RÁDIO UNIVERSITÁRIA DE AVEIRO

Opinião

"O dia “D”, de democracia", opinião de Miguel Pedro Araújo

Miguel Pedro Araújo, é natural de Aveiro. Licenciado em Comunicação e Assessoria de Imprensa, com Pós-graduação em Direito da Comunicação. Atualmente, frequenta o Mestrado em Políticas Públicas, percurso Governação Local e Regional, na UA. Depois de uma passagem pela rádio (em Aveiro e na região), profissionalmente esteve sempre ligado à comunicação autárquica, nos Municípios de Aveiro e de Ílhavo. Tem na política e nos direitos humanos o principal foco do seu ativismo.

"O dia “D”, de democracia", opinião de Miguel Pedro Araújo
Miguel Pedro Araújo

Miguel Pedro Araújo

Opinião
12 mar 2025, 08:47

A dinâmica da democracia tem esta nobre essência: devolver ao povo a legítima e soberana de escolherem o destino do país. As crises políticas fazem parte da vivência democrática de um Estado de Direito.

Neste contexto, não são os cidadãos que têm ou devem ter medo de exercer o seu direito político e o seu dever cívico.

O uso da narrativa do “ninguém quer eleições” é falaciosa e demagoga. Esta apropriação da vontade coletiva é abusiva e inconsistente. Quem sempre pareceu ter receio de um processo eleitoral, paradoxalmente, foi o Governo e o PSD (que foram quem colocou o cenário para ponderação da Assembleia da República) ou aqueles que se deparam com o risco factual e real de perderem o seu lugar parlamentar ou governativo.

O país não parará por três meses, as empresas não deixarão de produzir, os serviços, de uma forma, eventualmente, mais lenta, não deixarão de prosseguir as suas funções. O mundo não mudará o seu ciclo (neste momento, infelizmente, de pernas para o ar) por causa das eleições em Portugal. Basta recordar que a Alemanha, em plena crise geopolítica global, ainda há pouco mais de duas semanas teve um processo eleitoral (também fruto de uma crise política interna), sem qualquer tipo de constrangimento.

Não haverá paralisia funcional do país só porque há eleições… Pode, de facto, haver alguns atrasos, que podem impactar, por exemplo, com o PRR ou outras temáticas deliberativas (por exemplo, a revisão do RJIES… embora, neste caso, até possa ser uma boa notícia).

Portanto, o país vai para eleições porque a democracia assim o determina, a ética política assim o exige, a transparência a isso o obriga.

Aqui chegados, temos que ser claros. Os únicos responsáveis pela crise política e pela queda do Governo são Luís Montenegro e o PSD.

Acho que não vale a pena trazer para aqui a “fita do tempo” sobre o que trouxe o estado de alma da política nacional até ao dia de hoje: o primeiro-ministro teve todas as oportunidades, primeiro de forma proativa, depois por pressão da oposição para esclarecer e limpar todo o contexto que poderia levantar e levantou suspeitas do não cumprimento da exclusividade a que está obrigada a sua função; para clarificar dúvidas sobre transparência e imparcialidade; sobre eventual e alegado incumprimento fiscal e ético. Não é inócuo o que a Entidade da Transparência já afirmou, o que alguns constitucionalistas já proferiram ou a ação que a Procuradoria-geral da República já está a desenvolver (após denúncia) e que, há pouco mais de um ano, foi motivo semelhante para a “emissão de um parágrafo palaciano”.

Ora, a apresentação, por parte do Governo, da moção de confiança que foi chumbada foi, para além de um enorme tiro no pé, querer condicionar a democracia e querer limitar a Assembleia da República. Não vale a pena o esforço inglório do PSD querer sacudir a água do capote, passar a terceiros a responsabilidade que só a eles lhe cabe. O cenário era por demais conhecido, pelo menos há um ano. Face ao quadro parlamentar vigente, qualquer moção de confiança era, à partida, um processo morto à nascença. O Partido Socialista sempre o deixou bem claro: não passariam moções de censura, como nunca viabilizaria uma moção de confiança.

O que se assistiu hoje [ontem], na Assembleia da República, foi um mau exercício da nobre função política e uma afronta à democracia. Usar um mecanismo parlamentar para esconder as responsabilidades de transparência e de ética (pelo menos) do primeiro-ministro, revertendo a temática em causa e em debate (a moção) em subterfúgios políticos (querendo discutir o que não estava em discussão: a Comissão Parlamentar de Inquérito; ainda por cima invertendo todas as regras, competências, funcionamentos e procedimentos regimentais e legais), criando, com isso, uma crise política e a queda do Governo, é um ato político que cabe, única e exclusivamente, ao Governo. Toda a oposição (com a exceção demonstrada pela IL e pelo CDS) foi apenas coerente com as suas posições.

Aliás, o PSD e o Governo usarem o PS como bandeira da irresponsabilidade é um deplorável ato de baixa política e de desespero partidário. O PS, até à data, por exemplo, viabilizando o Orçamento do Estado, deu todas as condições para o Governo e o PSD governarem. Num momento de fragilidade política, o primeiro-ministro preferiu criar uma crise política e escamotear as suas responsabilidades, e, claramente, autodemitiu-se, a si e ao seu Governo.

Mais do que o povo ter medo de eleições (que não tem), o que o povo receia, mesmo, é a deterioração da democracia e do Estado de Direito, e o que o povo não quer, garantidamente, é voltar a assistir ao ignóbil circo que hoje se assistiu na Assembleia da República, como joguinhos estratégicos, com manobras e truques que só tinham como objetivo condicionar a democracia e enganar os portugueses.

Posto isto, o futuro estará, democraticamente, nas mãos dos portugueses. Não vale a pena estarmos a tecer cenários, mesmo com o que as últimas sondagens revelam. No dia 11 ou 18 de maio logo saberemos a superior decisão democrática dos portugueses e o povo sempre soube - e sempre saberá escolher - livre e legitimamente.

"Uma derrota do PSD, a nível nacional, fragilizará, ainda mais, a candidatura de Luís Souto à presidência da Câmara Municipal de Aveiro"

Mas voltemos aos impactos das eleições no país. Há, apesar do que acima referi, uma influência direta das eleições: até maio, infelizmente, as eleições autárquicas serão secundarizadas e relegadas para um plano, mediático e partidário, inferior. Com outro contexto: os resultados eleitorais (independentemente do cenário que daí surgir) terão impacto nas narrativas e propagandas no decurso da campanha autárquica e, possivelmente, em alguns resultados locais.

No caso de Aveiro, confirmadas as candidaturas já anunciadas pela Comissão Política Distrital, nomeadamente a do PSD Aveiro, não é expetável que, a poucos meses do processo eleitoral de setembro/outubro deste ano, haja alterações, porque se afigurariam processos debilitados.

No entanto, face ao que foi o processo de escolha do candidato do PSD Aveiro, face aos impactos que teve na estrutura concelhia local, face ao que foram já as recentes declarações públicas do ex-presidente da Mesa da Assembleia/Plenário de Militantes do PSD Aveiro [Ribau Esteves], uma derrota do PSD, a nível nacional, fragilizará, ainda mais, a candidatura de Luís Souto à presidência da Câmara Municipal de Aveiro. É importante não esquecer que esta candidatura foi uma opção polémica de Luís Montenegro e da Comissão política Nacional do PSD. Esse resultado terá um impacto direto na aposta, não consensual e destabilizadora, do PSD à presidência da autarquia aveirense, mais, até, do que uma vitória do PS no desenrolar da campanha de Alberto Souto.

A verdade é que, seja qual for o contexto, o processo e os resultados, será sempre a democracia a funcionar e a vontade do povo, legitimamente, a ditar os destinos do país e dos municípios. Sem medos…

Recomendações

“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira
Opinião
11 fev 2026, 10:01

“Estaremos preparados para o clima passado?”, opinião de José Manuel Castanheira

José Manuel Castanheira é professor de Física do Clima, no Departamento de Física, na Universidade de Aveiro, e membro do Centro de Estudos do Ambiente e do Mar (CESAM).

"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira
Opinião
03 fev 2026, 11:38

"Os fins, os meios e a escolha presidencial", opinião de Ricardo Dias Sequeira

Ricardo Dias Sequeira é jurista, licenciado em Direito, com frequência de mestrado em Ciência Política na Universidade de Aveiro, período durante o qual obteve bolsa para estudos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), com foco em cidadania e comportamento eleitoral. É, atualmente, secretário da Comissão Política Distrital de Aveiro do CDS, cargo que já exerceu em 2013.

"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites
Opinião
24 jan 2026, 10:00

"No Dia Internacional da Educação, Aradas pede uma nova Carta Educativa", opinião de Carlos Brites

Carlos Brites é natural da Nazaré e reside em Aveiro desde 1999. Formado em Ensino de Física e Química e doutorado em Física pela Universidade de Aveiro, é atualmente Professor Associado no Departamento de Física da Universidade de Aveiro, onde dirige a Licenciatura em Engenharia Computacional. Desenvolve investigação científica nas áreas da nanotecnologia e dos materiais fotónicos avançados, com aplicações à computação e à lógica molecular. Tem na educação, na ciência, na cidadania e no desenvolvimento local os principais eixos da sua intervenção cívica, integrando o movimento 'Sentir Aradas'.

"A democracia a votos a 8 de fevereiro", opinião de Miguel Pedro Araújo
Opinião
23 jan 2026, 10:22

"A democracia a votos a 8 de fevereiro", opinião de Miguel Pedro Araújo

Miguel Pedro Araújo é natural de Aveiro. Licenciado em Comunicação e Assessoria de Imprensa, com pós-graduação em Direito da Comunicação. Atualmente, frequenta o Mestrado em Políticas Públicas, percurso Governação Local e Regional, na Universidade de Aveiro. Depois de uma passagem pela rádio (em Aveiro e na região), profissionalmente esteve sempre ligado à comunicação autárquica, nos Municípios de Aveiro e de Ílhavo. Tem na política e nos direitos humanos o principal foco do seu ativismo.

Últimas

Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros de Sever apresentou a demissão
Região
19 mar 2026, 17:50

Direção da Associação Humanitária dos Bombeiros de Sever apresentou a demissão

A direção da Associação Humanitária dos Bombeiros de Sever do Vouga apresentou a sua demissão, levando os 62 bombeiros que tinham passado à inatividade a regressar ao corpo ativo, garantiu hoje, dia 19, fonte da autarquia à agência Lusa.

Carlos Bica, Ana Setton e Orq. do Hot Clube com John O’Gallagher no festival Ovar em Jazz
Região
19 mar 2026, 17:00

Carlos Bica, Ana Setton e Orq. do Hot Clube com John O’Gallagher no festival Ovar em Jazz

De acordo com a agência Lusa, o percussionista romeno Marius Preda, o contrabaixista português Carlos Bica e a cantora brasileira Ana Setton fazem parte do cartaz do festival Ovar em Jazz, que decorre de 8 a 11 de abril nessa cidade do distrito de Aveiro.

Aveiro Jovem Criador revela vencedores da 23.ª edição no próximo sábado
Cidade
19 mar 2026, 14:47

Aveiro Jovem Criador revela vencedores da 23.ª edição no próximo sábado

A Câmara Municipal de Aveiro (CMA) revela, no próximo sábado, dia 21, às 16h00, os vencedores da 23.ª edição do Concurso Aveiro Jovem Criador. De acordo com uma nota de imprensa enviada à Ria, a cerimónia de entrega de prémios terá lugar no Centro de Congressos de Aveiro, seguindo-se, pelas 18h00, a inauguração e uma visita guiada à exposição do concurso no Museu Santa Joana.

Feirense celebra ecletismo e vitalidade na comemoração do 108.º aniversário
Região
19 mar 2026, 14:37

Feirense celebra ecletismo e vitalidade na comemoração do 108.º aniversário

O Feirense assinala no sábado, dia 14, o 108.º aniversário, celebrando o seu ecletismo com a realização da 20ª gala do clube, depois de nos últimos oito anos ter quase duplicado o número de atletas de 12 modalidades, segundo a agência Lusa.