Durante a noite escura, o 'Moliceiro Solidário' leva comida e afeto a cerca de 40 sem-abrigos
Todos os fins de semana, pelas 19h30, o projeto “Moliceiro Solidário” sai à rua para distribuir comida às pessoas em situação de sem-abrigo em Aveiro. Atualmente, ajudam cerca de quatro dezenas de pessoas, passando por quatro pontos da cidade. A Ria acompanhou uma dessas voltas.
Isabel Cunha Marques
JornalistaSábado.19h05. Pelas traseiras da Estação de Comboios de Aveiro avista-se um grupo de três pessoas vestidas com um colete refletor. Parecem estar a preparar-se para a noite que se avizinha. Aproximamo-nos para perceber quem são. Dizem-nos que são escuteiros da Gafanha da Nazaré e que vieram ajudar o projeto do “Moliceiro Solidário”. Um projeto feito por pessoas voluntárias que todos os sábados e domingos sai à rua para distribuir comida às pessoas em situação de sem-abrigo em Aveiro.
Alertam-nos que este é sempre o ponto de partida, mas que ainda ninguém da organização do projeto chegou. Confidenciam-nos também que ainda é cedo, visto que a volta sairá, como sempre, pelas 19h30. Restavam 25 minutos. Mantemo-nos com este grupo à conversa. Entretanto, começamos a ver um conjunto de pessoas a aproximarem-se de nós. Cada uma delas fazia-se a acompanhar de um ou dois sacos de compras. Uns vinham a pé, outros de bicicleta. Era notória a felicidade na cara destas pessoas. Mal nos avistaram, vieram diretamente ao encontro dos escuteiros. Tal como a Ria, também eles os identificaram pelos coletes amarelos que vestiam. Não tardaram em perguntaram-lhes: “já não há comida?”. Um dos escuteiros respondeu-lhes, prontamente, que a Sónia, uma das atuais responsáveis pelo “Moliceiro Solidário”, ainda não tinha chegado. Imediatamente, afastaram-se de nós e juntaram-se em grupo um pouco mais atrás. A cinco minutos da hora marcada eram já mais de uma dezena de pessoas que por ali aguardava.
No entretanto, uma dessas pessoas decidiu pegar na sua pequena coluna de som e pôr música para alegrar os restantes. A maioria começou a dançar. A um minuto para as 19h30 começamos a avistar um carro preto. Automaticamente, um elemento desse grupo sai e aguarda pela chegada desse carro junto a um estacionamento que por lá se encontrava. Começa a fazer gestos como se fosse um arrumador de carros. Mal esse carro preto estaciona, percebemos que se tratava de Sónia. Se o ambiente já era de ‘festa’, assim que a viram passou a ser ainda mais. A maioria foi até abraçá-la, como se fosse já uma amiga de longa data. E era.
Sónia Corujo está no projeto do Moliceiro Solidário desde “novembro de 2022”. Conta-nos que a ideia começou através de uma publicação do “Diogo [Torres]”, na rede social ‘Facebook’, onde partilhou que estava com a ideia de iniciar um projeto, porque se tinha apercebido que “havia muitos sem-abrigos” em Aveiro. “Na altura, até tínhamos aqui vários sítios com vidros [no chão] e estava muita gente a morar [aqui]. Entretanto, [esse grupo] até foi desmantelado”, recordou.
Se ao início aceitou o desafio, juntamente com o seu marido pela “carolice”, rapidamente, apercebeu-se que a situação “era mais grave” do que imaginava. “De dia não víamos assim uma coisa tão grande. As pessoas em situação de sem-abrigo, em Aveiro, não estão aqui ao descoberto. Não estão aqui com mantas. Não fazem isso. Eles escondem as coisas durante o dia e à noite é que os vemos dentro de prédios, debaixo das escadas, com cobertores, com mantas, com frio. Mais atrás daqui temos pessoas com tendas que não têm mesmo sítio onde estar e onde viver”, descreveu.
Atualmente, este grupo complementa o trabalho também realizado pelas “Florinhas do Vouga”, uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) que apoia também pessoas em situação de sem-abrigo. “Nós no início não sabíamos onde eles estavam especificamente. Eles não nos conheciam. Só conheciam as Florinhas do Vouga. [Esta IPSS] trabalhava de segunda a sexta e nós começamos a fazer os sábados e os domingos”, explicou. Depois, “foi mais a palavra puxa a palavra (…). Nós íamos mesmos aos pontos onde os víamos passar… Era sempre durante a noite escura que os conseguíamos encontrar”, continuou.
Logo após ser abraçada por este grupo, Sónia dirigiu-se à mala do seu carro onde se viam diferentes tupperware’s com comida, água e até café. Disse-nos que tinha trazido para este sábado “40 refeições” e que amanhã seriam mais “40” para distribuir pelas cerca de quatro dezenas de pessoas em situação de sem-abrigo em Aveiro. “Este fim de semana tivemos muita sorte, porque houve uma entidade pública que teve um evento e sobraram muitas coisinhas como croissants, pão, rissóis, croquetes, bolinhos de bacalhau e doces”, desabafou. Nos dias em que não há restos de comida são os próprios voluntários que cozinham. “Normalmente, faço eu vinte e outras duas colegas fazem cada uma também vinte refeições”, apontou.
Há medida em que ia distribuindo os alimentos, em conjunto com os escuteiros da Gafanha da Nazaré, juntava-se o grupo que tínhamos visto inicialmente. No total, naquele ponto, acabaria por distribuir “25 refeições”. As restantes 15 seriam para distribuir por mais três pontos da cidade que Sónia prefere que não sejam revelados nesta reportagem.
Com os sacos de compras cheios, rapidamente aquele grupo de 25 pessoas desapareceu dali. Sónia alerta-nos que aquelas pessoas “não têm sítio certo para dormir” e que, atualmente, são “postos de lado pela própria Câmara”. “Nós aqui devíamos ter um sítio, pelo menos, onde eles pudessem guardar as mochilas e a roupa, durante o dia, uma vez que eles não têm sítio certo para dormir”, reconheceu.
A Ria tentou ainda contactar a autarquia para apurar dados e esclarecer que tipo de apoio está a ser prestado às pessoas em situação de sem-abrigo em Aveiro, mas até à data de publicação desta reportagem não obteve resposta.
“Roubar não sei, fazer mal também não sei”
Terminado o primeiro local, seguiu-se um segundo ponto de distribuição, desta vez, numa casa abandonada ocupada por cerca de cinco pessoas em situação de sem abrigo. Recebem também eles comida e questionam-nos se queremos entrar. Reforçam-nos que aqui “há limpeza” e para “não termos medo”. Dizem que habitam naquela casa há cerca de dois anos e que os proprietários sabem da presença deles ali. Referem-nos que os donos nunca se importaram até porque “nunca foram mal-educados com ninguém”. Temos a oportunidade de conversar com um deles.
Rúben, nome fictício, fala-nos com um especial brilho nos olhos sobre o projeto do “Moliceiro Solidário”. “Se a pessoa tivesse assim uma companhia durante todo o dia ainda era melhor… Eles vêm aqui, a gente já fala e já ficamos um bocado mais alegres a falar com outras pessoas lá de fora. Eu saio à rua, não falo com ninguém...”, lamentou.
Rúben é de Aveiro, tem cerca de 50 anos, o quarto ano de escolaridade e adianta-nos que sabe ler e escrever. Acrescenta-nos que trabalhou durante muitos anos nas obras, no estrangeiro e que foi isso que o fez perder grande parte da sua saúde. Diz que, atualmente, recebe “200 e poucos euros por mês” de apoio da segurança social e que está à procura de emprego há vários anos. “Há muito preconceito. Vou pedir trabalho e não aceitam… As pessoas não têm confiança uma nas outras, não se falam… Eu se disser bom dia ninguém me responde sequer”, desabafou. “Se não são vocês, os moliceiros e as pessoas que sabem que estamos por aqui, não sei onde a gente iria chegar… Roubar não sei, fazer mal também não sei”, continuou.
“Estas pessoas todas já estiveram bem na vida (…). Eu tenho duas filhas e não queria que acontecesse a elas o que aconteceu comigo. Os dias não são todos iguais… Um dia estamos bem, no outro dia pode ir tudo por água abaixo”, alertou um outro ‘colega’ que se encontra com Rúben naquela casa. “Nós temos de respeitar o próximo. Foi aquilo que sempre me ensinaram. Um sem-abrigo perante a sociedade rouba, é bêbado, etc”, reforçou com tristeza.
“Eu não me meto na droga, não tenho nada”
Já no terceiro local, mais uma vez, encontramos um conjunto de pessoas em situação de sem-abrigo. Não conseguimos perceber bem quantas são, já que estava escuro no local. Ao contrário de Rúben, não estão a pernoitar numa casa, mas sim ao ar livre. Abrigam-se junto a uns tanques onde, antigamente, se chegou a lavar roupa. Nesse local há um som que impera: o som da rádio. Enquanto distribui comida também por eles, Sónia comenta-nos que, desta vez, não vai ser fácil falar com ninguém, exceto, se aparecesse o Fernando, o que já não acontecia há bastante tempo. Por sorte nossa, nessa noite, Fernando veio e aceitou conversar connosco. Fazia-se acompanhar de uma bicicleta.
Começa por nos dizer prontamente que não tem problema em que seja revelado a sua identidade já que é “conhecido em todo lado” e que “não deve nada a ninguém”. Avança-nos que tem “54 anos” e que está em situação de sem-abrigo há “12 anos”. Atualmente, vive encostado ao terreno da Universidade de Aveiro (UA) numa das casas que está, neste momento, isolada com as obras das novas residências do Crasto. Há cerca de um ano e meio que não recebe qualquer ajuda e partilha que se “desenrasca” a fazer “biscates, a limpar terrenos ou a apanhar material para vender para o ferro velho”.
Fernando sente que “não é invisível na cidade”, mas que faltam “ajudas como deve ser”. “Se eu andasse metido na droga até ao pescoço eu tinha tudo o que queria. Eu não me meto na droga, não tenho nada”, expôs. Sobre o projeto do “Moliceiro Solidário” assegura-nos que pode chegar ali “maldisposto que a má disposição desaparece logo”.
Perto das 21h30 chegamos, finalmente, ao último ponto. Curiosamente foi o local onde menos pessoas em situação de sem abrigo apareceram. Ali encontravam-se apenas três pessoas: dois adultos e uma criança que se fazia acompanhar com uma bola de futebol. Sónia reforça-nos que aqui não será possível conversar com ninguém para a reportagem. Aproveitamos apenas para ouvir as suas histórias e para dar uns ‘toques’ na bola com esta criança.
A volta do “Moliceiro Solidário” terminou já perto das 22h00. No final, Sónia pergunta-nos se a queremos acompanhar até ao restaurante “Cozinha do Rei”. Tinha recebido uma chamada do gerente a informar que tinha sobras de comida para doar. Este é um dos dois espaços de restauração que, atualmente, se associa a este projeto. Aceitamos ir com ela. Mal chegamos somos recebidos por Carlos Santos, gerente do “Cozinha do Rei”, que nos explica que sempre que terminam os jantares de grupo ligam “logo” para o projeto. “Já é um hábito”, partilhou. Muitas vezes, chegam a doar ao “Moliceiro Solidário” até “seis quilos [de comida] de cada vez”.
Independentemente da quantidade doada, a verdade é que no final da noite a mala do carro de Sónia voltou a ficar cheia. Isso significava que no dia seguinte as cerca de 40 pessoas em situação de sem-abrigo, identificadas pelo projeto, em Aveiro, teriam novamente refeição. Assim aconteceu.
Recomendações
Manuel Tur leva “Class Enemy” ao Teatro Aveirense para refletir sobre o ensino
Passados 48 anos desde a estreia do espetáculo “Class Enemy”, de Nigel Williams, o encenador Manuel Tur volta a pegar na peça para a levar ao Teatro Aveirense. Em entrevista à Ria, o encenador explica que o espetáculo gira em torno da escola enquanto espaço de revolta e de reflexão sobre a sociedade. “Esta sala de aula, que é onde estas personagens passam o espetáculo todo, é realmente uma espécie de reflexo, de símbolo, do que é a sociedade que se vive cá fora”, exprimiu. Apesar de o espetáculo partir de uma peça original inglesa, Manuel Tur referiu à Ria que houve uma preocupação em “descontextualizar” esta escola. “Não há nunca nenhuma referência de cidade nem de sítio, mas percebemos claramente que esta escola está no centro do que pode ser um lugar menos abastado”, referiu. “Eu não gosto de lhe chamar bairro social porque acho que isso é muito redutor e ao mesmo tempo faz com que se crie uma espécie de preconceito de que o bairro social vai tendencialmente criar marginais e vândalos… Mas percebemos que estas personagens nesta sala e nestas escolas estão num contexto socioeconómico mais baixo. É um bocadinho o espelho do que se passa fora”, pormenorizou. Quanto às razões que o levaram a voltar a trazer este espetáculo a cena, o encenador sublinhou o facto de a peça ser “brutalmente atual”. “Primeiro porque eu acho e porque, principalmente, com os resultados que tivemos nas últimas eleições presidenciais e que desembocaram nesta segunda volta que esperemos que não tenha um final tão extremista e tão triste como inicialmente se previa... Acho que cada vez mais é importante que se debata e reflita a escola, a educação e o sistema. O sistema de ensino, o sistema de inclusão e de exclusão social”, refletiu. Sem desvendar demasiado sobre o que o público poderá esperar, Manuel Tur revelou que a peça se centra em “seis personagens que estão encerrados dentro de uma sala de aula”. “A certa altura, percebemos que estão quase barricados também, ou seja, eles gritam por ajuda o tempo todo, metaforicamente, a esta figura do ensino e do conhecimento, mas cada vez que algum professor chega para os ensinar esse professor é aterrorizado, maltratado e acaba por ser expulso”, conta. “Estas personagens são muito simbólicas (…) do que é esta sociedade também”, completa. Relativamente à estreia no Teatro Aveirense, o encenador destacou que este espetáculo assinala um regresso à cidade dos canais, onde tem apresentado regularmente o seu trabalho desde 2017, com peças como ‘Mulheres de Tráfico’ ou ‘20 de Novembro’. “Desde 2017 que me tenho debruçado um bocadinho mais sobre estas temáticas, mas principalmente sobre o facto de acreditar que o teatro ainda tem alguma função política e de alerta de consciência. Portanto, o teatro como pedra de arremesso e isto sem qualquer tipo de presunção. O Teatro Aveirense tem sido um parceiro muito regular nesse sentido”, afirmou. O encenador mostrou-se, por fim, expectante com aquela que será a receção do público. “Como artistas temos sempre um ego para alimentar, mas temos também expectativas que são geradas à volta dos trabalhos que vamos fazendo e este trabalho é muito particular (…) porque é um trabalho de um coletivo muito especial, de um grupo de gente que se juntou num momento particular. É um espetáculo muito feliz apesar de ser violentíssimo”, referiu. “Apesar de ter 1h50, é um espetáculo que tu vês de estômago apertado o tempo todo, mas o próprio tempo vai passando muito mais rápido do que acreditamos. Isto são palavras das pessoas todas que viram aqui no Porto nestas duas últimas semanas”, refletiu. A peça estará no Teatro Aveirense no dia 13 de fevereiro e tem o custo de 5 euros. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.
Habitação: Luís Souto volta a apelar à libertação do quartel da GNR em reunião com deputados do PSD
Segundo o texto enviado pelos sociais-democratas, o presidente da CMA colocou a habitação no centro das prioridades. Como já tinha sugerido em campanha, Luís Souto voltou a referir-se à intenção de libertar o antigo quartel que agora alberga o comando distrital da GNR para transformar o “quarteirão num núcleo habitacional de tipologia mista”. A Câmara Municipal garante que se disponibiliza para criar condições que permitam a reinstalação da guarda em nova localização “mais consentânea com as suas missões e em edifício moderno adequado às atuais exigências desta força de segurança”. Também na habitação, Luís Souto defendeu a “quebra de tabus” para, em sede de revisão do PDM, “alargar as zonas de construção, por exemplo, ao longo do traçado do caminho de ferro ou nas franjas de aglomerados urbanos servidos de diversas infraestruturas”. Na reunião, a autarquia pediu a intervenção dos deputados social-democratas para que o antigo centro de saúde mental de São Bernardo passe a propriedade do Município. O objetivo, afirma, é criar uma centralidade urbana com diversidade de serviços que responda a diversas necessidades. Da mesma forma, a Câmara Municipal também quer reaver as instalações ocupadas pelo Tribunal Administrativo e Fiscal, que pretende ver alocadas à atividade cultural. Luís Souto referiu ainda a intenção de ampliar o centro de congressos pelo seu “enorme potencial de crescimento” e deu nota de que a deslocalização do centro de emprego abriria portas ao alargamento do espaço para congressos da antiga Fábrica Campos. O processo que envolve o alargamento do Hospital de Aveiro também foi abordado, tal como o Eixo Aveiro-Águeda – um projeto que, diz a Câmara Municipal, “está bem encaminhado […], estando numa fase final o processo de expropriações”.
Aveiro: “Crateras” junto à Rodoviária geram indignação, mas CMA garante intervenção em breve
Os clientes de Daniel Castanheta, motorista TVDE, dizem que “Aveiro é a terra dos buracos”, segundo conta o condutor à Ria. Em frente à Estação Rodoviária de Aveiro, o profissional olha para a Avenida Vasco Branco, diariamente atravessada por dezenas de autocarros, onde conta que já evita passar, uma vez que “tem buracos que não dão boa saúde aos carros”. Nos últimos dias, a situação tem gerado polémica nas redes sociais. Na sequência de uma publicação feita no Facebook, foram muitos os munícipes que se mostraram desagradados com o estado do pavimento, comentando que “Aveiro é um país de terceiro mundo ao nível das vias de comunicação” ou que aquela estrada “parece um caminho de cabras”. À Ria, o motorista conta que também já pensou recorrer às redes sociais para alertar para o problema. Os remendos são recorrentes – segundo Daniel Castanheta, até já foram colocados no passado mês de janeiro -, mas qualquer “chuvinha” faz desaparecer o trabalho de manutenção da via. “É uma vergonha… Eles [os responsáveis da autarquia] chegam aqui agora, se virem dois dias de sol, e metem um bocadinho de pó. Basta vir uma chuva e abrem ali aquelas crateras todas”, relata. A história coincide com aquela que Luís Delgado, que trabalha na Busway – empresa de transportes públicos que opera na região de Aveiro –, conta também à Ria. De acordo com o motorista, “desde o ano passado que andam a pôr remendos”, mas as coisas não têm melhorado e “já há buracos com mais de um palmo”: “Não vale a pena pôr remendos, vai ficar igual ou pior. (…) É o mesmo que pôr remendos numas calças velhas. (…) Põe-se lá um remendo e, passados uns dias, já está rasgado ao lado”. O condutor de autocarros entende que o caminho devia passar pela colocação de um “tapete de boa qualidade para os pesados” que viesse desde o início até ao fim do comprimento do túnel. Seria uma forma de “gastar o dinheiro de uma vez, em vez de andar a gastar o dinheiro aos pouquinhos”, no seu entender. Embora nem todos tenham mostrado vontade de falar à Ria, nas imediações do Terminal Rodoviário não houve quem fosse abordado que não tivesse queixas sobre a estrada. Entre taxistas, motoristas e trabalhadores da estação, todos deram nota de uma situação “horrível” que condiciona a chegada ao local de trabalho. Daniel Castanheta referiu ainda que esta rua não é caso único no concelho de Aveiro, que “está mesmo mal em termos de vias de comunicação”. Exemplo disso é a Avenida Artur Ravara, entre o Hospital e o Parque Infante D. Pedro, onde “a estrada tem buracos enormes” que “nem sequer se deram ao trabalho de tapar”. Da mesma forma, afirma que, na Rua Homem Cristo Filho, “houve um abatimento do pavimento (…) já para aí há dois meses” e que “puseram lá umas grades porque não se consegue passar”. Após ser contactado pela Ria, Rui Santos, vice-presidente da Câmara Municipal de Aveiro responsável pelo pelouro Serviços Urbanos e Espaço Público, garante que a autarquia está a par da situação e que, em breve, vão ser tomadas medidas. Neste momento, adianta, está a ser preparado o lançamento de uma empreitada para a recuperação de algumas vias do Município, entre as quais está a da Avenida Vasco Branco.
Mau tempo: Câmara de Aveiro fechou acesso à antiga Lota e deixou família bloqueada
A Câmara de Aveiro mandou encerrar a estrada de acesso à zona da antiga Lota desde as 14h00 de segunda-feira até às 08h00 de hoje, atendendo à precipitação persistente e à subida da maré. A decisão apanhou de surpresa Agostinho Neno, o filho e a nora, que estavam a trabalhar nas marinhas às quais apenas se pode aceder por um caminho de terra ligado por uma ponte à zona que foi vedada. Quando tentaram regressar a casa ao final da tarde, os três depararam-se com o acesso barrado por um monte de terra e tiveram de retirar parte da terra com uma pá para passar com as suas viaturas. “Acho que eles vieram ver se havia carros ali. Dizem que não viram carros e taparam, mas os meus carros estavam aqui na zona privada, onde tenho o cais do meu barco”, disse à Lusa Agostinho Neno, queixando-se da falta de aviso prévio por parte da autarquia. Numa nota enviada hoje à Lusa, o gabinete de imprensa da Câmara esclareceu que a estrada na zona da antiga lota foi encerrada por razões de prevenção e para garantir a segurança. “Esta decisão foi tomada de forma responsável, face às condições existentes no local, tendo sido previamente assegurada a informação a todas as associações e coletividades com instalações naquela área”, refere a mesma nota. A mesma fonte acrescentou que a câmara desconhecia que estivessem trabalhadores nas marinhas e não teve a intenção de prejudicar e impedir a passagem dessas mesmas pessoas. Dez pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois quatro óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador. A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados. Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos. O Governo decretou situação de calamidade até ao próximo domingo para 68 concelhos e anunciou um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
Últimas
Manuel Tur leva “Class Enemy” ao Teatro Aveirense para refletir sobre o ensino
Passados 48 anos desde a estreia do espetáculo “Class Enemy”, de Nigel Williams, o encenador Manuel Tur volta a pegar na peça para a levar ao Teatro Aveirense. Em entrevista à Ria, o encenador explica que o espetáculo gira em torno da escola enquanto espaço de revolta e de reflexão sobre a sociedade. “Esta sala de aula, que é onde estas personagens passam o espetáculo todo, é realmente uma espécie de reflexo, de símbolo, do que é a sociedade que se vive cá fora”, exprimiu. Apesar de o espetáculo partir de uma peça original inglesa, Manuel Tur referiu à Ria que houve uma preocupação em “descontextualizar” esta escola. “Não há nunca nenhuma referência de cidade nem de sítio, mas percebemos claramente que esta escola está no centro do que pode ser um lugar menos abastado”, referiu. “Eu não gosto de lhe chamar bairro social porque acho que isso é muito redutor e ao mesmo tempo faz com que se crie uma espécie de preconceito de que o bairro social vai tendencialmente criar marginais e vândalos… Mas percebemos que estas personagens nesta sala e nestas escolas estão num contexto socioeconómico mais baixo. É um bocadinho o espelho do que se passa fora”, pormenorizou. Quanto às razões que o levaram a voltar a trazer este espetáculo a cena, o encenador sublinhou o facto de a peça ser “brutalmente atual”. “Primeiro porque eu acho e porque, principalmente, com os resultados que tivemos nas últimas eleições presidenciais e que desembocaram nesta segunda volta que esperemos que não tenha um final tão extremista e tão triste como inicialmente se previa... Acho que cada vez mais é importante que se debata e reflita a escola, a educação e o sistema. O sistema de ensino, o sistema de inclusão e de exclusão social”, refletiu. Sem desvendar demasiado sobre o que o público poderá esperar, Manuel Tur revelou que a peça se centra em “seis personagens que estão encerrados dentro de uma sala de aula”. “A certa altura, percebemos que estão quase barricados também, ou seja, eles gritam por ajuda o tempo todo, metaforicamente, a esta figura do ensino e do conhecimento, mas cada vez que algum professor chega para os ensinar esse professor é aterrorizado, maltratado e acaba por ser expulso”, conta. “Estas personagens são muito simbólicas (…) do que é esta sociedade também”, completa. Relativamente à estreia no Teatro Aveirense, o encenador destacou que este espetáculo assinala um regresso à cidade dos canais, onde tem apresentado regularmente o seu trabalho desde 2017, com peças como ‘Mulheres de Tráfico’ ou ‘20 de Novembro’. “Desde 2017 que me tenho debruçado um bocadinho mais sobre estas temáticas, mas principalmente sobre o facto de acreditar que o teatro ainda tem alguma função política e de alerta de consciência. Portanto, o teatro como pedra de arremesso e isto sem qualquer tipo de presunção. O Teatro Aveirense tem sido um parceiro muito regular nesse sentido”, afirmou. O encenador mostrou-se, por fim, expectante com aquela que será a receção do público. “Como artistas temos sempre um ego para alimentar, mas temos também expectativas que são geradas à volta dos trabalhos que vamos fazendo e este trabalho é muito particular (…) porque é um trabalho de um coletivo muito especial, de um grupo de gente que se juntou num momento particular. É um espetáculo muito feliz apesar de ser violentíssimo”, referiu. “Apesar de ter 1h50, é um espetáculo que tu vês de estômago apertado o tempo todo, mas o próprio tempo vai passando muito mais rápido do que acreditamos. Isto são palavras das pessoas todas que viram aqui no Porto nestas duas últimas semanas”, refletiu. A peça estará no Teatro Aveirense no dia 13 de fevereiro e tem o custo de 5 euros. Os bilhetes podem ser adquiridos aqui.
Carnaval Infantil de Estarreja adiado para 14 de fevereiro devido ao mau tempo
Numa nota publicada na sua página na internet, a Câmara refere quea organização do Carnaval de Estarreja decidiu adiar o Carnaval Infantil para sábado, 14 de fevereiro, às 14h30, no Sítio do Carnaval. A decisão surge nasequência da declaração da situação de calamidade decretada pelo Governo até 8 de fevereiro, alargando-a um conjunto de municípios da região de Aveiro, onde se inclui Estarreja. "Para o município de Estarreja e para a Associação de Carnaval de Estarreja, a prioridade máxima é a segurança de todos os envolvidos neste desfile, reforçando a salvaguarda das pessoas e a segurança pública, pois estão previstas condições meteorológicas adversas para o dia do evento", refere a mesma nota, adiantando quehaverá lugar à devolução de bilhetes, caso não possam comparecer na nova data.
Detido suspeito de provocar incêndio em moradia em obras em Ovar
Em comunicado, a PJ de Aveiro esclareceu que o homem, que foi detido com a colaboração da GNR, ter-se-á introduzido ilicitamente numa moradia em obras, na freguesia de Maceda, ateando fogo em diversos materiais de construção. "O incêndio, ateado através de chama direta, foi detetado do exterior, quase no seu início, tendo sido imediatamente combatido por populares e, de seguida, pelos bombeiros locais, não assumindo assim proporções de relevo", refere a mesma nota. Ainda segundo a Judiciária, a atuação em causa "foi potenciada por um quadro de alcoolismo", existindo já antecedentes criminais por crimes de incêndio e referências policiais recentes por atos de vandalismo. A PJ refere ainda que o detido vai ser presente às autoridades judiciárias, na comarca de Aveiro, para aplicação das devidas medidas de coação.
Habitação: Luís Souto volta a apelar à libertação do quartel da GNR em reunião com deputados do PSD
Segundo o texto enviado pelos sociais-democratas, o presidente da CMA colocou a habitação no centro das prioridades. Como já tinha sugerido em campanha, Luís Souto voltou a referir-se à intenção de libertar o antigo quartel que agora alberga o comando distrital da GNR para transformar o “quarteirão num núcleo habitacional de tipologia mista”. A Câmara Municipal garante que se disponibiliza para criar condições que permitam a reinstalação da guarda em nova localização “mais consentânea com as suas missões e em edifício moderno adequado às atuais exigências desta força de segurança”. Também na habitação, Luís Souto defendeu a “quebra de tabus” para, em sede de revisão do PDM, “alargar as zonas de construção, por exemplo, ao longo do traçado do caminho de ferro ou nas franjas de aglomerados urbanos servidos de diversas infraestruturas”. Na reunião, a autarquia pediu a intervenção dos deputados social-democratas para que o antigo centro de saúde mental de São Bernardo passe a propriedade do Município. O objetivo, afirma, é criar uma centralidade urbana com diversidade de serviços que responda a diversas necessidades. Da mesma forma, a Câmara Municipal também quer reaver as instalações ocupadas pelo Tribunal Administrativo e Fiscal, que pretende ver alocadas à atividade cultural. Luís Souto referiu ainda a intenção de ampliar o centro de congressos pelo seu “enorme potencial de crescimento” e deu nota de que a deslocalização do centro de emprego abriria portas ao alargamento do espaço para congressos da antiga Fábrica Campos. O processo que envolve o alargamento do Hospital de Aveiro também foi abordado, tal como o Eixo Aveiro-Águeda – um projeto que, diz a Câmara Municipal, “está bem encaminhado […], estando numa fase final o processo de expropriações”.