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Margarida Lucas: “Se a escola fecha as portas [ao telemóvel] quem é que vai ensinar as crianças?”

Margarida Lucas, professora auxiliar e investigadora no Departamento de Educação e Psicologia (DEP), na Universidade de Aveiro (UA), alerta que o telemóvel pode ser “um grande aliado de aprendizagem e de pensamento crítico” nas escolas portuguesas.

Margarida Lucas: “Se a escola fecha as portas [ao telemóvel] quem é que vai ensinar as crianças?”

Em setembro deste ano, o Governo recomendou a proibição do uso e da entrada de telemóveis nas escolas para o 1.º e 2.º ciclos. No próximo ano, após uma avaliação do Governo, a medida pode tornar-se obrigatória. No caso do 3º ciclo, o Governo desincentiva apenas o uso de telemóveis e no ensino secundário recomenda o envolvimento dos alunos na construção de regras para a utilização responsável de smartphones nos espaços escolares.

Para Margarida Lucas a implementação destas medidas, nesta fase, pode ser explicada pelo “forte” investimento que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) fez no digital, “há cerca de quatro anos”, nas escolas portuguesas. Na altura, o “Ministério da Educação distribuiu muito equipamento [tecnológico] (…) Isto tornou que o telemóvel não fosse tão necessário”, relembrou.

Apesar do avanço da recomendação [no 1.º e 2.º ciclos], até agora, segundo uma notícia do Observador, “apenas 2% dos agrupamentos de escolas proibiram a utilização de smartphones nas escolas”. A investigadora do DEP realçou que a “percentagem tão baixa” de adesão não a surpreendeu, tendo em conta, que estas orientações “requerem reflexão”. Neste momento, “não se trata de uma proibição, mas sim de uma recomendação em que a tónica é não deixar entrar. Faz sentido tirarmos a tecnologia da escola?”, questionou. Margarida Lucas diz que a resposta não é simples já que “cada escola é um contexto diferente”.

“Agora, se nós pensarmos naquilo que a investigação nos diz… Estas recomendações vêm de uma análise de um conjunto de evidências que apontam que realmente, antes dos 13 anos, pode ser arriscado o uso do smartphone”, explicou. Segundo Margarida Lucas estes equipamentos, assim como as aplicações associadas, têm mecanismos que podem levar a “comportamentos aditivos”. “A verdade é que antes dos 13 anos não há maturidade, em vários aspetos, para as crianças perceberem o potencial que têm ali na mão”, alertou.

Assim, na opinião da investigadora deve haver uma “regulação e uma mediação” do uso que se faz do telemóvel em contexto escolar. “Se for numa situação de contexto de sala de aula em que a escola não está dotada de equipamentos tecnológicos suficientes (…) o telemóvel pode ser um grande aliado de aprendizagem e de pensamento crítico”, atentou, destacando que a proibição não é a solução. “Estas medidas extremistas eu tenho alguma dificuldade em aceitá-las porque a escola não pode ser um mundo à parte daquilo que é o mundo real (…) Tem de haver uma sensibilização para a educação do que é o uso do telemóvel”, apelou.

Para Margarida Lucas faz falta falar do telemóvel enquanto ferramenta de trabalho e de aprendizagem, nomeadamente, nas escolas. “Há muito a ideia de que se dá o telemóvel como um prémio. Um brinquedo que se dá para a mão sem termos bem noção daquilo que estamos a fazer”, afirmou. “Acho que também cabe à escola preparar os alunos para as situações que vão encontrar no mundo real (…) Tão simples quanto saberem que aplicações podem instalar, quais são úteis…”, completou.

A investigadora deixou ainda a nota que a maioria da população que tem, atualmente, os filhos em idade escolar, “muitas vezes, nem o nível básico” de competência digital tem. “Se a escola fecha as portas e proíbe esse uso [do telemóvel] quem é que vai ensinar as crianças a fazer isso? São os pais ou os encarregados de educação. Mas será que estes têm as competências necessárias?”, concluiu.

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