Margarida Lucas: “Se a escola fecha as portas [ao telemóvel] quem é que vai ensinar as crianças?”
Margarida Lucas, professora auxiliar e investigadora no Departamento de Educação e Psicologia (DEP), na Universidade de Aveiro (UA), alerta que o telemóvel pode ser “um grande aliado de aprendizagem e de pensamento crítico” nas escolas portuguesas.
Isabel Cunha Marques
JornalistaÚltimas
Em setembro deste ano, o Governo recomendou a proibição do uso e da entrada de telemóveis nas escolas para o 1.º e 2.º ciclos. No próximo ano, após uma avaliação do Governo, a medida pode tornar-se obrigatória. No caso do 3º ciclo, o Governo desincentiva apenas o uso de telemóveis e no ensino secundário recomenda o envolvimento dos alunos na construção de regras para a utilização responsável de smartphones nos espaços escolares.
Para Margarida Lucas a implementação destas medidas, nesta fase, pode ser explicada pelo “forte” investimento que o Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) fez no digital, “há cerca de quatro anos”, nas escolas portuguesas. Na altura, o “Ministério da Educação distribuiu muito equipamento [tecnológico] (…) Isto tornou que o telemóvel não fosse tão necessário”, relembrou.
Apesar do avanço da recomendação [no 1.º e 2.º ciclos], até agora, segundo uma notícia do Observador, “apenas 2% dos agrupamentos de escolas proibiram a utilização de smartphones nas escolas”. A investigadora do DEP realçou que a “percentagem tão baixa” de adesão não a surpreendeu, tendo em conta, que estas orientações “requerem reflexão”. Neste momento, “não se trata de uma proibição, mas sim de uma recomendação em que a tónica é não deixar entrar. Faz sentido tirarmos a tecnologia da escola?”, questionou. Margarida Lucas diz que a resposta não é simples já que “cada escola é um contexto diferente”.
“Agora, se nós pensarmos naquilo que a investigação nos diz… Estas recomendações vêm de uma análise de um conjunto de evidências que apontam que realmente, antes dos 13 anos, pode ser arriscado o uso do smartphone”, explicou. Segundo Margarida Lucas estes equipamentos, assim como as aplicações associadas, têm mecanismos que podem levar a “comportamentos aditivos”. “A verdade é que antes dos 13 anos não há maturidade, em vários aspetos, para as crianças perceberem o potencial que têm ali na mão”, alertou.
Assim, na opinião da investigadora deve haver uma “regulação e uma mediação” do uso que se faz do telemóvel em contexto escolar. “Se for numa situação de contexto de sala de aula em que a escola não está dotada de equipamentos tecnológicos suficientes (…) o telemóvel pode ser um grande aliado de aprendizagem e de pensamento crítico”, atentou, destacando que a proibição não é a solução. “Estas medidas extremistas eu tenho alguma dificuldade em aceitá-las porque a escola não pode ser um mundo à parte daquilo que é o mundo real (…) Tem de haver uma sensibilização para a educação do que é o uso do telemóvel”, apelou.
Para Margarida Lucas faz falta falar do telemóvel enquanto ferramenta de trabalho e de aprendizagem, nomeadamente, nas escolas. “Há muito a ideia de que se dá o telemóvel como um prémio. Um brinquedo que se dá para a mão sem termos bem noção daquilo que estamos a fazer”, afirmou. “Acho que também cabe à escola preparar os alunos para as situações que vão encontrar no mundo real (…) Tão simples quanto saberem que aplicações podem instalar, quais são úteis…”, completou.
A investigadora deixou ainda a nota que a maioria da população que tem, atualmente, os filhos em idade escolar, “muitas vezes, nem o nível básico” de competência digital tem. “Se a escola fecha as portas e proíbe esse uso [do telemóvel] quem é que vai ensinar as crianças a fazer isso? São os pais ou os encarregados de educação. Mas será que estes têm as competências necessárias?”, concluiu.
Últimas
Recomendações
Lista B do Núcleo de Bicicleta da Associação Académica da Universidade de Aveiro vence com 58 votos
Foram conhecidos, esta terça-feira, os resultados definitivos relativos ao processo eleitoral extraordinário dos núcleos da Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), no qual, concorreu apenas o NBicla – Núcleo de Bicicleta.
Greve dos trabalhadores não docentes com adesão de 41% nos Serviços de Ação Social da UA
Esta segunda-feira, a greve dos trabalhadores não docentes afetou 41% dos funcionários dos Serviços de Ação Social da Universidade de Aveiro. A única unidade alimentar aberta ao público foi o Bar do Edifício da Reitoria.
CUA já voltou a servir refeições
O Café da Universidade de Aveiro (CUA), gerido pela Associação Académica da Universidade de Aveiro (AAUAv), já voltou a servir refeições, de acordo com Joana Regadas, presidente da direção da organização estudantil. O serviço esteve suspenso nas últimas três semanas.
Universidade de Aveiro acolhe 1.º Encontro Nacional dos Centros CLAIM no Ensino Superior
A Universidade de Aveiro (UA) recebe, nos dias 15 e 16 de outubro, o 1.º Encontro Nacional dos Centros Locais de Apoio à Integração de Migrantes (CLAIM) de instituições de ensino superior (IES). Segundo comunicado de imprensa enviado à Ria, o evento, que decorre na Sala do Senado, reúne profissionais de todo o país para promover a partilha de boas práticas e reforçar a cooperação no acolhimento, integração e regularização da comunidade académica internacional.