"Portagens da A25 – A Oportunidade Perdida", opinião de João Manuel Oliveira
João Manuel Oliveira foi jornalista de tecnologias e regional e é, atualmente, consultor de comunicação numa agência. Dedica o seu tempo livre ao conhecimento nas áreas da genealogia e história local, gastronomia e vinhos.
João Manuel Oliveira
OpiniãoCorria o final do ano de 2024. Em todo o país, anunciava-se que às primeiras badaladas, as portagens num conjunto de autoestradas tinham acabado, devido ao esforço do PS, como lembrou Pedro Nuno Santos no X [rede social]. No entanto, uma cidade capital de distrito ficava a saber que afinal há duas A25. Fica aqui a crónica de uma oportunidade perdida, de um engano, da permanência de uma injustiça. E não há partidos políticos ou deputados que fiquem bem nesta fotografia.
Vamos a factos. O PS, que nos últimos oito anos nunca quis o fim das portagens – embora tenha feito descontos - entendeu, passado três meses, que afinal era fundamental para a coesão nacional que as autoestradas que ligam o Interior ao Litoral (ok, e a Autoestrada do Algarve e a A28, numa parte) deixassem de ser portajadas. A razão? “São eliminadas as taxas de portagem cobradas aos utilizadores nos lanços e sublanços das seguintes autoestradas do Interior correspondentes a antigas autoestradas em regime SCUT - Sem Custos para o Utilizadores ou onde não existam vias alternativas que permitam um uso em qualidade e segurança”.
Em Aveiro e na região, desde que foi “destruída” a IP5 – e surgiu a A25, que múltiplos políticos e a sociedade civil tentaram que o início da A25, entre a Barra e Albergaria, não tivesse pórticos. Apenas se conseguiu evitar um troço – aquele que ligava Aveiro às praias. Mas ficámos com a situação mais caótica: ter uma zona industrial que é obrigatório ultrapassar para não pagar num pórtico e ter duas onde camiões passam diariamente para poupar dois pórticos. Tudo isto porque a A25 é portajada em zonas de distribuição de tráfego e acesso a outras autoestradas. Lembro-me, com saudade, da vontade de um deputado municipal, o grande Raúl Martins, sugerir que o pórtico “do Estádio” deveria ser destruído, nem que fosse com uma motosserra…
Nem com motosserra e muito menos com o PS. Por muito que Filipe Neto Brandão [deputado pelo PS na Assembleia da República e natural de Aveiro] votasse contra o seu partido ao longo de algumas tentativas, o PS e o PSD nunca alteraram a situação. Continuámos a ter o acesso ao Estádio e o acesso ao Porto de Aveiro portajado.
Mas chegados a junho, ao PS juntou-se o Chega, o BE, o PCP, o Livre e o PAN. Com a abstenção da IL e o voto contra dos partidos do Governo, PSD e CDS, a Lei 37/2024 passou. E achávamos todos – alguns até ontem – que o assunto estava resolvido de vez. No entanto, tal não era verdade. Os deputados do PS proponentes da Lei, onde não está nenhum de Aveiro, escreveram explicitamente “A25 – Beiras Litoral e Alta”. Ora, esse troço/lanço é um concessionado respeitante apenas à parte desde Albergaria até Vilar Formoso. Já o troço Albergaria – Barra (e os seus três pórticos) fazem parte da concessão da Costa de Prata. E não estão contemplados.
Com este monumental erro – espero que por ignorância e não por má-fé, Aveiro fica condenado, mais uma vez, a ter nas suas estradas municipais - e “onde não existem vias alternativas que permitam um uso em qualidade e segurança” - os carros que evitam pagar portagens. É um erro monstruoso, que não ajuda ao investimento, ao fluxo de bens e pessoas, à segurança e à melhoria do próprio Porto de Aveiro.
O PS não pode dizer que não sabia. No debate, o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares, lembrou explicitamente Pedro Nuno Santos ao dizer que com a proposta “não resolvia os acessos a Aveiro”.
Os deputados do PSD e do CDS oriundos da região de Aveiro, mesmo defendendo o princípio do utilizador-pagador e mesmo estando no poder, deveriam ter sido audíveis a denunciar a situação. Em especial Ângela Almeida, a ainda presidente da Junta de Freguesia de Esgueira, território onde estão dois acessos e um pórtico. Mas ninguém fica livre da vergonha de não terem percebido o que estava implícito na Lei e andado a espalhar “fake news”. Fica assim demonstrada a inutilidade de deputados que de Aveiro só têm o círculo por onde foram eleitos – sim, estou a falar do CHEGA, e do lado do PS, gostava que tivessem olhado com mais atenção para uma lei que poderia ter sido fundamental para o nosso desenvolvimento como cidade e região – ou isso ou nunca tiveram força para conseguir e por isso nem pediram para assinar.
Este artigo não é sobre o princípio do pagamento. É sobre como 230 deputados, na Assembleia da República, alguns dos quais conhecedores do território e outros de leis, decidiram manter e agravar a injustiça que temos no nosso território. Uma oportunidade perdida para os próximos anos. Em 2030 acaba a Concessão Costa de Prata e em 2031 a Concessão Beira Litoral e Alta. Será nessa altura?
Recomendações
"Aveiro: uma cidade universitária que esquece os seus estudantes", opinião de João Sarmento
João Sarmento é natural de Aveiro, licenciado em Contabilidade pelo ISCA-UA e com mestrado em Gestão pela Universidade Portucalense. Atualmente integra o secretariado da Federação Distrital do PS Aveiro, é deputado municipal e ainda presidente da JS Aveiro.
“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira
José Manuel Castanheira é professor de Física do Clima, no Departamento de Física, na Universidade de Aveiro, e membro do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM).
"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira
Ricardo Dias Sequeira é jurista, licenciado em Direito, com frequência de mestrado em Ciência Política na Universidade de Aveiro, período durante o qual obteve bolsa para estudos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com foco em cidadania e comportamento eleitoral. É, atualmente, secretário da Comissão Política Distrital de Aveiro do CDS, cargo que já exerceu em 2013.
"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites
Carlos Brites é natural da Nazaré e reside em Aveiro desde 1999. Formado em Ensino de Física e Química e doutorado em Física pela Universidade de Aveiro, é atualmente Professor Associado no Departamento de Física da Universidade de Aveiro, onde dirige a Licenciatura em Engenharia Computacional. Desenvolve investigação científica nas áreas da nanotecnologia e dos materiais fotónicos avançados, com aplicações à computação e à lógica molecular. Tem na educação, na ciência, na cidadania e no desenvolvimento local os principais eixos da sua intervenção cívica, integrando o movimento 'Sentir Aradas'.
Últimas
Feira de Março: Trabalhadores da restauração fecham estabelecimentos em protesto com a CMA
Os trabalhadores da restauração presentes na Feira de Março decidiram hoje, dia 17, fechar os estabelecimentos em protesto com a Câmara Municipal de Aveiro (CMA). Segundo fonte ouvida pela Ria, existia a promessa de que, a partir de 2027, a presença na Feira ia deixar de ser definida via concurso público e que passaria a ser firmado contrato com todos os negócios. No entanto, diz a mesma fonte, o vereador Pedro Almeida deu indicação de que a promessa poderá não vir a ser cumprida, o que desencadeou a revolta dos empresários.
Reitor é eleito na terça-feira
De acordo com um e-mail enviado à comunidade académica pela Comissão Eleitoral, é na próxima terça-feira, dia 21, que se vai realizar a eleição do novo reitor da Universidade de Aveiro (UA). Antes da reunião do Conselho Geral em que a decisão é tomada, ocorre a audiência pública a Artur Silva, único candidato ao cargo.
Hospital: PS-Aveiro pede reforço dos esforços da CIRA e acusa Governo de “indefinição”
Segundo uma nota enviada à Ria, a bancada do Partido Socialista na Assembleia Intermunicipal da Região de Aveiro saudou a inscrição da obra de ampliação do Hospital como prioridade da Comunidade Intermunicipal de Aveiro (CIRA), mas apontou que é preciso fazer mais. Os socialistas defendem que as “recentes declarações de altos dirigentes da AD que indiciam um caminho de indefinição”.
PS repudia acusações de “invasão” de obra municipal feitas por Luís Souto
Na sequência da discussão da passada sessão da Assembleia Municipal de Aveiro, que aconteceu na segunda-feira, dia 13, o PS-Aveiro emitiu um comunicado a repudiar as acusações de Luís Souto, presidente da Câmara Municipal. Em causa está a ida de eleitos locais socialistas à obra da Escola EB1 do Solposto, que o autarca apelidou de “invasão”.