontam falhas e reclamam nova direção da Associação
A carta, datada de sexta-feira e assinada por 71 bombeiros, incluindo nove elementos do quadro de honra, refere que a corporação atravessa um momento crítico, motivado por "decisões menos acertadas" da direção da associação que “afetam e interferem com as dinâmicas do corpo de bombeiros”. Na missiva dirigida aos associados, os bombeiros denunciam carências ao nível dos equipamentos de proteção individual, com uma parte substancial do corpo ativo sem equipamento individual para incêndios estruturais e outra parte com “equipamentos obsoletos e degradados”. Dizem também que o parque de viaturas de socorro é dos mais exíguos (em qualidade) e obsoletos do país, não existindo nos últimos anos investimento direto da associação em aquisições, e adiantam que as viaturas avariam com frequência, devido ao “desgaste e lacunas na manutenção preventiva”. Entre as críticas apontadas estão também as más condições de conforto no quartel, nomeadamente a falta de climatização nas áreas comuns, apesar de alegadamente ter havido financiamento por mecenas, e a falta de armários, o que faz com que os bombeiros transportem o fardamento nas suas viaturas particulares. No plano organizacional e de gestão, o documento acusa a direção de interferência em questões operacionais, com ordens dadas diretamente a bombeiros, e ingerência na resposta ao socorro, interferindo com a organização e dinâmicas instituídas. A carta refere ainda que a direção avocou a gestão da central de telecomunicações, originando "instabilidade na dinâmica operacional e confusão nos procedimentos". Os signatários enaltecem o contributo dado pela atual direção liderada por Joaquim Amaral de Macedo, mas entendem ser tempo de dotar aquele órgão de "pessoas com dinamismo, visão de futuro e que sejam um pilar fundamental do corpo de bombeiros, que tem sido negligenciado", apelando, por isso, à mobilização da sociedade severense para encontrar uma solução para uma futura direção. No final de 2025, Miguel Matos apresentou a sua demissão de comandante dos Bombeiros de Sever do Vouga, invocando razões pessoais, estando o cargo a ser assegurado pelo segundo comandante Telmo Asensio, em regime de substituição. Contactado pela Lusa, o presidente da direção da Associação Humanitária dos Bombeiros de Sever do Vouga, Joaquim Amaral de Macedo, escusou-se a comentar a carta aberta.