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45 anos de GrETUA: da ideia num boletim à realização de um documentário

‘Antes de mais, parabéns atrasados’ é o projeto que o Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro (GrETUA) vai apresentar esta quinta-feira, dia 20, no Edifício Central e da Reitoria da Universidade de Aveiro (UA). O documentário reúne o testemunho de mais de 30 pessoas e conta os 45 anos do grupo através da história e das memórias partilhadas de quem por lá já passou.

45 anos de GrETUA: da ideia num boletim à realização de um documentário

Rui Sérgio, conhecido ator e encenador, é talvez o maior responsável pelo pontapé de partida que deu início ao GrETUA. Em entrevista à Ria, curiosamente Rui redirige ao GrETUA a afirmação. “Eu hoje em dia sou o que sou, estou no mundo da cultura, (…) no teatro, nas artes performativas, devo-o ao GrETUA: no fim de contas, eu saio do GrETUA para ir para o teatro profissional”, aponta.

Ingressou no Ensino Superior no curso de Matemática e Desenho da Universidade de Aveiro. “Penso que esse curso já não existe agora”, conta. Nesse primeiro ano, viu “um boletim que dizia que nos anos anteriores tinha havido uma tentativa de construir um grupo de teatro que não avançou”, recorda Rui. Sem saber, esse boletim foi o nascer do GrETUA.

A ideia do boletim foi tomando lugar na mente de Rui que sabia de antemão que António Sampaio da Nóvoa [primeiro encenador] estava por Aveiro a ensinar na Escola do Magistério Primário. Entrou em contacto. Depois disso só se lembra que “de um momento para o outro surgiu um grupo de malta e começámos a brincar”.

No seu percurso profissional desempenhou cargos como o de diretor artístico do Teatro Aveirense e do Teatro da Trindade, em Lisboa. Conta ainda no currículo com inúmeras peças de teatro, mas a sua ligação às artes performativas é mais antiga.

Recorda “A Gota de Mel, do Léon Chancerel” como a primeira de peça de teatro que fez, ainda nos tempos da escola primária. Relembra também a forma como passava os domingos à tarde, nos tempos da juventude, e a influência que isso teve no seu percurso.

Juntava-se com amigos em casa de quem, na altura, tivesse televisão. “Nos intervalos dos filmes, fazíamos nós os nossos filmes”, conta Rui Sérgio. “Haviam umas pastilhas elásticas que tinham umas bandas desenhadas, nós (…) cortávamos e, depois nos carrinhos de linha, fazíamos a colagem e um filme com aquilo. Fazíamos uma máquina de projeção com peças da Lego e com um focozinho projetávamos, ampliávamos contra uma parede branca, e havia sempre (…) digamos que era o projecionista e eu fazia as várias vozes”, lembra Rui Sérgio. “Nós entretínhamo-nos assim e cobrávamos a quem estava a ver que era para termos dinheiro para comprar chicletes para a semana seguinte”, revela entre risos.

António Sampaio da Nóvoa: “Isto não é uma coisa complementar (…) é qualquer coisa que está no coração do que deve ser a formação de um estudante universitário”

Do contacto com António Sampaio da Nóvoa e das brincadeiras, nasceu ‘Uma Corda Para Cada Dedo’ - a primeira encenação do GrETUA. Corria o ano de 1979 quando António Sampaio da Nóvoa, hoje professor catedrático no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e ex-membro do Conselho de Estado de Portugal, deu vida àquele que viria a ser o primeiro momento de um grupo que hoje continua a dar cartas no Teatro - e não só.

À semelhança da história que Rui conta – até porque é a mesma - Sampaio da Nóvoa dá nota que a peça, que aborda “desde os temas da droga, aos temas da violência, aos temas do suicídio (…) e da prostituição”, nasce e é resultado dos tais encontros, discussões e improvisações que o grupo inicial do GrETUA ia fazendo “numa cave (…) no centro da cidade”, recorda o primeiro encenador do GrETUA.

“Fomos ganhando com esses momentos de encontro uma forma de expressão que a certa altura sentimos necessidade de partilhar com o público”, conta o professor. A apresentação, recorda, “foi um momento muito curioso e muito marcante para todos nós”.

Contrariamente à história de Rui Sérgio, o teatro surgiu na vida do ex-membro do Conselho de Estado de Portugal precisamente nos tempos da Universidade. “Eu comecei os meus estudos universitários em Coimbra e (…) quando eu era muito jovem pertenci ao Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC)”, conta. Do TEUC recebeu uma bolsa da Fundação Gulbenkian que lhe abriu caminho até Lisboa. Da capital, seguiu para professor na Escola do Magistério Primário de Aveiro.

António Sampaio da Nóvoa admite que a sua formação não foi muito comum e vê no teatro uma forma de expressão e criação “muito importante, sobretudo no espaço universitário”. “Eu julgo que é muito importante que os estudantes, hoje até mais do que na altura, se possam dedicar a um conjunto de outras atividades, (…) porque isso faz parte da formação de um estudante universitário. Isto não é uma coisa complementar (…) é qualquer coisa que está no coração do que deve ser a formação de um estudante universitário”, frisa António Sampaio da Nóvoa.

Entende, no entanto, que “muitas das reformas universitárias (…) que reduziram a duração dos cursos (…) transformou a vida universitária numa vida hiper-ocupada”, em prejuízo de um menor tempo disponível “à formação ampla, humanística, à formação global que devia ser uma universidade”. Vê assim no teatro “um dos elementos mais fortes que pode contribuir para essa formação de cariz criativo, artístico, humanista”.

Aponta mesmo que foi junção da sua formação na área da Educação com o teatro e com as “inclinações” que sente pela literatura, pela leitura e pela filosofia que fizeram e contribuíram para o caminho que Sampaio da Nóvoa acabou por percorrer. Mantém-se no ensino, agora como professor catedrático no Instituto de Educação da Universidade de Lisboa. “Foi a minha vida, é com essa vida que eu vivo e que eu faço também a minha intervenção pública e a minha intervenção cidadã”, aponta.

Sampaio da Nóvoa revela surpresa pela continuação temporal que o GrETUA consegue manter. “Tem conseguido uma continuidade que é rara no teatro universitário e estão de parabéns todos aqueles que mantiveram o GrETUA em funcionamento (…) e está de parabéns também a Universidade de Aveiro que soube, nos momentos certos, apoiar e criar as condições para que o GrETUA se desenvolvesse e continuasse até hoje”, frisou.

Também Rui Sérgio revela que o grupo inicial não tem a noção do impacto que o GrETUA acabou por ter, desde o início, na comunidade e em Aveiro. “Tínhamos a noção que tínhamos gente a assistir aos nossos espetáculos (…) mas não tínhamos muito a noção do impacto”, conta Rui que, há alguns anos foi surpreendido por Romeu Costa, ator aveirense que confessou ter seguido a profissão por influência do GrETUA.

“Foi muito engraçado ele dizer: «eu comecei a interessar-me pelo teatro por ver o GrETUA e por te ver a ti em palco»”, completa o fundador do grupo de teatro. “Obviamente quando se fundou o GrETUA, não nos passaria pela cabeça que passado 45 anos eu estava a falar consigo sobre o GrETUA”, completou Rui Sérgio.

João Garcia Neto: “ele deu-nos o GrETUA que nós não vimos porque estávamos lá dentro, e nós agora queremos-lhe devolver mais algumas memórias”

Certo é que 45 anos passados, ainda se fala sobre GrETUA. Hoje, João Garcia Neto é o diretor artístico e amanhã [dia 20 de março] assistiremos à antestreia do documentário que pretende dar os parabéns – ainda que atrasados – ao GrETUA e a todas as pessoas que por lá passaram.

A promessa é a de um documentário que foi construído numa “espécie de efeito dominó” a partir de dois dos fundadores. Deslindado o ponto de partida, João aponta que o documentário contará com o testemunho de cerca de três dezenas de pessoas diferentes. “Houve essa preocupação, que é uma coisa difícil, de fazer aparecer o máximo de pessoas possível, para que as pessoas se sintam representadas”, nota.

As entrevistas integram a parte estrutural mais “convencional” do documentário que “depois também se desdobra numa camada um bocadinho mais teatral”, desvenda João Garcia Neto. “Nós criamos um aniversário dentro deste [o do GrETUA], que é o aniversário do Pedrinho”, revela João Garcia Neto.

Pedrinho, conta-nos o diretor artístico, “é a pessoa que tem o maior arquivo do GrETUA: ele tem milhares de fotografias”. “É mesmo uma figura super importante porque é o guardião de uma percentagem muito significativa do arquivo”.

Acaba por ser o gancho do filme que conta a história do GrETUA. As memórias de quem por lá passou vão ser materializadas em fotografias que o Pedrinho não captou, mas que também fazem parte daquilo que é o GrETUA. “Ele deu-nos o GrETUA que nós não vimos porque estávamos lá dentro, e nós agora queremos-lhe devolver mais algumas memórias”, conta João Garcia Neto. São estas fotografias e memórias que amanhã vão poder ser vistas.

A antestreia do documentário arranca às 21h00 no Auditório Renato Araújo, no edifício da Reitoria da UA. Apesar da sessão ser aberta “à comunidade académica no seu todo e à cidade”, as inscrições já estão esgotadas estando prevista uma segunda rodagem. Esta segunda rodagem seria realizada no âmbito do Dia Mundial do Teatro, que se assinala a 27 de março, nas instalações do GrETUA. A expectativa é que o filme, “um trabalho feito a muitas mãos, (…) toque no coração, para quem é ou foi GrETUA; e para quem não é, que fiquem com essa perspetiva histórica e com uma noção clara da importância do grupo”, sublinha João Garcia.

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