"Uma Nova Visão de Coesão para Portugal", opinião de André Gomes
André Gomes é mestrando em Administração e Políticas Públicas, na Universidade de Aveiro, e licenciado em Turismo, Territórios e Património, com menor em Economia, pela Universidade de Coimbra. Pós-graduado em Gestão de Recursos Humanos pelo Instituto Superior de Gestão e em Gestão para Executivos (especialização em Marketing) pela Católica Lisbon School of Business and Economics. Com uma sólida experiência na gestão empresarial e na assessoria a titulares de cargos públicos, desempenhou funções em diversos gabinetes governamentais ligados ao Comércio, Defesa do Consumidor, Agricultura e Pescas.
André Gomes
OpiniãoNeste tempo em que a fruta da época são as promessas dos vários líderes políticos, nas suas já tradicionais proclamações por “amanhãs que cantam”, não podia deixar de apresentar uma proposta que estou convencido de que poderia vir a ser um importante contributo para resolver, por um lado, um grande problema coletivo — a gestão e a coesão territorial — e, por outro, um desafio individual — a gestão/utilização do património rústico, muitas vezes herdado, não identificado e quase sempre abandonado.
A iniciativa que se propõe, passa pela criação de um sistema integrado de troca voluntária de terrenos rústicos por Certificados de Aforro, promovendo, dessa forma, o emparcelamento e gerando receitas, quer através de explorações agrícolas, quer através da venda de créditos de carbono, num movimento que pretende transformar paisagens, reorganizar e valorizar o território nacional.
Portugal enfrenta, há várias décadas, um dos maiores desafios no ordenamento e gestão do seu território rural: a fragmentação extrema da propriedade rústica e o progressivo abandono da atividade agrícola, tendência que se agravou entre 2019 e 2023 (Instituto Nacional de Estatística [INE], 2024). Este abandono está certamente relacionado com a falta de um cadastro predial completo — um dos nossos grandes falhanços coletivos. Segundo o Balcão Único do Prédio (BUPi, 2024), até ao final de 2024, apenas cerca de 50% do território nacional tinha sido alvo de cadastro e registo atualizado. Não se consegue gerir um território cuja metade da sua extensão não tem dono devidamente identificado.
Prova disso está no facto de Portugal ter registado mais de 440 mil hectares de área ardida entre 2017 e 2022 (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas [ICNF], 2023). As florestas desordenadas e abandonadas continuam a servir de combustível para alimentar o ciclo de incêndios devastadores.
Para responder a estes problemas, e após vários anos a convivermos com esta realidade, surge o programa “Certificados por Território”. O conceito é simples: os proprietários poderiam voluntariamente ceder os seus terrenos rústicos ao Estado e, em contrapartida, receberiam Certificados de Aforro — um instrumento de poupança pública, seguro e com rendimento garantido.
Esta é uma solução composta por vários passos. O processo iniciar-se-ia com o registo obrigatório do terreno no Balcão Único do Prédio (BUPi), seguido da avaliação pela Autoridade Tributária. Para facilitar o registo e garantir menos conflitos posteriores (não esqueçamos a possibilidade de sobreposição de polígonos), seria importante envolver os técnicos de cadastro predial, designadamente os Solicitadores Portugueses, profissionais habilitados, conhecedores da componente jurídica e que, através da sua Ordem, deram um passo pioneiro nesta matéria com o lançamento da plataforma Geopredial. A sua colaboração (com forte representatividade no território) permitiria agilizar o processo de identificação e georreferenciação dos terrenos, garantindo maior fiabilidade e celeridade ao programa.
Após aceitação do valor de avaliação, os proprietários celebrariam uma escritura pública de permuta, transformando património abandonado em poupança segura. O Estado, por seu lado, agregaria as parcelas adquiridas, promovendo o emparcelamento e criando unidades fundiárias com dimensão economicamente viável. Estas unidades poderiam depois ser vendidas ou concessionadas a jovens agricultores, cooperativas ou autarquias, ou, por outro lado, ser afetas a programas de reflorestação estratégica.
Uma oportunidade para o surgimento de uma nova floresta e fontes de receita alternativas
No caso da opção pela reflorestação, esta privilegiaria as espécies autóctones, mais resilientes aos efeitos das alterações climáticas e ao risco de incêndio. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF, 2023) seria responsável pela plantação e certificação das novas florestas.
Estas áreas reflorestadas permitiriam a obtenção de créditos de carbono no Mercado Voluntário de Carbono, cujas receitas resultantes da venda seriam reinvestidas na expansão do próprio programa.
Gestão de proximidade e benefícios para as freguesias
Uma das inovações desta proposta reside no envolvimento das Zonas de Intervenção Florestal (ZIF) e das Juntas de Freguesia como possíveis entidades gestoras das áreas reflorestadas. As Juntas, com profundo conhecimento do território e das comunidades locais, estariam bem posicionadas para assegurar uma gestão ativa e sustentável.
Adicionalmente, estas entidades poderiam beneficiar de uma nova fonte de rendimento a longo prazo, através da participação nas receitas provenientes da venda de créditos de carbono.
Vantagens múltiplas
O programa “Certificados por Território” apresenta um conjunto abrangente de benefícios, nomeadamente:
• Redução do minifúndio e do abandono da propriedade rústica;
• Estímulo à atividade económica, agrícola e florestal;
• Aumento da área de floresta autóctone e da biodiversidade;
• Criação de novas fontes de receita para as freguesias rurais;
• Contributo efetivo para o cumprimento das metas de neutralidade carbónica até 2050;
• Promoção da literacia financeira e da poupança nacional.
Uma aposta no futuro sustentável
Ao articular recuperação fundiária, valorização ambiental e incentivo à poupança, esta proposta poderia transformar um problema estrutural numa oportunidade de desenvolvimento sustentável para Portugal.
Está nas nossas mãos transformar o abandono em oportunidade, e garantir que o interior de Portugal tenha, também ele, um amanhã que cante.
Recomendações
"Ministro da Educação criticou o sistema, não os estudantes", opinião de Gonçalo Santiago
O ministro da educação Fernando Alexandre esteve reunido na passada terça-feira com reitores das universidades na apresentação do novo modelo de ação social para o Ensino Superior. Mais uma vez, as suas palavras foram alvo de uma interpretação incorreta, resultante da retirada de frases do seu contexto original. O ministro já não é alheio a este tipo de acontecimentos: no contexto do aumento das propinas, excertos das suas declarações foram retirados do contexto e imediatamente explorados em títulos sensacionalistas. Importa, por isso, clarificar as declarações do ministro e o sentido em que foram proferidas. O ministro começa por defender que as residências académicas não devem ser destinadas exclusivamente a estudantes socialmente mais carenciados, uma vez que tal não promove a integração social. Critica, assim, o sistema atual que “empurra” estudantes de estratos socioeconómicos mais baixos para as residências, reduzindo a diversidade e contribuindo, a curto prazo, para a sua degradação. Negar isto, é também ignorar a cultura de guetização que devido ao sistema atual que o ministro criticou, continua a existir. Esta cultura promove exclusão social, acentua desigualdades e estigmas e contribui para a degradação urbana pois zonas socialmente segregadas recebem, muitas vezes, menos investimento público o que leva a degradação dos edifícios, dos espaços públicos e dos serviços. A degradação não acontece por culpa dos utilizadores por estes serem pobres, mas sim, da gestão do serviço público que, se somente utilizado por pessoas de baixo rendimento, deteriorar-se-á. As declarações do ministro devem ser analisadas no seu contexto integral e não através de leituras simples ou títulos sensacionalistas. A sua posição não traduz numa desvalorização dos estudantes socialmente mais carenciados, mas antes numa crítica ao modelo de ação social atual que, esse sim, é um ataque aos estudantes que mais necessitam de apoio.
“Delegar tudo no Presidente não é governar melhor”, opinião de Hugo Filipe Nunes
A Câmara Municipal de Aveiro aprovou uma ampla delegação de competências no seu presidente, Luís Souto Miranda, para o mandato 2025-2029. A lei permite esta opção e, sim, muitas autarquias em situação semelhante à de Aveiro recorrem à lei em nome da “eficiência”, mas a política não se esgota na legalidade, e é aí que começam as perguntas incómodas. Ao contrário do executivo anterior, o atual já não dispõe de maioria absoluta. As aveirenses e os aveirenses distribuíram o seu voto por várias forças políticas, dando a quem lidera a Câmara o direito – e o dever – de governar, mas retirando-lhe o conforto de decidir sozinho. Isto deveria ser lido como um convite da democracia à negociação e à construção de maiorias. Em vez disso, optou-se por repetir o modelo do passado. Delegaram-se em Luís Souto Miranda competências muito vastas: contratação pública com despesas elevadas, licenças urbanísticas e aplicação de regulamentos que mexem com a vida quotidiana de todas e todos. Na prática, o órgão colegial transfere para uma só pessoa uma parte central do poder de decisão. Sem maioria absoluta, o recado do eleitorado é claro: o poder deve ser repartido. Concentrar uma parte importante das competências numa só pessoa é contornar esse recado. A pluralidade existe no papel, mas pesa menos nas decisões concretas. E não está apenas em causa a eficiência administrativa. Quando decisões relevantes deixam de ser discutidas e votadas em reunião de Câmara, perdem-se debate público, contraditório e responsabilização política. Mesmo com maioria absoluta, esta concentração já seria discutível. Sem essa maioria, é politicamente injustificável. Não está em causa a capacidade de trabalho ou a boa-fé de quem preside. A questão é simples: se o voto fragmentou o mapa político, é porque existe a expetativa de que mais vozes sejam ouvidas e de que as decisões resultem de equilíbrios e negociações, e não de cheques em branco. Neste quadro, importa olhar para as posições assumidas na última reunião pública da nossa Câmara. O Partido Socialista, ao propor limites à delegação de competências, não tentou “bloquear” ou criar obstáculos à governação: aceitou que o presidente detenha poderes delegados e que ajudem a agilizar a gestão quotidiana, mas defendeu que determinadas matérias continuem a ser obrigatoriamente apreciadas e decididas em reunião de Câmara. Já o Chega fez o contrário do que apregoa. Apresenta-se como força “anti‑sistema”, contra a concentração de poder, mas acabou por viabilizar a solução que mais reforça o poder de uma só pessoa, quando poderia usar a sua posição para obrigar a maioria relativa a negociar caso a caso. A administração municipal não pode ficar paralisada e ninguém ganha com um executivo amarrado a burocracias inúteis, mas confundir rapidez com concentração de poder é perigoso. A política do medo da paralisação “vendida” por Luís Souto Miranda não pode deixar Aveiro refém: uma Câmara que discute e decide em conjunto pode demorar um pouco mais em alguns processos, claro, mas ganha em escrutínio, transparência e qualidade das decisões. Cinco décadas depois do 25 de Abril, a lição deveria ser clara: governar não é mandar sozinho, é construir soluções. Delegar quase tudo no presidente pode tornar alguns procedimentos mais rápidos, mas empobrece a democracia municipal e afasta as pessoas das decisões que as afetam diretamente. A nova correlação de forças em Aveiro tinha potencial para inaugurar um ciclo diferente mais dialogante e mais exigente em termos de negociação política e construção de consensos, à esquerda e à direita. Ao replicar o modelo de delegação de competências do tempo da maioria absoluta, essa oportunidade foi desperdiçada. As aveirenses e os aveirenses disseram nas urnas que não queriam maiorias absolutas; alguns dos eleitos decidiram, na prática, oferecê-las de novo por via de deliberação interna.
"O PS ganhou", opinião de Rui Soares Carneiro
Já passou mais de um mês desde o dia das eleições para os diferentes órgãos das nossas autarquias locais, em Aveiro, e praticamente todas as tomadas de posse estão concluídas - faltando apenas a Freguesia de Aradas. Muito pouco li e nada ouvi, sobre os resultados das eleições, e parece ter passado despercebida a consumação de um facto: o PS, em Aveiro, ganhou. Conhecemos todos a maior vitória - para alguns, a única - da noite eleitoral: a conquista da União de Freguesias da Glória e Vera Cruz, a maior do município, liderada agora por Bruno Ferreira, que, mesmo sem maioria, devolve aos socialistas a responsabilidade de dirigir uma autarquia em Aveiro - algo perdido após as eleições intercalares de São Jacinto, em 2022. As pequenas vitórias, secundárias, mas relevantes, resumem-se à retirada da maioria absoluta em outros quatro órgãos: a Câmara Municipal de Aveiro e as Freguesias de Aradas, Esgueira e Eixo-Eirol. Isto permite exercer pressão e influência sobre quem lidera estes órgãos, mas obriga também a uma oposição responsável e construtiva - e não meramente “do contra” -, exigindo uma comunicação mais consistente das suas posições políticas. Mas o PS, em Aveiro, ganhou mais do que isto: Ganhou a oportunidade de perceber, novamente, que eleições não são atos de messianismo caído do céu, onde se deposita mais fé do que realismo e em que se olha mais para os eleitos do que para os eleitores. Ganhou a oportunidade de entender que um ato eleitoral não é uma corrida de 100 metros, mas sim uma estafeta 4x365, onde o trabalho contínuo entre eleições define quem cruza a meta em primeiro. Ganhou a oportunidade de conhecer, tarde e a más horas, as associações, clubes e IPSS que sustentam o nosso tecido social, e das quais se afastou nos últimos anos, perdendo contacto com a realidade e com o trabalho árduo destas instituições. Ganhou a oportunidade de descobrir, no terreno, muitos dos problemas que as pessoas enfrentam diariamente, em locais muitas vezes esquecidos do município, onde as autarquias têm obrigação de intervir. Ganhou a oportunidade de aprender - veremos se aprendeu - que a comunicação próxima, digital e sobretudo presencial, é hoje indispensável para criar confiança e explicar aos eleitores os dossiês em discussão e as posições assumidas. Ganhou a oportunidade de confirmar que a comunicação social é um meio útil e fiável, mesmo após anos a criticá-la, e que deve ser usada como veículo de comunicação e não como bode expiatório. Ganhou a oportunidade de iniciar um novo ciclo, de mudar, e de ser capaz de responder ao atual contexto autárquico, às exigências de fiscalização próprias da oposição, mas também de apresentar propostas e construir um programa de mudança. Ganhou a oportunidade de regressar ao essencial: aos problemas reais das pessoas, aos mais vulneráveis e à classe média, que precisa de crescer e ter mais respostas sociais e económicas. Esquecer esta base social é esquecer os fins para os quais a política nos convoca. Saberá o PS Aveiro aproveitar tantas oportunidades?
"O ultraje do aumento das propinas", opinião de Gonçalo Santiago
O Governo anunciou o descongelamento das propinas das licenciaturas e mestrados para o próximo ano letivo. Algo, de certa forma, insólito, dado que o valor não se alterava desde 2021. A reação dos estudantes a este aumento não foi a melhor, visto que já estavam acostumados ao valor que, até então, estava fixado nos 697 €. Para esclarecer esta atualização, o Governo emitiu um comunicado com a justificação de que o aumento tem como base a taxa de inflação de 2025, de maneira a “garantir mais autonomia às universidades”, como afirma o Ministro da Educação, Fernando Alexandre. Esta notícia não teve o parecer favorável da maioria dos estudantes, tendo já provocado manifestações por parte destes. De facto, a expressão “aumento das propinas” é suscetível de causar descontentamento. Mas será que há razão para isso? É verdade que, preferencialmente, as propinas deviam ser gratuitas. Contudo, para tal acontecer, seria necessário um investimento brusco, atualmente incomportável para o Estado. Este aumento refletir-se-á num esforço extra de 13 € por ano que os alunos do ensino superior terão de pagar — cerca de 1,08 € (1 € e 8 cêntimos) por mês. Algo que é quase mínimo. Algo que o ministro da Educação também revelou, e que passou despercebido aos olhos da maioria, foi que o apoio social a estudantes vai aumentar 43%. São mais 30 milhões de euros investidos no apoio a estudantes com poucas condições financeiras, para que não fiquem excluídos do ensino superior. Sem falar de todos os apoios dados pelo Governo, não só a estudantes como também a jovens, como, por exemplo, o Porta 65 (programa dedicado ao apoio a jovens no arrendamento de casa) e, ainda, como foi apresentado no Orçamento do Estado, uma medida que prevê que jovens desempregados possam acumular o salário com até 35% do subsídio de desemprego. Os estudantes não estão a ser prejudicados pelo Governo. Aliás, o que este Governo está a fazer, não só pelos estudantes como pelos jovens em geral, é gratificante. O aumento das propinas não impossibilitará nenhum aluno de frequentar o ensino superior; a falta de apoios a estudantes é que o fará. Por isso mesmo, o PSD tem demonstrado a necessidade de refletir sobre esses temas e, mais do que isso, não apenas prometer, mas também executar, algo que o distingue dos últimos anos.
Últimas
Casa Martelo fecha portas no centro de Aveiro após quase oito décadas por falta de clientes
Marina Vieira era, até recentemente, a gerente da Casa Martelo, uma drogaria situada na Rua dos Combatentes da Grande Guerra, número 137, em pleno centro da cidade. O estabelecimento encontrava-se naquele local há cerca de 75 anos, embora, em conversa com a Ria, a gerente admita que a casa é ainda mais antiga, uma vez que abriu portas inicialmente na Rua Eça de Queirós. O negócio foi fundado pelo avô de Marina e passou posteriormente para o seu pai. Contudo, devido a problemas de saúde, este acabou por se afastar, o que levou Marina a entrar no negócio de forma algo "forçada". Arqueóloga de formação, partilha, entre risos, que chegou a frequentar cursos de gestão e marketing para conseguir acompanhar as exigências da atividade comercial. Na última semana de 2025, Marina teve de tomar a decisão que mais temia: encerrar a Casa Martelo, consequência direta da falta de clientes. Desde o primeiro dia de 2026, encontra-se afixada na porta uma folha com dois números de contacto apenas para transportadoras. O cenário atual confirma o encerramento definitivo: através dos vidros é possível ver caixas de papel empilhadas, um sinal claro de que a histórica casa fechou as suas portas. Apesar de o encerramento só se ter concretizado agora, Marina Vieira sublinha que o problema é bem anterior. Remonta a “cerca de década e meia” atrás, período em que, segundo a aveirense, o centro da cidade se encontrava “extremamente desagradável”. “O facto de estarmos no centro da cidade fez com que tivéssemos cada vez menos clientes. O centro esteve muitos anos em declínio. Hoje está novamente melhor do ponto de vista urbanístico- mais bonito e com mais pessoas-, mas há década e meia aquela zona estava extremamente degradada e não era apelativa”, afirma. Na tentativa de contrariar esse cenário, conta que a Casa Martelo chegou a procurar “reinventar-se e resistir”, tendo fundado, juntamente com outros comerciantes, a Associação Acorda, que abrangia a Rua Direita e áreas adjacentes. “Tinha dois significados: ‘acorda para a vida’ e também ‘a corda’, porque achávamos que juntos conseguiríamos fazer algo melhor ali, naquela zona”, recorda. A iniciativa resultou numa “série de atividades” e na realização de eventos, entre os quais o Vivó Bairro, desenvolvido em parceria com a Universidade de Aveiro. “Tentámos dar mais vida àquela zona, mas, efetivamente, as condições globais não são propícias ao comércio de proximidade”, reconhece. Entre os principais constrangimentos, aponta a “falta de mobilidade suave na cidade”. “As pessoas esperam chegar de carro a todo o lado”, refere. Ainda assim, sublinha que existia um parque de estacionamento mesmo ao lado do estabelecimento, que raramente era utilizado. “Chegámos a oferecer o estacionamento no parque e, mesmo assim, eram poucas as pessoas que lá colocavam o carro, porque não gostavam das condições existentes”, explica. Marina Vieira garante que a Casa Martelo não sofria de falta de notoriedade. “As pessoas sabiam que éramos a Casa Martelo, o que vendíamos, mas não chegavam até nós”, afirma. A escassez de transportes públicos e de infraestruturas cicláveis é, para si, determinante. “Quando as pessoas circulam a pé ou de bicicleta têm muito mais tendência a consumir no comércio de proximidade. Aqui assistimos, ao longo dos anos, a uma progressiva desertificação do centro da cidade por parte dos aveirenses”, observa. Ainda que o problema já seja bastante anterior, a gerente garante que a principal batalha do negócio começou com a chegada da Covid-19. “Foi realmente quando nós notamos o maior declínio”, admite. Após cerca de seis anos a situação não melhorou o que ditou ao encerramento no início deste ano. “Quando não se tem clientes, mesmo que se tenha feito o possível e o impossível,não se consegue manter uma casa aberta que não consegue pagar os salários dos funcionários”, reage. Atualmente, empregava seis pessoas. “A pessoa que estava há menos tempo estava desde o início do século, portanto, os trabalhadores já faziam parte da família e foi sempre a pensar neles que se continuou a lutar para que as portas estivessem abertas, mas realmente não foi possível mais tempo”, lamenta. Agora, restando apenas um papel afixado na porta, Marina refere que os últimos dias têm sido marcados por uma verdadeira enchente de chamadas. Partilha também que tem acompanhado as diferentes reações nas redes sociais. “Há uns anos, no Natal, ainda durante a pandemia, fizemos um vídeo sobre as pessoas se lembrarem de nós antes de fecharmos e, na altura, esse vídeo teve alguns milhares de visualizações. Acho que muitas pessoas acreditam que as coisas são eternas e não percebem que, por vezes, é mesmo preciso acarinhar aquilo de que se gosta para que continue a existir”, exprime. Questionada sobre um eventual regresso da Casa Martelo no futuro, Marina Vieira descarta “de todo” essa possibilidade. “A partir do momento em que encerramos, já não faz sentido voltar a abrir. Sinto que cumpri a missão de levar esta casa até onde foi possível, uma casa que já tinha quase oito décadas”, sublinha. Deixa ainda um alerta para o futuro de Aveiro: “A cidade não está planeada para as pessoas e não está planeada para que os aveirenses vivam o centro da cidade”. Por fim, prestes a terminar a conversa e antes de as portas da Casa Martelo se fecharem, novamente, pedimos a Marina que nos fizesse chegar uma fotografia sua no estabelecimento. Apesar de ter algumas sozinha, preferiu enviar uma em que, além dela, surgem todos os funcionários que integraram a casa. Justifica que, para si, essa imagem faz mais sentido, já que foram sempre eles os verdadeiros rostos do negócio.
Ribau Esteves apresentou plano de ação para a CCDR-C com promessa de “uma nova dinâmica de trabalho”
O documento a que a Ria teve acesso, intitulado “Linhas Gerais de Ação 2026/2029 da CCDRC”, foi enviado a todos os membros das Câmaras Municipais, Assembleias Municipais e Juntas de Freguesia da região abrangida pela comissão: as pessoas que escolhem o principal representante da CCDRC. Recorde-se que José Ribau Esteves, ex-presidente da Câmara Municipal de Aveiro (CMA), é candidato único à presidência do órgão nas eleições do próximo dia 12 de janeiro, segunda-feira, e deve fazer-se acompanhar dos vice-presidentes Nuno Nascimento e Jorge Conde – o primeiro a ser eleito pelos presidentes de Câmara e o segundo a ser eleito no Conselho Regional. De acordo com a reorganização em curso, o Governo deve ainda designar outros cinco vice-presidentes. No texto enviado constam 14 pontos que constituem, cada um, prioridades para a ação da CCDRC. De acordo com Ribau Esteves, o objetivo é “imprimir uma nova dinâmica de trabalho e de relevância institucional e política da CCDRC”. De entre as propostas do ex-autarca, destaca-se a ideia do “desenvolvimento de uma operação especial de gestão dos Fundos Comunitários do PRR e do Centro 2030, com pressão na execução”. Da mesma forma, o candidato quer preparar o Quadro Pós-2027, “com o devido enquadramento no Quadro Financeiro Plurianual 2028/2034 da União Europeia”. Com a nova reorganização do órgão, Ribau Esteves prioriza também o “desenvolvimento dos processos conducentes à boa instalação das novas áreas de trabalho da CCDRC, nomeadamente Educação e Saúde”. Por outro lado, propõe ainda a “concretização de uma Agenda Especial sobre a Floresta da Região Centro” com “todas as entidades públicas e privadas relevantes” e defende a “criação de um Conselho de Aconselhamento e Reflexão, constituído pelo presidente e pelos ex-presidentes da CCDRC”. Noutros pontos, o candidato único à presidência da comissão propõe ainda estudos e projetos com a participação direta das Instituições de Ensino Superior da região, “realização de um ponto de situação de organização e atividades da CCDRC e de um Plano de Ação 2026, com partilha de resultados com o Conselho Regional, no primeiro trimestre de 2026” ou a “realização do Congresso da Região Centro de dois em dois anos”.
UA: DFis celebra 50 anos e diretor alerta para desinteresse na Física e a “lei do menor esforço”
No decorrer da intervenção de João Miguel Dias, o responsável fez notar que, apesar de “o número elevado de alunos [do Departamento] ser crescente nos últimos anos”, houve “problemas” no último ano. Recorde-se que, na 1ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao ensino superior, a quebra no número de candidatos afetou vários cursos da Universidade de Aveiro (UA), como é o caso da licenciatura em Meteorologia, Oceanografia e Clima, no DFis, em que apenas um estudante ficou colocado. À margem da sessão, a Ria esteve à conversa com o responsável do Departamento, que caracteriza a situação como “preocupante”. “Sentimos que há um desinteresse das camadas mais jovens pelas áreas da ciência. Os alunos mais novos não percebem a utilidade da ciência, não percebem a necessidade de se esforçarem e estão a enveredar por áreas que requerem menor esforço (…) Uma área como a Física requer fortes conhecimentos matemáticos, de física, de matemática… É impossível dominar estas áreas sem bastante trabalho”, sublinha. O desafio do DFis é “inverter a situação” para que as camadas mais jovens “percebam que o esforço compensa”. Identificada uma crescente procura pelas áreas da gestão, da economia ou das ciências sociais, que João Miguel Dias considera também “muito importantes”, é necessário “mostrar aos jovens a importância da diversificação e que o conhecimento em física é muito importante”. Não obstante, o diretor considera que os alunos “procuram cada vez mais o que é imediato” e que, por isso, “é difícil passar uma mensagem numa sociedade que está pela lei do menor esforço”. Por seu lado, Paulo Jorge Ferreira, reitor da UA, centrou o seu discurso no futuro do Departamento. Nas palavras do responsável, é consensual que “estamos num momento de extraordinária importância para a física e para a ciência em geral”. Parte disso, destaca, passa pela aposta na Inteligência Artificial. Dando nota do efeito que esta ferramenta tem na ciência, Paulo Jorge Ferreira mencionou o caso do ‘AlphaFold’, que valeu o prémio Nobel da Química 2024 a Demis Hassabis e John Jumper. O programa criado pelos investigadores da Google DeepMind permitiu prever a estrutura tridimensional de uma proteína a partir de uma determinada sequência de aminoácidos. Segundo refere, este foi “o primeiro grande problema a ser resolvido com a ajuda da Inteligência Artificial” e motivou um “acelerar enorme do progresso” na área. Como na Química, o reitor sublinha que “um Departamento de Física é uma peça-chave da nossa realidade”. “Estamos num momento de viragem e tenho a inteira certeza de que o Departamento se irá adaptar-se de forma exemplar, como fez nas últimas cinco décadas”, sublinha. À conversa com a Ria, João Miguel Dias foi cauteloso na forma como se exprimiu sobre o tema: “[A IA] veio para ficar, quem achar o contrário está redondamente enganado. Vai-nos permitir chegar mais longe, (…) mas não veio para nos substituir”. Para o diretor do Departamento, é necessário um “espírito muito crítico” sobre os resultados que se obtêm da Inteligência Artificial, algo que só é possível se houver conhecimento de base. Segundo avalia, “sem o conhecimento de base passaremos a ser meros recipientes do que a IA nos dá. Um mero recipiente não vai fazer avançar o conhecimento, (…) precisamos de somar em cima do que já sabemos”. Entre outros desafios para o futuro, o responsável do DFis referiu a necessidade de trazer de volta os estudantes para o ensino presencial: “Muitas vezes os alunos têm uma perceção de que basta estarem nas redes sociais, na Inteligência Artificial, no Google ou no YouTube e encontram informação. Esquecem-se de que é muito importante o convívio, a interação e que o conhecimento só se obtém de forma consolidada”. Para o campo da investigação, destaca a aposta em novos materiais e equipamentos de topo para os centros de investigação. Entre as áreas apontadas como prioritárias para o futuro, João Miguel Dias mencionou os semicondutores, a modulação, as redes, a ótica, a metodologia, a cinografia, a análise de riscos, a adaptação às alterações climáticas e a sustentabilidade. Quem também falou foi Helena Nazaré, professora emérita do Departamento e antiga reitora da Universidade de Aveiro. A docente recordou os primeiros tempos do Departamento e, à semelhança do diretor, aproveitou para deixar uma palavra a Manuel Fernandes Thomaz. Nas suas palavras, o já falecido ‘pai’ do DFis era uma “pessoa afável”, mas que, “quando franzia o sobrolho, punha em sentido”. A professora disse também ter sido convidada por João Miguel a participar com um artigo de opinião na coluna semanal de textos que será publicado no Diário de Aveiro. Com o título “Para que serve a Física?”, Helena Nazaré adianta escrever que “a física tem de ser entendida como parte da formação universitária”. Na sua ótica, a área vai além do trabalho realizado em laboratório, mas deve ser entendida como uma “experiência da mente” que mede impactos na sociedade. Como exemplo refere a Teoria da Relatividade ou a experiência do Gato de Schrödinger: “Ninguém meteu o gato na gaiola nem ninguém o tapou, mas alguém foi capaz de imaginar isso”. A sessão serviu ainda para apresentar Linha do Tempo do DFis, um projeto onde é apresentada toda a cronologia da atividade do Departamento de Física da Universidade de Aveiro desde o seu nascimento. No programa de aniversário, que se estende ao longo de todo ano, constam também iniciativas como o ciclo de debates “Física à Conversa”, o patrocínio às equipas desportivas do Núcleo de Estudantes de Engenharia Física (NEEF) e do Núcleo de Estudantes de Ciências do Mar (NECM) na Taça UA ou a inauguração de oito novos laboratórios de investigação no Complexo Interdisciplinar de Ciências Físicas Aplicadas à Nanotecnologia e à Oceanografia (CICFANO).
GrETUA recebe 7ª sessão do projeto artístico “Espantar o Caos”
Segundo uma nota enviada à Ria, a iniciativa foi guiada por João Garcia Neto, diretor artístico do GrETUA, que apresentou o espaço e o seu trabalho. “Espantar o Caos” é um projeto artístico e educativo que nasceu da parceria da Fundação de Serralves com a Câmara de Vagos, com o objetivo de “criar um novo espaço dedicado à cultura e à inclusão”. A ação dirige-se a pessoas que experienciam a doença mental grave. No total, o projeto propõe um conjunto de 12 sessões “para a criação de uma coleção de obras originais, reunida num catálogo final que dará visibilidade pública às criações e aos seus autores”. De acordo com o comunicado, para além do valor estético, o projeto afirma-se ainda como um “gesto de reconhecimento e de reflexão coletiva” através da conversão da experiência em expressão artística, da promoção da autoestima, do diálogo com a comunidade e de uma consciência renovada sobre a saúde mental e cidadania. “Espantar o Caos afirma a arte como espaço de encontro, espanto e reconstrução simbólica”, remata.