O “tolo”, o “irresponsável” e as “macacadas”: As ofensas entre Chega e Aliança na campanha eleitoral
Depois de, na passada terça-feira, dia 28, PSD e Chega terem celebrado um acordo para conseguir governar a Câmara Municipal de Aveiro (CMA) em maioria, são várias as reações dos aveirenses nas redes sociais, recordando as ‘trocas de galhardetes’ entre Luís Souto e Diogo Soares Machado durante a campanha eleitoral. A Ria foi rever esses momentos e partilha consigo.
Gonçalo Pina
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O histórico de acusações entre Luís Souto e Diogo Soares Machado, hoje presidente da Câmara Municipal de Aveiro e vereador eleito pelo Chega – recém-parceiros de governação da autarquia -, começou aquando da entrega das listas de candidatos no Tribunal de Aveiro. Na manhã da data-limite para que fossem entregues os documentos, Luís Souto abordou pela primeira vez a entrada do Chega na corrida autárquica.
Numa primeira instância, reconheceu “qualidades que ninguém pode negar” a André Ventura, mas tentou piscar o olho ao eleitorado do partido, dizendo aos militantes do Chega que “não via razão para que não se pudessem rever neste espaço [político] [da ‘Aliança], que tem sido o espaço de toda esta área”. Da mesma forma, apontava que a chegada de um novo partido de direita para concorrer à autarquia “só podia favorecer o Partido Socialista”.
Mais tarde, foi a vez do Chega chegar ao Tribunal de Aveiro e de também tecer considerações sobre a ‘Aliança’ e sobre Luís Souto. Respondendo diretamente ao aceno do agora presidente da Câmara Municipal aos militantes do Chega, Diogo Soares Machado citou Abraham Lincoln: “Mais vale ficar calado e parecer tolo do que falar e confirmá-lo”.
Por estar a concorrer também contra Alberto Souto, na altura candidato do PS, irmão de Luís Souto, o cabeça-de-lista do Chega desafiou ambos ao dizer que tinham “estratégias alinhadas” e “objetivos comuns”, considerando “indecente, pouco ético, pouco recomendável e nada democrático que uma família entenda poder gerir, à mesa de um almoço de domingo, os destinos de um município como Aveiro”. Como já noticiado pela Ria, na mesma entrevista concedida à Ria, Diogo Soares Machado “descartou absolutamente” coligar-se à ‘Aliança’ no período pós-eleitoral.
Mais tarde, num jantar-comício organizado pelo partido, Diogo Machado voltou a deixar farpas ao oponente, dizendo que nunca tinha conhecido “um candidato de um partido político […] tão mal preparado, com um desconhecimento tão grande da realidade do concelho e das necessidades das pessoas”.
Também o Plano de Pormenor do Cais do Paraíso, que foi tema grande da campanha, foi usado por Diogo Soares Machado para atirar a Luís Souto. Na altura, disse que a votação em Assembleia Municipal seria um “teste de algodão” para o autarca, que iria mostrar se queria “um Plano de Pormenor que é uma agressão para Aveiro” ou se, “como fez durante os oito anos em que esteve na Assembleia Municipal, não exprimia uma opinião, não dava a sua visão sobre o projeto e não se sujeitava ao escrutínio da opinião pública”.
Por seu lado, Luís Souto não se deixou ficar e foi também atirando na direção do candidato do Chega. Exemplo disso foi a mensagem deixada aquando da apresentação do seu programa eleitoral e da equipa que o acompanhava: quando falava de Teresa Christo, militante do CDS, não resistiu a comentar que “é militante do CDS e foi sempre militante do CDS […] Portanto, é CDS e continua a ser CDS porque acredita na democracia-cristã e não vai nas ondas, ao sabor dos ventos, para aqui e para acolá, consoante está a dar”. Recorde-se que Diogo Machado foi presidente da concelhia e da distrital do CDS-PP em Aveiro e que chegou a representar o partido como deputado municipal.
‘AradasGate’: Ambos os partidos tiveram ‘casos’ na corrida à Junta de Aradas que serviram de arma de arremesso
A discussão em torno da Junta de Freguesia de Aradas (JFA) começou a aquecer quando Luís Silvano, candidato do Chega, disse ao Jornal de Notícias que ia abandonar a corrida autárquica – isto após ter sido questionado sobre o seu despedimento do INEM em 2019, alegadamente motivado pelo furto de combustível. Luís Souto reagiu na sua página de Facebook, onde escreveu que o Chega “apenas estava na disputa para lançar demagogia, mostrar a sua total incapacidade para governar seja uma Junta, muito menos uma câmara e, finalmente, para dar uma mão ao PS porque nada lhes interessa senão o caos”.
No mesmo texto, o candidato fazia ainda uma crítica ao modo de atuação de Diogo Soares Machado na disputa, dizendo que “parece que dá votos atirar lama sobre todos e insultar os milhares de cidadãos que, como próprio candidato em Aveiro, desde o início da democracia têm dedicado parte da sua vida à causa pública”.
Na noite desse dia, num dos debates frente-a-frente organizados pela Ria, o candidato do Chega virou o tabuleiro do avesso e, após “assumir responsabilidades” e afastar Luís Silvano da candidatura autárquica, apontou o dedo a Luís Souto: “Há outros casos aqui na terra que não têm tido a cobertura que o caso do Chega teve […] O que tem a dizer sobre o despacho do Tribunal Administrativo e Fiscal de Aveiro, de 13 de julho de 2025, que condena a Junta e a sua presidente Catarina Barreto a entregar documentos que deveriam ser públicos e que nunca entregou?”.
O candidato deu ainda nota de que Danilo Almeida, tesoureiro do executivo, tinha sido reformado compulsivamente em 2004 e que continuava a exercer funções. Perante este cenário, que resultava de uma pena disciplinar, Diogo Soares Machado desafiava: “É preciso que Luís Souto venha dizer se mantém ou não a confiança naquela senhora e naquela equipa”.
Depois de já ter levantado suspeitas sobre o assunto, o candidato do Chega considerou, numa conferência de imprensa realizada já em outubro, que o caso “mais aberrante” teria sido aquele em que Catarina Barreto tinha beneficiado ilegalmente de verbas da ADSE. A situação veio a confirmar-se, conforme noticiado pela Ria, embora a presidente da Junta de Freguesia de Aradas tenha regularizado a situação.
Depois de o caso ter vindo a público, Luís Souto acabou por defender a presidente, afirmando que, ao ter reposto a verba o caso estava “encerrado”. A justificação não caiu bem junto do agora vereador do Chega, que acusou o candidato da ‘Aliança’ de “cobardia política” e de “pactuar com comportamentos ilegais e inaceitáveis”. O candidato acusa ainda o cabeça de lista da coligação de “insultar adversários políticos” e de “dar o dito por não dito”, ao afirmar que o caso “está encerrado”.
“Se alguém nos roubar hoje e devolver o nosso dinheiro daqui a cinco anos, depois de ser apanhado, afinal não roubou?”, questionava.
Alguns dias depois, numa publicação em que apelidou o caso de ‘AradasGate’, Diogo Soares Machado foi ainda mais duro com o agora presidente da Câmara: “É a fotografia perfeita do político que dá mau nome à política e afasta os cidadãos, porque diz uma coisa e faz o exato oposto […] Somos livres para concluir que são [Luís Souto e Catarina Barreto], afinal, feitos da mesma massa, uma massa podre, que contamina e destrói a Democracia”.
“Coligação negativa”: Luís Souto colou PS e Chega durante toda a campanha e chegou a dizer que “os extremos se tocam”
O termo “coligação negativa” foi parte essencial do léxico de Luís Souto durante a campanha eleitoral. Após ter dito que o surgimento do Chega na política autárquica vinha “favorecer o PS” e de, a propósito da retirada de Luís Silvano da política autárquica, ter considerado que o partido servia para “dar a mão” aos socialistas, o cabeça-de-lista insistiu que os projetos estavam juntos para “destruir” o percurso do seu antecessor, José Ribau Esteves.
“Imaginem se eles [PS e Chega] algum dia tomassem conta da Câmara Municipal. Acontecia aquilo que aconteceu nos anos do PREC, a seguir ao 25 de abril, que é a fuga dos capitais de onde eles são bem recebidos”, dizia Luís Souto, numa sessão de campanha com a presença de Ribau Esteves.
Poucos dias depois, através da sua página de Facebook, a propósito do início da obra do novo hospital da Trofa Saúde, Luís Souto voltou ao ataque: o candidato apontava que a aposta no investimento privado estabelecia um contraponto com a “coligação negativa PS-Chega”, que “dava sinais de desconfiança e hostilidade para quem quer apostar em mais e melhor Aveiro”.
Na mesma senda, numa sessão com Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, o candidato acusou PS e Chega de serem contra a “economia”, dando nota de que “sistematicamente têm dado sinais de querer afastar o investimento e, sobretudo, de desconfiança no investidor, lançando um manto de suspeitas”. Este apontamento, recorde-se, estava relacionado com a oposição dos dois partidos ao Plano de Pormenor do Cais do Paraíso.
O assunto continuou a dominar a campanha da ‘Aliança com Aveiro’ até ao último dia de campanha, quando, na presença de Luís Montenegro, foi a vez de Ribau Esteves atacar o PS e o Chega: “[Os socialistas] criaram um partido-adjunto com o qual articularam o discurso […] Articularam a tipologia de mentira, articularam a má-língua que marcou esta campanha do Partido Socialista […] e do seu adjunto Partido Chega”.
No debate da Ria, Luís Souto levantou suspeitas sobre a ida de Diogo Soares Machado para a AveiroExpo, ao passo que Diogo Soares Machado levantou suspeitas sobre a chegada de Luís Souto a professor da Universidade de Aveiro
Após a recusa de Luís Souto em participar nos debates frente-a-frente organizados pela Ria, o grande debate entre todos os candidatos acabou por ter vários momentos de confronto direto entre os cabeças-de-lista da ‘Aliança com Aveiro’. Com um Alberto Souto a tentar distanciar-se mais dos ataques aos adversários e tendo os candidatos de Bloco de Esquerda, PAN e CDU assumido uma posição de menor destaque, foi precisamente o embate entre Luís Souto e Diogo Soares Machado que ganhou protagonismo ao longo das cerca de duas horas de debate.
A primeira troca de palavras surgiu quando o candidato do Chega se insurgiu contra o “Código de Ética e de Conduta” da Câmara Municipal, alegando até à inconstitucionalidade de alguns dos pontos. Nessa intervenção, chegou a desafiar o candidato da ‘Aliança’ a prometer a sua revogação caso vencesse as eleições.
O desafio não foi bem recebido por Luís Souto. O social-democrata apontou que o Chega tinha na Assembleia Municipal um deputado municipal “que tinha um comportamento responsável, ao contrário da sua [de Diogo Soares Machado] postura nesta campanha”, que nunca tinha alegado irregularidades no documento em questão. De dedo em riste, o candidato pediu ao oponente que elencasse os pontos que considerava ilegais – algo que Diogo Soares Machado fez, mas não sem antes dizer a Luís Souto que “não lhe apontava o dedo” que “não lhe dizia o que ele tinha de dizer”.
Mais à frente, com a intenção de se dizer amigo dos investidores, Luís Souto marcou uma diferença entre a ‘Aliança’ e a “coligação de que não estávamos à espera”, entre PS e Chega. Dirigindo-se diretamente a Diogo Soares Machado, o candidato apontou que “nós não andamos aqui a fazer climas de suspeição sobre todo o tipo de investidores, seja público ou privado, como anda a fazer o Chega”.
Mais uma vez, o líder da coligação entre PSD, CDS-PP e PPM não ficou sem resposta. “Quem não quer ser alvo de suspeições tem de parecer sério […] A mulher de César tem que ser séria para além de parecer e vice-versa”, apontava.
Mais uma vez a tentar virar o ataque contra Luís Souto, Diogo Soares Machado falou ainda do contrato de arrendamento da sede de campanha da ‘Aliança’, que disse já ter tentado obter: “Diga quem é o proprietário, mostre o contrato de arrendamento e acabe de uma vez por todas com essa conversa da suspeição”.
Luís Souto, por seu lado, chamou “Calimero” ao oponente por ter ficado com inveja do quão bonita ficou a sede da ‘Aliança’ e disse que mostrava os documentos pretendidos quando o Chega dissesse quais são os seus financiadores.
“Qual é a política do Diogo, antigo líder do CDS e antigo gestor do Parque de Feiras, nomeado na altura de um determinado presidente [Élio Maia]? A sua política é de tentar destruir pessoas, instituições e de lançar suspeição por tudo e por nada”, contra-atacou de novo Luís Souto, minutos depois.
A resposta chegou apenas cerca de meia hora depois, quando Diogo Soares Machado regressou ao assunto para dizer que “não foi nomeado para nada”, mas sim “contratado”. No seguimento, questionou Luís Souto: “E como é que tu foste promovido a professor da Universidade de Aveiro? Já agora! Vamos lá ver se não entramos por aí”.
O agora presidente da Câmara Municipal de Aveiro trouxe ainda para cima da mesa o dossier do Hospital de Aveiro, dizendo que a ‘Aliança’ estava “decidida a não perder mais tempo”, ao contrário da “coligação contranatura” que queria “parar para pensar”. “Chega de macacadas […] Está definido um caminho, está definida uma estratégia. Vamos voltar a uma discussão a que vocês os dois [Diogo e Alberto] estiveram? Atenção que eles os dois são os do passado”, acusou o candidato.
“Eu sou tão do passado que de onde tu vens eu já lá estive. Mais, eu sou tão do passado que pessoas como tu conhecem-me desse passado. Agora, eu a ti conheço-te agora, porque durante oito anos na Assembleia Municipal de Aveiro nem piu”, respondeu Diogo Soares Machado.
Recorde-se que, na passada terça-feira, dia 28, foi aprovada a passagem de Diogo Soares Machado a vereador em regime de tempo inteiro. Na sequência dessa decisão, foi enviado às redações um acordo de governação assinado pela Comissão Política de Secção de Aveiro do PSD e o Chega-Aveiro, que está válido até 2029. Em entrevista à Ria, Diogo Soares Machado aponta que há uma “visão consensualizada” da cidade entre as forças políticas e que, apesar de haver divergências, Chega e ‘Aliança’ estão de acordo na “maioria” dos assuntos.
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Vereador do Chega “descartou absolutamente” coligação pós-eleitoral com ‘Aliança’ durante a campanha
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Acordo PSD-Chega: Diogo Machado diz que acordo “muda tudo” e condena declarações do PS
Depois de ter sido conhecido o acordo entre PSD e Chega para governar a Câmara Municipal de Aveiro (CMA), Diogo Soares Machado, em entrevista à Ria, não quis discutir questões concretas de convergência entre os partidos, mas garantiu que há uma “visão consensualizada” para a cidade. O vereador acusou ainda os socialistas de “mentir” e disse não comentar mais declarações vindas da bancada do PS.
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